domingo, 18 de janeiro de 2026

Uneasy Rider



Avisados pelo release de que temos aqui “um dos livros mais únicos e empolgantes na história das letras americanas”, estacamos diante da gramática do apelo e de seu habitual exagero. A gramática é irremediável. Mas tenho um palpite de que a proposição em si é válida. Zen e a arte da manutenção de motocicletas: uma investigação sobre valores, de Robert M. Pirsig, é tão intencionalmente canhestro quanto o título. É densamente compactado. Oscila, com deslocamento deliberado de seu lastro, entre a ficção e o discurso filosófico, entre as memórias pessoais e a impessoalidade convencional de uma revista de engenharia ou alguma outra profissão. É um livro enorme, mas diz a matéria, e indicam as falhas, que resulta de um texto muito maior. Ouvimos falar num rascunho de 180 mil palavras e aí sentimo-nos impiedosamente privados dele pela sã consciência e pragmatismo da editora. Zen e a arte é difícil de lidar, seja para ler, seja para comentar. Ele se instala na cabeça da gente como poucos romances recentes conseguem fazer, agarra-nos com força, obriga a paisagem a se abrir em planos inesperados, dotados de ordem e carregados de ameaça.
O fio da narrativa é enganosamente trivial. Pai e filho estão numa viagem de férias, de moto, indo de Minneapolis até as Dakotas, depois atravessam as montanhas, viram para o sul em Santa Rosa e Bay. Asfalto, motéis, curvas fechadas no frio cortante das Rocky Mountains, nevoeiros, desertos, as águas divisórias, os vinhedos e as orlas douradas do mar. Mr. Pirsig não foi o primeiro: Kerouac esteve lá antes dele, e Humbert Humbert, e mais um monte de romances, filmes, contos, seriados de tevê com os solitários que puseram o pé na estrada, cobrindo os quilômetros em silêncio, queimados ou encharcados sob os céus imensos, indo de motel em motel como oásis de neon, percorrendo no crepúsculo a enervante melancolia dos subúrbios americanos, das espeluncas e dos aterros de carros usados. Pirsig é bom ao falar sobre a distância, as queimaduras causadas pelo vento, os distúrbios intestinais indesejados depois de horas e horas sentado no banco de uma moto, depois de um número excessivo de sanduíches de pão dormido. Mas isso não explica a força do livro.
Há outras pressões. O passageiro de onze anos de idade se chama Chris. O peso de suas percepções incipientes, de sua identidade sob ameaça, vai se tornando enorme. Num certo nível, é a história do robusto barqueiro do Senhor, são Cristóvão, protetor e padroeiro dos viajantes, cujas vértebras vão cedendo, as pernas estremecendo, quase afundando sob o peso do menino no meio da correnteza. E Pirsig sabe, sente talvez com a erudição sonambúlica de um grande artista, que a própria imagem de Cristo é o reflexo de algo muito mais antigo — o centauro, uma criatura “motociclística”, se é que isso algum dia existiu, carregando o menino Hércules. Pai e filho avançam pela noite e pelo vento, numa enigmática perseguição, ouvindo chamados sinistros que parecem bater à alma do menino. Sim, claro: a mais famosa balada, “Erlkönig”, de Goethe, que tem alguns arranjos musicais que parecem vir das semínimas e das explosivas do motor da motocicleta. Um conto sobrenatural de rapinagem noturna, a psique humana arrastada de volta para um antigo sono ou possessão, exatamente como pode ocorrer a Chris se não alcançarem a tempo as águas purificadoras do Pacífico. Em suma, temos uma abundância de referências e ressonâncias. Há os Selvagens da Motocicleta da turma de Marlon Brando, os Anjos saídos do Inferno (sendo permitidas todas as inferências teológicas) — aqueles batedores da Morte que Cocteau vestiu de couro e filmou muito tempo atrás. Uma fartura de símbolos, alusões, arquétipos em tal prodigalidade, com tal tangibilidade, que somente alguém de grande imaginação, moldando os materiais por absoluta necessidade, poderia se permitir. Um inventor mais profissional teria cortado, teria sido mais indireto em suas mitologias, teria se sentido constrangido com a obviedade dos símbolos apresentados. Mr. Pirsig se permite uma dose de franca inocência. Tudo tem vida na superfície, tudo tem contornos e lança sombras exatas, como na paisagem de neve de um primitivo americano. Porque o desenho subjacente está oculto e é até certo ponto original.
A obra de Pirsig, como grande parte da literatura americana clássica, é maniqueísta. É feita de dualidades, oposições binárias, presenças, valores e códigos de enunciação em conflito. Pai contra filho; arquiteturas do espírito contra arquiteturas da máquina; a modernidade da velocidade, da uniformidade e do consumo (de combustível, de espaço, de publicidade política) contra o conservadorismo, contra a paciência do verdadeiro pensamento. Mas essas oposições são ambíguas em si mesmas; fazem-nos perder o equilíbrio e nos obrigam a reequilibrar, como as guinadas da motocicleta.
Fedro persegue o narrador. Num nível, ele é o confidente secreto, o questionador implacável, a compactação do intelecto puro. Nasceu diretamente do diálogo platônico de onde vem seu nome, e o expediente de apresentar um ser vivo perseguido por uma sombra saída de Platão é, por si só, suficiente para atestar a força, o domínio de Pirsig sobre o leitor. Mas a caçada é, claro, interior. É o próprio narrador que é, em si, um ser de aluguel, dividido quase até o cerne por identidades que se alternam. Não é o rei demoníaco que está ameaçando a psique e talvez a vida do menino: é o pai. A percepção desse fato, que Chris começa a entender através de pesadelos, através da estranheza da voz paterna que ouve na penumbra, e o duelo final entre o menino e o homem dividido à beira do mar purificador são de uma força assombrosa. Chris percebe que, em algum sinistro ponto do passado, seu pai perdeu o juízo, entrou literalmente em êxtase, como os possuídos pelo demônio. A lembrança de uma parede de vidro, em algum hospital muito tempo atrás, toma conta dele. Fedro, a instância de ação do pensamento indomado, da obsessão especulativa para além das restrições impostas pelo amor e pela vida social, instância esta bruxuleante, mas em última análise anárquica, está prestes a aflorar:

Seu olhar se ofusca num súbito clarão interno. Então fecham-se os olhos e lhe sai da boca um grito estranho, um gemido como o som de algo muito distante. Vira-se e tropeça no solo, então cai, dobra-se, põe-se de joelhos e se embala de trás para a frente, com a cabeça apoiada no chão. Um leve vento enevoado sopra no capim em torno dele. Uma gaivota pousa ali perto.
Na neblina ouço o rangido das marchas de um caminhão…

Marchas do câmbio, polias, parafusos de suporte do motor, tensionador de correia, tirante da suspensão, correntes de segurança, bombas injetoras desempenham um papel fundamental. É de fato um livro sobre a arte da manutenção de motocicletas, sobre a concentração mental, o cuidado e a delicadeza das mãos e dos ouvidos necessários para manter um motor íntegro, cantante, no frio e no calor, no asfalto e no chão batido. É um livro sobre os vários tipos de relações — obtusas, amadorísticas, peremptórias, utilitárias, perspicazes, destrutivas — que ligam o homem moderno a seu ambiente mecânico. Uma motocicleta é “um sistema de conceitos trabalhados em aço”. Fedro e seu mestre Platão acreditam que a estrutura de aço é mera sombra, necessariamente inferior, da ideia de um motor gerado pelo intelecto, perfeito em sua inteireza mental. O narrador admite que há uma verdade nessa obsessão pelo ideal. Mas é uma verdade perigosa. É o concreto, o material que devemos enfrentar e moldar de acordo com nossas necessidades. A matéria também tem sua precisão:

Se no ajuste houver uma folga nem que seja de um milésimo de centímetro, a força vai vir de uma vez só, como uma martelada, e a biela, o mancal e a superfície do cárter logo vão se achatar, produzindo um barulho que no começo parece um braço frouxo. É por isso que estou verificando agora. Se for mesmo uma biela solta e eu tentar chegar até as montanhas sem fazer uma vistoria, o barulho logo vai aumentar até que a biela se desprenda, bata no fundo do cárter girando e acabe com o motor. Às vezes a biela quebrada chega a atravessar o cárter e toda a gasolina vaza no chão. Aí, a única coisa a fazer é ir a pé.

As duas disciplinas do entendimento, a ideal e a instrumental, são encarnadas e apresentadas no episódio provavelmente mais espirituoso e mais ramificado da história. O viajante volta à faculdade em Montana, da qual uma crise de nervos e a insistência de Fedro sobre o valor absoluto da verdade, sobre a educação como formação moral, tinham-no afastado anos atrás. Seus anfitriões moram na casa perfeita no cânion perfeito. São a própria essência da nova pastoral americana, daquelas simplicidades chiques que agora vestimos, construímos e frugalmente comemos. Robert DeWeese, artista residente, mostra as instruções para montar uma churrasqueira ao ar livre que o encantou. A conversa se estende e se aprofunda. Comentam as limitações da linguagem em relação aos procedimentos mecânicos; a montagem de máquinas como um ramo da escultura esquecido desde longa data, cuja sutileza orgânica é traída pela facilidade inerte dos projetos comerciais; o fantasma (sombra zero de Descartes) que habita a máquina. A perícia artesanal, o senso temporal de Pirsig nessa passagem são impecáveis.
Nem sempre é assim. A viagem para o Oeste é pontilhada de longas reflexões e sermões laicos que Pirsig chama de “Chautauquas”. São essenciais para sua finalidade. Nesses discursos ao leitor, o narrador registra e diagnostica as insinuações de Fedro. A natureza da qualidade, tanto de conduta quanto na engenharia, é discutida e contraposta à falsidade pragmática de uma sociedade de consumo. Essa argumentação discursiva, a “investigação de valores”, é muito bem elaborada, em larga medida. Mas há trechos medíocres, resumos simplórios de Kant que mostram as certezas agressivas do autodidata, erros de atribuição (não foi Coleridge, e sim Goethe, quem dividiu a humanidade racional entre platônicos e aristotélicos), fragmentos tirados de um curso sobre Grandes Livros ao qual o narrador abriu certa vez uma penosa exceção. A voz continua a ranger como uma pedra de moinho, sentenciosa e monótona. Mas o livro tem inspiração e originalidade suficientes para nos motivar e avançar além dos trechos insípidos. E quando as encostas das montanhas se atenuam descendo para o mar — pai e filho cerrados num abraço espectral — a habilidade narrativa, o tratamento perfeito dos efeitos desafiam qualquer crítica.
Minucioso tratado técnico sobre as ferramentas, as rotinas e a metafísica de um ofício especializado; lenda de uma grandiosa caçada à identidade, à salvação da mente e da alma para libertá-las da obsessão, a caçada ao caçador; ficção constantemente interrompida por uma longa reflexão, que a ela se entrelaça, sobre as singularidades irônicas e trágicas do homem americano: as analogias com Moby Dick são evidentes. Robert Pirsig nos convida a essa prodigiosa comparação. Em muitos pontos, e mesmo na ausência quase completa do feminino, ela é cabível. O que mais se pode dizer?
15 de abril de 1974

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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