quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Leitura do futuro



No ano de 1256, Vincent de Beauvais, homem de vasta cultura letrada, reuniu as opiniões de autores clássicos como Lactâncio e santo Agostinho e, baseado nos escritos deles, listou em sua enorme enciclopédia do mundo, o Speculum majus, o lugar de nascimento das dez sibilas da Antiguidade - Cumes, Cime, Delfos, Eritréia, o Helesponto, Líbia, Pérsia, Frígia, Samos e Tibur. As sibilas, explicava De Beauvais, eram mulheres que falavam por enigmas - palavras inspiradas pelos deuses e que os seres humanos deveriam decifrar. No século X, na Islândia, num monólogo poético conhecido como Voluspa, uma sibila murmurara estas palavras abruptas, como refrão dirigido ao leitor inquisitivo: “Bem, entendes? Ou não?”.
As sibilas eram imortais e quase eternas: uma declarou que começara a dar voz ao seu deus na sexta geração depois do Dilúvio; outra sustentava que era anterior ao próprio Dilúvio. Mas elas envelheciam. A sibila de Cumes, que, desgrenhada, peito arfante, coração arrebatado, conduzira Dnéias ao mundo subterrâneo, viveu durante séculos numa garrafa pendente no meio do ar, e quando as crianças lhe perguntavam o que queria, respondia: Quero morrer. As profecias sibilinas - muitas delas compostas com toda exatidão por algum inspirado poeta mortal depois dos eventos previstos - eram tidas por verdadeiras na Grécia, em Roma, na Palestina e na Europa cristã. Coligidas em nove livros, foram oferecidas pela própria sibila cumeana a Tarquínio, o Soberbo, sétimo e último rei de Roma. Ele se recusou a pagar, e a sibila tocou fogo em três dos volumes.
Novamente ele se recusou: ela queimou outros três. Por fim, o rei comprou os três livros remanescentes ao preço dos nove originais, e eles foram mantidos num baú dentro de um cofre de pedra sob o templo de Júpiter até serem consumidos pelo fogo, em 83 a.C.
Séculos depois, em Bizâncio, doze textos atribuídos às sibilas foram encontrados e reunidos em um único manuscrito; uma versão incompleta foi publicada em 1545.
A mais antiga e mais venerada das sibilas foi Herófila, que profetizou a Guerra de Tróia.
Apolo ofereceu-lhe qualquer presente que quisesse: ela pediu-lhe tantos anos de vida quanto os grãos de areia que segurava na mão. Infelizmente, tal como Títono, esqueceu-se de pedir também a juventude eterna. Herófila era conhecida como a sibila eritréia, e pelo menos duas cidades reivindicavam ser sua terra natal: Marpessos, onde é hoje a província turca de Canalckale (erytrea significa barro vermelho e a terra de Marpessos é vermelha), e Eritréia, mais ao sul, na Jônia, onde é atualmente a província de Izmir. No ano de 162, no começo das guerras contra os partos, Lúcio Aurélio Vero, que durante oito anos compartilhou o trono imperial romano com Marco Aurélio, aparentemente resolveu a questão: ignorando a reivindicação dos cidadãos de Marpessos, entrou na assim chamada Caverna da Sibila, na Eritréia jônica, e colocou ali duas estátuas, uma da sibila e outra da mãe dela, declarando em versos gravados na pedra: “Nenhuma outra é minha pátria, somente Eritréia”. A autoridade da Sibila de Eritréia ficou assim estabelecida.
No ano de 330, Flávio Valério Constantino, que a história lembraria como Constantino, o Grande, tendo derrotado seis anos antes o exército do imperador rival Licínio, afirmou sua posição de chefe do maior império do mundo mudando a capital das margens do Tibre para as margens do Bósforo, em Bizâncio. Para sublinhar o significado dessa mudança de margem, rebatizou a cidade de Nova Roma; a vaidade do imperador e a bajulação de seus cortesãos mudaram o nome novamente - para Constantinopla, a cidade de Constantino.
