quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Mil Anos de Solidão



Ao calor escaldante e pesado, as rochas da Sardenha parecem a coluna vertebral de um sáurio antediluviano. Aos primeiros raios de luz, o ar cintila e se evapora do xisto opaco. Com o sol a pino, o ar é imóvel, mas cortante feito uma farpa. Mesmo o mar fica em silêncio. Em terra, a luz incide brutal nos súbitos vazios de sombra negra entre as casas tacanhas de venezianas fechadas. O calor se infiltra nas sombras. Numa das vértebras mais salientes daquela coluna dorsal ergue-se a vila de Nuoro. Ainda mais acima, no topo de uma estrada calcinada e sinuosa, fica Orgosolo, até hoje conhecida pelo impiedoso banditismo e pelos infindáveis meandros de suas rixas cruentas. Minha esposa e eu nunca tínhamos ido até aquele afamado sítio alcandorado. Quando saímos do carro alugado em Nuoro, ficamos acachapados de calor, na fornalha imóvel do meio-dia. E estávamos apenas em junho.
Há uma livraria em Nuoro. A maior parte do estoque é de ficção barata e de revistas vagamente berrantes. Mas no fundo há um canto melancólico de livros mais antigos, entre eles velhas edições de Grazia Deledda, cujas obras romantizadas e grandiloquentes sobre a vida sarda lhe valeram o Prêmio Nobel em 1926. Eu tinha vindo procurar um item mais raro. Em 18 de maio de 1979, num café de Nuoro, houve um dibattito, uma mesa-redonda debatendo um livro: Il Giorno del Giudizio [O dia do juízo], de Salvatore Satta. Leonardo Sole, Maria Giacobbe e o padre Giovanni Marchesi, S. J., apresentaram suas interpretações de diversos aspectos da obra. Da plateia, Natalino Piras expôs una lettura altra, “uma outra leitura”. Esses vários textos foram publicados numa brochura de 29 páginas para a biblioteca local, cujo nome homenageava outro membro da família Satta. Surpreso com minha solicitação, o dono da livraria desencavou, desempoeirou e me vendeu um exemplar que tinha toda a aparência de ser praticamente o último restante.
Enquanto esperávamos que o calor diminuísse pelo menos um pouco sua intensidade inclemente e mortal, minha esposa e eu fomos ver o café (no livro, chamado Tettamanzi), o Corso e o cemitério, em seu espigão retorcido de rocha alvejada. Paramos na piazza S. Satta, com seus grupos de pedras pré-históricas amontoadas. O hálito que sopra pela porta da fornalha do dia é de absoluto silêncio. Quando a tarde, em horas mais avançadas, desprende as sombras, elas se movem, escreveu Satta, “como um sonho naquela terra crestada”. A ida até lá é árida e calcinante. Nuoro é um local confinado. Mas realmente não existe outra maneira de visualizar por completo uma das obras-primas da solidão na literatura moderna, talvez em toda a literatura, a não ser visitando Nuoro e sentindo sua estrutura óssea. A tradução de Patrick Creagh, The Day of Judgement, ao meu ouvido e ao meu espírito, não capta inteiramente o gênio da prosa de Satta — sua ferocidade ebúrnea, o fogo lento que arde dentro da pedra. Mais próximos são o latim de Tácito e o estilo de Hobbes. Mesmo assim, a disponibilidade de Il Giorno del Giudizio em inglês é motivo de gratidão e comemoração. Acrescentou-se um acorde fundamental ao registro de nossos reconhecimentos.
A semelhança com Tácito e Hobbes não é fortuita. Salvatore Satta (1902-75) passou a maior parte de sua vida lecionando direito e jurisprudência em Roma, e sua sensibilidade se formou na latinidade áspera e lapidar dos historiadores romanos e do direito romano. Seu Commentario al Codice di Procedura Civile é uma obra monumental e bibliografia obrigatória nos estudos jurídicos italianos. A obra De Profundis, com reminiscências lacônicas e aflitivas de experiências da guerra, que Satta publicou em 1948, está imbuída de latinidade e da dolorosa imagem tacitiana da loucura política humana. Satta parece ter carregado dentro de si durante cinquenta anos o material e a concepção de um livro sobre sua Nuoro natal e um epílogo sonambúlico e esclerosado a seus costumes antigos. Várias vezes deixou a obra de lado e prosseguiu na carreira acadêmica. Il Giorno foi publicado apenas em 1979. É póstumo não só porque foi lançado após a morte de Satta, mas também porque, sob muitos aspectos, é um livro dos mortos e para os mortos. Para um sardo, para um nuorense, há apenas um lugar capaz de receber essa preciosidade: o cemitério.
