No ano de 1256, Vincent de Beauvais,
homem de vasta cultura letrada, reuniu as opiniões de autores
clássicos como Lactâncio e santo Agostinho e, baseado nos escritos
deles, listou em sua enorme enciclopédia do mundo, o Speculum
majus, o lugar de nascimento das dez sibilas da Antiguidade -
Cumes, Cime, Delfos, Eritréia, o Helesponto, Líbia, Pérsia,
Frígia, Samos e Tibur. As sibilas, explicava De Beauvais, eram
mulheres que falavam por enigmas - palavras inspiradas pelos deuses e
que os seres humanos deveriam decifrar. No século X, na Islândia,
num monólogo poético conhecido como Voluspa, uma sibila murmurara
estas palavras abruptas, como refrão dirigido ao leitor inquisitivo:
“Bem, entendes? Ou não?”.
As sibilas eram imortais e quase
eternas: uma declarou que começara a dar voz ao seu deus na sexta
geração depois do Dilúvio; outra sustentava que era anterior ao
próprio Dilúvio. Mas elas envelheciam. A sibila de Cumes, que, “desgrenhada, peito arfante, coração arrebatado”,
conduzira Dnéias ao mundo subterrâneo, viveu durante séculos numa
garrafa pendente no meio do ar, e quando as crianças lhe perguntavam
o que queria, respondia: “Quero morrer”. As profecias
sibilinas - muitas delas compostas com toda exatidão por algum
inspirado poeta mortal depois dos eventos previstos - eram tidas por
verdadeiras na Grécia, em Roma, na Palestina e na Europa cristã.
Coligidas em nove livros, foram oferecidas pela própria sibila
cumeana a Tarquínio, o Soberbo, sétimo e último rei de Roma. Ele
se recusou a pagar, e a sibila tocou fogo em três dos volumes.
Novamente ele se recusou: ela queimou
outros três. Por fim, o rei comprou os três livros remanescentes ao
preço dos nove originais, e eles foram mantidos num baú dentro de
um cofre de pedra sob o templo de Júpiter até serem consumidos
pelo fogo, em 83 a.C.
Séculos depois, em Bizâncio, doze
textos atribuídos às sibilas foram encontrados e reunidos em um
único manuscrito; uma versão incompleta foi publicada em 1545.
A mais antiga e mais venerada das
sibilas foi Herófila, que profetizou a Guerra de Tróia.
Apolo ofereceu-lhe qualquer presente
que quisesse: ela pediu-lhe tantos anos de vida quanto os grãos de
areia que segurava na mão. Infelizmente, tal como Títono,
esqueceu-se de pedir também a juventude eterna. Herófila era
conhecida como a sibila eritréia, e pelo menos duas cidades
reivindicavam ser sua terra natal: Marpessos, onde é hoje a
província turca de Canalckale (erytrea significa “barro
vermelho” e a terra de Marpessos é vermelha), e Eritréia, mais
ao sul, na Jônia, onde é atualmente a província de Izmir. No ano
de 162, no começo das guerras contra os partos, Lúcio Aurélio
Vero, que durante oito anos compartilhou o trono imperial romano com
Marco Aurélio, aparentemente resolveu a questão: ignorando a
reivindicação dos cidadãos de Marpessos, entrou na assim chamada
Caverna da Sibila, na Eritréia jônica, e colocou ali duas estátuas,
uma da sibila e outra da mãe dela, declarando em versos gravados na
pedra: “Nenhuma outra é minha pátria, somente Eritréia”. A
autoridade da Sibila de Eritréia ficou assim estabelecida.
No ano de 330, Flávio Valério
Constantino, que a história lembraria como Constantino, o Grande,
tendo derrotado seis anos antes o exército do imperador rival
Licínio, afirmou sua posição de chefe do maior império do mundo
mudando a capital das margens do Tibre para as margens do Bósforo,
em Bizâncio. Para sublinhar o significado dessa mudança de margem,
rebatizou a cidade de Nova Roma; a vaidade do imperador e a bajulação
de seus cortesãos mudaram o nome novamente - para Constantinopla, a
cidade de Constantino.
