Ao calor escaldante e pesado, as
rochas da Sardenha parecem a coluna vertebral de um sáurio
antediluviano. Aos primeiros raios de luz, o ar cintila e se evapora
do xisto opaco. Com o sol a pino, o ar é imóvel, mas cortante feito
uma farpa. Mesmo o mar fica em silêncio. Em terra, a luz incide
brutal nos súbitos vazios de sombra negra entre as casas tacanhas de
venezianas fechadas. O calor se infiltra nas sombras. Numa das
vértebras mais salientes daquela coluna dorsal ergue-se a vila de
Nuoro. Ainda mais acima, no topo de uma estrada calcinada e sinuosa,
fica Orgosolo, até hoje conhecida pelo impiedoso banditismo e pelos
infindáveis meandros de suas rixas cruentas. Minha esposa e eu nunca
tínhamos ido até aquele afamado sítio alcandorado. Quando saímos
do carro alugado em Nuoro, ficamos acachapados de calor, na fornalha
imóvel do meio-dia. E estávamos apenas em junho.
Há uma livraria em Nuoro. A maior
parte do estoque é de ficção barata e de revistas vagamente
berrantes. Mas no fundo há um canto melancólico de livros mais
antigos, entre eles velhas edições de Grazia Deledda, cujas obras
romantizadas e grandiloquentes sobre a vida sarda lhe valeram o
Prêmio Nobel em 1926. Eu tinha vindo procurar um item mais raro. Em
18 de maio de 1979, num café de Nuoro, houve um dibattito,
uma mesa-redonda debatendo um livro: Il Giorno del Giudizio [O
dia do juízo], de Salvatore Satta. Leonardo Sole, Maria Giacobbe e o
padre Giovanni Marchesi, S. J., apresentaram suas interpretações de
diversos aspectos da obra. Da plateia, Natalino Piras expôs una
lettura altra, “uma outra leitura”. Esses vários textos
foram publicados numa brochura de 29 páginas para a biblioteca
local, cujo nome homenageava outro membro da família Satta. Surpreso
com minha solicitação, o dono da livraria desencavou, desempoeirou
e me vendeu um exemplar que tinha toda a aparência de ser
praticamente o último restante.
Enquanto esperávamos que o calor
diminuísse pelo menos um pouco sua intensidade inclemente e mortal,
minha esposa e eu fomos ver o café (no livro, chamado Tettamanzi), o
Corso e o cemitério, em seu espigão retorcido de rocha alvejada.
Paramos na piazza S. Satta, com seus grupos de pedras pré-históricas
amontoadas. O hálito que sopra pela porta da fornalha do dia é de
absoluto silêncio. Quando a tarde, em horas mais avançadas,
desprende as sombras, elas se movem, escreveu Satta, “como um sonho
naquela terra crestada”. A ida até lá é árida e calcinante.
Nuoro é um local confinado. Mas realmente não existe outra maneira
de visualizar por completo uma das obras-primas da solidão na
literatura moderna, talvez em toda a literatura, a não ser visitando
Nuoro e sentindo sua estrutura óssea. A tradução de Patrick
Creagh, The Day of Judgement, ao meu ouvido e ao meu espírito,
não capta inteiramente o gênio da prosa de Satta — sua ferocidade
ebúrnea, o fogo lento que arde dentro da pedra. Mais próximos são
o latim de Tácito e o estilo de Hobbes. Mesmo assim, a
disponibilidade de Il Giorno del Giudizio em inglês é motivo
de gratidão e comemoração. Acrescentou-se um acorde fundamental ao
registro de nossos reconhecimentos.
A semelhança com Tácito e Hobbes não
é fortuita. Salvatore Satta (1902-75) passou a maior parte de sua
vida lecionando direito e jurisprudência em Roma, e sua
sensibilidade se formou na latinidade áspera e lapidar dos
historiadores romanos e do direito romano. Seu Commentario al
Codice di Procedura Civile é uma obra monumental e bibliografia
obrigatória nos estudos jurídicos italianos. A obra De
Profundis, com reminiscências lacônicas e aflitivas de
experiências da guerra, que Satta publicou em 1948, está imbuída
de latinidade e da dolorosa imagem tacitiana da loucura política
humana. Satta parece ter carregado dentro de si durante cinquenta
anos o material e a concepção de um livro sobre sua Nuoro natal e
um epílogo sonambúlico e esclerosado a seus costumes antigos.
