PRIMÓRDIOS
No verão de 1989, dois anos antes da
guerra do Golfo, fui ao Iraque para ver as ruínas da Babilônia e da
torre de Babel. Era uma viagem que eu ansiara muito fazer.
Reconstruída entre 1899 e 1917 pelo arqueólogo alemão Robert
Koldewey, Babilônia fica a cerca de 65 quilômetros de Bagdá — um enorme labirinto da Terra, perto de um monte de argila que os
guias turísticos dizem ser tudo o que resta da torre que Deus
amaldiçoou com o multiculturalismo. O motorista de táxi que me
levou até lá conhecia o sítio somente porque ficava perto da
cidade de Al Hil ah, aonde fora duas ou três vezes visitar uma tia.
Eu carregara comigo uma antologia de contos da Penguin, e, depois de
visitar as ruínas daquilo que para mim, como leitor ocidental,
constituía o ponto inicial de todos os livros, sentei-me à sombra
de um oleandro e li.
Muros, oleandros, pavimentação
betuminosa, portões abertos, montes de argila, torres quebradas;
parte do segredo da Babilônia está nisso, no fato de que o
visitante vê não uma, porém muitas cidades, sucessivas no tempo
mas simultâneas no espaço. Existe a Babilônia da época acadiana,
uma pequena vila de cerca de 2350 a.C. Há a Babilônia onde a
epopéia de Gilgamesh, que inclui um dos primeiros relatos do dilúvio
de Noé, foi recitada pela primeira vez, num dia qualquer do segundo
milênio a.C. Existeç a Babilônia do rei Hamurabi, do século XVIII
a.C., cujo sistema de leis foi uma das principais tentativas do mundo
de codificar a vida de toda uma sociedade. Existe a Babilônia
destruída pelos assírios em 689 a.C. Existe a Babilônia
reconstruída por Nabucodonosor, que, por volta de 586 a.C., atacou
Jerusalém, saqueou o templo de Salomão e escravizou os judeus, e
eles então se sentaram às margens dos rios e choraram. Existe a
Babilônia do filho ou neto (os genealogistas têm dúvidas) de
Nabucodonosor, o rei Belsazar, que foi o primeiro homem a ver a
escrita na parede, na caligrafia temível do dedo de Deus. Existe a
Babilônia que Alexandre, o Grande, queria transformar na capital de
um império que se estenderia do Norte da Índia ao Egito e à Grécia
— a Babilônia onde o Conquistador do Mundo morreu aos 33 anos de
idade, em 323 a.C., segurando um exemplar da Ilíada, num tempo em
que os generais eram capazes de ler. Existe a Babilônia, a Grande,
tal como esconjurada por são João — a Mãe das Rameiras e
Abominações da Terra, a Babilônia que fez todas as nações
beberem o vinho da ira de sua fornicação. E existe a Babilônia do
meu motorista de táxi, um lugar perto da cidade de Al Hil ah, onde
morava sua tia.
Ali (ou pelo menos não muito longe
dali), têm afirmado os arqueólogos, começou a pré-história do
livro. Em meados do quarto milênio a.C., quando o clima do Oriente
Médio tornou-se mais fresco e o ar mais seco, as comunidades
agrícolas do Sul da Mesopotâmia abandonaram suas aldeias dispersas
e reagruparam-se em torno de centros urbanos maiores que logo se
tornaram cidades-estados. Para manter as escassas terras férteis,
inventaram novas técnicas de irrigação e esquemas arquitetônicos
extraordinários, e para organizar uma sociedade cada vez mais
complexa, com suas leis, éditos e regras de comércio,
desenvolveram, por volta do final do quarto milênio, uma arte que
mudaria para sempre a natureza da comunicação entre os seres
humanos: a arte de escrever.
Com toda a probabilidade, a escrita
foi inventada por motivos comerciais, para lembrar que um certo
número de cabeças de gado pertencia a determinada família ou
estava sendo transportado para determinado lugar. Um sinal escrito
servia de dispositivo mnemônico: a figura de um boi significava um
boi, para lembrar ao leitor que a transação era em bois, quantos
bois estavam em jogo e, talvez, os nomes do comprador e do vendedor.