De modo a tornar a cidade adequada ao
imperador, Constantino alargou a velha Bizâncio tanto física quanto
espiritualmente. Sua língua era o grego; sua organização política
era romana; sua religião – em grande medida graças à influência
da mãe de Constantino, santa Helena - era cristã. Criado em
Nicomédia, no Império Romano do Oriente, na corte de Diocleciano,
Constantino familiarizara-se com boa parte da rica literatura latina
da Roma clássica. No grego, sentia-se menos à vontade; quando mais
tarde foi obrigado a fazer discursos em grego aos seus súditos,
escrevia-os primeiro em latim e depois lia traduções preparadas por
escravos cultos. A família de Constantino, originalmente da Ásia
Menor, havia cultuado o sol como Apelo, o deus inconquistado,
introduzido pelo imperador Aureliano como suprema divindade de Roma
em 274. Foi do sol que Constantino recebeu uma visão da Cruz com o
dístico In hoc vinces (“Com isto serás vitorioso”) antes
de sua batalha contra Licínio; o símbolo da nova cidade de
Constantino tornou-se a coroa com raios de sol, feita, assim se
acreditava, com os pregos da Santa Cruz, que sua mãe desenterrara
perto do morro do Calvário. Tão poderoso era o fulgor do deus Sol
que, apenas dezessete anos após a morte de Constantino, a data do
nascimento de Cristo o Natal — foi transferida para o solstício de
inverno - o nascimento do sol.
Em 313, Constantino e Licínio (com
quem Constantino compartilhava então o governo do império e a quem
mais tarde trairia) encontraram-se em Milão para discutir "o
bem-estar e a segurança do reino" e declararam, num edito
famoso, que, "das coisas que são de proveito para toda a
humanidade, a adoração a Deus deve ser justamente nossa primeira e
principal preocupação, e é justo que cristãos e todos os outros
tenham liberdade de seguir o tipo de religião que preferem”. Com
esse edito de Milão, Constantino eliminou oficialmente do Império
Romano a perseguição aos cristãos, que até ali tinham sido
considerados proscritos e traidores, recebendo a punição
correspondente. Mas os perseguidos transformaram-se em perseguidores:
para afirmar a autoridade da nova religião estatal, vários líderes
cristãos adotaram os métodos de seus velhos inimigos. Em
Alexandria, por exemplo, onde se supunha que a lendária Catarina
fora martirizada pelo imperador Maximíno numa roda circundada de
pontas, em 361 o bispo em pessoa comandou o assalto ao templo de
Mitra, o deus persa preferido pelos soldados e único competidor
sério da religião de Cristo; em 391,o patriarca Teófilo pilhou o
templo de Dionísio - o deus da fertilidade, cujo culto era celebrado
em mistérios de grande sigilo - e incitou a multidão cristã a
destruir a grande estátua do deus egípcio Serápis; em 415, o
patriarca Cirilo ordenou a uma multidão de jovens cristãos que
entrasse na casa da filósofa e matemática pagã Hipatia,
arrastasse-a para a rua, esquartejasse-a e queimasse seus restos em
praça pública. Deve-se dizer que o próprio Cirilo não era muito
querido.
Depois de sua morte, em 444, um dos
bispos de Alexandria pronunciou o seguinte panegírico fúnebre:
“Finalmente este homem odioso está morto. Sua partida traz júbilo
aos que lhe sobrevivem, mas está destinada a atormentar os mortos.
Eles não demorarão muito a se fartar dele, mandando-o de volta para
nós. Portanto, ponha uma pedra bem pesada sobre seu túmulo, para
que não corramos o risco de vê-lo novamente, mesmo como fantasma”.