De modo a tornar a cidade adequada ao imperador, Constantino alargou a velha Bizâncio tanto física quanto espiritualmente. Sua língua era o grego; sua organização política era romana; sua religião – em grande medida graças à influência da mãe de Constantino, santa Helena - era cristã. Criado em Nicomédia, no Império Romano do Oriente, na corte de Diocleciano, Constantino familiarizara-se com boa parte da rica literatura latina da Roma clássica. No grego, sentia-se menos à vontade; quando mais tarde foi obrigado a fazer discursos em grego aos seus súditos, escrevia-os primeiro em latim e depois lia traduções preparadas por escravos cultos. A família de Constantino, originalmente da Ásia Menor, havia cultuado o sol como Apelo, o deus inconquistado, introduzido pelo imperador Aureliano como suprema divindade de Roma em 274. Foi do sol que Constantino recebeu uma visão da Cruz com o dístico In hoc vinces (“Com isto serás vitorioso”) antes de sua batalha contra Licínio; o símbolo da nova cidade de Constantino tornou-se a coroa com raios de sol, feita, assim se acreditava, com os pregos da Santa Cruz, que sua mãe desenterrara perto do morro do Calvário. Tão poderoso era o fulgor do deus Sol que, apenas dezessete anos após a morte de Constantino, a data do nascimento de Cristo o Natal — foi transferida para o solstício de inverno - o nascimento do sol.
Em 313, Constantino e Licínio (com quem Constantino compartilhava então o governo do império e a quem mais tarde trairia) encontraram-se em Milão para discutir "o bem-estar e a segurança do reino" e declararam, num edito famoso, que, "das coisas que são de proveito para toda a humanidade, a adoração a Deus deve ser justamente nossa primeira e principal preocupação, e é justo que cristãos e todos os outros tenham liberdade de seguir o tipo de religião que preferem”. Com esse edito de Milão, Constantino eliminou oficialmente do Império Romano a perseguição aos cristãos, que até ali tinham sido considerados proscritos e traidores, recebendo a punição correspondente. Mas os perseguidos transformaram-se em perseguidores: para afirmar a autoridade da nova religião estatal, vários líderes cristãos adotaram os métodos de seus velhos inimigos. Em Alexandria, por exemplo, onde se supunha que a lendária Catarina fora martirizada pelo imperador Maximíno numa roda circundada de pontas, em 361 o bispo em pessoa comandou o assalto ao templo de Mitra, o deus persa preferido pelos soldados e único competidor sério da religião de Cristo; em 391,o patriarca Teófilo pilhou o templo de Dionísio - o deus da fertilidade, cujo culto era celebrado em mistérios de grande sigilo - e incitou a multidão cristã a destruir a grande estátua do deus egípcio Serápis; em 415, o patriarca Cirilo ordenou a uma multidão de jovens cristãos que entrasse na casa da filósofa e matemática pagã Hipatia, arrastasse-a para a rua, esquartejasse-a e queimasse seus restos em praça pública. Deve-se dizer que o próprio Cirilo não era muito querido.
Depois de sua morte, em 444, um dos bispos de Alexandria pronunciou o seguinte panegírico fúnebre: “Finalmente este homem odioso está morto. Sua partida traz júbilo aos que lhe sobrevivem, mas está destinada a atormentar os mortos. Eles não demorarão muito a se fartar dele, mandando-o de volta para nós. Portanto, ponha uma pedra bem pesada sobre seu túmulo, para que não corramos o risco de vê-lo novamente, mesmo como fantasma”.
O cristianismo tornou-se, como a religião da poderosa deusa egípcia Ísis ou do Mitra persa, uma religião da moda, e na igreja cristã de Constantinopla, superada apenas pela de São Pedro em Roma, os devotos ricos iam e vinham entre os devotos pobres, desfilando uma tal quantidade de sedas e jóias (nas quais histórias cristãs esmaltadas ou bordadas haviam substituído os mitos dos deuses pagãos) que são João Crisóstomo, patriarca da igreja, parava nos degraus e seguia-os com olhares de censura. Os ricos queixavam-se em vão; depois de transfixá-los com os olhos, o santo começou a fustigá-los com a língua, denunciando do púlpito seus excessos. Era indecente, trovejava com eloquência (o nome Crisóstomo significa “língua de ouro”), que um único nobre fosse dono de dez ou vinte casas e até 2 mil escravos, e possuísse portas esculpidas em marfim, chãos de mosaicos coruscantes e moveis incrustados de pedras preciosas.
Mas o cristianismo estava longe de ser uma força política segura. Havia o perigo da Pérsia sassânida, que, antes uma nação de partos sem força, tornara-se um estado em expansão feroz e três séculos mais tarde conquistaria quase todo o Oriente romano.
