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No século XIV, os livros passaram das
mãos exclusivas da nobreza e do clero para as da burguesia. A
aristocracia tornou-se o modelo para os noveaux riches: Se os
nobres liam, então eles também leriam (habilidade que os burgueses
haviam adquirido na condição de comerciantes); se os nobres dormiam
sobre madeira esculpida e entre panos decorados, então eles também
o fariam. Ser visto como dono de livros e leitos ornamentados
tornou-se sinal de posição social. O quarto passou a ser não
apenas a dependência onde os burgueses dormiam e faziam amor mas o
repositório de bens colecionados – inclusive livros – que à
noite podiam ser guardados junto à fortaleza da cama. Além dos
livros, poucos objetos ficavam em exibição; a maioria permanecia em
baús e caixas, protegida da corrupção das traças e da ferrugem.
Do século XV ao XVII, o melhor leito
era o grande prêmio de uma propriedade confiscada.
Livros e camas eram bens móveis
valiosos (sabe-se que Shakespeare legou sua “segunda melhor cama”
à esposa, Anne Hathaway) que, diferentes da maioria das
propriedades, podiam ser possuídos individualmente por membros da
família. Numa época em que as mulheres tinham direito a
pouquíssimos bens pessoais, elas possuíam livros e os legavam às
filhas, com mais frequência do que aos filhos. Já em 1432, uma
certa Joanna Hilton, de Yorkshire, deixou um Romance, with the 10
commandments, um Romance of the seven sages e um Roman
de la rose para sua filha no testamento. A exceção eram os
livros de oração e Bíblias iluminadas – caros –, que
geralmente faziam parte do patrimônio da família e, portanto, da
herança do primogênito.
O Playfair book of hours, um
volume iluminado do final do século XV, francês, mostra em uma de
suas páginas o nascimento da Virgem. Santa Ana, a mãe da Virgem, é
apresentada ao bebê pela parteira. Ela é representada como uma dama
nobre, provavelmente não muito diferente da duquesa de Chaucer (na
Idade Média, a família de santa Ana adquiriu a reputação de ter
sido rica). A mãe da Virgem está sentada numa cama de meio dossel
coberta por uma colcha vermelha de padrões dourados. Está
completamente vestida, com um vestido azul bordado a ouro; de um modo
muito recatado, a cabeça e o pescoço estão cobertos com um manto
branco. (Somente do século XI ao XV é que as pessoas costumavam
dormir nuas; um contrato de casamento do século XIII estipulava que
– uma esposa não deve dormir de camisa sem o consentimento do
marido). Um lençol verde-limão – verde é a cor do nascimento, o
triunfo da primavera sobre o inverno – pende de ambos os lados da
cama. Um lençol branco está dobrado sobre a colcha vermelha; sobre
este lençol, no colo de santa Ana, encontra-se um livro aberto.
Contudo, apesar da intimidade sugerida pelo pequeno livro
(provavelmente um livro de orações), apesar das cortinas
protetoras, o quarto não parece um lugar muito privativo. A parteira
parece ter entrado bem à vontade; lembra-nos todas aquelas outras
pinturas do nascimento e morte de Maria, nas quais a cama é o tempo
todo cercada por gente que deseja sorte ou pranteia, homens, mulheres
e crianças; às vezes aparece até um cão, que, em um canto, bebe
distraidamente de uma bacia. Esse quarto de nascimento e da morte
vindoura não é um espaço que santa Ana tenha criado para si mesma.
Na Europa, nos séculos XVI e XVII, os
quartos de dormir – como quase todas as outras dependências da
casa – eram também corredores de passagem, de tal forma que não
garantiam necessariamente paz e tranquilidade para atividades como a
leitura. Mesmo a colocação de cortinas e de bens pessoais junto à
cama obviamente não bastava: uma cama requeria um quarto só para
ela. (Os chineses abastados dos XIV e XV tinham dois tipos de leito e
cada um criava um espaço privado próprio: o móvel k'ang,
que servia ao triplo propósito de plataforma de dormir, mesa e
assento, sendo às vezes aquecido por tubos que passavam por baixo
dele, e uma construção solta dividida em compartimentos, uma
espécie de quarto dentro de um quarto.)
No século XVIII, embora as camas
ainda não fossem espaços livres de perturbação, ficar na cama
para ler – em Paris, pelo menos – tornara-se tão comum que são
João Batista de La Sal e, o filantrópico educador francês
canonizado em 1900, advertiu contra os perigos pecaminosos desse
passatempo ocioso. “É de todo indecente e grosseiro tagarelar,
mexericar ou divertir-se ociosamente na cama”, escreveu ele em As
regras do decoro na civilidade cristã, publicado em 1703. “Não
imites certas pessoas que se dedicam à leitura e outros assuntos;
não fiques na cama se não for para dormir, e tua virtude muito
lucrará com isso.” E Jonathan Swift, mais ou menos na mesma época,
sugeria ironicamente que os livros lidos na cama deveriam ser
arejados: “No momento em que deixar as janelas abertas para
arejar”, avisa ele à camareira encarregada de limpar o quarto de
sua amante, “deixe livros ou outras coisas sobre o peitoril da
janela para que possam tomar ar também”. Na Nova Inglaterra, na
metade do século XVIII, a lâmpada Argand, aprimorada por Jefferson,
era tida como responsável pela promoção do hábito de ler na cama.
