Naquela região que parece isolada, em
Pedra das Flores, ocorreu estranha enfermidade, abatendo os jovens na
cegueira. Não havia remédios que a curassem.
E o mais curioso é que a doença não
atingiu as crianças e os velhos. Como se estivessem protegidos ou
vacinados na própria natureza contra o mal.
E o que era inesperado e miraculoso, é
que os jovens que voltavam a ver, principiavam a envelhecer, como se
fosse a semente da juventude a precipitação do desastre. Ou talvez
ocorresse uma condenação no tempo, ou severa prescrição da sorte.
Assim, a juventude era atacada pela
falta de visão, que se reduzia em totalidade ao envelhar.
É verdade que alguns jovens chegaram
a amar a própria cegueira, como se tivessem outros olhos que viam.
Ou tinham que roer um osso ou desenterrá-lo. Ou de novo tentar roer
até o extremo de alguma treva se acordar.
Alguns idosos, que a isso
contemplavam, não conseguiam entender como os jovens podiam amar a
própria ceguez. Desconfiavam da existência de algum enigma que se
agregava neles, aprendendo a enxergar no escuro, como em avesso de
razão, por onde raciocinasse a claridade. Ou talvez houvesse o
segredo de os jovens cegos, achando a palavra, passassem a ver
magicamente por ela.
E até os infortúnios têm no recesso
a súbita invenção do desconhecido, mesmo que tombem duas vezes no
mesmo lugar, trovão de noites, folhas ou chãos.
E registro, eu que narro, o fato de os
jovens nada verem sem os olhos, ainda que outros sentidos se apurem e
alarguem. Mas se pusessem, astutamente, palavras nos olhos, seriam as
palavras que veriam. E os olhos serviam a palavra.
Todavia, verifiquei como os cegos,
diante da dificuldade, pareciam sobrar na comunidade humana, quando
as trevas não raciocinam, sucedendo exatamente o contrário com a
claridade, que raciocina de instantes.
Era como se os jovens cegos entrassem
dentro do espelho. Mas o espelho vê, o espelho é palavra.
E se pareço velho a alguém, não o
sou nos olhos. Não me perco na volta do mar, subindo pela dor de
estar vivo.
E os jovens lutarão contra a dita
cegueira até que ela morra. E se iam curando de palavra, curando
amor na palavra, em elo se afeiçoando, acabando juntos com a
cegueira, seja por palavra nas pupilas, seja pela experiência de
arrostar a escuridão, ao revogá-la. Tudo vinha pela estremecida
sensatez.
Mas a visão dos velhos em Pedra das
Flores era tão ditosa, que contemplavam o ignoto, com capacidade
olímpica de profetas. Livres da doença, agora com as palavras, iam
bem além dos acontecidos. Sem possibilidade dos naufrágios.
E conheci um lutador e espadachim,
leitor inveterado, Zatói Duarte, dono de um clube de atletismo no
centro da cidade.
Baixo, firme de músculos, tronco
robusto, olhos estranhos e azuis. Era apaixonado pelos livros de
cavalaria, como Amadis de Gaula, Mio Cid, Rolando da França, ou D.
Quixote de la Mancha, como admirava o outro Quixote, de Pedra das
Flores, Noe Matusalém e seu Sancho, o cão Crisóstomo.
E tinha que catar um amor na vizinha
Milane, de tranças, olhos muito negros, cabelos escuros. Formosa de
corpo, mediana. Zatói sabia que “cavaleiro andante sem amores era
árvore sem folhas”. E mesmo bem andante, tinha o hábito de
carregar uma bengala. Se batia no chão, tornava-se espada, sua
Durindana. Era usada, na defesa, em tática guerreira. Temido pela
coragem, cortejava Milane, levando-a nos bailes da redondeza,
dançando noite inteira, abraçados. Como a canção: “Nunca fora
cavaleiro/ de damas tão bem servido, /Como fora D. Quixote/ quando
de sua aldeia vinha/”.
