sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Os poderes do leitor



PRIMÓRDIOS

No verão de 1989, dois anos antes da guerra do Golfo, fui ao Iraque para ver as ruínas da Babilônia e da torre de Babel. Era uma viagem que eu ansiara muito fazer. Reconstruída entre 1899 e 1917 pelo arqueólogo alemão Robert Koldewey, Babilônia fica a cerca de 65 quilômetros de Bagdá  um enorme labirinto da Terra, perto de um monte de argila que os guias turísticos dizem ser tudo o que resta da torre que Deus amaldiçoou com o multiculturalismo. O motorista de táxi que me levou até lá conhecia o sítio somente porque ficava perto da cidade de Al Hil ah, aonde fora duas ou três vezes visitar uma tia. Eu carregara comigo uma antologia de contos da Penguin, e, depois de visitar as ruínas daquilo que para mim, como leitor ocidental, constituía o ponto inicial de todos os livros, sentei-me à sombra de um oleandro e li.
Muros, oleandros, pavimentação betuminosa, portões abertos, montes de argila, torres quebradas; parte do segredo da Babilônia está nisso, no fato de que o visitante vê não uma, porém muitas cidades, sucessivas no tempo mas simultâneas no espaço. Existe a Babilônia da época acadiana, uma pequena vila de cerca de 2350 a.C. Há a Babilônia onde a epopéia de Gilgamesh, que inclui um dos primeiros relatos do dilúvio de Noé, foi recitada pela primeira vez, num dia qualquer do segundo milênio a.C. Existeç a Babilônia do rei Hamurabi, do século XVIII a.C., cujo sistema de leis foi uma das principais tentativas do mundo de codificar a vida de toda uma sociedade. Existe a Babilônia destruída pelos assírios em 689 a.C. Existe a Babilônia reconstruída por Nabucodonosor, que, por volta de 586 a.C., atacou Jerusalém, saqueou o templo de Salomão e escravizou os judeus, e eles então se sentaram às margens dos rios e choraram. Existe a Babilônia do filho ou neto (os genealogistas têm dúvidas) de Nabucodonosor, o rei Belsazar, que foi o primeiro homem a ver a escrita na parede, na caligrafia temível do dedo de Deus. Existe a Babilônia que Alexandre, o Grande, queria transformar na capital de um império que se estenderia do Norte da Índia ao Egito e à Grécia — a Babilônia onde o Conquistador do Mundo morreu aos 33 anos de idade, em 323 a.C., segurando um exemplar da Ilíada, num tempo em que os generais eram capazes de ler. Existe a Babilônia, a Grande, tal como esconjurada por são João  a Mãe das Rameiras e Abominações da Terra, a Babilônia que fez todas as nações beberem o vinho da ira de sua fornicação. E existe a Babilônia do meu motorista de táxi, um lugar perto da cidade de Al Hil ah, onde morava sua tia.
Ali (ou pelo menos não muito longe dali), têm afirmado os arqueólogos, começou a pré-história do livro. Em meados do quarto milênio a.C., quando o clima do Oriente Médio tornou-se mais fresco e o ar mais seco, as comunidades agrícolas do Sul da Mesopotâmia abandonaram suas aldeias dispersas e reagruparam-se em torno de centros urbanos maiores que logo se tornaram cidades-estados. Para manter as escassas terras férteis, inventaram novas técnicas de irrigação e esquemas arquitetônicos extraordinários, e para organizar uma sociedade cada vez mais complexa, com suas leis, éditos e regras de comércio, desenvolveram, por volta do final do quarto milênio, uma arte que mudaria para sempre a natureza da comunicação entre os seres humanos: a arte de escrever.
Com toda a probabilidade, a escrita foi inventada por motivos comerciais, para lembrar que um certo número de cabeças de gado pertencia a determinada família ou estava sendo transportado para determinado lugar. Um sinal escrito servia de dispositivo mnemônico: a figura de um boi significava um boi, para lembrar ao leitor que a transação era em bois, quantos bois estavam em jogo e, talvez, os nomes do comprador e do vendedor. A memória, nessa forma, é também documento, o registro de tal transação.
