[…]
De a de lado. Todos eles passarem,
tropeando, nós todos, o rumor constante dos cascos. Cavalo,
cavalaria! Cortejo que fazia suas voltas, pelos ermos, pelos ocos,
pelos altos, a forma duma mistura de gente amontada, uma continuação
grande, solevando para adiante o aprumo de meus homens, os chapéus
deles quase todos bem engraxados com sêbo de boi e nata de leite, em
ponta os canos dos rifles de guerra, a tiracol. Com qual seguimento?
Só , o que esperava a gente, era o pouso para jantar; passeata para
a estrela-da-tarde. Mas, do que um falava, outro mal ouvia e ria; do
que esses se riam, outros ainda falavam. Prosapeavam. Me prazia. Me
prazia o ranger o couro das jerebas, aquele chio de carne em asso. A
poeira avermelhava e branqueava! poeiras que punham o vento mais
áspero. Uns homens em cavalos e armas. Quem visse, fuga fugia,
corria! tinham de temer, vigiando com seus olhos escondidos no mato
em beiras de estrada. Até os bichos, do cerradão, que escutam o
começo de tudo, de seu longe e de seu perto, e logo sabem esperar,
ocultos no rareamento, assim não se viam, nenhuns, não se achavam;
os pássaros sempre já tinham revoado. Ah, não, eu bem que tinha
nascido para jagunço. Aquilo ― para mim ― que se passou: e ainda
hoje é forte, como por um futuro meu. Eu estou galhardo. Naquilo, eu
tinha amanhecido. Comi carne de onça? Esquipando, eu queria que a
gente entrasse, daquele jeito, era em alguma grande verdadeira
cidade.
Só às vezes, em repente de receio,
eu ainda olhei em vão ― com as presenças de Zé Bebelo me
cismava. Se o que sei. Com um arranco de freio, raciocinado. Mas,
dando de rédeas sem descanso, derrubei dos ombros aquele meu
costume, Zé Bebelo terminara. Só os meus homens. Escutava, olhava ―
e eram aqueles: que muitas estrepolias ainda iam decerto agir, e
muita má gente matar. Aos dez e dézes, digo, afirmo que me lembro
de todos. Esses passam e transpassam na minha recordação, vou
destacando a contagem. Nem é por me gabar de retentiva cabedora,
nome por nome, mas para alimpar o seguimento de tudo o mais que vou
narrar ao senhor, nesta minha conversa nossa de relato. O senhor me
entende? A mesmice dos cabras jagunços ― no contemplar a cavalhada
― no passo, os animais dando dos quartos, comuns assim, que não
fazem penachos, que não tiram arredondamentos da magreza. Os filhos
nascidos de distritos de lugares diversos, mas agora debaixo da minha
estima completa, dever de coração enérgico. Até os capiaus e os
catrumanos copiavam o comportamento, uns amontados, outros restantes
apressados mesmo a pé, e iam pegando o exato. Até o catrumano
Teofrásio, em seu jegue, que, como prestável jumento, cumpria bem
seu ir, desde que tinha companhia de outros animais. E o Guirigó e o
Borromeu, eu meando os dois, ao alcance de qualquer minha mão.
Sempre, mesmo como sempre. Mas, um, era Diadorim ― montado à
baiana, gineta, com estribos curtos e rédea muito ponderada,
bridando bem, em seu argel travado, às upas! cavalo bulideiro,
cavalo de olhos pretos conforme como a noite ― Diadorim, que era o
Menino, que era o Reinaldo. E eu. Eu? Nos estribos de ferro, freio de
ferro, silha forte e silha mestra ― e o par de coldres! Assaz,
então, cantaram!
Olererê, Baiana,
eu ia e não vou mais...
Eu faço
que vou
lá dentro, oh Baiana,
e volto do meio pra trás...
Ao demais eu ouvi, soturno sorridente.
Ora vez, que, desse jeito, fomos
entortando, entre as duas chapadas, encalço da estrada do rio; e se
chegou na fazenda cercã, que era por lá, a Barbaranha dita, em um
lugar redondo e simples, no Pé-da-Pedra. O que eu já disse ao
senhor, respeitante. Mas acrescento que o dono, no atual, era um seo
Ornelas ― Josafá Jumiro Ornelas, por nome todo.
― De uns três dias foi o São João,
então amanhã é o São Pedro... ― alguém disse, de voz.