Havia o perigo das heresias: os maniqueus, por exemplo, para quem o universo não era controlado por um deus onipotente, mas por dois poderes antagônicos, a exemplo dos cristãos tinham missionários e textos sagrados e estavam ganhando adeptos até no Turquestão e na China. Havia o perigo da dissensão política: Constâncio, o pai de Constantino, controlara apenas a parte oriental do Império Romano, e, nos recantos mais distantes do reino, havia administradores que estavam deixando de ser leais a Roma.
Havia o problema da inflação) alta, que Constantino piorou inundando o mercado com ouro expropriado dos templos pagãos. Havia os judeus, com seus livros e argumentos religiosos. E havia ainda os pagãos. Não era da tolerância pregada em seu próprio edito de Milão que Constantino precisava, mas de uma cristandade autoritária, rígida, sem evasivas, de longo alcance, com raízes profundas no passado e uma promessa inflexível para o futuro, estabelecida mediante poderes, leis e costumes terrenos para maior glória do imperador e de Deus.
Em maio de 325, em Nicéia, Constantino apresentou-se aos seus bispos como “o bispo das coisas externas” e declarou que suas recentes campanhas militares contra Licínio haviam sido “uma guerra contra o paganismo corrupto”. Graças aos seus feitos, Constantino seria visto a partir de então como um líder sancionado pelo poder divino, um emissário da própria divindade. (Quando morreu, em 337, foi enterrado em Constantinopla ao lado dos cenotáfios dos doze apóstolos, isto implicando que ele se tornara um décimo terceiro póstumo. Após sua morte, foi geralmente representado na iconografia eclesiástica recebendo a coroa imperial da mão de Deus.) Constantino percebeu que era necessário determinar a exclusividade da religião que escolhera para seu estado. Com tal propósito, decidiu brandir contra os pagãos os próprios heróis deles. Na Sexta-Feira Santa do mesmo ano de 325, em Antióquia, dirigiu-se a uma congregação de seguidores cristãos, entre eles bispos e teólogos, e falou-lhes sobre o que chamou de “verdade eterna do cristianismo”. A assembleia, que batizou de “Assembleia dos Santos”, disse: "Meu desejo é derivar, mesmo de fontes externas, um testemunho da natureza divina de Cristo. Pois, diante de tal testemunho, é evidente que mesmo aqueles que blasfemam Seu nome deverão reconhecer que Ele é Deus e o Filho de Deus, se de fato acreditarem nas palavras daqueles cujos sentimentos coincidem com os deles próprios". Para provar isso, Constantino invocou a sibila Eritréia.
O imperador contou à plateia de que modo a sibila, em tempos longínquos, fora entregue “pela insensatez de seus pais” ao serviço de Apolo, e de que modo. “no santuário de sua vã superstição”, ela respondera às perguntas dos seguidores de ApoIo. “Em certa ocasião, no entanto”, explicou ele, a sibila “ficou realmente cheia de inspiração do alto e declarou em versos proféticos os propósitos futuros de Deus, indicando claramente o advento de Jesus pelas letras iniciais de uma série de versos, os quais formavam um acróstico com estas palavras: JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS, SALVADOR, CRUZ.”
Constantino então declamou o poema da sibila.
Magicamente, o poema (cuja tradução começa com “Julgamento! (Os poros exsudantes da terra marcarão o dia”) contém de fato o acróstico divino. Para refutar todo e qualquer cético, Constantino imediatamente admitiu a explicação óbvia: “que alguém professando nossa fé e não estranho à arte poética foi o autor desses versos”. Mas descartou tal possibilidade: “A verdade, porém, nesse caso, é evidente, uma vez que a diligência de nossos compatriotas fez um cômputo cuidadoso dos tempos, não havendo espaço para suspeitar que esse poema tenha sido composto depois do advento e condenação de Cristo”. Ademais “Cícero conhecia esse poema, que traduziu para o latim e incorporou às suas próprias obras”. Infelizmente, o trecho em que Cícero menciona a sibila - a de Cumes, não a de Eritréia - não contém referências nem aos versos nem ao acróstico, sendo na verdade uma refutação das previsões proféticas. Todavia, essa maravilhosa revelação era tão conveniente que, durante muitos séculos, o mundo cristão aceitou a sibila entre seus antepassados. Santo Agostinho deu-lhe um lar entre os abençoados em sua Cidade de Deus. No final do século XII, os arquitetos da catedral de Laon esculpiram na fachada a sibila Eritréia (decapitada durante a Revolução Francesa) com suas tabuletas oraculares, no mesmo formato dos de Moisés, e inscreveram a seus pés a segunda linha do poema apócrifo. E, quatrocentos anos depois, Michelangelo colocou-a no teto da capela Sistina, como uma das quatro sibilas que complementavam os profetas do Velho Testamento.