A memória, nessa forma, é também documento, o registro de tal
transação.
O inventor das primeiras tabuletas
escritas deve ter percebido as vantagens que essas peças de argila
ofereciam sobre manter a memória no cérebro: primeiro, a quantidade
de informação armazenável nas tabuletas era infinita — podiam-se
produzir tabuletas ad infinitum, ao passo que a capacidade de
lembrança do cérebro é limitada; segundo, para recuperar a
informação as tabuletas não exigiam a presença de quem guardava a
lembrança. De repente, algo intangível — um número, uma notícia,
um pensamento, uma ordem — podia ser obtido sem a presença física
do mensageiro; magicamente, podia ser imaginado, anotado e passado
adiante através do espaço e do tempo. Desde os primeiros vestígios
da civilização pré-histórica, a sociedade humana tinha tentado
superar os obstáculos da geografia, o caráter final da morte, a
erosão do esquecimento. Com um único ato — a incisão de uma
figura sobre uma tabuleta de argila —, o primeiro escritor anônimo
conseguiu de repente ter sucesso em todas essas façanhas
aparentemente impossíveis.
Mas escrever não é o único invento
que nasceu no instante daquela primeira incisão: uma outra criação
aconteceu no mesmo momento. Uma vez que o objetivo do ato de escrever
era que o texto fosse resgatado isto é, lido, a incisão criou
simultaneamente o leitor, um papel que nasceu antes mesmo de o
primeiro leitor adquirir presença física. Ao mesmo tempo em que o
primeiro escritor concebia uma nova arte ao fazer marcas num pedaço
de argila, aparecia tacitamente uma outra arte sem a qual as marcas
não teriam nenhum sentido. O escritor era um fazedor de mensagens,
criador de signos, mas esses signos e mensagens precisavam de um mago
que os decifrasse, que reconhecesse seu significado, que lhes desse
voz. Escrever exigia um leitor.
A relação primordial entre escritor
e leitor apresenta um paradoxo maravilhoso: ao criar o papel do
leitor, o escritor decreta também a morte do escritor, pois, para
que um texto fique pronto, o escritor deve se retirar, deve deixar de
existir. Enquanto o escritor está presente, o texto continua
incompleto. Somente quando o escritor abandona o texto é que este
ganha existência. Nesse ponto, a existência do texto é silenciosa,
silenciosa até o momento em que um leitor o lê. Somente quando
olhos capazes fazem contato com as marcas na tabuleta é que o texto
ganha vida ativa. Toda escrita depende da generosidade do leitor.
Essa relação desconfortável entre
escritor e leitor tem um começo: foi estabelecida para sempre numa
misteriosa tarde mesopotâmica. Trata-se de uma relação frutífera,
mas anacrônica, entre um criador primordial que dá à luz no
momento da morte e um criador post-mortem, ou melhor, gerações
de criadores post-mortem que possibilitam que a criação fale
e sem os quais toda escrita está morta. Desde os primórdios, a
leitura é a apoteose da escrita.
Escrever foi rapidamente reconhecido
como uma habilidade poderosa, e através das classes da sociedade
mesopotâmica emergiu o escriba. Sem dúvida, a habilidade de ler
também lhe era essencial, mas nem o nome dado à sua ocupação, nem
a percepção social de suas atividades reconheciam o ato de ler,
concentrando-se quase exclusivamente em sua capacidade de registrar.
No âmbito público, era mais seguro para o escriba ser visto não
como alguém que buscava e reconstituía informações (e, portanto,
que podia imbuí-las de sentido), mas como alguém que simplesmente
as registrava para o bem público. Embora ele fosse capaz de ser os
olhos e a língua de um general ou mesmo de um rei, era melhor não
alardear esse poder político. Por isso, o símbolo de Nisaba, a
deusa mesopotâmica dos escribas, era um estilete, não a tabuleta
mantida diante dos olhos.
