Um casal tinha almoçado comigo e
saíra. Fiquei sozinho em casa, pensando numas coisas que tinham me
dito sobre aquele casal, imaginando o que seria verdade, o que seria
exagero. Era hora de fazer crônica, mas eu estava sem vontade
nenhuma de escrever. Foi então que bateram à porta e eu abri.
— Posso entrar?
— Claro.
Era bonita, morena. Tinha um lenço na
cabeça, óculos escuros, uma blusa de cores alegres, saia branca, as
pernas nuas, sandálias sem salto. De seu corpo vinha um cheiro
fresco de água de colônia.
— Você não me conhece não.
Morava no bairro, já tinha me visto
uma vez na praia e era casada: “Vivo muito bem com meu marido. Mas
se ele soubesse que eu vim aqui ficaria furioso, você não acha?”
— Claro.
Perguntou se eu só sabia dizer
“claro”. Bem lhe haviam dito que eu às vezes sou inteligente
escrevendo, mas falando sou muito burro. Para irritá-la, concordei:
— Claro.
Mas ela sorriu. Perguntou se eu fazia
questão de saber seu nome; era melhor não dizer, aliás eu conhecia
ligeiramente seu marido, já estivera com ele em mesa de bar, mas
talvez não ligasse o nome à pessoa. Tive vontade de dizer outra vez
“claro”, mas seria excessivo; fiquei quieto. Então ela disse que
há muito tempo lia minhas coisas, gostava muito, isto é, às vezes
achava chato, mas tinha vezes que achava formidável:
— Você uma vez escreveu uma coisa
que parecia que você conhecia todos os meus segredos, me conhecia
toda como eu sou por dentro. Como é que pode? Como que um homem pode
sentir essas coisas? Você é homem mesmo?
Respondi que sim; era, mas sem
exagero. Aliás, está provado que cada pessoa de um sexo tem certas
características do sexo oposto, ninguém é totalmente macho nem
fêmea.
— Quer dizer que você é mais ou
menos?
— Mais ou menos.
— O que você é, é muito cínico.
Engraçado, escrevendo não dá ideia. Tem umas coisas românticas…
— Todo mundo tem umas coisas
românticas. Mas na minha idade ninguém é realmente romântico, a
menos que seja palerma.
Perguntou-me a idade, eu disse.
Espantou-se:
— Puxa, quase o dobro da minha! É
mesmo, você já está muito velho. Isto é, velho, velho mesmo, não,
mas para mim está. Que pena!
— “Que pena” digo eu. Se eu
soubesse teria pedido a meus pais para me fazerem mais tarde, depois
de outros filhos; mas não poderia prever que só iria encontrá-la
em 1959. Agora acho que já fica difícil tomar qualquer providência.
Uma pena.
Ela disse que eu estava lhe fazendo
“um galanteio gaiato”; mas não deve ter ficado aborrecida,
porque me fez um elogio:
— Você não é burro, não.
Agradeci gravemente, e perguntei a que
devia, afinal de contas, o prazer de sua visita.
— Besteira. Uma besteira minha. Eu
gosto muito de meu marido.
E então, subitamente, jogou-se na
poltrona e desandou a chorar. Pus a mão em seu ombro e delicadamente
aconselhei-a a ir-se embora. Ergueu-se, refazendo-se, abriu a bolsa,
retocou a pintura, espiou o reloginho de pulso — “é mesmo, está
na hora de meu analista” —, despediu-se com um ciao e
foi-se embora para nunca mais.
Rio, outubro, 1959.
Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

Nenhum comentário:
Postar um comentário