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[…]
O que eu quero fazer é usar o tempo
que teremos agora para falar sobre certos assuntos que me vêm à
mente. Estamos sempre com tanta pressa que quase não temos
oportunidade de conversar. O resultado é uma espécie de
superficialidade cotidiana, uma monotonia que, com o passar dos anos,
leva cada qual a se perguntar o que aconteceu com todo aquele tempo e
a se lamentar por tê-lo perdido. Agora que temos tempo e sabemos
disso, quero usar esse tempo para conversar em profundidade a
respeito de certas coisas que parecem importantes.
O que tenho em mente é uma espécie
de Chautauqua – é o único nome que me ocorre –, como os
espetáculos itinerantes da escola de Chautauqua, que costumavam
viajar pela América, esta América em que estamos agora:
aquela antiga série de palestras populares que tinha a função de
educar e divertir, aperfeiçoar a inteligência e levar a cultura e a
luz aos ouvidos e pensamentos dos ouvintes*. As Chautauquas foram
desbancadas pelo rádio, pelo cinema e pela televisão, de ritmo mais
frenético, e me parece que essa mudança não foi de todo para
melhor. Pode ser que, por causa das mudanças, a correnteza da
consciência nacional seja agora mais rápida e mais larga, mas
também parece ser menos profunda. Os antigos canais já não podem
contê-la; na sua busca de novos canais, ela provoca o caos e a
destruição ao longo de suas margens. Nesta Chautauqua, não
pretendo abrir novos canais de consciência, mas simplesmente escavar
os canais antigos que já estão assoreados com a areia de
pensamentos estéreis e lugares-comuns desgastados pela excessiva
repetição. “O que há de novo?” – essa é uma pergunta
eterna, extremamente interessante, que se abre para o infinito; mas,
caso se procure respondê-la à exclusão de todas as outras,
resultará somente num desfile interminável de banalidades e gritos
da moda, os areais de amanhã. Eu gostaria, em vez disso, de procurar
responder à pergunta “O que é o melhor?” – uma pergunta que
não se alarga, mas se aprofunda, uma pergunta cujas respostas tendem
a levar a areia embora para o mar. Já houve épocas da história da
humanidade em que os canais do pensamento eram demasiadamente
profundos e não admitiam nenhuma mudança, em que nada de novo
acontecia e o “melhor” era definido por um dogma, mas já não é
essa a situação atual. Agora a correnteza da nossa consciência
comum parece devorar suas próprias margens; está perdendo sua
direção essencial e sua finalidade, inundando as terras baixas,
separando e isolando as colinas, tudo isso sem nenhum outro objetivo
senão a efetivação cega e devastadora de seu próprio impulso
interno. Parece que é necessário aprofundar de novo os canais.
Lá na frente, os outros
motociclistas, John Sutherland e sua esposa, Sylvia, pararam numa
área de descanso à beira da estrada. É hora de esticar as pernas.
Quando estaciono minha máquina ao lado da deles, Sylvia tira o
capacete e balança os cabelos enquanto John baixa o apoio de sua
BMW. Ninguém diz nada. Já viajamos juntos tantas vezes que agora
sabemos por um simples olhar como os outros se sentem. Neste exato
momento, estamos simplesmente em silêncio, olhando em volta.
As mesas de piquenique estão
completamente vazias a esta hora da manhã. John atravessa o gramado
e movimenta a bomba d’água de ferro fundido, tirando água para
beber. Chris sobe e desce uma pequena elevação de vegetação
rasteira, atravessa um pequeno bosque e chega a um riozinho. Eu mesmo
só olho para cá e para lá.
Depois de um tempo, Sylvia senta-se
sobre o banco de madeira e estende as pernas, levantando uma de cada
vez bem devagar, sem olhar para cima. Quando ela fica em silêncio
por muito tempo é porque está deprimida, e comento isso com ela.
Ela olha para mim e de novo para o chão.
– Foram as pessoas nos carros que
iam na direção oposta – diz ela. – A primeira parecia triste. A
segunda também. A outra também, e a outra, e todas eram iguais.
– Elas estavam indo trabalhar.
Ela captara bem a expressão das
pessoas, mas não percebera que aquela expressão era perfeitamente
natural.
– Você sabe, trabalho –
repito. – Segunda-feira de manhã. Meio dormindo, meio acordadas.
Quem é que vai trabalhar com um sorriso na segunda-feira de manhã?
– É que elas pareciam tão perdidas
– diz ela. – Como se estivessem todas mortas. Como se fosse um
cortejo funerário. – Sylvia baixa ambas as pernas e deixa-as
apoiadas no chão.
Entendo o que ela diz, mas logicamente
isso não leva a nada. Trabalha-se para viver, e é isso que elas
estão fazendo.
– Eu estava olhando para os brejos –
digo.
Passam-se alguns instantes. Ela olha
para mim e diz:
– O que você viu?
– Um bando inteiro de
pássaros-pretos de asas vermelhas. Eles levantaram voo de repente
quando passamos.
– Ah.
– Fiquei contente de vê-los de
novo. Eles amarram as coisas, juntam os pensamentos. Sabe como é?
Ela pensa um pouco e então sorri. As
árvores atrás dela são de um verde profundo. Sylvia compreende uma
linguagem peculiar que não tem relação nenhuma com o que está
sendo dito. Uma filha.
– É verdade – ela diz. – Eles
são muito bonitos.
– Fique olhando. Você vai vê-los –
digo eu.
– Tudo bem.
John aparece e verifica a bagagem na
motocicleta. Aperta as cordas, abre a bolsa e começa a remexê-la em
busca de algo. Põe algumas coisas no chão.
