83.
Remoinhos, redemoinhos, na futilidade
fluida da vida! Na grande praça ao centro da cidade, a água
sobriamente multicolor da gente passa, desvia-se, faz poças, abre-se
em riachos, junta-se em ribeiros. Os meus olhos veem desatentamente,
e construo em mim essa imagem áquea que, melhor que qualquer outra,
e porque pensei que viria chuva, se ajusta a este incerto movimentos.
Ao escrever esta última frase, que
para mim exatamente diz o que define, pensei que seria útil pôr no
fim do meu livro, quando o publicar, abaixo das "Errata"
umas "Não-Errata", e dizer: a frase "a este incerto
movimentos", na página tal, é assim mesmo, com as vozes
adjetivas no singular e o substantivo no plural. Mas que tem isto com
aquilo em que estava pensando? Nada, e por isso me deixo pensá-lo.
À roda dos meios da praça, como
caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que uma criança
espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro,
os carros elétricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro
alto. À roda da estátua central as pombas são migalhas pretas que
se mexem, como se lhes desse um vento espalhador. Dão passinhos,
gordas sobre pés pequenos. E são sombras, sombras...
Vista de perto; toda a gente é
monotonamente diversa. Dizia Vieira que Frei Luís de Sousa escrevia
“o comum com singularidade”. Esta gente é singular com
comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo isto me
faz pena, sendo-me todavia indiferente. Vim parar aqui sem razão,
como tudo na vida.
Do lado do oriente, entrevista, a
cidade ergue-se quase a prumo falso, assalta estaticamente o Castelo.
O sol pálido molha de um aureolar vago essa mole súbita de casas
que para aqui o oculta. O céu é de um azul humidamente
esbranquiçado. A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais
branda. O vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente,
cheira vagamente ao maduro e verde do mercado próximo. Do lado
oriental da Praça há mais forasteiros que do outro. Como descargas
alcatifadas, as portas onduladas descem para cima; não sei porquê,
é assim a frase que me transmite aquele som. É talvez porque fazem
mais esse som ao descer, porém agora sobem. Tudo se explica.
De repente estou só no mundo. Vejo
tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é
estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda
a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta.
Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu
fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa,
de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me
cercam — só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me
acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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