O inventor das primeiras tabuletas escritas deve ter percebido as vantagens que essas peças de argila ofereciam sobre manter a memória no cérebro: primeiro, a quantidade de informação armazenável nas tabuletas era infinita  podiam-se produzir tabuletas ad infinitum, ao passo que a capacidade de lembrança do cérebro é limitada; segundo, para recuperar a informação as tabuletas não exigiam a presença de quem guardava a lembrança. De repente, algo intangível  um número, uma notícia, um pensamento, uma ordem  podia ser obtido sem a presença física do mensageiro; magicamente, podia ser imaginado, anotado e passado adiante através do espaço e do tempo. Desde os primeiros vestígios da civilização pré-histórica, a sociedade humana tinha tentado superar os obstáculos da geografia, o caráter final da morte, a erosão do esquecimento. Com um único ato  a incisão de uma figura sobre uma tabuleta de argila , o primeiro escritor anônimo conseguiu de repente ter sucesso em todas essas façanhas aparentemente impossíveis.
Mas escrever não é o único invento que nasceu no instante daquela primeira incisão: uma outra criação aconteceu no mesmo momento. Uma vez que o objetivo do ato de escrever era que o texto fosse resgatado isto é, lido, a incisão criou simultaneamente o leitor, um papel que nasceu antes mesmo de o primeiro leitor adquirir presença física. Ao mesmo tempo em que o primeiro escritor concebia uma nova arte ao fazer marcas num pedaço de argila, aparecia tacitamente uma outra arte sem a qual as marcas não teriam nenhum sentido. O escritor era um fazedor de mensagens, criador de signos, mas esses signos e mensagens precisavam de um mago que os decifrasse, que reconhecesse seu significado, que lhes desse voz. Escrever exigia um leitor.
A relação primordial entre escritor e leitor apresenta um paradoxo maravilhoso: ao criar o papel do leitor, o escritor decreta também a morte do escritor, pois, para que um texto fique pronto, o escritor deve se retirar, deve deixar de existir. Enquanto o escritor está presente, o texto continua incompleto. Somente quando o escritor abandona o texto é que este ganha existência. Nesse ponto, a existência do texto é silenciosa, silenciosa até o momento em que um leitor o lê. Somente quando olhos capazes fazem contato com as marcas na tabuleta é que o texto ganha vida ativa. Toda escrita depende da generosidade do leitor.
Essa relação desconfortável entre escritor e leitor tem um começo: foi estabelecida para sempre numa misteriosa tarde mesopotâmica. Trata-se de uma relação frutífera, mas anacrônica, entre um criador primordial que dá à luz no momento da morte e um criador post-mortem, ou melhor, gerações de criadores post-mortem que possibilitam que a criação fale e sem os quais toda escrita está morta. Desde os primórdios, a leitura é a apoteose da escrita.
Escrever foi rapidamente reconhecido como uma habilidade poderosa, e através das classes da sociedade mesopotâmica emergiu o escriba. Sem dúvida, a habilidade de ler também lhe era essencial, mas nem o nome dado à sua ocupação, nem a percepção social de suas atividades reconheciam o ato de ler, concentrando-se quase exclusivamente em sua capacidade de registrar. No âmbito público, era mais seguro para o escriba ser visto não como alguém que buscava e reconstituía informações (e, portanto, que podia imbuí-las de sentido), mas como alguém que simplesmente as registrava para o bem público. Embora ele fosse capaz de ser os olhos e a língua de um general ou mesmo de um rei, era melhor não alardear esse poder político. Por isso, o símbolo de Nisaba, a deusa mesopotâmica dos escribas, era um estilete, não a tabuleta mantida diante dos olhos.