Contam que Zatói Duarte teve
descomunal batalha com odres de vinho. Ocorreu numa taberna. Ao
estreitar contra o peito, tão fortemente, sua dama Milane, ele se
desequilibrou, batendo sozinho nos odres de vinho tinto, junto ao
canto, estando a sala cheia de gente. Os odres e Duarte rolaram e se
derramaram, saltando vinho e sujando alguns. É verdade que no choque
Duarte arredou, rápido, Milane, suportando a vinhosa tintura na
roupa e na cara. E ao se ver em luta, a bengala no ladrilho pulou,
como serpente que dá o bote e se estira com um grito de trovão. E
diferente do cajado de Moisés, de uma cobra engolindo a outra,
acabou por parar inerte, como arado sem cavalo.
Zatói Duarte pagou o dano ao
proprietário da taberna e saiu de alma derramada em Milena.
E eu narro quanto o vinho do amor é
longo nas brasas, horas. Embriagável.
Entretanto, o que se sabe não sabe –
dizia Pedro Nau, agricultor e cultivador de flores, que se pareciam
inventar nele por instinto. Mas o que se sabe não se inventa de
novo. Como milagre, não se repete.
E eu, que vou relatando, observo que
não há milagre na morte e ainda quer editar obras completas e
provar quanto é boa.
A cegueira é mais da consciência que
dos sonhos. Ou talvez os sonhos é que sejam cegos. O que era oculto
na cegueira dos jovens na região, como fogo nos gravetos da noite,
veio à luz, bem maior que os olhos. Pois com palavra já não havia
cegueira alguma. E todos precisavam da palavra, para chegarem mais
longe ainda.
O pesquisador Pery Grand achou que a
origem da doença dos jovens era algum inseto inominado. E viu,
assombrado, que a cegueira de vários jovens era de fora para dentro
e de outros, como a mais feroz enfermidade, era democraticamente de
dentro para fora. Tal se os olhos aprumassem escura ou bizarra ótica.
Aos primeiros bastava colocar a palavra sobre os olhos e, noutro
caso, precisavam pôr a palavra no coração, dando então olhos
vigilantes, sapientes.
Havia de mudar a correnteza de ver
para a foz e ao repuxo silente das pálpebras.
O mundo conjuga o que não sabe com o
que sabe. E o mundo, vendo sem palavra, principiava a enlouquecer. Só
a palavra impedia a loucura mansa que se alçava das pernas para o
estômago voraz. E sem ela os velhos tropeçavam, coxeavam.
E o problema não era mais dos olhos,
mas das mentes, que obscureciam ou se desequilibravam, e nem
raciocinar resolvia, como se caíssem os andaimes do pensamento.
Ou era outra espécie de cegueira, a
que roía a capacidade de pensar e sonhar, transparecendo demência
nos mínimos gestos.
O que se sabe não se sabe –
afirmava Pedro Nau. Porque a loucura se inventava. Não tinha olhos,
mas era cega no meio do povo. Agora não separava idosos, ou jovens;
ocupava como erva ao bosque. E não se harmonizavam nas fábricas,
nas empresas nem nos lares. Tal se um vento tivesse soprado virulento
ou entrasse pelas costas. E foi dizimando a cívica normalidade da
república, e nem as máscaras serviam. Sem haver descoberta dos
motivos de tal aparecimento. Mas, estranhamente, mantinham-se
intocáveis apenas alguns felizes ou coroados de alegria.
No mais, atingia essa loucura os
casais atordoados, que se apartavam sem rumo. Ou amigos que se
dividiam por nadas, ou amantes que se repudiavam. E até mesmo
políticos que saíam de partidos sem raciocinar, como se a ebriez
absoluta os absorvesse. Não havia mais verossimilhança no visível.
Ou melhor, a loucura vazava no ar. E até aves que voavam,
enlouqueciam. Cães e gatos nas famílias, excitados em contendas,
também enlouqueciam.
Consta ter havido discórdia entre os
Chefes do Senado e da Câmara, e ambos nem precisaram endoidar; se
acabaram à bala em praça pública.
Soube que o Hospital de Clínica
Mental ficou abarrotado em Pedra das Flores. Indo pacientes para a
vizinha Riopampa, com mais condições de tratamento. E angustiado,
vou descrevendo esses infaustos ocorridos, com medo de ser atropelado
ou submetido a eles. Ainda que me sinta lúcido, mas mesmo a lucidez
pode estar gripada, ou avariada. Igual ao ataque de febre, que
atravessa, como vara, de lado a outro, do abismo. Raciocinar é ir
respirando o plasma do universo incriado.