Várias vezes deixou a obra de lado e prosseguiu na carreira
acadêmica. Il Giorno foi publicado apenas em 1979. É póstumo
não só porque foi lançado após a morte de Satta, mas também
porque, sob muitos aspectos, é um livro dos mortos e para os mortos.
Para um sardo, para um nuorense, há apenas um lugar capaz de receber
essa preciosidade: o cemitério.
Il Giorno é um livro de
difícil descrição. A voz estoica do cronista intervém e indaga a
si mesma se deve invocar de volta, numa presença espectral, os
episódios, os gestos, as dramatis personae de Nuoro antes e depois
da Primeira Guerra Mundial — se não caberia aos mortos, como diz
Cristo numa de suas prescrições mais enigmáticas e categóricas, a
tarefa de enterrar os mortos. Satta zomba da vaidade do
empreendimento, com suas pretensões de ressurreição. Ao mesmo
tempo, reconhece a reivindicação ao direito de lembrança — o
apelo gentil mas insistente dos finados à memória dos vivos.
Tirando Walter Benjamin, nenhum rememorador transmite com maior
pungência do que Salvatore Satta (note-se o augúrio de seu primeiro
nome) o direito dos vencidos, dos ridículos e dos exteriormente
insignificantes de ser lembrados com precisão. Nos climas
setentrionais, permite-se que sua vinda seja anunciada no murmúrio
das folhas uma vez por ano, na véspera de Todos os Santos. Em Nuoro,
essa noite se estende pelo ano todo. Os finados estão perpetuamente
ali, mendigando, suplicando as esmolas da memória. As respostas de
Satta são intrigantes: “Estou escrevendo essas páginas que
ninguém lerá, pois espero ter lucidez suficiente para destruí-las
antes de morrer”. Para quem ele está escrevendo, então? Para os
mortos, cuja audiência possui uma densidade palpável, que oferece a
Satta uma companhia amistosa no tempo e na terra crestada que nenhum
indivíduo numa communitas tradicional poderia ou tentaria
buscar.
A composição do texto, episódico e
ao mesmo tempo densamente cerrado, faz lembrar remotamente a de Spoon
River Anthology, de Edgar Lee Masters: há momentos de viva
sátira social, vozes pomposas ou tumultuadas, do tipo que ouvimos em
Under Milk Wood, de Dylan Thomas. Mas nem Masters, nem Thomas
têm a inteligência filosófica, a paciência dos sentimentos que
permitem a Satta criar uma forma quase impecável. Os pintores
oferecem uma analogia melhor. Os efeitos alcançados em Il Giorno
possuem a autoridade misteriosa que habita o ser das coisas num
Chardin, a luminosidade opaca que nos vem dos corpos humanos em La
Tour.
A casa e a família de don Sebastiano
Sanna Carboni formam o eixo do “romanzo antropologico” de
Satta (classificação dada por críticos italianos, mas correta
apenas se a “antropologia” contiver uma exposição fundamental e
filosófica da condição do homem nu). A família, ou clã, é
grande: ouvimos falar em sete filhos. Mas entre don Sebastiano e a
esposa donna Vincenza impera um silêncio cáustico, veemente. Os
jantares em família causam vertigens ao dono da casa. Ele come
sozinho, no aposento do andar de cima, onde pratica as artes sutis e
tenazes da advocacia e da consultoria jurídica. Os estudos
intermináveis dos filhos, a imemorial inércia nuorense que parece
correr em suas artérias enfurecem don Sebastiano. Os filhos dos
milionários na remota e fantasmagórica América não ganham a vida
na adolescência entregando jornais? Donna Vincenza, aguilhoada para
além do martírio pela gélida raiva do marido, pelas pressões do
trabalho doméstico, do monótono enclausuramento e das frustrações
carnais entorpecedoras como velhos sonhos repetidos sobre seu físico
ressequido, protesta. Os americanos “têm todos os confortos”,
diz ela. “Não são como nós.” A réplica do marido é uma das
frases mais brutais da literatura — é, literalmente, uma sentença
de morte: “Tu stai al mondo soltanto perchè c’è posto”
(“Estás no mundo só porque há lugar”). A tradução de Creagh
— “You’re only in this world because there’s room for you”
— é mais ou menos exata, mas fica aquém. No italiano, há a
conotação de um nicho obscuro, predestinado, onde as vidas
insignificantes e prisioneiras são encaixadas sem escapatória. E é
precisamente essa falta de escapatória que dá a tais vidas sua base
contingente de extrema humilhação.