O cristianismo tornou-se, como a
religião da poderosa deusa egípcia Ísis ou do Mitra persa, uma
religião da moda, e na igreja cristã de Constantinopla, superada
apenas pela de São Pedro em Roma, os devotos ricos iam e vinham
entre os devotos pobres, desfilando uma tal quantidade de sedas e
jóias (nas quais histórias cristãs esmaltadas ou bordadas haviam
substituído os mitos dos deuses pagãos) que são João Crisóstomo,
patriarca da igreja, parava nos degraus e seguia-os com olhares de
censura. Os ricos queixavam-se em vão; depois de transfixá-los com
os olhos, o santo começou a fustigá-los com a língua, denunciando
do púlpito seus excessos. Era indecente, trovejava com eloquência
(o nome Crisóstomo significa “língua de ouro”), que um único
nobre fosse dono de dez ou vinte casas e até 2 mil escravos, e
possuísse portas esculpidas em marfim, chãos de mosaicos
coruscantes e moveis incrustados de pedras preciosas.
Mas o cristianismo estava longe de ser
uma força política segura. Havia o perigo da Pérsia sassânida,
que, antes uma nação de partos sem força, tornara-se um estado em
expansão feroz e três séculos mais tarde conquistaria quase todo o
Oriente romano.
Havia o perigo das heresias: os
maniqueus, por exemplo, para quem o universo não era controlado por
um deus onipotente, mas por dois poderes antagônicos, a exemplo dos
cristãos tinham missionários e textos sagrados e estavam ganhando
adeptos até no Turquestão e na China. Havia o perigo da dissensão
política: Constâncio, o pai de Constantino, controlara apenas a
parte oriental do Império Romano, e, nos recantos mais distantes do
reino, havia administradores que estavam deixando de ser leais a
Roma.
Havia o problema da inflação) alta,
que Constantino piorou inundando o mercado com ouro expropriado dos
templos pagãos. Havia os judeus, com seus livros e argumentos
religiosos. E havia ainda os pagãos. Não era da tolerância pregada
em seu próprio edito de Milão que Constantino precisava, mas de uma
cristandade autoritária, rígida, sem evasivas, de longo alcance,
com raízes profundas no passado e uma promessa inflexível para o
futuro, estabelecida mediante poderes, leis e costumes terrenos para
maior glória do imperador e de Deus.
Em maio de 325, em Nicéia,
Constantino apresentou-se aos seus bispos como “o bispo das coisas
externas” e declarou que suas recentes campanhas militares contra
Licínio haviam sido “uma guerra contra o paganismo corrupto”.
Graças aos seus feitos, Constantino seria visto a partir de então
como um líder sancionado pelo poder divino, um emissário da própria
divindade. (Quando morreu, em 337, foi enterrado em Constantinopla ao
lado dos cenotáfios dos doze apóstolos, isto implicando que ele se
tornara um décimo terceiro póstumo. Após sua morte, foi geralmente
representado na iconografia eclesiástica recebendo a coroa imperial
da mão de Deus.) Constantino percebeu que era necessário determinar
a exclusividade da religião que escolhera para seu estado. Com tal
propósito, decidiu brandir contra os pagãos os próprios heróis
deles. Na Sexta-Feira Santa do mesmo ano de 325, em Antióquia,
dirigiu-se a uma congregação de seguidores cristãos, entre eles
bispos e teólogos, e falou-lhes sobre o que chamou de “verdade
eterna do cristianismo”. A assembleia, que batizou de “Assembleia
dos Santos”, disse: "Meu desejo é derivar, mesmo de fontes
externas, um testemunho da natureza divina de Cristo. Pois, diante de
tal testemunho, é evidente que mesmo aqueles que blasfemam Seu nome
deverão reconhecer que Ele é Deus e o Filho de Deus, se de fato
acreditarem nas palavras daqueles cujos sentimentos coincidem com os
deles próprios". Para provar isso, Constantino invocou a sibila
Eritréia.