Não me importa quantos instantes têm
o abismo, ou quantos instantes raciocinam em nós. E não tenho medo
de me escorrer a aurora, não quero que a aurora me escorra de medo.
Tudo se reforma de silêncio, até por
debaixo das escadas ou das pernas do cavalo. Apraz atravessar o
perigo, se atravessado de luz, como de um rio, no talvegue. O amor às
vezes deixa goteiras na alma, como a dos telhados.
O que não registrei foi outro
processo de obsessiva cegueira de alguns velhos de Pedra das Flores,
o de adentrarem na floresta, como se ali se amoitasse a infância, e
se abraçarem às árvores, apertando o rugoso tronco ao peito. E o
fundo carnoso dos sonhos, todos palpitando, até os cimos sentirem a
mesma seiva do coração. E todas as gerações de árvores e folhas.
Mas a loucura se mostrava igual à dos pássaros no ninho. E a
infância voava devagar pelo tronco das árvores. E tudo é tempo,
mesmo o que não existe. Porque os que amam como um rio, não sabem
esquecer.
E a mocidade, depois da crise dos
olhos, passou a erguer a bandeira de nova civilização, buscando o
que aproximava um e outro, os interesses que se acumpliciam na
arrumação do caos. Sabiam que não avançariam sem dar-se as mãos.
Como ao céu não carece de se ver, bastando que exista.
É também verdade que parte do povo
tinha visões. Contemplava nas ruas de Pedra das Flores, durante a
noite, vultos ou almas nos corpos de alguns viventes, como se saíssem
para fora, e se expunham. Eram tão refulgentes, que assombravam ou
traziam pânico, não havendo então cegueira alguma no mistério.
Mas Verena Silva, a filósofa, formosa
dama, alegava, com seus grandes olhos na morenice, que as almas eram
estrangeiras, não o corpo. Porque o corpo não tinha certeza dos
centímetros finais, sob a terra. Só a alma era bem-aventurada,
apesar de todas as aventuranças terem nascimento sem data, a da
morte. E se um dia os corpos serão defuntos, a alma não. Portanto,
os que viam almas, viam a Eternidade se encantar.
Só Deus não se encanta imóvel,
móvel e definitivo. O que apenas é possível noutra vida é de as
almas se verem entre si, incorruptíveis. E o sagrado é o começo do
imaginado. Igual à paisagem vista de um trem em movimento quando a
estação é destino.
Mas o corpo guardava a estupidez de
não contemplar os lentos ossos da alma.
Inacabado e corroído silêncio é a
penúria. Mas não se deixa de nomear o sulco, o desenho no chão do
pé humano.
Porém, em Pedra das Flores houve um
lapso do inverno, a impressão de que se evaporava a morte. Quando
até os pés de água caíam na luz. Ou porque não se acham humanos,
ao tropeçarem nos troncos ou pedras, cambaleantes. Mas sonhando, não
se desaparece. Nem a morte se converte de sonho em água.
Depois, diante da voracidade da vida,
a voracidade dos dias e noites, o povo padeceu deficiência de alma.
E é curioso como a alma não sofre deficiência do corpo, distante e
insaciada.
O que muda, não descansa, como no
círculo, o desejo. Igual ao povo, que de amar não descansa.
E ouço o ruído das gerações, o
ruído de Deus. O vagaroso ruído de rodas e da Eternidade de Deus.
Sim, uma porção de viventes buscava a Deus num templo de pedra, com
pureza que se despetalava em água do Espírito. E nessa comunidade
de homens, mulheres e crianças, havia pessoas simples, rudes e
alguns eruditos. Porque Deus não é propriedade de classe alguma, ou
sistema de cima para baixo, com política sob pretexto divino.
Não é possível evangelizar batendo,
como em pregos, martelo, contra a filosofia, a teologia, a ciência e
a arte, sem possibilidade de defesa. Quando os filhos desses que
assim agem estão nas melhores universidades. Por que tem de ser o
povo analfabeto de saber e alma?Sim, o martelo que pregou o corpo nas
mãos do Filho do Homem no madeiro é o mesmo com que batem, batem
nos que Nele creem. Mas o que não se entende é amor.
