Ir à praia cedo, como na infância.
As ilhas no horizonte ainda estão veladas pela névoa da madrugada.
O mar andou bravo esta noite, arrancando algas e mexilhões das
pedras, em seu grande assanhamento de lua; respirar seu hálito acre;
dar um mergulho na água fria, na praia ainda solitária, levar umas
pancadas de onda, voltar para o sol na areia. E andar à toa ao longo
da praia, chapinhando na espuma branca.
Mas encontro, com surpresa, uma
senhora conhecida. Ela traz pela primeira vez à praia o seu menino,
que deve ter dois anos. Fala com ele, ergue-o no ar, brinca, ri, toda
contente de ver seu menino nu brilhando ao sol matinal. Vou seguir
caminho, mas me detenho a olhá-la: carregou a criança para junto da
espuma. O garoto, que ria, olha pela primeira vez, assim de perto, o
mar; e está sério. Uma língua de espuma avança até seu pezinho.
Ele choraminga, olha a mãe que o excita, rindo, batendo palmas. Ele
se anima outra vez, talvez sinta que o mar é bom, é um novo
brinquedo da mãe. Outra espuma se aproxima, mas não chega até ele;
a mãe avança o braço, bate com a palma aberta na água, sempre
falando, rindo. Ele olha, entre inquieto e divertido. Vem outra onda,
mas a mãe o ergue no ar; a água fria beija apenas os seus pezinhos.
Eu me afasto mais; longe, me sento na
areia, e fico olhando o quadro. Contra a luz, já não distingo as
feições nem ouço a voz da mulher. Assim, com a silhueta cortada
contra a luz que se reflete no chão molhado, ela parece estar nua
com o seu menino. É apenas uma jovem fêmea que ensina o mar e o
mundo à sua cria; transmite-lhe a experiência da espécie e o
sentimento dos deuses; na sua graça matinal esse batismo tem uma
beleza solene.
Rio, setembro, 1959
Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

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