Soubessem que esse seo Ornelas era
homem bom descendente, posseiro de sesmaria. Antes, tinha valido, com
muitos passados, por causa de política, e ainda valesse, compadre
que era do Coronel Rotílio Manduca em sua Fazenda Baluarte.
― Ao que ele tem, mas tem, mesmo,
muita coragem?! ― eu me fiz.
― Aí falam em sessenta ou oitenta
mortes contáveis... o Marcelino Pampa afiançou ... e ainda não
esmoreceu os ânimos…
Chegamos, com proceder seguro, e o céu
por cima dali estava muito sereno. Na fazenda tinham levantado um
mastro, na frente do pátio; vi movimentos de gente. As mulheres, na
boca do forno fumaçando, mexiam com feixes verdes de mariana e
vassourinha e carregavam as latas pretas de assar biscoitos. Só
aqueles formosos cheiros das quitantas e do forno quente varrido, já
confortavam meu estómago. No mastro, que era arvorado para honra de
bandeira do santo, eu amarrei o cabresto do meu cavalo.
Mas não desordeei nem coagi, não dei
em nenhuma desbraga. Eu não estava com gosto de aperrear ninguém. E
o fazendeiro, senhor dali, de dentro saiu, veio saudar, convidar para
a hospedagem, me deu grandes recebimentos. Apreciei a soberania dele,
os cabelos brancos, os modos calmos. Bom homem, abalável. Para ele,
por nobreza, tirei meu chapéu e conversei com pausas.
― Amigo em paz? Meu chefe, entre, a
valer: a casa velha é sua, vossa... ― ele pronunciou.
Eu disse que sim. Mas, para evitar
algum acanhamento e desajeito, mais tarde, também falei: ― Dou
todo respeito, meu senhor. Mas a gente vamos carecer de uns
cavalos... Assim logo eu disse, em antes de vir a amolecer as
situações e estorvar o expediente negócio a boa conversação
cordial.
O homem não treteou. Sem se franzir
nem sorrir, me respondeu:
― O senhor, meu chefe, requer e
merece, e com gosto eu cedo... Acho que tenho para coisa de uns cinco
ou sete, em estado regular.
E eu entrei com ele na casa da
fazenda, para ela pedindo em voz alta a proteção de Jesus. Onde
tive os usuais agrados, com regalias de comida em mesa. Sendo que
galinha e carnes de porco, farofas, bons quitutes ceamos, sentados,
lá na sala. Diadorim, eu, João Goanhá, Marcelino Pampa, João
Concliz, Alaripe e uns outros, e o menino pretinho Guirigó mais o
cego Borromeu ― em cujas presenças todos achavam muita graça e
recreação.
A dona fazendeira era mulher já em
idade fora de galas; mas tinham três ou quatro filhas, e outras
parentas, casadas ou moças, bem orvalhosas. Aquietei o susto delas,
e nenhuma falta de consideração eu não proporcionei nem consenti,
mesmo porque meu prazer era estar vendo senhoras e donzelas navegarem
assim no meio nosso, garantidas em suas honras e prendas, e com toda
cortesia social. A ceia indo principiando, somente falei também de
sérios assuntos, que eram a política e os negócios da lavoura e
cria. Só faltava lá uma boa cerveja e alguém com jornal na mão,
para alto se ler e a respeito disso tudo se falar.
Seo Ornelas me intimou a sentar em
posição na cabeceira, para principal. ― Aqui é que se abancava
Medeiro Vaz, quando passou... ― essas palavras. Medeiro Vaz tinha
regido nessas terras. Verdade era? Aquele velho fazendeiro possuía
tudo. Conforme jagunço de meio-ofício tinha sido, e amigo
hospedador, abastado em suas propriedades. De ser de linhagem de
família, ele conseguia as ponderadas maneiras, cidadão, que se
representava; que, isso, ainda que eu pelejasse constante, tarde
seria para bem aprender. Na verdade. Aquela hora, eu, pelo que disse,
assumi incertezas. Espécie de medo? Como que o medo, então, era um
sentido sorrateiro fino, que outros e outros caminhos logo tomava.
Aos poucos, essas coisas tiravam minha vontade de comer farto.
― O sertão é bom. Tudo aqui é
perdido, tudo aqui é achado... ― ele seo Ornelas dizia. ― O
sertão é confusão em grande demasiado sossego…
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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