Seria difícil exagerar a
importância do papel do escriba na sociedade mesopotâmica. Eles
eram necessários para mandar mensagens, transmitir notícias, baixar
as ordens do rei, registrar as leis, anotar os dados astronômicos
que permitissem manter o calendário, calcular o número necessário
de soldados, trabalhadores, suprimentos ou cabeças de gado, manter o
controle sobre operações financeiras e econômicas, registrar os
diagnósticos e receitas dos médicos, acompanhar expedições
militares e escrever despachos e crônicas de guerra, avaliar
tributos, fazer contratos, preservar os textos religiosos sagrados e
divertir o povo com leituras da epopeia de Gilgamesh. Nada disso
poderia ser feito sem o escriba. Ele era a mão, os olhos e a voz por
meio dos quais se estabeleciam comunicações e se decifravam
mensagens. É por isso que os autores mesopotâmicos dirigem-se
diretamente ao escriba, sabendo que ele seria o retransmissor da
mensagem: “Ao Meu Senhor, diz isto: assim fala fulano, teu servo”.
Diz refere-se a uma segunda pessoa, o tu, o ancestral mais
antigo do "Prezado leitor" da ficção posterior Cada um de
nós, lendo aquela linha, torna-se, através dos tempos, esse tu.
Na primeira metade do segundo milênio
a.C.. os sacerdotes do templo de Shamash, em Sippar, no Sul da
Mesopotâmia, ergueram um monumento coberto de inscrições em todos
os doze lados, tratando das renovações do templo e de um aumento na
receita real. Mas, em vez de usar a data de seu próprio tempo, esses
políticos primordiais dataram as inscrições do reino de
Manishtushu de Acad (circa 2276 - 2261 a.C.), criando assim
uma antiguidade para as reivindicações do templo. Elas terminam com
a seguinte promessa ao leitor: "Isto não é uma mentira, é de
fato verdade". Como o escriba-leitor logo descobriu, sua arte
dava-lhe a capacidade de modificar o passado histórico.
Com todo o poder que tinham nas mãos,
os escribas mesopotâmicos constituíam uma elite aristocrática.
(Muitos anos depois, nos séculos VII e VIII da era cristã, os
escribas da Irlanda ainda se beneficiavam desse status elevado: a
penalidade para quem matasse um deles era a mesma de quem matasse um
bispo.) Na Babilônia, somente certos cidadãos treinados podiam se
tornar escribas, e suas funções davam-lhes preeminência sobre
outros membros da sociedade. Descobriram-se livros de texto
(tabuletas escolares) na maioria das casas abastadas de Ur, de onde
se pode inferir que as artes da escrita e da leitura eram
consideradas atividades aristocráticas. Aqueles escolhidos para se
tornarem escribas recebiam instrução, desde tenra idade, numa
escola privada, uma e-dubba, ou “casa das tabuletas”. Uma
sala cheia de bancos de barro no palácio do rei Zimri-Lim, de Mari,
embora não tenha fornecido nenhuma tabuleta de escola ao exame dos
arqueólogos, é considerada um modelo dessas escolas para escribas.
O dono da escola, o diretor ou ummia,
contava com o auxílio de uma adda e-dubba, ou “pai da casa
das tabuletas”, e de um ugala, ou funcionário. Ofereciam-se
vários temas; por exemplo, em uma dessas escolas, um diretor chamado
Igmil-Sin ensinava escrita, religião, história e matemática. A
disciplina ficava a cargo de um estudante mais velho, que
desempenhava mais ou menos as funções de um bedel. Era importante
para um escriba sair-se bem na escola, e há indícios de que alguns
pais subornavam os professores a fim de obter boas notas para os
filhos.