O imperador contou à plateia de que
modo a sibila, em tempos longínquos, fora entregue “pela
insensatez de seus pais” ao serviço de Apolo, e de que modo. “no
santuário de sua vã superstição”, ela respondera às perguntas
dos seguidores de ApoIo. “Em certa ocasião, no entanto”,
explicou ele, a sibila “ficou realmente cheia de inspiração do
alto e declarou em versos proféticos os propósitos futuros de Deus,
indicando claramente o advento de Jesus pelas letras iniciais de uma
série de versos, os quais formavam um acróstico com estas palavras:
JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS, SALVADOR, CRUZ.”
Constantino então declamou o poema da
sibila.
Magicamente, o poema (cuja tradução
começa com “Julgamento! (Os poros exsudantes da terra marcarão o
dia”) contém de fato o acróstico divino. Para refutar todo e
qualquer cético, Constantino imediatamente admitiu a explicação
óbvia: “que alguém professando nossa fé e não estranho à arte
poética foi o autor desses versos”. Mas descartou tal
possibilidade: “A verdade, porém, nesse caso, é evidente, uma vez
que a diligência de nossos compatriotas fez um cômputo cuidadoso
dos tempos, não havendo espaço para suspeitar que esse poema tenha
sido composto depois do advento e condenação de Cristo”. Ademais
“Cícero conhecia esse poema, que traduziu para o latim e
incorporou às suas próprias obras”. Infelizmente, o trecho em que
Cícero menciona a sibila - a de Cumes, não a de Eritréia - não
contém referências nem aos versos nem ao acróstico, sendo na
verdade uma refutação das previsões proféticas. Todavia, essa
maravilhosa revelação era tão conveniente que, durante muitos
séculos, o mundo cristão aceitou a sibila entre seus antepassados.
Santo Agostinho deu-lhe um lar entre os abençoados em sua Cidade de
Deus. No final do século XII, os arquitetos da catedral de Laon
esculpiram na fachada a sibila Eritréia (decapitada durante a
Revolução Francesa) com suas tabuletas oraculares, no mesmo formato
dos de Moisés, e inscreveram a seus pés a segunda linha do poema
apócrifo. E, quatrocentos anos depois, Michelangelo colocou-a no
teto da capela Sistina, como uma das quatro sibilas que
complementavam os profetas do Velho Testamento.
A sibila era o oráculo pagão, e
Constantino a fez falar em nome de Jesus Cristo. Em seguida o
imperador voltou sua atenção para a poesia pagã e anunciou que o
"príncipe dos poetas latinos" também fora inspirado por
um Salvador que não poderia ter conhecido. Virgílio escrevera uma
écloga em honra de seu patrono, Gaio Asínio Polião, fundador da
primeira biblioteca pública de Roma; a écloga anunciava a chegada
de uma nova idade de ouro, nascida sob o disfarce de um bebê:
Começa, doce menino! Com sorrisos
tua mãe conhece,
Quem carregou teu peso durante dez
longos meses.
Nenhum pai mortal sorriu quando
nasceste;
Alegria nupcial ou deleite na Terra
não conheceste.
Tradicionalmente, as profecias eram
consideradas infalíveis; logo, era mais fácil mudar as
circunstâncias históricas do que alterar as palavras da profecia.
Um século antes, Ardachir, o primeiro rei sassânida, mudara a
cronologia histórica para fazer uma profecia de Zoroastro beneficiar
seu império. Zoroastro profetizara que o império e a religião
persas seriam destruídos depois de mil anos. Ele vivera cerca de 250
anos antes de Alexandre, o Grande, que morrera 549 anos antes do
reinado de Ardachír. Para acrescentar dois séculos à sua dinastia,
o rei sassânida proclamou que havia começado a reinar apenas 260
anos depois de Alexandre. Constantino não alterou a história, nem
as palavras proféticas: mandou traduzir Virgílio para o grego, com
uma licença poética elástica que serviu a seus propósitos
políticos.