Il Giorno é um livro de difícil descrição. A voz estoica do cronista intervém e indaga a si mesma se deve invocar de volta, numa presença espectral, os episódios, os gestos, as dramatis personae de Nuoro antes e depois da Primeira Guerra Mundial — se não caberia aos mortos, como diz Cristo numa de suas prescrições mais enigmáticas e categóricas, a tarefa de enterrar os mortos. Satta zomba da vaidade do empreendimento, com suas pretensões de ressurreição. Ao mesmo tempo, reconhece a reivindicação ao direito de lembrança — o apelo gentil mas insistente dos finados à memória dos vivos. Tirando Walter Benjamin, nenhum rememorador transmite com maior pungência do que Salvatore Satta (note-se o augúrio de seu primeiro nome) o direito dos vencidos, dos ridículos e dos exteriormente insignificantes de ser lembrados com precisão. Nos climas setentrionais, permite-se que sua vinda seja anunciada no murmúrio das folhas uma vez por ano, na véspera de Todos os Santos. Em Nuoro, essa noite se estende pelo ano todo. Os finados estão perpetuamente ali, mendigando, suplicando as esmolas da memória. As respostas de Satta são intrigantes: “Estou escrevendo essas páginas que ninguém lerá, pois espero ter lucidez suficiente para destruí-las antes de morrer”. Para quem ele está escrevendo, então? Para os mortos, cuja audiência possui uma densidade palpável, que oferece a Satta uma companhia amistosa no tempo e na terra crestada que nenhum indivíduo numa communitas tradicional poderia ou tentaria buscar.
A composição do texto, episódico e ao mesmo tempo densamente cerrado, faz lembrar remotamente a de Spoon River Anthology, de Edgar Lee Masters: há momentos de viva sátira social, vozes pomposas ou tumultuadas, do tipo que ouvimos em Under Milk Wood, de Dylan Thomas. Mas nem Masters, nem Thomas têm a inteligência filosófica, a paciência dos sentimentos que permitem a Satta criar uma forma quase impecável. Os pintores oferecem uma analogia melhor. Os efeitos alcançados em Il Giorno possuem a autoridade misteriosa que habita o ser das coisas num Chardin, a luminosidade opaca que nos vem dos corpos humanos em La Tour.
A casa e a família de don Sebastiano Sanna Carboni formam o eixo do “romanzo antropologico” de Satta (classificação dada por críticos italianos, mas correta apenas se a “antropologia” contiver uma exposição fundamental e filosófica da condição do homem nu). A família, ou clã, é grande: ouvimos falar em sete filhos. Mas entre don Sebastiano e a esposa donna Vincenza impera um silêncio cáustico, veemente. Os jantares em família causam vertigens ao dono da casa. Ele come sozinho, no aposento do andar de cima, onde pratica as artes sutis e tenazes da advocacia e da consultoria jurídica. Os estudos intermináveis dos filhos, a imemorial inércia nuorense que parece correr em suas artérias enfurecem don Sebastiano. Os filhos dos milionários na remota e fantasmagórica América não ganham a vida na adolescência entregando jornais? Donna Vincenza, aguilhoada para além do martírio pela gélida raiva do marido, pelas pressões do trabalho doméstico, do monótono enclausuramento e das frustrações carnais entorpecedoras como velhos sonhos repetidos sobre seu físico ressequido, protesta. Os americanos “têm todos os confortos”, diz ela. “Não são como nós.” A réplica do marido é uma das frases mais brutais da literatura — é, literalmente, uma sentença de morte: “Tu stai al mondo soltanto perchè c’è posto” (“Estás no mundo só porque há lugar”). A tradução de Creagh — “You’re only in this world because there’s room for you” — é mais ou menos exata, mas fica aquém. No italiano, há a conotação de um nicho obscuro, predestinado, onde as vidas insignificantes e prisioneiras são encaixadas sem escapatória. E é precisamente essa falta de escapatória que dá a tais vidas sua base contingente de extrema humilhação.
Em certo sentido, toda a obra se desenrola como uma espiral a partir deste veredicto apavorante. Em Nuoro, pode-se dizer que quase todos, homens, mulheres e animais, foram colocados nesse solo natal crestado exclusivamente porque havia alguma rápida menção a eles no Livro do Juízo Final das obras e dos dias. Maestro Fadda, com os traços dolorosos de um rei etrusco, está lá para dar aulas no quarto e no quinto ano da escola de Nuoro e para entreter os ociosos que passam seu tempo à toa no café. Chischeddu “era um daqueles restos naufragados que por alguma razão desconhecida vão dar às igrejas, e que por concessão de Deus ou do vigário podem participar na vida do espírito como maceiros ou sacristãos”. Fileddu, o retardado, é o bufão autorizado enquanto os ventos sopram como chamas abafadas vindas da África. Alguma dessas vidas narradas terá realidade? Tome-se Pietro Catte:

Não há a menor dúvida de que Pietro Catte em abstrato não tem realidade, como nenhum outro homem na face da terra. Mas resta o fato de que nasceu e morreu, como provam essas certidões irrefutáveis. E isso lhe dota de uma realidade de fato, porque o nascimento e a morte são os dois momentos em que o infinito se faz finito; e o infinito não pode existir a não ser através do finito. Pietro Catte tentou escapar à realidade enforcando-se naquela árvore em Biscollai, mas foi em vão, porque não se pode apagar o próprio nascimento. É por isso que eu digo que Pietro Catte, como todos os infelizes personagens desta história, é importante e deveria interessar a todos: se ele não existe, nenhum de nós tampouco existe.

O imperativo não solicitado da existência é suportado, certamente no mundo antes de 1914, de maneira quase atemporal. Para os camponeses e os pastores das montanhas, não existe passado nem futuro, apenas a coerção do costume. As percepções e as alegrias carregam a paciência sem profundidade de uma ordem das coisas antes da escrita. Satta inova; é convincente em sua implícita análise das relações entre o mundo analfabeto e pré-alfabetizado e a atemporalidade:

Donna Vincenza era extremamente inteligente, mesmo que mal soubesse ler e escrever, e por isso transbordava de amor, sem saber. Ela amava a mobília humilde da casa, os bordados das fronhas, que costumava fazer com a mãe todos os dias […]. Amava a cortita da casa, com figos e tomates estendidos em tábuas a secar entre os zumbidos cobiçosos das vespas e abelhas. E, mais que tudo, amava o jardim, aonde ia colher flores e frutas, embora cada vez menos conseguisse se firmar nas pernas inchadas. E tinha amado don Sebastiano, o homem que viera lhe pedir a mão e a levaria para morar em outra casa.

Mesmo para os muito bem letrados, como os meninos de don Sebastiano e os padres ou advogados, os textos não servem de impulso, como para nós. Livros velhos, digestos obsoletos, comentários roídos de traças conservam a autoridade num presente empoeirado. Os sinos, que desempenham um papel fascinante na arquitetura de Il Giorno, tocam a imutabilidade. O noivado de Ludovico e Celestina dura doze anos. Termina em separação. A castidade se modula e se transforma imperceptivelmente na plenitude e no consolo da perda.
Ainda assim, a narrativa pulsa fervilhante de ações: majestosas, cômicas, violentas. Há suicídio e há assassinato. As uvas da última colheita chegam ao pátio de don Sebastiano em outubro — uma das “ondas de lembranças rolando umas sobre as outras numa desordem absurda, como se a totalidade da existência se concentrasse num único instante”. Escancaram-se os portões “em austera expectativa” (expressão característica de Satta). Os bois se arrastam com dificuldade, como se fossem mesmo cegos. Esmagadas pelos cilindros da cuba cavernosa, as uvas desprendem um perfume forte e inebriante que penetra na casa às escuras:

Mas naquela massa multicor há uma divindade oculta, pois não se passam muitas horas e aparece uma franja púrpura líquida por toda a beirada, e então a massa se levantará como se tomasse um fôlego gigantesco, e perderá sua inocência, e um som baixo e gorgolejante trairá o fogo que a consome […]. Tudo se passa à noite, porque vida e morte são filhas da noite.