Depois de aprender as habilidades
práticas de fazer tabuletas de argila e empunhar o estilete, o
estudante tinha de aprender a desenhar e a reconhecer os sinais
básicos. No segundo milênio a.C., a escrita mesopotâmica havia
passado de pictográfica representações mais ou menos precisas dos
objetos simbolizados pelas palavras — para o que conhecemos como
escrita “cuneiforme” (do latim cuneus, “unha”), sinais
em forma de cunha que representavam sons, não objetos. Os primitivos
pictogramas (dos quais havia mais de 2 mil, pois adotava-se um sinal
para cada objeto representado) tinham evoluído para marcas abstratas
que podiam representar não apenas os objetos retratados, mas também
ideias associadas a eles; palavras e sílabas diferentes pronunciadas
da mesma maneira eram representadas pelo mesmo signo. Sinais
auxiliares — fonéticos e gramaticais — conduziam a uma compreensão
mais fácil do texto, além de permitir nuances de sentido e matizes
de significado. Dentro de pouco tempo, o sistema possibilitaria ao
escriba registrar uma literatura complexa e altamente sofisticada:
epopeias, livros de sabedoria, histórias humorísticas, poemas de
amor. A escrita cuneiforme, na verdade, sobreviveu aos impérios
sucessivos da Suméria, Acádia e Assíria, registrando a literatura
de quinze diferentes línguas e cobrindo uma área ocupada hoje em
dia por Iraque, Irã ocidental e Síria. Atualmente, não podemos ler
as tabuletas pictográficas como linguagem porque não conhecemos o
valor fonético dos sinais primitivos; podemos apenas reconhecer
um bode, uma ovelha. Mas os linguistas fizeram tentativas de
reconstruir a pronúncia dos textos cuneiformes sumérios e acadianos
posteriores, de modo que podemos, embora de forma rudimentar,
pronunciar sons cunhados há milhares de anos.
Num primeiro momento, as habilidades
de escrever e ler foram aprendidas praticando-se a ligação de
sinais, em geral para formar um nome. Há numerosas tabuletas que
mostram esses estágios desajeitados, com marcas feitas por mão
vacilante. O estudante tinha de aprender a escrever seguindo
convenções que também lhe permitiriam ler. Por exemplo, a palavra
acadiana “para”, ana, tinha de ser escrita a-na,
não ana nem an-a, para que o estudante acentuasse as
sílabas corretamente.
Depois que tivesse dominado esse
estágio, o estudante ganhava um tipo diferente de tabuleta de
argila, redonda, onde o professor já escrevera uma frase curta, um
provérbio ou uma lista de nomes. O aluno estudava a inscrição,
depois virava a tabuleta e reproduzia a escrita. Para isso, tinha de
levar as palavras na mente e transportá-las de um lado a outro da
tabuleta, tornando-se pela primeira vez um transmissor de mensagens — de leitor da escrita do professor a escritor do que havia lido. Nesse
pequeno gesto, nascia uma função posterior ao leitor-escriba:
copiar um texto, anotá-lo, glosá-lo, traduzi-lo, transformá-lo.
Falo dos escribas mesopotâmicos no
masculino porque eram quase sempre homens. Ler e escrever estava
reservado aos donos do poder naquela sociedade patriarcal. Mas há
exceções. O primeiro autor nomeado da história é uma mulher, a
princesa Enheduanna, nascida por volta de 2300 a.C., filha do rei
Sargão I de Acad, alta sacerdotisa da deusa da Lua, Nanna, e autora
de uma série de canções em honra a Inanna, deusa do amor e da
guerra. Enheduanna assinava seu nome no final das tabuletas em que
escrevia. Isso era comum na Mesopotâmia, e muito do nosso
conhecimento sobre os escribas vem dessas assinaturas ou colofãos,
que incluíam o nome do escriba, a data e a cidade em que a escrita
havia sido feita. Essa identificação permitia ao leitor ler o texto
com determinada voz — caso dos hinos a Inanna, a voz de Enheduanna —,
identificando o eu presente no texto com uma pessoa específica
e, portanto, criando uma personagem pseudoficcional, o autor,
com a qual o leitor se comprometia. Esse esquema, inventado no início
da literatura, ainda está conosco mais de 4 mil anos depois.
Os escribas deviam ter consciência do
poder extraordinário conferido pelo fato de serem leitores de texto
e guardavam essa prerrogativa ciumentamente. Com arrogância, a
maioria dos escribas mesopotâmicos terminava seus textos com este
colofão: "Que o sábio instrua o sábio, pois o ignorante não
pode ver". No Egito, durante a décima nona dinastia, por volta
de 1300 a.C., um escriba compôs este encômio ao seu negócio:
Sê um escriba! Grava isto em teu
coração
Para que teu nome possa perdurar
como o deles!
O rolo é melhor que a pedra
esculpida.