“Observou-se certa vez que os
jantares, antes iluminados por velas, deixaram de ser brilhantes como
antigamente”, porque quem se esmerava em conversar agora se
retirava para o quarto a fim de ler.
A privacidade completa no quarto, ou
mesmo na cama, ainda era difícil de conseguir.
Mesmo que a família fosse rica o
suficiente para ter camas e quartos de dormir individuais, as
convenções sociais exigiam que certas cerimônias coletivas
acontecessem ali. Por exemplo, era costume das damas “receber” em
seus quartos, completamente vestidas mas deitadas na cama, recostadas
numa multidão de travesseiros; os visitantes sentavam-se na ruel
e, ou ruela, entre a cama e a parede divisória. Antoine de Courtin,
no Novo tratado de civilidade tal como praticada na França por
gente honesta, recomendava severamente que as cortinas do leito
sejam mantidas fechadas", em obediência às leis da decência,
e observava ser “impróprio”, na presença de pessoas de quem não
se é superior, jogar-se na cama e dali conduzir uma conversação”.
Em Versalhes, o ritual de acordar o rei – o famoso lever du Roi
– tornou-se um procedimento altamente elaborado, no qual seis
diferentes níveis hierárquicos da nobreza revezavam-se entrando na
câmara real e realizando determinadas tarefas, tais como vestir –
ou tirar – a manga real esquerda ou direita e ler para os ouvidos
reais.
Mesmo o século XIX relutou em
reconhecer o quarto de dormir como um lugar privado.
Exigindo que se desse atenção a esse
“quarto de dormir, no qual se passa quase a metade da vida”, a
sra. Haweis, no capítulo “Um lar para os felizes” de seu
influente livro The art of house keeping [A arte de
administrar o lar], queixava-se de que "solteiros – por que
não noivas? - às vezes disfarçam e adornam o quarto, onde o espaço
é precioso, com sofás-camas, lavatórios Chippendale ou franceses
antigos ou palmeirinhas e mesas ciganas, de tal forma que ele pode
servir de passagem sem que ninguém suspeite que ali não dorme
apenas um canário. “Confie-nos”, escreveu Leigh Hunt em 1891, “a
um quarto de dormir da classe média, tal como foi estabelecido há
cerca de cem anos"; ali haveria "janelas com assentos,
vista para algum lugar verde”e “duas ou três pequenas
prateleiras de livros.”
Para Edith Wharton, a aristocrática
romancista americana, o quarto de dormir tornou-se o único refúgio
contra o formalismo do século XIX onde podia ler e escrever à
vontade.
“Visualizem a cama dela”, sugeriu
Cynthia Ozick numa discussão sobre a arte de Wharton. “Ela usava
uma prancha para escrever. Seu desjejum era trazido por Gross, a
criada que era quase a única a saber desse segredo mais íntimo do
quarto. (Uma secretária pegava as folhas no chão para
datilografar). De acordo com seu código, fora da cama ela teria de
estar adequadamente vestida, e isso significava espartilho. Na cama,
seu corpo ficava livre e liberava sua pena. Livres eram também suas
leituras; nesse espaço privado, não tinha de explicar às visitas
por que escolhera determinado livro ou o que pensava dele”. Tão
importante era esse lugar de trabalho horizontal que certa vez, no
hotel Esplanade, em Berlim, Wharton teve “um pequeno ataque de
histeria porque a cama em seu quarto de hotel não estava situada de
modo adequado; só depois que a puseram em frente à janela é que
ela se acalmou e começou a achar Berlim ‘incomparável’”.
Os constrangimentos sociais de Colette
diferiam daqueles impostos a Wharton, mas em sua vida pessoal a
sociedade também se intrometia constantemente. Na época, Wharton
era vista como alguém que escrevia – ao menos em parte – a
partir da autoridade que lhe era concedida por sua posição social.
Colette foi considerada muito mais “ultrajante, audaciosa,
perversa”, a tal ponto que, ao morrer, em 1954, a Igreja católica
recusou-lhe um enterro religioso. Nos últimos anos de vida, Colette
ficou na cama, levada pela doença mas também pelo desejo de ter um
espaço inteiramente criado por ela. Ali, em seu apartamento no
terceiro andar do Palais Royal, em seu radeau-lit – a “cama
jangada”, como a batizou –, ela dormia e comia, recebia os amigos e
conhecidos, telefonava, escrevia e lia. A princesa de Polignac
dera-lhe uma mesa que cabia exatamente sobre a cama e servia de
escrivaninha. Recostada em travesseiros, como na infância em
Saint-Sanveur-en-Puisaye, com os jardins simétricos do Palais Royal
estendendo-se através da janela à esquerda, e todos os seus
tesouros reunidos – objetos de vidro, biblioteca, gatos –
espalhando-se à direita. Colette lia e relia, no que chamava de sua
solitude en hauteur, os velhos livros que mais adorava.
Há uma fotografia dela tirada um ano
antes de sua morte, em seu octogésimo aniversário.
Colette está na cama e as mãos da
criada depositaram sobre sua mesa – que está cheia de revistas,
cartões e flores – um bolo de aniversário em chamas; elas se
elevam muito, alto para parecerem apenas velas, como se a velha
senhora estivesse acampada diante de uma fogueira familiar, como se o
bolo fosse um livro aceso, explodindo naquela escuridão buscada por
Proust para a literária. A cama tornou-se finalmente tão privativa,
tão íntima, agora é um mundo em si mesma, um mundo onde tudo é
possível.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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