– Se um dia você precisar de corda,
não hesite em me pedir – diz ele. – Meu Deus, acho que tenho
aqui cinco vezes mais corda do que o necessário.
– Ainda não preciso – respondo.
– Que tal fósforos? – diz ele,
ainda remexendo a bagagem. – Protetor solar, pentes, cordões de
sapato… cordões de sapato? Para que precisamos de cordões
de sapato?
– Não vamos entrar nessa
discussão – diz Sylvia. Eles olham inexpressivamente um para o
outro e depois olham para mim.
– Nunca se sabe quando vão se
partir os cordões de nossos sapatos – digo em tom solene. Eles
sorriem, mas não um para o outro.
Logo Chris aparece e chega a hora de
ir em frente. Enquanto ele se apronta e sobe na moto, eles partem e
Sylvia acena. Estamos de novo na estrada e vejo-os afastar-se na
distância.
A Chautauqua que pretendo fazer nesta
viagem foi inspirada por esses dois há muitos meses e talvez, embora
eu não tenha certeza, esteja relacionada a uma certa corrente oculta
de desarmonia que existe entre eles.Suponho que a desarmonia seja
comum em qualquer casamento, mas no caso deles parece mais trágica.
A meu ver, pelo menos.
Não é um conflito de personalidades;
é outra coisa, da qual nenhum dos dois é culpado, mas para a qual
não encontram solução. Segundo me parece, também não tenho a
solução, somente algumas ideias.
As ideias começaram com o que parecia
ser uma insignificante diferença de opinião entre mim e John sobre
um assunto de importância mínima: o quanto o proprietário deve
cuidar da manutenção da sua motocicleta. A mim me parece natural e
normal fazer uso do pequeno estojo de ferramentas e do manual de
instruções que vêm junto com a máquina, e cuidar eu mesmo de
mantê-la sempre regulada e ajustada. John discorda. Prefere deixar
que um mecânico competente cuide dessas coisas para que fiquem
bem-feitas. Nenhum dos dois pontos de vista é incomum, e essa
pequena diferença jamais teria assumido as proporções que assumiu
se não passássemos tanto tempo andando juntos de moto e sentados
nos bares de beira de estrada, bebericando cerveja e conversando
sobre o que nos dá na telha. Geralmente, o que nos dá na telha é
aquilo em que estivemos pensando na última meia hora ou quarenta e
cinco minutos desde que nos falamos pela última vez.Quando o assunto
são as estradas, as pessoas, antigas lembranças ou as notícias do
dia, a conversa vai se construindo de modo muito agradável. Porém,
toda vez que minha mente esteve ocupada com o desempenho da máquina
e esse assunto se introduz na conversa, a construção desaba. A
conversa não toma corpo. Impõe-se um silêncio e a continuidade se
rompe. É como se dois velhos amigos, um católico e um protestante,
estivessem juntos bebendo cerveja e gozando a vida e de repente
viesse à tona o tema do controle da natalidade. Gelo.
E é claro que, quando se descobre
algo desse tipo, é como descobrir um dente cuja obturação caiu. É
impossível deixá-lo em paz. Você tem de estudá-lo, remexê-lo com
a língua, tentar deslocá-lo e torná-lo o objeto de seus
pensamentos, não porque isso seja agradável, mas porque ele está
em sua mente e não quer sair dali. E, quanto mais vou sondando e
insistindo no assunto da manutenção de motocicletas, tanto mais
John fica irritado, o que só me dá mais vontade de sondar e
insistir. Não de propósito, só para irritá-lo, mas porque a
irritação parece ser sintoma de algo mais profundo, que está sob a
superfície e não é imediatamente manifesto.
Quando o assunto é o controle da
natalidade, chega-se a um impasse porque o tema em pauta não é
somente a conveniência de haver mais bebês ou menos bebês. Isso é
somente o que está na superfície. O que está por trás é um
conflito entre duas formas de fé: a fé num planejamento social
empírico e a fé na autoridade de Deus revelada pelos ensinamentos
da Igreja Católica. Você pode se cansar de ouvir a própria voz a
provar o quanto é prático o planejamento familiar, mas não chegará
a lugar algum, pois seu adversário não concorda com o pressuposto
de que qualquer coisa socialmente prática é boa em si. Para ele, a
bondade tem outras fontes que ele valoriza tanto quanto a praticidade
social, ou mais.
Assim é com John. Mesmo que eu
pregasse até ficar rouco o valor prático da manutenção de
motocicletas, não chegaria sequer a arranhar a superfície de suas
convicções. Depois de duas frases versando sobre esse tema, os
olhos dele se vitrificam e ele muda de assunto, ou simplesmente olha
para o outro lado. Não quer ouvir falar disso.
Sylvia, nesse ponto, está
completamente do lado dele. Na verdade, é ainda mais insistente.
Quando está pensativa, ela diz: “O problema é outro.” Quando
não está, simplesmente decreta: “Isso é bobagem.” Eles querem
não entender, não ouvir falar do assunto. E, quanto
mais tento saber por que gosto tanto da mecânica e eles a odeiam
tanto, mais a verdade me escapa. Parece que a causa original dessa
diferença de opinião – uma diferença que, em princípio, é bem
pequena – está no fundo, bem no fundo.
A incapacidade mental deles é
descartada imediatamente. Ambos são bastante inteligentes. Qualquer
um dos dois poderia aprender a regular uma motocicleta em uma hora e
meia se dedicasse a isso sua mente e sua energia, e a posterior
economia de dinheiro, preocupação e tempo compensaria amplamente
esse esforço. E eles sabem disso. Ou talvez não saibam. Não
sei. Nunca lhes fiz essa pergunta diretamente. O melhor é
simplesmente ir levando.
[…]
Robert M. Pirsig, em Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Uma Investigação Sobre os Valores

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