Conferência Nadine Gordimer
[…]
Um romance não é uma série
de propostas, uma lista ou coleção de programas, ou o itinerário
de um passeio (de final aberto, passível de revisão). É a viagem
em si mesma — feita, vivenciada e concluída.
A completude não significa que tudo
foi dito. Henry James, quando se aproximava do fim da redação do
seu romance mais importante, O retrato de uma senhora,
confidenciou a si mesmo em seu caderno de anotações a sua
preocupação com o fato de que os leitores pudessem pensar que o
romance não estava terminado de fato, de que ele “não tivesse
acompanhado a heroína até o final do seu problema”. (Como vocês
se lembram, James deixa a sua heroína, a brilhante e idealista
Isabel Archer, resolvida a não largar o seu marido, que ela
descobriu ser um canalha mercenário, embora exista um pretendente
anterior, muito adequadamente chamado Caspar Goodwood, que, ainda
apaixonado, tem esperança de que ela mude de idéia.) Porém,
argumenta James para si mesmo, o seu romance estaria concluído de
forma correta com essa situação. Como escreveu James: “O todo
de qualquer coisa nunca é contado; só podemos apreender aquilo que
se agrupa. O que fiz possui essa unidade — se agrupa. É completo
em si mesmo”.
Nós, leitores de James, podemos
desejar que Isabel Archer deixe o marido horroroso em troca da
felicidade com o amável, fiel e honrado Caspar Goodwood: eu
certamente gostaria que ela assim fizesse. Mas James está nos
dizendo que ela não o fará.
Toda trama ficcional contém indícios
e vestígios das histórias que ela excluiu, ou a que resistiu, a fim
de assumir a sua forma presente. Alternativas para a trama devem se
manter sensíveis até o último instante. Essas alternativas
constituem o potencial para a desordem (e, portanto, para o
suspense), no desdobrar da história.
A pressão para que os fatos se passem
de forma diferente está por trás de todas as reviravoltas
infelizes, de todos os novos desafios no caminho para um desfecho
estável. Os leitores contam com essas linhas de resistência para
manter a narrativa instável, permeada pela ameaça de algum conflito
adicional — até que seja alcançado um ponto final de equilíbrio:
uma solução que pareça menos arbitrária e provisória do que os
invariavelmente ilusórios momentos de imobilidade presentes no corpo
da história. A construção de uma trama consiste em achar momentos
de estabilidade e depois gerar novas tensões narrativas que desfaçam
tais momentos — até que o fim seja alcançado.
O que chamamos de um fim “adequado”
de um romance é um outro equilíbrio — um equilíbrio que, se for
planejado de forma adequada, terá um status claramente distinto.
Esse final irá nos persuadir de que as tensões inerentes a qualquer
história difícil foram suficientemente respondidas. Elas perderam o
seu poder de produzir novas mudanças relevantes. São postas em
xeque pela capacidade que tem um final de lacrar tudo.
Os finais num romance conferem uma
espécie de liberdade que a vida teimosamente nos nega: chegar a um
ponto final, que não é a morte, e descobrir exatamente onde estamos
em relação aos fatos que levam a uma conclusão. Aqui, nos diz o
final, está o último trecho de uma experiência total hipotética —
cuja força e autoridade avaliamos pelo tipo de esclarecimento que
ela traz aos eventos da trama, sem uma coerção indevida.
Se um final parece estar lutando para
alinhar as forças em conflito na narrativa, é provável que tiremos
a conclusão de que existem defeitos na estrutura narrativa, oriundos
talvez da falta de controle ou de uma confusão, por parte do
contador de histórias, sobre aquilo que a história é capaz de
sugerir.
O prazer da ficção reside justamente
em que ela se desloca rumo a um final. E um final que satisfaz é um
final que exclui. O que não é capaz de ligar-se ao padrão de
esclarecimento do desfecho da história, o escritor supõe que pode
ser deixado de fora do relato, sem nenhum risco.
Um romance é um mundo com fronteiras.
Pois, para haver completude, unidade, coerência, tem de haver
fronteiras. Tudo é relevante na trajetória que percorremos dentro
dessas fronteiras. Podemos descrever o final de uma história como um
ponto de convergência mágica para os cambiantes pontos de vista
preparatórios: uma posição fixa da qual o leitor vê como as
coisas inicialmente disparatadas afinal se integram.