Seria difícil exagerar a importância do papel do escriba na sociedade mesopotâmica. Eles eram necessários para mandar mensagens, transmitir notícias, baixar as ordens do rei, registrar as leis, anotar os dados astronômicos que permitissem manter o calendário, calcular o número necessário de soldados, trabalhadores, suprimentos ou cabeças de gado, manter o controle sobre operações financeiras e econômicas, registrar os diagnósticos e receitas dos médicos, acompanhar expedições militares e escrever despachos e crônicas de guerra, avaliar tributos, fazer contratos, preservar os textos religiosos sagrados e divertir o povo com leituras da epopeia de Gilgamesh. Nada disso poderia ser feito sem o escriba. Ele era a mão, os olhos e a voz por meio dos quais se estabeleciam comunicações e se decifravam mensagens. É por isso que os autores mesopotâmicos dirigem-se diretamente ao escriba, sabendo que ele seria o retransmissor da mensagem: “Ao Meu Senhor, diz isto: assim fala fulano, teu servo”. Diz refere-se a uma segunda pessoa, o tu, o ancestral mais antigo do "Prezado leitor" da ficção posterior Cada um de nós, lendo aquela linha, torna-se, através dos tempos, esse tu.
Na primeira metade do segundo milênio a.C.. os sacerdotes do templo de Shamash, em Sippar, no Sul da Mesopotâmia, ergueram um monumento coberto de inscrições em todos os doze lados, tratando das renovações do templo e de um aumento na receita real. Mas, em vez de usar a data de seu próprio tempo, esses políticos primordiais dataram as inscrições do reino de Manishtushu de Acad (circa 2276 - 2261 a.C.), criando assim uma antiguidade para as reivindicações do templo. Elas terminam com a seguinte promessa ao leitor: "Isto não é uma mentira, é de fato verdade". Como o escriba-leitor logo descobriu, sua arte dava-lhe a capacidade de modificar o passado histórico.
Com todo o poder que tinham nas mãos, os escribas mesopotâmicos constituíam uma elite aristocrática. (Muitos anos depois, nos séculos VII e VIII da era cristã, os escribas da Irlanda ainda se beneficiavam desse status elevado: a penalidade para quem matasse um deles era a mesma de quem matasse um bispo.) Na Babilônia, somente certos cidadãos treinados podiam se tornar escribas, e suas funções davam-lhes preeminência sobre outros membros da sociedade. Descobriram-se livros de texto (tabuletas escolares) na maioria das casas abastadas de Ur, de onde se pode inferir que as artes da escrita e da leitura eram consideradas atividades aristocráticas. Aqueles escolhidos para se tornarem escribas recebiam instrução, desde tenra idade, numa escola privada, uma e-dubba, ou “casa das tabuletas”. Uma sala cheia de bancos de barro no palácio do rei Zimri-Lim, de Mari, embora não tenha fornecido nenhuma tabuleta de escola ao exame dos arqueólogos, é considerada um modelo dessas escolas para escribas.
O dono da escola, o diretor ou ummia, contava com o auxílio de uma adda e-dubba, ou “pai da casa das tabuletas”, e de um ugala, ou funcionário. Ofereciam-se vários temas; por exemplo, em uma dessas escolas, um diretor chamado Igmil-Sin ensinava escrita, religião, história e matemática. A disciplina ficava a cargo de um estudante mais velho, que desempenhava mais ou menos as funções de um bedel. Era importante para um escriba sair-se bem na escola, e há indícios de que alguns pais subornavam os professores a fim de obter boas notas para os filhos.
