Silvestre de Balboa
Na casa de barro e palmeira de
Silvestre de Balboa, escrivão do cabildo de Porto Príncipe, nasce o
primeiro poema épico da história de Cuba. Dedica o autor suas
oitavas reais ao bispo Altamirano, que há quatro anos foi
sequestrado pelo pirata francês Gilbert Giron no porto de
Manzanillo.
Ao navio do pirata ascenderam, do
reino de Netuno, focas e nereidas com piedade do bispo, que não quis
em sua defesa aceitar nada. Conseguiram os moradores de Manzanillo
reunir duzentos ducados, mil couros e outras prendas e no fim o
corsário luterano soltou sua presa. Dos bosques chegaram à praia,
para dar as boas-vindas ao bispo resgatado, sátiros, faunos e
semicapros que lhe trouxeram frutas-de-conde e outras delícias.
Vieram dos prados as ninfas, carregadas de mamões, abacaxis,
figos-da-índia, abacates, tabaco; e vestindo anáguas, as dríades
desceram das árvores, cheios os braços de silvestres pitangas e
frutos da árvore birijí e da alta palma. Também recebeu o
bispo Altamiro guabinas, dajaos e outros peixes de rio
das mãos das náides; e as ninfas das fontes e os estanques o
presentearam com umas saborosas tartarugas de Masabo. Quando se
dispunham os piratas a cobrar o resgate, caíram sobre eles uns
poucos mancebos, flor e nata de Manzanillo, que valentemente lhes
deram o merecido. Foi um negro escravo, chamado Salvador, quem
atravessou com sua lança o peito do pirata Gilbert Giron:
Oh Salvador crioulo, negro honrado!
Voe tua fama e nunca se consuma;
que em alabança a tão bom soldado
é bem que não se cansem língua e
pluma.
Inchado de admiração e espanto,
Silvestre de Balboa invoca Troia e compara com Aquiles e Ulisses os
moradores de Manzanillo, depois de tê-los misturado com ninfas,
faunos e centauros. Mas entre as portentosas divindades abriram
caminho, humildemente, as pessoas deste povoado, um negro escravo que
portou-se como um herói e muitas frutas, ervas e animais desta ilha
que o autor chama e ama por seus nomes.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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