Um homem morreu: seu corpo é pó,
E seu povo desapareceu da Terra.
É um livro que o faz ser lembrado
Na boca do orador que o lê.
Um escritor pode construir um texto de
várias formas, escolhendo no estoque comum de palavras aquelas que
pareçam expressar melhor a mensagem. Mas o leitor que recebe esse
texto não está confinado a nenhuma interpretação. Embora, como
dissemos, não sejam infinitas — são circunscritas por convenções
de gramática e por limites impostos pelo senso comum —. as leituras
de um texto não são rigidamente ditadas pelo próprio texto.
Qualquer texto escrito, diz o crítico francês Jacques Derrida, “é
legível mesmo se o momento de sua produção estiver
irrevogavelmente perdido e mesmo que eu não saiba o que seu suposto
autor conscientemente pretendia dizer no momento de escrevê-lo, isto
é, quando abandonou o texto à sua deriva essencial”. Por esse
motivo, o autor (o escritor, o escriba) que deseja preservar e impor
um sentido deve também ser o leitor. Esse é o privilégio secreto
que o escriba mesopotâmico concedia a si mesmo e que eu, lendo nas
ruínas que poderiam ser sua biblioteca, usurpei.
Em um ensaio famoso. Roland Barthes
propôs uma distinção entre écrivain e écrivant: o
primeiro desempenha uma função, o outro, uma atividade; para o
écrivain, escrever é um verbo intransitivo; para o écrivant,
o verbo sempre leva a um objetivo — doutrinar, testemunhar, explicar,
ensinar. Talvez a mesma distinção possa ser feita entre dois dos
papéis de quem lê: o do leitor para o qual o texto justifica sua
existência no ato da própria leitura, sem motivo ulterior (nem
mesmo diversão, uma vez que a noção de prazer está implícita na
realização do ato), e o do leitor com um motivo ulterior (aprender,
criticar), que toma o texto como veículo para outra função. A
primeira atividade ocorre dentro da moldura de tempo ditada pela
natureza do texto; a segunda existe em uma moldura de tempo imposta
pelo leitor tendo em vista o objetivo daquela leitura. Isso pode ser
o que santo Agostinho acreditava que fosse uma distinção
estabelecida pelo próprio Deus. “O que Minha Escritura diz, eu
digo”, ele ouve Deus revelar-lhe. “Mas a Escritura fala no tempo,
ao passo que o tempo não afeta Minha Palavra, que permanece para
sempre, igual a Mim em eternidade. As coisas que vês pelo Meu
Espírito, eu vejo, tal como falo as palavras que falas pelo Meu
Espírito. Mas, enquanto vês essas coisas no tempo, não é no tempo
que eu as vejo. E, enquanto falas aquelas palavras no tempo, não é
no tempo que eu as falo.”
Como sabia o escriba, como a sociedade
descobriu, a extraordinária invenção da palavra escrita, com todas
as suas mensagens, leis, listas, literaturas, dependia da capacidade
do escriba de restaurar o texto, de lê-lo. Com essa capacidade
perdida, o texto torna-se mais uma vez marcas silenciosas. Os antigos
mesopotâmicos acreditavam que os pássaros eram sagrados, porque
suas pegadas na argila úmida deixavam marcas semelhantes à escrita
cuneiforme, e imaginavam que, se pudessem decifrar a confusão
daqueles sinais, saberiam o que os deuses estavam pensando. Gerações
de estudiosos tentaram tornar-se leitores de escritos cujos códigos
perdemos: sumério, acadiano, minóico, asteca, maia…
Algumas vezes, conseguiram. Outras
vezes, fracassaram, como no caso da escrita etrusca, cujas
complexidades ainda não decodificamos. O poeta Richard Wilbur
resumiu a tragédia que se abate sobre uma civilização quando ela
perde seus leitores:
AOS POETAS ETRUSCOS
Sonhai com fluência, irmãos calados,
que na infância
Tomastes com vosso leite materno a
língua materna,
Em cuja pura matriz, unindo mundo e
mente,
Lutastes para deixar alguma linha de
verso
Como fresco rastro em campo de neve,
Não avaliando que tudo podia derreter
e sumir.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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