domingo, 4 de janeiro de 2026

Leitura na intimidade


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No século XIV, os livros passaram das mãos exclusivas da nobreza e do clero para as da burguesia. A aristocracia tornou-se o modelo para os noveaux riches: Se os nobres liam, então eles também leriam (habilidade que os burgueses haviam adquirido na condição de comerciantes); se os nobres dormiam sobre madeira esculpida e entre panos decorados, então eles também o fariam. Ser visto como dono de livros e leitos ornamentados tornou-se sinal de posição social. O quarto passou a ser não apenas a dependência onde os burgueses dormiam e faziam amor mas o repositório de bens colecionados – inclusive livros – que à noite podiam ser guardados junto à fortaleza da cama. Além dos livros, poucos objetos ficavam em exibição; a maioria permanecia em baús e caixas, protegida da corrupção das traças e da ferrugem.
Do século XV ao XVII, o melhor leito era o grande prêmio de uma propriedade confiscada.
Livros e camas eram bens móveis valiosos (sabe-se que Shakespeare legou sua “segunda melhor cama” à esposa, Anne Hathaway) que, diferentes da maioria das propriedades, podiam ser possuídos individualmente por membros da família. Numa época em que as mulheres tinham direito a pouquíssimos bens pessoais, elas possuíam livros e os legavam às filhas, com mais frequência do que aos filhos. Já em 1432, uma certa Joanna Hilton, de Yorkshire, deixou um Romance, with the 10 commandments, um Romance of the seven sages e um Roman de la rose para sua filha no testamento. A exceção eram os livros de oração e Bíblias iluminadas – caros –, que geralmente faziam parte do patrimônio da família e, portanto, da herança do primogênito.
O Playfair book of hours, um volume iluminado do final do século XV, francês, mostra em uma de suas páginas o nascimento da Virgem. Santa Ana, a mãe da Virgem, é apresentada ao bebê pela parteira. Ela é representada como uma dama nobre, provavelmente não muito diferente da duquesa de Chaucer (na Idade Média, a família de santa Ana adquiriu a reputação de ter sido rica). A mãe da Virgem está sentada numa cama de meio dossel coberta por uma colcha vermelha de padrões dourados. Está completamente vestida, com um vestido azul bordado a ouro; de um modo muito recatado, a cabeça e o pescoço estão cobertos com um manto branco. (Somente do século XI ao XV é que as pessoas costumavam dormir nuas; um contrato de casamento do século XIII estipulava que – uma esposa não deve dormir de camisa sem o consentimento do marido). Um lençol verde-limão – verde é a cor do nascimento, o triunfo da primavera sobre o inverno – pende de ambos os lados da cama. Um lençol branco está dobrado sobre a colcha vermelha; sobre este lençol, no colo de santa Ana, encontra-se um livro aberto. Contudo, apesar da intimidade sugerida pelo pequeno livro (provavelmente um livro de orações), apesar das cortinas protetoras, o quarto não parece um lugar muito privativo. A parteira parece ter entrado bem à vontade; lembra-nos todas aquelas outras pinturas do nascimento e morte de Maria, nas quais a cama é o tempo todo cercada por gente que deseja sorte ou pranteia, homens, mulheres e crianças; às vezes aparece até um cão, que, em um canto, bebe distraidamente de uma bacia. Esse quarto de nascimento e da morte vindoura não é um espaço que santa Ana tenha criado para si mesma.
Na Europa, nos séculos XVI e XVII, os quartos de dormir – como quase todas as outras dependências da casa – eram também corredores de passagem, de tal forma que não garantiam necessariamente paz e tranquilidade para atividades como a leitura. Mesmo a colocação de cortinas e de bens pessoais junto à cama obviamente não bastava: uma cama requeria um quarto só para ela. (Os chineses abastados dos XIV e XV tinham dois tipos de leito e cada um criava um espaço privado próprio: o móvel k'ang, que servia ao triplo propósito de plataforma de dormir, mesa e assento, sendo às vezes aquecido por tubos que passavam por baixo dele, e uma construção solta dividida em compartimentos, uma espécie de quarto dentro de um quarto.)
No século XVIII, embora as camas ainda não fossem espaços livres de perturbação, ficar na cama para ler – em Paris, pelo menos – tornara-se tão comum que são João Batista de La Sal e, o filantrópico educador francês canonizado em 1900, advertiu contra os perigos pecaminosos desse passatempo ocioso. “É de todo indecente e grosseiro tagarelar, mexericar ou divertir-se ociosamente na cama”, escreveu ele em As regras do decoro na civilidade cristã, publicado em 1703. “Não imites certas pessoas que se dedicam à leitura e outros assuntos; não fiques na cama se não for para dormir, e tua virtude muito lucrará com isso.” E Jonathan Swift, mais ou menos na mesma época, sugeria ironicamente que os livros lidos na cama deveriam ser arejados: “No momento em que deixar as janelas abertas para arejar”, avisa ele à camareira encarregada de limpar o quarto de sua amante, “deixe livros ou outras coisas sobre o peitoril da janela para que possam tomar ar também”. Na Nova Inglaterra, na metade do século XVIII, a lâmpada Argand, aprimorada por Jefferson, era tida como responsável pela promoção do hábito de ler na cama.