Constantino leu trechos do poema
traduzido para sua plateia e tudo o que a Bíblia contava estava lá,
nas palavras antigas de Virgílio: a Virgem, o esperado Messias, os
eleitos, o Espírito Santo. Constantino escolheu discretamente
esquecer aqueles trechos em que Virgílio mencionava os deuses
pagãos, Apolo, Pã e Saturno. Personagens antigos que não podiam
ser omitidos tornaram-se metáforas da vinda de Cristo. “Outra
Helena outras guerras criará, / E o grande Aquiles apressa o destino
de Tróia", escrevera Virgílio. Isso, disse Constantino, era
Cristo "fazendo guerra contra Tróia, entendendo por Tróia o
próprio mundo”. Em outros casos, explicou Constantino ao seu
público, as referências eram estratagemas com os quais Virgílio
enganou as autoridades romanas.
“Suponho”, disse ele (e podemos
imaginá-lo baixando a voz depois de declamar Virgílio), “que
tenha sido constrangido pelo sentimento de perigo que ameaçava quem
atacasse a credibilidade da antiga prática religiosa. Com cuidado,
portanto, e com segurança, tanto quanto possível, ele apresenta a
verdade àqueles que têm faculdades para entendê-la.”
“Aqueles que têm faculdades para
entendê-la”: o texto tornou-se uma mensagem cífrada que só podia
ser lida por uns poucos eleitos dotados das necessárias
“faculdades”. Não estava aberto a qualquer interpretação; para
Constantino, somente uma leitura era a verdadeira, e desta, somente
ele e seus companheiros de crença tinham a chave. O edito de Milão
oferecera liberdade de fé a todos os cidadãos romanos; o Concílio
de Nicéia limitou essa liberdade àqueles que adotavam o credo de
Constantino. Passados apenas doze anos, gente que ganhara em Milão o
direito público de ler o que quisesse e como quisesse agora era
informada, em Antióquia e Nicéia, de que somente uma leitura era
verdadeira, sob pena de punição legal. Estipular uma leitura única
para um texto religioso era necessário, segundo a concepção de
Constantino de um império unânime. Mais original e menos
compreensível é a noção de uma única leitura ortodoxa para um
texto secular como os poemas de Virgílio.
Cada leitor confere a certos livros
uma certa leitura, embora não tão forçada nem com tantas
consequências como as de Constantino. Ver uma parábola do exílio
em O mágico de Oz, como faz Salman Rushdie, é muito
diferente de transformar um texto de Virgílio numa profecia da vinda
de Cristo. E, contudo, algo da mesma prestidigitação ou expressão
de fé ocorre em ambas as leituras, algo que permite aos leitores, se
não forem convincentes, pelo menos mostrarem-se convencidos. Aos
treze ou catorze anos, desenvolvi um anseio literário por Londres e
lia as histórias de Sherlock Holmes com a absoluta certeza de que a
sala enfumaçada da Baker Street, com suas chinelas turcas para
tabaco e sua mesa manchada de produtos químicos perigosos,
parecia-se fielmente com as moradas que eu teria quando também
estivesse na Arcádia. As criaturas antipáticas que Alice encontrava
no outro lado do espelho, petulantes, peremptórias e sempre
resmungonas, prenunciaram muitos dos adultos da minha vida de
adolescente. E quando Robinson Crusoe começou a construir sua
cabana, " uma Barraca sob o Flanco de uma Rocha, cercada com uma
forte Paliçada de Postes e Cabos", sem dúvida estava
descrevendo a que eu construiria num verão, na praia de Punta del
Este. A romancista Anita Desai, que na Índia, quando criança, era
conhecida em família como uma Lese Ratte, ou “rata de biblioteca”,
lembra que, ao descobrir O morro dos ventos uivantes, com nove
anos de idade, seu próprio mundo, “um bangalô da Velha Déli, com
suas varandas, suas paredes de gesso e ventiladores de teto, seu
jardim de mamoeiros e goiabeiras cheio de periquitos estridentes, a
poeira arenosa que se depositava nas páginas de um livro antes que
se pudesse virá-las, tudo sumia. O que se tornava real,
deslumbrantemente real, pelo poder e pela magia da pena de Emily
Brontê, eram as charnecas de Yorkshire, o urzal assolado pela
tempestade, os tormentos de seus angustiados habitantes que vagam sob
chuva e saraiva, clamando das profundezas de seus corações partidos
e ouvindo apenas respostas de fantasmas”. As palavras que Emily
Brontê escolheu para descrever uma menina na Inglaterra em 1847
serviram para iluminar uma menina na Índia em 1946.