Depois de aprender as habilidades práticas de fazer tabuletas de argila e empunhar o estilete, o estudante tinha de aprender a desenhar e a reconhecer os sinais básicos. No segundo milênio a.C., a escrita mesopotâmica havia passado de pictográfica representações mais ou menos precisas dos objetos simbolizados pelas palavras  para o que conhecemos como escrita “cuneiforme” (do latim cuneus, “unha”), sinais em forma de cunha que representavam sons, não objetos. Os primitivos pictogramas (dos quais havia mais de 2 mil, pois adotava-se um sinal para cada objeto representado) tinham evoluído para marcas abstratas que podiam representar não apenas os objetos retratados, mas também ideias associadas a eles; palavras e sílabas diferentes pronunciadas da mesma maneira eram representadas pelo mesmo signo. Sinais auxiliares  fonéticos e gramaticais  conduziam a uma compreensão mais fácil do texto, além de permitir nuances de sentido e matizes de significado. Dentro de pouco tempo, o sistema possibilitaria ao escriba registrar uma literatura complexa e altamente sofisticada: epopeias, livros de sabedoria, histórias humorísticas, poemas de amor. A escrita cuneiforme, na verdade, sobreviveu aos impérios sucessivos da Suméria, Acádia e Assíria, registrando a literatura de quinze diferentes línguas e cobrindo uma área ocupada hoje em dia por Iraque, Irã ocidental e Síria. Atualmente, não podemos ler as tabuletas pictográficas como linguagem porque não conhecemos o valor fonético dos sinais primitivos; podemos apenas reconhecer um bode, uma ovelha. Mas os linguistas fizeram tentativas de reconstruir a pronúncia dos textos cuneiformes sumérios e acadianos posteriores, de modo que podemos, embora de forma rudimentar, pronunciar sons cunhados há milhares de anos.
Num primeiro momento, as habilidades de escrever e ler foram aprendidas praticando-se a ligação de sinais, em geral para formar um nome. Há numerosas tabuletas que mostram esses estágios desajeitados, com marcas feitas por mão vacilante. O estudante tinha de aprender a escrever seguindo convenções que também lhe permitiriam ler. Por exemplo, a palavra acadiana “para”, ana, tinha de ser escrita a-na, não ana nem an-a, para que o estudante acentuasse as sílabas corretamente.
Depois que tivesse dominado esse estágio, o estudante ganhava um tipo diferente de tabuleta de argila, redonda, onde o professor já escrevera uma frase curta, um provérbio ou uma lista de nomes. O aluno estudava a inscrição, depois virava a tabuleta e reproduzia a escrita. Para isso, tinha de levar as palavras na mente e transportá-las de um lado a outro da tabuleta, tornando-se pela primeira vez um transmissor de mensagens  de leitor da escrita do professor a escritor do que havia lido. Nesse pequeno gesto, nascia uma função posterior ao leitor-escriba: copiar um texto, anotá-lo, glosá-lo, traduzi-lo, transformá-lo.
Falo dos escribas mesopotâmicos no masculino porque eram quase sempre homens. Ler e escrever estava reservado aos donos do poder naquela sociedade patriarcal. Mas há exceções. O primeiro autor nomeado da história é uma mulher, a princesa Enheduanna, nascida por volta de 2300 a.C., filha do rei Sargão I de Acad, alta sacerdotisa da deusa da Lua, Nanna, e autora de uma série de canções em honra a Inanna, deusa do amor e da guerra. Enheduanna assinava seu nome no final das tabuletas em que escrevia. Isso era comum na Mesopotâmia, e muito do nosso conhecimento sobre os escribas vem dessas assinaturas ou colofãos, que incluíam o nome do escriba, a data e a cidade em que a escrita havia sido feita. Essa identificação permitia ao leitor ler o texto com determinada voz  caso dos hinos a Inanna, a voz de Enheduanna , identificando o eu presente no texto com uma pessoa específica e, portanto, criando uma personagem pseudoficcional, o autor, com a qual o leitor se comprometia. Esse esquema, inventado no início da literatura, ainda está conosco mais de 4 mil anos depois.
Os escribas deviam ter consciência do poder extraordinário conferido pelo fato de serem leitores de texto e guardavam essa prerrogativa ciumentamente. Com arrogância, a maioria dos escribas mesopotâmicos terminava seus textos com este colofão: "Que o sábio instrua o sábio, pois o ignorante não pode ver". No Egito, durante a décima nona dinastia, por volta de 1300 a.C., um escriba compôs este encômio ao seu negócio:

Sê um escriba! Grava isto em teu coração
Para que teu nome possa perdurar como o deles!
O rolo é melhor que a pedra esculpida.
