[…]
Essa conversa até que me agradou. Mas
eu dei de ombros. Para encorpar minha vantagem, às vezes eu fazia de
conta que não estava ouvindo. Ou, então, rompia fala de outras
diversas coisas. E joguei os ossinhos de galinha para os cachorros,
que ali nas margens esperavam, perto da mesa com toda atenção. Cada
cachorro sungava a cabeça, que sacudia, chega estalavam as orêlhas,
e aparava certeiro seu osso, bem abocava. E todos, com a maior
devoção por mim, e simpatias, iam passando os ossos para eu
presentear aos cachorros. Assim eu mesmo ria, assim riam todos,
consentidos. O menino Guirigó comeu demais, cochilava afundado em
seu lugar, despertava com as risadas. Aquele menino já tinha pedido
que um dia se mandasse costurar para ele uma roupa, e prover um
chapéu-de-couro para o tamanho de sua cabeça dele, que até não
era pequena, e umas cartucheiras apropositadas. ― Tu é existível,
Guirigó... Vai pelos proveitos e preceitos... ― eu caçoava. Aí
caçoei: ― Duvidar, é só dar um saco vastoso na mão dele, e
janela para pular, para dentro e para fora: capaz de supilar os
recheios e pertences todos duma casagrande de fazenda, feito esta,
salvo que seja... E eu bem que já estava tomando afeição àquele
diabrim. Pois, com o Guirigó, as senhoras e moças conversavam e
brejeiravam, como que só com ele, por criança, elas perdessem o
acanhamento de falar. Mas o seo Ornelas permanecia sisudo, faço que
ele afetava de propósito não reparar no menino. Pelo tudo, era como
se ele reprovasse minha decisão de trazer para a mesa semelhantes
companhias. O menino e o cego Borromeu ― aqueles olhos perguntados.
― As colheitas... ― seo Ornelas supracitava. Homem sistemático,
sestronho. O moderativo de ser, o apertad ensino em doutrinar os
cachorros, ele obrava tudo por um estilo velhoso, de outras mais
arredadas terras ― sei se sei. E quase não comia. Só, vez outra,
jogava na boca um punhado seco de farinha.
― Oxalá, o senhor vai, o senhor
venha... O sertão carece... Isto é, um homem forte, ambulante, se
carece dele. O senhor retorne, consoante que quiser, a esta casa Deus
o traga...
Solei um vexame, por não saber a
resposta concernente, nuns casos como esse ― resposta que eu achava
que devia de ser uma só, e a justa, como em teatral em circo em
pantomima bem levada. O que é igual quase um calar. A puridade, eu
sentia assim! feito se estivesse pego numa ignorância ― mas que
não era de falta de estudo ou inteligência, mais uma minha falta de
certos estados. O que são bobeias! limpei goela, mudei de cara. ―
...Amigo meu Medeiro Vaz, a outra ocasião, travou combates, no
Conta-Boi, daqui a duas léguas... Contra os de um Tolomeu Guilherme.
Defunto amigo Medeiro Vaz, que a alma dele Deus haja... Adiante
comandava em frente, para o exemplo... Enterramos os melhores
mortos... ― o homem descrevia. ― Eu sei! ― eu disse, mesmo nada
tencionando dizer. A ver! e que é que achava de mim aquele surdo
velho? Ah, ele expunha os cabelos brancos, mas faltava em barba que
cofiasse. ― Senhor saiba, ao que MedeiroVaz mesmo foi que entre
todos me escolheu, nos olhos da morte, me determinou para capitanear
e dar governo... Tolomeu Guilherme, que conheço, é um que deve de
estar presentemente embarcando cargas, no porto em Pirapora... Mas
sou, de mim, o Urutú-Branco, Riobaldo que Tatarana já fui; o senhor
terá ouvido? Aí o mais esse sertão tem de ver, quem mais abre e
mais acha! ― assim eu disse, um pouco enfurecido. ― Pois maior
honra é a minha, meu Chefe! que em posto de dono, na pobreza desta
mesa, somente homens de alta valentia e valia de caráter se
sentaram... ― ele glosou, sem sobrôsso de perturbação. Dobrei,
de costas, castanheteei para os cachorros. Assim ele havia de sentir
o perigo de meu desprazer; havia de recear, de mim, aquilo ― como o
outro diz: ...quando o burro dá as ancas!...
Aí, no rever do instante, percebi os
olhos de Diadorim, que me juntavam com uma das mocinhas de lá, das
que estavam servindo, a mais vistosa de todas. A mocinha essa de saia
preta e blusinha branca, um lenço vermelho na cabeça ― que para
mim é a forma mais assentante de uma mulher se trajar. Ela estava
parada, em pé, no meio das outras, quase encostada na parede. O
olhar de Diadorim era que estava me indicando: que para aquela
mocinha ia meu admirar. Administrado, chamei: ― A senhora
meninazinha, chega aqui mais perto, me faça obséquio da bondade...
E ela avermelhou as faces; mas veio; reparei que tinha as mãos
aperfeiçoadas bonitas, mãos para tecer minha rede. A ela perguntei
a graça.
― E minha neta... ― foi seo
Ornelas que disse. E mal nem ouvi o nome com que ela me respondeu.
Assussurrada, só gostei de ver como ela se mexia por ficar quieta ―
vergonhosa como uma coalhada no prato.
Mas, nos tons do velho Ornelas, eu
tinha divulgado um extravago de susto, recuante, o leve medo de
tremor. Isso foi o que me satisfez. Aquele homem, visconde e portoso
em tudo, ah, pelo mulheriozinho de sua casa ele não encobria o
comprado, eh, sua família dele. A avaliar o de Diadorim, por igual,
como mostrava ― outros olhos ― o arregalo de ciúmes. Aqui digo:
que se teme por amor; mas que, por amor, também, é que a coragem se
faz.