A utilização de passagens aleatórias
de livros para prever o futuro tem uma longa tradição no Ocidente,
e, bem antes de Constantino, Virgílio era a fonte preferida de
adivinhação pagã no império; cópias de seus poemas eram mantidas
para consulta em vários templos dedicados à deusa Fortuna. A
primeira referência a esse costume, conhecido como sortes
Vergilianae, aparece na vida de Adriano escrita por Élio Espartiano;
o jovem Adriano, desejando saber o que o imperador Trajano achava
dele, consultou a Eneida aleatoriamente e encontrou as linhas
nas quais Enéias vê “o rei romano cujas leis deverão renovar
Roma”. Adriano ficou satisfeito; Trajano de fato adotou-o como
filho e ele se tornou o novo imperador de Roma.
Ao encorajar uma nova versão das
sortes Vergilianae. Constantino estava seguindo uma tendência
de seu tempo. No final do século IV, o prestígio atribuído a
oráculos falados e adivinhos fora transferido para a palavra
escrita, para Virgílio e também para a Bíblia - desenvolvera-se
uma forma de adivinhação conhecida como "cleromancia dos
evangelhos". Quatro séculos mais tarde, a arte da adivinhação,
que havia sido proscrita no tempo dos profetas "porque o Senhor,
teu Deus, abomina aqueles que se dão a essas práticas",
tornara-se tão popular que em 829 o Concílio de Paris teve de
condená-la oficialmente. Em vão. Escrevendo uma memória pessoal em
latim, publicada em 1434 numa tradução francesa, o erudito Gaspar
Peucer confessou que, quando criança, confeccionara “um livro de
papel e escrevera nele os principais versos divinatórios de
Virgílio, dos quais tirava conjeturas por simples brincadeira -
sobre tudo o que achava interessante, como a vida e morte de
príncipes, sobre minhas aventuras e sobre outras coisas, a fim de
imprimir melhor e de um modo mais vívido aqueles versos em minha
mente”. Peucer insistia que o jogo tinha uma intenção mnemônica
e não divinatória, mas o contexto torna difícil aceitar seus
protestos.
No século XVI, o jogo divinatório
ainda estava tão firmemente estabelecido que Rabelais pôde parodiar
o costume no conselho de Pantagruel a Panurgo sobre casar ou não.
Panurgo, diz Pantagruel, deve recorrer
às sortes Vergilianae. O método correto, explica, é o
seguinte: escolhe-se uma página abrindo o livro aleatoriamente;
então jogam-se três dados e a soma deles indica a linha da página.
Quando o método éposto em prática, Pantagruel e Panurgo chegam a
interpretações opostas e igualmente possíveis dos versos.
Bomarzo, o enorme romance sobre
a Renascença italiana do argentino Manuel Mujica Láinez, faz alusão
a como a sociedade do século XVII estava familiarizada com as
adivinhações por meio de Virgílio: “Eu confiava meu destino à
decisão de outros deuses, mais soberanos que os Orsíni, por meio
das sortes Vergílianae. Em Bomarzo costumávamos praticar
essa forma popular de adivinhação, que confiava a resolução de
problemas difíceis ou triviais ao oráculo fortuito de um livro. Não
corria o sangue dos mágicos nas veias de Virgílio? Não o
considerávamos, graças ao encanto de Dante, um mago, um adivinho.