Observou-se certa vez que os jantares, antes iluminados por velas, deixaram de ser brilhantes como antigamente”, porque quem se esmerava em conversar agora se retirava para o quarto a fim de ler.
A privacidade completa no quarto, ou mesmo na cama, ainda era difícil de conseguir.
Mesmo que a família fosse rica o suficiente para ter camas e quartos de dormir individuais, as convenções sociais exigiam que certas cerimônias coletivas acontecessem ali. Por exemplo, era costume das damas “receber” em seus quartos, completamente vestidas mas deitadas na cama, recostadas numa multidão de travesseiros; os visitantes sentavam-se na ruel e, ou ruela, entre a cama e a parede divisória. Antoine de Courtin, no Novo tratado de civilidade tal como praticada na França por gente honesta, recomendava severamente que as cortinas do leito sejam mantidas fechadas", em obediência às leis da decência, e observava ser “impróprio”, na presença de pessoas de quem não se é superior, jogar-se na cama e dali conduzir uma conversação”. Em Versalhes, o ritual de acordar o rei – o famoso lever du Roi – tornou-se um procedimento altamente elaborado, no qual seis diferentes níveis hierárquicos da nobreza revezavam-se entrando na câmara real e realizando determinadas tarefas, tais como vestir – ou tirar – a manga real esquerda ou direita e ler para os ouvidos reais.
Mesmo o século XIX relutou em reconhecer o quarto de dormir como um lugar privado.
Exigindo que se desse atenção a esse “quarto de dormir, no qual se passa quase a metade da vida”, a sra. Haweis, no capítulo “Um lar para os felizes” de seu influente livro The art of house keeping [A arte de administrar o lar], queixava-se de que "solteiros – por que não noivas? - às vezes disfarçam e adornam o quarto, onde o espaço é precioso, com sofás-camas, lavatórios Chippendale ou franceses antigos ou palmeirinhas e mesas ciganas, de tal forma que ele pode servir de passagem sem que ninguém suspeite que ali não dorme apenas um canário. “Confie-nos”, escreveu Leigh Hunt em 1891, “a um quarto de dormir da classe média, tal como foi estabelecido há cerca de cem anos"; ali haveria "janelas com assentos, vista para algum lugar verde”e “duas ou três pequenas prateleiras de livros.”
Para Edith Wharton, a aristocrática romancista americana, o quarto de dormir tornou-se o único refúgio contra o formalismo do século XIX onde podia ler e escrever à vontade.
Visualizem a cama dela”, sugeriu Cynthia Ozick numa discussão sobre a arte de Wharton. “Ela usava uma prancha para escrever. Seu desjejum era trazido por Gross, a criada que era quase a única a saber desse segredo mais íntimo do quarto. (Uma secretária pegava as folhas no chão para datilografar). De acordo com seu código, fora da cama ela teria de estar adequadamente vestida, e isso significava espartilho. Na cama, seu corpo ficava livre e liberava sua pena. Livres eram também suas leituras; nesse espaço privado, não tinha de explicar às visitas por que escolhera determinado livro ou o que pensava dele”. Tão importante era esse lugar de trabalho horizontal que certa vez, no hotel Esplanade, em Berlim, Wharton teve “um pequeno ataque de histeria porque a cama em seu quarto de hotel não estava situada de modo adequado; só depois que a puseram em frente à janela é que ela se acalmou e começou a achar Berlim ‘incomparável’”.
Os constrangimentos sociais de Colette diferiam daqueles impostos a Wharton, mas em sua vida pessoal a sociedade também se intrometia constantemente. Na época, Wharton era vista como alguém que escrevia – ao menos em parte – a partir da autoridade que lhe era concedida por sua posição social. Colette foi considerada muito mais “ultrajante, audaciosa, perversa”, a tal ponto que, ao morrer, em 1954, a Igreja católica recusou-lhe um enterro religioso. Nos últimos anos de vida, Colette ficou na cama, levada pela doença mas também pelo desejo de ter um espaço inteiramente criado por ela. Ali, em seu apartamento no terceiro andar do Palais Royal, em seu radeau-lit – a “cama jangada”, como a batizou , ela dormia e comia, recebia os amigos e conhecidos, telefonava, escrevia e lia. A princesa de Polignac dera-lhe uma mesa que cabia exatamente sobre a cama e servia de escrivaninha. Recostada em travesseiros, como na infância em Saint-Sanveur-en-Puisaye, com os jardins simétricos do Palais Royal estendendo-se através da janela à esquerda, e todos os seus tesouros reunidos  objetos de vidro, biblioteca, gatos – espalhando-se à direita. Colette lia e relia, no que chamava de sua solitude en hauteur, os velhos livros que mais adorava.
Há uma fotografia dela tirada um ano antes de sua morte, em seu octogésimo aniversário.
Colette está na cama e as mãos da criada depositaram sobre sua mesa  que está cheia de revistas, cartões e flores – um bolo de aniversário em chamas; elas se elevam muito, alto para parecerem apenas velas, como se a velha senhora estivesse acampada diante de uma fogueira familiar, como se o bolo fosse um livro aceso, explodindo naquela escuridão buscada por Proust para a literária. A cama tornou-se finalmente tão privativa, tão íntima, agora é um mundo em si mesma, um mundo onde tudo é possível.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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