A alusão é precisa: aponta para a cosmogonia grega e mediterrânea. Os ritos da existência nuorense são pelo menos tão antigos quanto Homero. Mas, quando Satta conta como um artífice de pobreza declarada ergue barreiras contra a generosidade e a opulência natural do mundo, a entonação, as ironias são as dos satiristas romanos e dos modernos.
Outro capítulo de execução brilhante fala da chegada da iluminação elétrica a Nuoro, num entardecer gelado de outubro. A cidade toda se reuniu, desconfiada, com um vago ressentimento, até torcendo pelo pior:

E de repente, como numa aurora boreal, as velas se acenderam e a luz inundou todas as ruas, todo o caminho de San Pietro a Sèuna, uma torrente de luz entre as casas, que continuavam imersas na escuridão. Ergueu-se um enorme brado sobre a cidade, que sentia de alguma maneira misteriosa que havia ingressado na história. Então, transidas de frio e com os olhos cansados de tanto fitar, as pessoas se dispersaram aos poucos, voltando para suas casas ou choupanas. A luz continuou acesa sem qualquer finalidade. Começara a soprar o vento norte, e as lâmpadas pendentes da própria sombra no Corso começaram a oscilar tristemente, luz e sombra, sombra e luz, enervando a noite. Isso não acontecia com os lampiões a óleo.

Segue-se uma passagem ainda mais contundente. Os lampiões de Nuoro, agora indesejados a despeito das saudades, são vendidos a Oliena, uma aldeia do outro lado do vale. Quando cai a noite, os nuorenses se viram para olhar Oliena acendendo “uma lâmpada após a outra, que até dava para contá-las”, escreve Satta. “E quem sabe se as crianças de lá também não corriam atrás do acendedor de lampiões, catando os fósforos queimados.” Apenas em “Os mortos” de Joyce o passar do tempo é tão pungente.
É difícil resistir à tentação de fazer citações — dos briosos capítulos sobre imbróglios eclesiásticos e mortes rancorosas e solitárias, de um capítulo sobre a retórica política e as eleições em Nuoro, das análises sobre as transformações trazidas pelos que voltaram das cidades e das frentes de batalha de 1914-18. Mas o texto merece ser saboreado como um todo, e nenhuma leitura inicial permite nem remotamente avaliar o riso ou a desolação da obra. Na maioria das vezes, os dois são inseparáveis. À beira da morte, restam ao padre Porcu forças apenas para uma última oração na casa de Deus. Mal consegue subir a ladeira do Corso. Olhares curiosos seguem sua saída espectral. Então no silêncio ressoa a voz do padre: “Senhor, vês como estou velho e doente. Leva-me para junto a Ti. Não posso mais rezar a Missa nem ficar de pé. Senhor, leva-me para junto de Ti. E para o bem da Igreja, leva também o arcipreste Floris. Assim tudo ficará em paz”. O contraponto do original é incapturável: “Prendetevi anche l’arciprete. Così tutto sarà pace”.
A melhor introdução a esta obra-prima é a do próprio Salvatore Satta:

Como numa daquelas procissões absurdas no Paraíso de Dante, mas sem coros nem candelabros, os homens do meu povoado se enfileiram num desfile interminável. Todos me chamam, todos querem depositar o peso de suas vidas em minhas mãos, tendo terminado sua história, que não é história. Palavras de súplica ou raiva sussurram no vento por entre as touceiras de tomilho. Uma coroa de ferro pende de uma cruz quebrada. E talvez, enquanto penso na vida deles, pois estou escrevendo a vida deles, pensem em mim como algum deus ridículo, que os convocou para o dia do juízo para libertá-los definitivamente de suas memórias.

Ao leitor esta libertação não parecerá fácil, e tampouco ele quer que o seja.
19 de outubro de 1987

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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