Em certo sentido, toda a obra se
desenrola como uma espiral a partir deste veredicto apavorante. Em
Nuoro, pode-se dizer que quase todos, homens, mulheres e animais,
foram colocados nesse solo natal crestado exclusivamente porque havia
alguma rápida menção a eles no Livro do Juízo Final das obras e
dos dias. Maestro Fadda, com os traços dolorosos de um rei etrusco,
está lá para dar aulas no quarto e no quinto ano da escola de Nuoro
e para entreter os ociosos que passam seu tempo à toa no café.
Chischeddu “era um daqueles restos naufragados que por alguma razão
desconhecida vão dar às igrejas, e que por concessão de Deus ou do
vigário podem participar na vida do espírito como maceiros ou
sacristãos”. Fileddu, o retardado, é o bufão autorizado enquanto
os ventos sopram como chamas abafadas vindas da África. Alguma
dessas vidas narradas terá realidade? Tome-se Pietro Catte:
Não há a menor dúvida de que
Pietro Catte em abstrato não tem realidade, como nenhum outro homem
na face da terra. Mas resta o fato de que nasceu e morreu, como
provam essas certidões irrefutáveis. E isso lhe dota de uma
realidade de fato, porque o nascimento e a morte são os dois
momentos em que o infinito se faz finito; e o infinito não pode
existir a não ser através do finito. Pietro Catte tentou escapar à
realidade enforcando-se naquela árvore em Biscollai, mas foi em vão,
porque não se pode apagar o próprio nascimento. É por isso que eu
digo que Pietro Catte, como todos os infelizes personagens desta
história, é importante e deveria interessar a todos: se ele não
existe, nenhum de nós tampouco existe.
O imperativo não solicitado da
existência é suportado, certamente no mundo antes de 1914, de
maneira quase atemporal. Para os camponeses e os pastores das
montanhas, não existe passado nem futuro, apenas a coerção do
costume. As percepções e as alegrias carregam a paciência sem
profundidade de uma ordem das coisas antes da escrita. Satta inova; é
convincente em sua implícita análise das relações entre o mundo
analfabeto e pré-alfabetizado e a atemporalidade:
Donna Vincenza era extremamente
inteligente, mesmo que mal soubesse ler e escrever, e por isso
transbordava de amor, sem saber. Ela amava a mobília humilde da
casa, os bordados das fronhas, que costumava fazer com a mãe todos
os dias […]. Amava a cortita
da casa, com figos e tomates estendidos em tábuas a secar entre os
zumbidos cobiçosos das vespas e abelhas. E, mais que tudo, amava o
jardim, aonde ia colher flores e frutas, embora cada vez menos
conseguisse se firmar nas pernas inchadas. E tinha amado don
Sebastiano, o homem que viera lhe pedir a mão e a levaria para morar
em outra casa.
Mesmo para os muito bem letrados, como
os meninos de don Sebastiano e os padres ou advogados, os textos não
servem de impulso, como para nós. Livros velhos, digestos obsoletos,
comentários roídos de traças conservam a autoridade num presente
empoeirado. Os sinos, que desempenham um papel fascinante na
arquitetura de Il Giorno, tocam a imutabilidade. O noivado de
Ludovico e Celestina dura doze anos. Termina em separação. A
castidade se modula e se transforma imperceptivelmente na plenitude e
no consolo da perda.
Ainda assim, a narrativa pulsa
fervilhante de ações: majestosas, cômicas, violentas. Há suicídio
e há assassinato. As uvas da última colheita chegam ao pátio de
don Sebastiano em outubro — uma das “ondas de lembranças rolando
umas sobre as outras numa desordem absurda, como se a totalidade da
existência se concentrasse num único instante”. Escancaram-se os
portões “em austera expectativa” (expressão característica de
Satta). Os bois se arrastam com dificuldade, como se fossem mesmo
cegos. Esmagadas pelos cilindros da cuba cavernosa, as uvas
desprendem um perfume forte e inebriante que penetra na casa às
escuras:
Mas naquela massa multicor há uma
divindade oculta, pois não se passam muitas horas e aparece uma
franja púrpura líquida por toda a beirada, e então a massa se
levantará como se tomasse um fôlego gigantesco, e perderá sua
inocência, e um som baixo e gorgolejante trairá o fogo que a
consome […]. Tudo se passa à noite, porque vida e morte são
filhas da noite.