Eu me submetia ao que a Eneida decretava”.
O exemplo mais famoso das sortes
talvez seja o do rei Carlos I em visita a uma biblioteca em Oxford
durante as guerras civis, no final de 1642 ou começo de 1643. Para
diverti-lo, lorde Falkland sugeriu que o rei fizesse “uma
experiência de ler sua fortuna nas sortes Vergilianae, que,
como todo o mundo sabe, era um tipo comum de augúrio em épocas
passadas”. O rei abriu o volume no livro IV da Eneida e leu: “Que
ele seja arrasado na guerra por tribos audaciosas e exilado de sua
própria terra”. Na terça-feira, 30 de janeiro de 1649, condenado
como traidor por seu próprio povo. Carlos I foi decapitado em
Whitehal.
Cerca de setenta anos depois, Robinson
Crusoe ainda se valia de um método semelhante em sua ilha inóspita.
“Certa manhã”, escreveu ele, “estando muito triste, abri a
Bíblia nestas palavras: Jamais vos deixarei, nem vos desertarei.
Imediatamente ocorreu-me que essas palavras eram para mim. A quem
mais deveriam se dirigir de tal maneira, justamente no momento em que
eu lamentava minha condição, como alguém abandonado por Deus e
pelos homens?” E 150 anos depois disso, Bathsheba ainda recorria à
Bíblia para descobrir se deveria casar com o sr. Boldwood, em Far
from the madding crowd [Longe da multidão insensata].
Robert Louis Stevenson observou com
argúcia que o dom oracular de um escritor como Virgilio tem menos a
ver com dons sobrenaturais do que com as qualidades miméticas da
poesia, as quais permitem que, de maneira íntima e poderosa, um
verso faça sinais aos leitores através dos tempos. Em The ebb
tide [A maré vazante], uma das personagens de Stevenson, perdida
numa ilha distante, busca conhecer sua sorte num exemplar esfarrapado
de Virgílio, e o poeta, respondendo da página “com voz não muito
segura ou encorajadora”, desperta no abandonado visões de sua
terra natal. “Pois é o destino daqueles escritores graves,
controlados e clássicos”, escreve Stevenson, “com quem travamos
relações forçadas e amiúde dolorosas na escola, entrar no sangue
e tornar-se nativo na memória; assim, uma frase de Virgílio fala
não tanto de Mântua ou de Augusto, mas de lugares ingleses e da
irrevogável juventude do estudante.”
Constantino foi o primeiro a ler
significados cristãos proféticos em Virgílio, e através dessa
leitura o poeta latino tornou-se o mais prestigioso de todos os
escritores oraculares. De poeta imperial a visionário cristão,
Virgílio assumiu um papel importante na mitologia cristã, o que lhe
permitiu, dez séculos depois do elogio de Constantino, guiar Dante
pelo inferno e purgatório. Seu prestígio alcançou até o passado:
uma história preservada em versos na missa latina medieval conta que
o próprio são Paulo viajou a Nápoles para chorar sobre o túmulo
do poeta da Antiguidade.
O que Constantino descobriu naquela
distante Sexta-Feira Santa, e para todo o sempre, é que o
significado de um texto é ampliado pelas capacidades e desejos do
leitor Diante de um texto, o leitor pode transformar as palavras numa
mensagem que decifra para ele alguma questão historicamente não
relacionada ao próprio texto ou a seu autor. Essa transmigração de
significado pode enriquecer ou empobrecer o texto; invariavelmente o
impregna com as circunstâncias do leitor Por meio de ignorância,
fé, inteligência, trapaça, astúcia, iluminação, o leitor
reescreve o texto com as mesmas palavras do original, mas sob outro
título, recriando-o, por assim dizer, no próprio ato de trazê-lo à
existência.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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