A cultura é adubo, segundo o Apóstolo
dos Gentios, Paulo de Tarso. E há terras que apenas com adubo geram
flores, germinando neles a revelada Palavra. E tudo soma a favor dos
que creem, salvo a ignorância, a brutalidade, que jamais serão
sinônimos da obra de Deus, que é o livre mover do Espírito sobre
as águas de preconceitos ou arbítrios.
O ruído de Deus aumenta e se escuta o
bater na porta. Deus não é sozinho. Nunca será. Deus não derruba
a porta, é A Porta. E nossa humana alma precisa se encher de Deus,
da superfície ao fundo. E se abrirá o mar; a penha terá água.
Sim, aquela comunidade de Pedra das
Flores, no templo todo feito de pedras, fora, e as escolhidas,
dentro, segundo o Mestre de Obras, sendo a pedra desprezada, de
esquina.
Crescia a comunidade e até nos cardos
nasciam rosas e das pedras, flores. Depois árvores ou a divina
floresta dos frutos no Espírito.
Foi no meio desse povo, na comunidade,
que surgiu Zaqueu Peregrino, ferreiro e louco de Deus. Parecia ter
olhos de lâmpada, sobrancelhas espessas, rosto com pele fina,
clárida. Fala paciente e firme, com alguns pássaros ocultos na voz,
como se fosse livre em fluir.
Não se sustinha com a razão, mas com
fé ancestral, invencível. E tinha na mão palavra. Dizia no
acontecido e ia acontecer. Ou até desacontecer. Como fonte manando
na encosta dos passos. Deus doía muito.
E o que podia ser de animal nele se
humanizara, economizando luz.
Mas Zaqueu era doido de Deus, por
saber quanto atordoava o amor. Como na noite o rolar das estrelas. O
que se abrandava, aquecia. O amor, o amor, abraçando os seres. Não
aceitava os monárquicos sistemas a custo do sagrado, salvo o das
celestes esferas, inalcançável. E o que Zaqueu profetizava,
acontecia.
E se a comunidade suscitava
conjeturas, a doutrina era a do Livro do Caminho, e o que rastreava
política e domínio familiar, se dissolvia na vinculação fraterna
dos integrantes, com ajuda aos mais pobres.
Zaqueu Peregrino comunicava sua febre
com o gotejar de perpétuo paraíso. E se perguntava com Jó: “Que
é o mortal para que assim o engrandeças? E Zaqueu desesperava de
si, por esperar em Deus.
O tempo não é contável na luz nem a
luz no tempo, apesar da assistência da noite. E de todas as noites
no desequilibrado amor. Como as funduras nos chamam, os ciclos são
buracos na água. A língua do Espírito não cochila, mesmo quando
se expande. E Deus doía muito. Sim, Deus doía muito na luz, e a luz
vazava de sono.
Curiosa era a forma como Zaqueu
Peregrino sofria surda hostilidade de alguns dignatários de Pedra
das Flores e da própria comunidade. A inveja espiritual, que é a
mais extrema. E Zaqueu às vezes não possuía pousada certa. Mas
Deus pousava no seu mistério, que até sofria cãibras no andar. Mas
não se pode parar dentro da luz. E a luz cirze a razão, para se
abotoarem os sonhos. Deus doía nos sonhos.
Zaqueu Peregrino nasceu com encargo de
árvore. Eu vi. E se interrompo, é com a presença do agricultor,
Pedro Nau. Criava um pomar de uvas, trigo, arroz, tomates, alfaces e
frutos. Tinha vocação de viagens nas plantas e ventas do monte. Até
os olhos verdejavam.
Pedro Nau se afeiçoara a Zaqueu
Peregrino, à sua ventada loucura. E se acharam diante do Camarada
Mar, onde às vezes era visto, com cajado de ondas, o famoso
Matusalém de Flores. Andarilhava, avantajado, descalço. Duas
tartarugas ambulavam ao sol, nas pedras, e ele, de horizonte.
Carlos Nejar, em Acontecerá de muito acontecer
Nenhum comentário:
Postar um comentário