Mais ainda, o romance, por ser um ato
de forma concretizada, é um processo de compreensão — ao passo
que a forma partida ou insuficiente, na verdade, não sabe, deseja
não saber, o que se integra a ela.
São esses dois modelos que competem
agora pela nossa fidelidade ou atenção.
Existe uma distinção essencial —
como eu a vejo — entre histórias, de um lado, que têm por
objetivo um final, a completude, o fechamento, e de outro lado a
informação, que é sempre, por definição, parcial,
incompleta, fragmentária.
Isso espelha os modelos contrastantes
de narrativa propostos pela literatura e pela televisão.
A literatura conta histórias. A
televisão dá informações.
A literatura envolve. É a recriação
da solidariedade humana. A televisão (com sua ilusão de
imediatismo) afasta — nos empareda em nossa própria indiferença.
As chamadas histórias contadas pela
televisão satisfazem nosso apetite por anedotas e nos oferecem
modelos de compreensão que se anulam mutuamente. (Isso é reforçado
pela prática de pontuar com publicidade as narrativas da tevê.)
Implicitamente, eles afirmam a ideia de que toda informação é
potencialmente relevante (ou “interessante”), que todas as
histórias são intermináveis — ou que, se são interrompidas, não
é porque chegaram a um fim, mas sim porque foram destronadas por uma
história mais nova, mais apelativa ou excêntrica.
Ao nos brindarem com um número
ilimitado de histórias ininterruptas, as narrativas que a mídia
conta — e cujo consumo encurtou tão dramaticamente o tempo que o
público instruído antes dedicava à leitura — oferecem uma lição
de amoralidade e de distanciamento que é antitética em relação
àquela corporificada pelo projeto do romance.
Na narração, tal como é praticada
pelo romancista, há sempre — como argumentei — um componente
ético. Esse componente ético não é a verdade, em oposição à
falsidade da crônica. É o modelo de completude, de profundidade
sentida, de esclarecimento, proporcionado pela história, e por sua
resolução — que é o oposto do modelo de estupidez, de
incompreensão, de horror passivo, e o consequente embotamento do
sentimento, oferecido pela glutonaria de histórias sem fim
disseminada pela nossa mídia.
A televisão nos oferece, numa forma
extremamente degradada e falsa, uma verdade que o romancista é
obrigado a suprimir, em proveito do modelo ético de compreensão
peculiar ao projeto da ficção: a saber, que o traço característico
do nosso universo é a simultaneidade. (“O tempo existe para que
tudo não aconteça ao mesmo tempo... o espaço existe para que tudo
não aconteça com você.”)
Contar uma história é dizer: essa é
a história importante. É reduzir a dispersão e a simultaneidade de
tudo a algo linear, um caminho.
Ser um ser humano moral é prestar,
ser obrigado a prestar, vários tipos de atenção.
Quando fazemos juízos morais, não
estamos apenas dizendo que isso é melhor do que aquilo. De um modo
até mais fundamental, estamos dizendo que isso é mais
importante do que aquilo. É ordenar a avassaladora
dispersão e simultaneidade de tudo, ao preço de ignorar ou dar as
costas para a maior parte daquilo que acontece no mundo.
A natureza dos juízos morais depende
da nossa capacidade de prestar atenção — uma capacidade que,
inevitavelmente, tem seus limites, mas que podem ser estendidos.
Porém talvez o começo da sabedoria,
e da humildade, seja baixar a cabeça e reconhecer a ideia, a
devastadora ideia, da simultaneidade de tudo, e reconhecer a
incapacidade do nosso entendimento moral — que é também o
entendimento do romancista — de aceitar isso.
Talvez essa seja uma consciência que
surja mais facilmente para poetas, os quais não crêem plenamente em
contar histórias. O supremo poeta e prosador português do século
XX Fernando Pessoa escreveu na sua suma em prosa, O livro do
desassossego:
Descobri que penso sempre, e atendo
sempre, em duas coisas ao mesmo tempo. Todos, suponho, serão um
pouco assim. [...] Sucede comigo que têm igual relevo as duas
realidades a que atendo. Nisso consiste a minha originalidade. Nisso,
talvez, consiste a minha tragédia, e o que a faz cômica.