Deu silêncio. Aquilo tardou assim:
feito o tamanduá a língua põe, feito quem quer comungar. A mocinha
me tentando, com seu parado de águas; a boniteza dela esteve em
minhas carnes.
Ela perigou. Não perigou! no
instante, achei em minha ideia, adiada, uma razão maior ― que é o
sutil estatuto do homem valente. Aquela formosura, aquela
delicadezazinha, então podiam mesmo ser assim, em toda segurança,
feito ela fosse, por um exemplo, filha minha. A mocinha, eu de
repente queria, eu gostava de dar a ela muito forte proteção.
Diadorim não imaginasse isso. Os olhos de Diadorim não me
reprovavam ― os olhos de Diadorim me pediam muito socôrro. Seo
Ornelas empalidecido. Certo que, num rebimbo de raio, eu ― pronto!
― o Ornelas estava caído muito a morto, com uma bala entrôlheôlho,
antes de notar sequer que eu tinha pensado em arisco de mover nas
armas. Diadorim, caso fosse, ele eu desarmava; e meus homens estariam
ali, todos de pé, fechando praia de mar. A menina-mocinha, que eu
agarrava nos braços, era uma quanta-coisa primorosa que se
esperneia... Mas eu não quis! Ah, há-de -o, quanto e qual não
quis, digo ao senhor! e Deus mesmo baixa a cabeça que sim! ah, era
um homem danado diverso, era, eu ― aquele jagunço Riobaldo...
Donde o que eu quis foi oferecer garantia a ela, por sempre. Ao que
debati, no ar, os altos da cabeça. Segurei meus cornos. Assim
retido, sosseguei ― e melhor. Como que, depois do fogo de ferver,
no azeite em corpo de meu sangue todo, agora sochupei aquele vapor
fresco, fortíssimo, de vantagens de bondades.
Menina, tu há de ter nôivo correto,
bem apessoado e trabalhador, quando for hora, conforme tu merece e eu
rendo praça, que votos faço... Não vou estar por aqui, no dia,
para festejar. Mas, em todo tempo, vocês, carecendo,podem mandar
chamar minha proteção, que está prometida ― igual eu fosse
padrinho legítimo em bôdas!
Alto estive, atrás do que falei. Ela
se assustou, outra vez, sem capacidade nenhuma, ainda mais ao
avermelhar. E eu também mercês colhi ― da alegria veraz, nos meus
olhos de Diadorim. Será que será, que por contentar profundo
Diadorim eu tinha feito aquilo resoluto? Ou por outra, por aquele
próprio velho homem, seo Ornelas, que nesse intervalo de instantes
dizendo estava:
― Agradece, minha filha, as todas
palavras deste grande Chefe, que é declarado sagrado nosso amigo,
perante as voltas todas que o mundo dá e der!
Realmente, então eu virei para ele.
E, daí, deveras foi afoito que eu quis com ele outras conversas, e
prezei a amizade daquele homem dos sertões transatos. O quanto fiz
perguntas. Aceitei o chá de laranjeira, com que sempre dei bem, numa
tigela grande, com capricho desenhada. Minha gente junto comigo
escutava.
― O senhor tem noção de quem Zé
Bebelo é? ― eu indaguei, uma hora, por me confirmar.
― Zé Bebelo? Pode ser, não digo...
Mas figuro que, esse nome, nunca ouvi, não, meu senhor... ― foi o
que ele respondeu.
Ao que ― isso era um fato possível?
Ele não sabia. De Zé Bebelo, nem do Ricardão, nem do Hermógenes,
ele não sabia nem a preposição. Mas, então, tudo naquela parte
dos Gerais era ilusão de haver e não se saber. O mundo ali tinha de
ser de se recomeçar... ― Sou de pouca política, me desfiz de
ser... ― ele externou. O chefe próprio dele, ele não citou; feito
se eu ignorasse o qual era. Célebre, esse, também ― e que o
senhor pode ter conhecido igualmente, pois era um que viajava amiúde
até no Rio de Janeiro, se bem que famanado homem de cabras em
armamentos, na política de jugunçagem. Aquele ― sequinho,
espigadinho, vestido cidadão, com mãozinhas pequenas, pezinhos ―
e do ar sempre assustado constantemente. Dele sozinho, o que se diz!
umas duzentas mortes! Conheceu, o senhor? No barranco do São
Francisco ― o Coronel Rotílio Manduca ― em sua Fazenda Baluarte!
Agora, paz.
Mas aí eu perguntei a respeito
daquele seô Habão, só mais para variação de conversa, mudando o
propósito. Em resposta assim ouvi!
― Esse um, vem a ser até parente de
minha mulher, e longe meu aparentado... Mas de desde mais de uns dez
anos que cortamos conhecimento.
E como eu atalhei o assunto, por
convinhável nas boas normas, pois a lembrança dum inimigo deixa
qualquer homem agastado, o seo Ornelas relatou à gente diversos
casos. E o que em mente guardei, por esquipático mesmo no simples,
foi o seguinte, conforme vou reproduzir para o senhor.
O qual se deu da parte da banda de
fora da cidade da Januária.
Seo Ornelas, nessa ocasião, tinha
amizade com o delegado dr. Hilário, rapaz instruído social, de
muita civilidade, mas variado em sabedoria de inventiva, e capaz duma
conversação tão singela, que era uma simpatia com ele se tratar. ―
Me ensinou um meio-mil de coisas... A coragem dele era muito gentil e
preguiçosa... Sempre só depois do final acontecido era que a gente
reconhecia como ele tinha sido homem no acontecer…
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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