A alusão é precisa: aponta para a
cosmogonia grega e mediterrânea. Os ritos da existência nuorense
são pelo menos tão antigos quanto Homero. Mas, quando Satta conta
como um artífice de pobreza declarada ergue barreiras contra a
generosidade e a opulência natural do mundo, a entonação, as
ironias são as dos satiristas romanos e dos modernos.
Outro capítulo de execução
brilhante fala da chegada da iluminação elétrica a Nuoro, num
entardecer gelado de outubro. A cidade toda se reuniu, desconfiada,
com um vago ressentimento, até torcendo pelo pior:
E de repente, como numa aurora
boreal, as velas se acenderam e a luz inundou todas as ruas, todo o
caminho de San Pietro a Sèuna, uma torrente de luz entre as casas,
que continuavam imersas na escuridão. Ergueu-se um enorme brado
sobre a cidade, que sentia de alguma maneira misteriosa que havia
ingressado na história. Então, transidas de frio e com os olhos
cansados de tanto fitar, as pessoas se dispersaram aos poucos,
voltando para suas casas ou choupanas. A luz continuou acesa sem
qualquer finalidade. Começara a soprar o vento norte, e as lâmpadas
pendentes da própria sombra no Corso começaram a oscilar
tristemente, luz e sombra, sombra e luz, enervando a noite. Isso não
acontecia com os lampiões a óleo.
Segue-se uma passagem ainda mais
contundente. Os lampiões de Nuoro, agora indesejados a despeito das
saudades, são vendidos a Oliena, uma aldeia do outro lado do vale.
Quando cai a noite, os nuorenses se viram para olhar Oliena acendendo
“uma lâmpada após a outra, que até dava para contá-las”,
escreve Satta. “E quem sabe se as crianças de lá também não
corriam atrás do acendedor de lampiões, catando os fósforos
queimados.” Apenas em “Os mortos” de Joyce o passar do tempo é
tão pungente.
É difícil resistir à tentação de
fazer citações — dos briosos capítulos sobre imbróglios
eclesiásticos e mortes rancorosas e solitárias, de um capítulo
sobre a retórica política e as eleições em Nuoro, das análises
sobre as transformações trazidas pelos que voltaram das cidades e
das frentes de batalha de 1914-18. Mas o texto merece ser saboreado
como um todo, e nenhuma leitura inicial permite nem remotamente
avaliar o riso ou a desolação da obra. Na maioria das vezes, os
dois são inseparáveis. À beira da morte, restam ao padre Porcu
forças apenas para uma última oração na casa de Deus. Mal
consegue subir a ladeira do Corso. Olhares curiosos seguem sua saída
espectral. Então no silêncio ressoa a voz do padre: “Senhor, vês
como estou velho e doente. Leva-me para junto a Ti. Não posso mais
rezar a Missa nem ficar de pé. Senhor, leva-me para junto de Ti. E
para o bem da Igreja, leva também o arcipreste Floris. Assim tudo
ficará em paz”. O contraponto do original é incapturável:
“Prendetevi anche l’arciprete. Così tutto sarà pace”.
A melhor introdução a esta
obra-prima é a do próprio Salvatore Satta:
Como numa daquelas procissões
absurdas no Paraíso
de Dante, mas sem coros nem candelabros, os homens do meu povoado se
enfileiram num desfile interminável. Todos me chamam, todos querem
depositar o peso de suas vidas em minhas mãos, tendo terminado sua
história, que não é história. Palavras de súplica ou raiva
sussurram no vento por entre as touceiras de tomilho. Uma coroa de
ferro pende de uma cruz quebrada. E talvez, enquanto penso na vida
deles, pois estou escrevendo a vida deles, pensem em mim como algum
deus ridículo, que os convocou para o dia do juízo para libertá-los
definitivamente de suas memórias.
Ao leitor esta libertação não
parecerá fácil, e tampouco ele quer que o seja.
19 de outubro de 1987
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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