Sim, todos são um pouco
assim... mas a consciência da duplicidade do pensamento é uma
posição desconfortável, muito desconfortável, se mantida por
muito tempo. Parece normal que as pessoas reduzam a complexidade
daquilo que sentem e pensam, e barrem a consciência do que se
encontra fora do âmbito da sua experiência imediata.
Será que essa recusa de uma
consciência ampliada, que incorpora mais do que está se passando
bem agora, bem aqui, não está no coração da nossa sempre
confusa consciência do mal humano, e da imensa capacidade dos seres
humanos de praticarem o mal? Como existem, indiscutivelmente, zonas
da experiência que não são penosas, que trazem alegria, o fato de
que exista tanta infelicidade e tanta maldade se torna, eternamente,
um enigma. Boa parte da narrativa e da especulação que tenta
libertar-se da narrativa e tornar-se puramente abstrata pergunta: Por
que o mal existe? Por que as pessoas traem e matam umas às outras?
Por que os inocentes sofrem?
Mas talvez o problema deva ser
reformulado: Por que o mal não está em toda parte? Mais
exatamente, por que ele está em certo lugar — mas não em
outro? E o que devemos fazer quando ele não nos afeta? Quando a dor
que se suporta é a dor dos outros?
Ao saber das notícias aterradoras do
grande terremoto que arrasou Lisboa no dia 1o de novembro de 1755 e
que (se acreditarmos nos historiadores) levou consigo o otimismo de
toda uma sociedade (mas obviamente não acredito que uma sociedade
tenha uma única atitude básica), o grande Voltaire ficou chocado
diante da incapacidade de assimilar o que acontecia em outras terras.
“Lisboa jaz em ruínas”, escreveu Voltaire, “e aqui em Paris
nós dançamos.”
Podemos supor que, no século XX, na
era do genocídio, as pessoas não julguem paradoxal nem
surpreendente que alguém possa ser tão indiferente ao que está
acontecendo simultaneamente longe da sua casa. Não é uma parte da
estrutura fundamental da experiência que “agora” se refira tanto
a “aqui” como “lá”? E, no entanto, atrevo-me a afirmar,
somos tão capazes de nos surpreender — e de nos frustrar com a
inadequação da nossa reação — com a simultaneidade de destinos
humanos loucamente contrastantes como era Voltaire, dois séculos e
meio atrás. Talvez seja nossa eterna sina ficarmos surpresos com a
simultaneidade dos fatos — com a mera extensão do mundo no tempo e
no espaço. Que estejamos aqui, agora, prósperos, seguros, com pouca
probabilidade de dormir com fome ou de sermos despedaçados por uma
explosão nesta noite... enquanto longe daqui, em outras partes do
mundo, exatamente agora... em Grózni, em Najaf, no Sudão, no Congo,
em Gaza, nas favelas do Rio...
Ser um viajante — e romancistas são
muitas vezes viajantes — é lembrar-se constantemente da
simultaneidade do que acontece no mundo, o nosso mundo e o mundo
muito diverso que visitamos e do qual voltamos para “casa”.
Um início de resposta a essa
consciência dolorosa é dizer: é uma questão de solidariedade...
dos limites da imaginação. Também podemos dizer que não é
“natural” ficar lembrando que o mundo é tão... amplo. Que,
enquanto isso está acontecendo, aquilo também está acontecendo.
É verdade.
Mas, eu responderia, é por isso que
precisamos de ficção: para ampliar o nosso mundo.
Os romancistas, portanto, cumprem a
sua tarefa moral necessária com base no seu direito de um calculado
encolhimento do mundo, tal como ele é de fato — tanto no espaço
como no tempo.
Os personagens de um romance agem no
interior do tempo que já está completo, onde tudo o que vale a pena
guardar foi preservado — como diz Henry James, no seu prefácio a
Os espólios de Poynton, um tempo “isento de acréscimos
impertinentes” e de sucessão a esmo. Todas as histórias reais são
histórias do destino de alguém. Os personagens de um romance têm
destinos intensamente legíveis.
O destino da literatura em si é outra
coisa. A literatura, como história, é repleta de acréscimos
impertinentes, de exigências irrelevantes, atividades sem propósito,
atenção desperdiçada.