Um homem morreu: seu corpo é pó,
E seu povo desapareceu da Terra.
É um livro que o faz ser lembrado
Na boca do orador que o lê.

Um escritor pode construir um texto de várias formas, escolhendo no estoque comum de palavras aquelas que pareçam expressar melhor a mensagem. Mas o leitor que recebe esse texto não está confinado a nenhuma interpretação. Embora, como dissemos, não sejam infinitas  são circunscritas por convenções de gramática e por limites impostos pelo senso comum . as leituras de um texto não são rigidamente ditadas pelo próprio texto. Qualquer texto escrito, diz o crítico francês Jacques Derrida, “é legível mesmo se o momento de sua produção estiver irrevogavelmente perdido e mesmo que eu não saiba o que seu suposto autor conscientemente pretendia dizer no momento de escrevê-lo, isto é, quando abandonou o texto à sua deriva essencial”. Por esse motivo, o autor (o escritor, o escriba) que deseja preservar e impor um sentido deve também ser o leitor. Esse é o privilégio secreto que o escriba mesopotâmico concedia a si mesmo e que eu, lendo nas ruínas que poderiam ser sua biblioteca, usurpei.
Em um ensaio famoso. Roland Barthes propôs uma distinção entre écrivain e écrivant: o primeiro desempenha uma função, o outro, uma atividade; para o écrivain, escrever é um verbo intransitivo; para o écrivant, o verbo sempre leva a um objetivo  doutrinar, testemunhar, explicar, ensinar. Talvez a mesma distinção possa ser feita entre dois dos papéis de quem lê: o do leitor para o qual o texto justifica sua existência no ato da própria leitura, sem motivo ulterior (nem mesmo diversão, uma vez que a noção de prazer está implícita na realização do ato), e o do leitor com um motivo ulterior (aprender, criticar), que toma o texto como veículo para outra função. A primeira atividade ocorre dentro da moldura de tempo ditada pela natureza do texto; a segunda existe em uma moldura de tempo imposta pelo leitor tendo em vista o objetivo daquela leitura. Isso pode ser o que santo Agostinho acreditava que fosse uma distinção estabelecida pelo próprio Deus. “O que Minha Escritura diz, eu digo”, ele ouve Deus revelar-lhe. “Mas a Escritura fala no tempo, ao passo que o tempo não afeta Minha Palavra, que permanece para sempre, igual a Mim em eternidade. As coisas que vês pelo Meu Espírito, eu vejo, tal como falo as palavras que falas pelo Meu Espírito. Mas, enquanto vês essas coisas no tempo, não é no tempo que eu as vejo. E, enquanto falas aquelas palavras no tempo, não é no tempo que eu as falo.”
Como sabia o escriba, como a sociedade descobriu, a extraordinária invenção da palavra escrita, com todas as suas mensagens, leis, listas, literaturas, dependia da capacidade do escriba de restaurar o texto, de lê-lo. Com essa capacidade perdida, o texto torna-se mais uma vez marcas silenciosas. Os antigos mesopotâmicos acreditavam que os pássaros eram sagrados, porque suas pegadas na argila úmida deixavam marcas semelhantes à escrita cuneiforme, e imaginavam que, se pudessem decifrar a confusão daqueles sinais, saberiam o que os deuses estavam pensando. Gerações de estudiosos tentaram tornar-se leitores de escritos cujos códigos perdemos: sumério, acadiano, minóico, asteca, maia…
Algumas vezes, conseguiram. Outras vezes, fracassaram, como no caso da escrita etrusca, cujas complexidades ainda não decodificamos. O poeta Richard Wilbur resumiu a tragédia que se abate sobre uma civilização quando ela perde seus leitores:

AOS POETAS ETRUSCOS

Sonhai com fluência, irmãos calados, que na infância 
Tomastes com vosso leite materno a língua materna, 
Em cuja pura matriz, unindo mundo e mente,
Lutastes para deixar alguma linha de verso
Como fresco rastro em campo de neve,
Não avaliando que tudo podia derreter e sumir.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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