A sibila era o oráculo pagão, e Constantino a fez falar em nome de Jesus Cristo. Em seguida o imperador voltou sua atenção para a poesia pagã e anunciou que o "príncipe dos poetas latinos" também fora inspirado por um Salvador que não poderia ter conhecido. Virgílio escrevera uma écloga em honra de seu patrono, Gaio Asínio Polião, fundador da primeira biblioteca pública de Roma; a écloga anunciava a chegada de uma nova idade de ouro, nascida sob o disfarce de um bebê:

Começa, doce menino! Com sorrisos tua mãe conhece,
Quem carregou teu peso durante dez longos meses.
Nenhum pai mortal sorriu quando nasceste;
Alegria nupcial ou deleite na Terra não conheceste.

Tradicionalmente, as profecias eram consideradas infalíveis; logo, era mais fácil mudar as circunstâncias históricas do que alterar as palavras da profecia. Um século antes, Ardachir, o primeiro rei sassânida, mudara a cronologia histórica para fazer uma profecia de Zoroastro beneficiar seu império. Zoroastro profetizara que o império e a religião persas seriam destruídos depois de mil anos. Ele vivera cerca de 250 anos antes de Alexandre, o Grande, que morrera 549 anos antes do reinado de Ardachír. Para acrescentar dois séculos à sua dinastia, o rei sassânida proclamou que havia começado a reinar apenas 260 anos depois de Alexandre. Constantino não alterou a história, nem as palavras proféticas: mandou traduzir Virgílio para o grego, com uma licença poética elástica que serviu a seus propósitos políticos.
Constantino leu trechos do poema traduzido para sua plateia e tudo o que a Bíblia contava estava lá, nas palavras antigas de Virgílio: a Virgem, o esperado Messias, os eleitos, o Espírito Santo. Constantino escolheu discretamente esquecer aqueles trechos em que Virgílio mencionava os deuses pagãos, Apolo, Pã e Saturno. Personagens antigos que não podiam ser omitidos tornaram-se metáforas da vinda de Cristo. “Outra Helena outras guerras criará, / E o grande Aquiles apressa o destino de Tróia", escrevera Virgílio. Isso, disse Constantino, era Cristo "fazendo guerra contra Tróia, entendendo por Tróia o próprio mundo”. Em outros casos, explicou Constantino ao seu público, as referências eram estratagemas com os quais Virgílio enganou as autoridades romanas.
Suponho”, disse ele (e podemos imaginá-lo baixando a voz depois de declamar Virgílio), “que tenha sido constrangido pelo sentimento de perigo que ameaçava quem atacasse a credibilidade da antiga prática religiosa. Com cuidado, portanto, e com segurança, tanto quanto possível, ele apresenta a verdade àqueles que têm faculdades para entendê-la.”
Aqueles que têm faculdades para entendê-la”: o texto tornou-se uma mensagem cífrada que só podia ser lida por uns poucos eleitos dotados das necessárias “faculdades”. Não estava aberto a qualquer interpretação; para Constantino, somente uma leitura era a verdadeira, e desta, somente ele e seus companheiros de crença tinham a chave. O edito de Milão oferecera liberdade de fé a todos os cidadãos romanos; o Concílio de Nicéia limitou essa liberdade àqueles que adotavam o credo de Constantino. Passados apenas doze anos, gente que ganhara em Milão o direito público de ler o que quisesse e como quisesse agora era informada, em Antióquia e Nicéia, de que somente uma leitura era verdadeira, sob pena de punição legal. Estipular uma leitura única para um texto religioso era necessário, segundo a concepção de Constantino de um império unânime. Mais original e menos compreensível é a noção de uma única leitura ortodoxa para um texto secular como os poemas de Virgílio.