Habent sua fata fabulae, como
diz a expressão latina. Contos, histórias, têm o seu próprio
destino. Porque são difundidos, transcritos, mal lembrados,
traduzidos.
Claro, não queremos que seja de outro
modo. A escrita de ficção, atividade necessariamente solitária,
tem um destino necessariamente público, comunitário.
Tradicionalmente, todas as culturas
são locais. Cultura implica barreiras (por exemplo, linguísticas),
distância, intraduzibilidade. Ao passo que “o moderno”
significa, acima de tudo, a abolição de barreiras, de distância;
acesso instantâneo; o nivelamento da cultura — e, por sua
inexorável lógica, a abolição ou a revogação da cultura.
O que serve ao “moderno” é a
padronização, a homogeneização. (De fato, “o moderno” é
homogeneização, padronização. O lugar essencial do moderno é o
aeroporto; e todos os aeroportos são iguais, assim como todas as
novas cidades modernas, de Seul a São Paulo, tendem a ser iguais.)
Esse impulso rumo à homogeneização não pode deixar de afetar o
projeto da literatura. O romance, marcado pela singularidade, só
pode entrar nesse sistema de difusão máxima graças à ação da
tradução, que, conquanto necessária, acarreta uma distorção
inerente daquilo que o romance é no seu nível mais profundo — que
não é a comunicação de informação, nem mesmo o relato de
histórias envolventes, mas sim a perpetuação do projeto da
literatura em si, com o seu convite para desenvolver o tipo de
introspecção que resiste às saciedades modernas.
Traduzir é transportar algo através
de fronteiras. Porém, cada vez mais, a lição dessa sociedade, uma
sociedade que é “moderna”, é que não existem fronteiras — o
que significa, é claro, nada mais nada menos do que: não existem
fronteiras para os setores privilegiados da sociedade, que são
mais móveis geograficamente do que nunca na história da humanidade.
E a lição da hegemonia dos meios de comunicação de massa —
televisão, MTV, internet — é que só existe uma cultura, aquela
que se encontra para além das fronteiras, em toda parte, que é —
ou será um dia — apenas mais do mesmo, com todos no planeta se
nutrindo da mesma forma com os padronizados entretenimentos e
fantasias de Eros e violência manufaturados nos Estados Unidos, no
Japão, onde for; com todos sendo instruídos pelo mesmo fluxo, de
final aberto, de bits de opinião e informação sem filtros (ainda
que, de fato, muitas vezes censurados).
Não se pode negar que algum prazer e
algum esclarecimento possam ser transmitidos por tais meios. Mas eu
ponderaria que a mentalidade que eles fomentam e os apetites que
alimentam são inteiramente inimigos da escrita (produção) e da
leitura (consumo) de literatura séria.
A cultura transnacional, para a qual
todos que pertencem à sociedade consumista capitalista — também
conhecida como economia global — estão sendo recrutados, é uma
cultura que, a rigor, torna a literatura irrelevante — um mero
serviço público que nos oferece aquilo que já sabemos — e pode
encaixar-se nas estruturas de final aberto para a aquisição de
informação e para a observação voyeurística a distância.
Todo romancista espera alcançar o
público mais amplo possível, transpor o máximo de fronteiras
possível. Mas é tarefa do romancista, creio, e acredito que Nadine
Gordimer concorda comigo — é tarefa do romancista ter em mente a
geografia cultural espúria que está sendo instalada no começo do
século XXI.
De um lado temos, por meio da tradução
e da reciclagem na mídia, a possibilidade de uma difusão cada vez
maior de nossa obra. O espaço, por assim dizer, está sendo
conquistado. O aqui e o lá, assim nos dizem, estão em contato
constante entre si e estão convergindo de forma pujante. De outro
lado, a ideologia por trás dessas oportunidades sem precedentes de
difusão, tradução — a ideologia hoje dominante no que é tido
por cultura nas sociedades modernas — é projetada para tornar
obsoleta a tarefa crítica, profética, e até subversiva, do
romancista, que compreende aprofundar e, às vezes, conforme a
necessidade, opor-se às interpretações comuns do nosso
destino.
Longa vida à tarefa do romancista.
Susan Sontag, em Ao Mesmo Tempo – Ensaios e Discursos

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