84.
Meditei hoje, num intervalo de sentir,
na forma de prosa de que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como
muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma
norma. E certo que escrevi antes da norma e do sistema; nisso, porém,
não sou diferente dos outros.
Analisando-me à tarde, descubro que o
meu sistema de estilo assenta em dois princípios, e imediatamente, e
à boa maneira dos bons clássicos, erijo esses dois princípios em
fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se sente exatamente
como se sente — claramente, se é claro; obscuramente, se é
obscuro; confusamente, se é confuso -; compreender que a gramática
é um instrumento, e não uma lei.
Suponhamos que vejo diante de nós uma
rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela,
“Aquela rapariga parece um rapaz”. Um outro ente humano vulgar,
já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela,
“Aquela rapariga é um rapaz”. Outro ainda, igualmente consciente
dos deveres da expressão, mas mais animado do afeto pela concisão,
que é a luxúria do pensamento, dirá dela, “Aquele rapaz”. Eu
direi, “Aquela rapaz”, violando a mais elementar das regras da
gramática, que manda que haja concordância de género, como de
número, entre a voz substantiva e a adjetiva. E terei dito bem;
terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da chateza, da
norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.
A gramática, definindo o uso, faz
divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em
transitivos e intransitivos; porém, o homem de saber dizer tem
muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para
fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens,
o ver às escuras. Se quiser dizer que existo, direi “Sou”. Se
quiser dizer que existo como alma separada, direi “Sou eu”.
Mas se quiser dizer que existo como
entidade que a si mesma se dirige e forma, que exerce junto de si
mesma a função divina de se criar, como hei de empregar o verbo
“ser” senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então,
triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi “Sou-me”. Terei
dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é
isto a não dizer nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da
filosofia e da dicção?
Obedeça à gramática quem não sabe
pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas
expressões. Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que tendo, num
discurso público, cometido um erro de gramática, respondeu a quem
dele lhe falou, “Sou Rei de Roma, e acima da gramática”. E a
história narra que ficou sendo conhecido nela como Sigismundo
“super-grammaticam”. Maravilhoso símbolo! Cada homem que
sabe dizer o que diz é, no seu modo, Rei de Roma. O título não é
mau, e a alma é ser-se.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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