Cada leitor confere a certos livros uma certa leitura, embora não tão forçada nem com tantas consequências como as de Constantino. Ver uma parábola do exílio em O mágico de Oz, como faz Salman Rushdie, é muito diferente de transformar um texto de Virgílio numa profecia da vinda de Cristo. E, contudo, algo da mesma prestidigitação ou expressão de fé ocorre em ambas as leituras, algo que permite aos leitores, se não forem convincentes, pelo menos mostrarem-se convencidos. Aos treze ou catorze anos, desenvolvi um anseio literário por Londres e lia as histórias de Sherlock Holmes com a absoluta certeza de que a sala enfumaçada da Baker Street, com suas chinelas turcas para tabaco e sua mesa manchada de produtos químicos perigosos, parecia-se fielmente com as moradas que eu teria quando também estivesse na Arcádia. As criaturas antipáticas que Alice encontrava no outro lado do espelho, petulantes, peremptórias e sempre resmungonas, prenunciaram muitos dos adultos da minha vida de adolescente. E quando Robinson Crusoe começou a construir sua cabana, " uma Barraca sob o Flanco de uma Rocha, cercada com uma forte Paliçada de Postes e Cabos", sem dúvida estava descrevendo a que eu construiria num verão, na praia de Punta del Este. A romancista Anita Desai, que na Índia, quando criança, era conhecida em família como uma Lese Ratte, ou “rata de biblioteca”, lembra que, ao descobrir O morro dos ventos uivantes, com nove anos de idade, seu próprio mundo, “um bangalô da Velha Déli, com suas varandas, suas paredes de gesso e ventiladores de teto, seu jardim de mamoeiros e goiabeiras cheio de periquitos estridentes, a poeira arenosa que se depositava nas páginas de um livro antes que se pudesse virá-las, tudo sumia. O que se tornava real, deslumbrantemente real, pelo poder e pela magia da pena de Emily Brontê, eram as charnecas de Yorkshire, o urzal assolado pela tempestade, os tormentos de seus angustiados habitantes que vagam sob chuva e saraiva, clamando das profundezas de seus corações partidos e ouvindo apenas respostas de fantasmas”. As palavras que Emily Brontê escolheu para descrever uma menina na Inglaterra em 1847 serviram para iluminar uma menina na Índia em 1946.
A utilização de passagens aleatórias de livros para prever o futuro tem uma longa tradição no Ocidente, e, bem antes de Constantino, Virgílio era a fonte preferida de adivinhação pagã no império; cópias de seus poemas eram mantidas para consulta em vários templos dedicados à deusa Fortuna. A primeira referência a esse costume, conhecido como sortes Vergilianae, aparece na vida de Adriano escrita por Élio Espartiano; o jovem Adriano, desejando saber o que o imperador Trajano achava dele, consultou a Eneida aleatoriamente e encontrou as linhas nas quais Enéias vê “o rei romano cujas leis deverão renovar Roma”. Adriano ficou satisfeito; Trajano de fato adotou-o como filho e ele se tornou o novo imperador de Roma.
Ao encorajar uma nova versão das sortes Vergilianae. Constantino estava seguindo uma tendência de seu tempo. No final do século IV, o prestígio atribuído a oráculos falados e adivinhos fora transferido para a palavra escrita, para Virgílio e também para a Bíblia - desenvolvera-se uma forma de adivinhação conhecida como "cleromancia dos evangelhos". Quatro séculos mais tarde, a arte da adivinhação, que havia sido proscrita no tempo dos profetas "porque o Senhor, teu Deus, abomina aqueles que se dão a essas práticas", tornara-se tão popular que em 829 o Concílio de Paris teve de condená-la oficialmente. Em vão. Escrevendo uma memória pessoal em latim, publicada em 1434 numa tradução francesa, o erudito Gaspar Peucer confessou que, quando criança, confeccionara “um livro de papel e escrevera nele os principais versos divinatórios de Virgílio, dos quais tirava conjeturas por simples brincadeira - sobre tudo o que achava interessante, como a vida e morte de príncipes, sobre minhas aventuras e sobre outras coisas, a fim de imprimir melhor e de um modo mais vívido aqueles versos em minha mente”. Peucer insistia que o jogo tinha uma intenção mnemônica e não divinatória, mas o contexto torna difícil aceitar seus protestos.
No século XVI, o jogo divinatório ainda estava tão firmemente estabelecido que Rabelais pôde parodiar o costume no conselho de Pantagruel a Panurgo sobre casar ou não.
Panurgo, diz Pantagruel, deve recorrer às sortes Vergilianae. O método correto, explica, é o seguinte: escolhe-se uma página abrindo o livro aleatoriamente; então jogam-se três dados e a soma deles indica a linha da página. Quando o método éposto em prática, Pantagruel e Panurgo chegam a interpretações opostas e igualmente possíveis dos versos.
Bomarzo, o enorme romance sobre a Renascença italiana do argentino Manuel Mujica Láinez, faz alusão a como a sociedade do século XVII estava familiarizada com as adivinhações por meio de Virgílio: “Eu confiava meu destino à decisão de outros deuses, mais soberanos que os Orsíni, por meio das sortes Vergílianae. Em Bomarzo costumávamos praticar essa forma popular de adivinhação, que confiava a resolução de problemas difíceis ou triviais ao oráculo fortuito de um livro. Não corria o sangue dos mágicos nas veias de Virgílio? Não o considerávamos, graças ao encanto de Dante, um mago, um adivinho. Eu me submetia ao que a Eneida decretava”.
O exemplo mais famoso das sortes talvez seja o do rei Carlos I em visita a uma biblioteca em Oxford durante as guerras civis, no final de 1642 ou começo de 1643. Para diverti-lo, lorde Falkland sugeriu que o rei fizesse “uma experiência de ler sua fortuna nas sortes Vergilianae, que, como todo o mundo sabe, era um tipo comum de augúrio em épocas passadas”. O rei abriu o volume no livro IV da Eneida e leu: “Que ele seja arrasado na guerra por tribos audaciosas e exilado de sua própria terra”. Na terça-feira, 30 de janeiro de 1649, condenado como traidor por seu próprio povo. Carlos I foi decapitado em Whitehal.
Cerca de setenta anos depois, Robinson Crusoe ainda se valia de um método semelhante em sua ilha inóspita. “Certa manhã”, escreveu ele, “estando muito triste, abri a Bíblia nestas palavras: Jamais vos deixarei, nem vos desertarei. Imediatamente ocorreu-me que essas palavras eram para mim. A quem mais deveriam se dirigir de tal maneira, justamente no momento em que eu lamentava minha condição, como alguém abandonado por Deus e pelos homens?” E 150 anos depois disso, Bathsheba ainda recorria à Bíblia para descobrir se deveria casar com o sr. Boldwood, em Far from the madding crowd [Longe da multidão insensata].
Robert Louis Stevenson observou com argúcia que o dom oracular de um escritor como Virgilio tem menos a ver com dons sobrenaturais do que com as qualidades miméticas da poesia, as quais permitem que, de maneira íntima e poderosa, um verso faça sinais aos leitores através dos tempos. Em The ebb tide [A maré vazante], uma das personagens de Stevenson, perdida numa ilha distante, busca conhecer sua sorte num exemplar esfarrapado de Virgílio, e o poeta, respondendo da página “com voz não muito segura ou encorajadora”, desperta no abandonado visões de sua terra natal. “Pois é o destino daqueles escritores graves, controlados e clássicos”, escreve Stevenson, “com quem travamos relações forçadas e amiúde dolorosas na escola, entrar no sangue e tornar-se nativo na memória; assim, uma frase de Virgílio fala não tanto de Mântua ou de Augusto, mas de lugares ingleses e da irrevogável juventude do estudante.”
Constantino foi o primeiro a ler significados cristãos proféticos em Virgílio, e através dessa leitura o poeta latino tornou-se o mais prestigioso de todos os escritores oraculares. De poeta imperial a visionário cristão, Virgílio assumiu um papel importante na mitologia cristã, o que lhe permitiu, dez séculos depois do elogio de Constantino, guiar Dante pelo inferno e purgatório. Seu prestígio alcançou até o passado: uma história preservada em versos na missa latina medieval conta que o próprio são Paulo viajou a Nápoles para chorar sobre o túmulo do poeta da Antiguidade.
O que Constantino descobriu naquela distante Sexta-Feira Santa, e para todo o sempre, é que o significado de um texto é ampliado pelas capacidades e desejos do leitor Diante de um texto, o leitor pode transformar as palavras numa mensagem que decifra para ele alguma questão historicamente não relacionada ao próprio texto ou a seu autor. Essa transmigração de significado pode enriquecer ou empobrecer o texto; invariavelmente o impregna com as circunstâncias do leitor Por meio de ignorância, fé, inteligência, trapaça, astúcia, iluminação, o leitor reescreve o texto com as mesmas palavras do original, mas sob outro título, recriando-o, por assim dizer, no próprio ato de trazê-lo à existência.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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