Conferência Nadine Gordimer
Muito tempo atrás — no século
XVIII — um grande e excêntrico defensor da literatura e da língua
inglesa — tratava-se do dr. Johnson — escreveu, no prefácio ao
seu Dicionário: “A maior glória de todos os povos provém
de seus escritores”.
Uma afirmação nada convencional,
desconfio, mesmo naquela época. E mais ainda hoje, embora eu creia
que ainda seja verdade. Mesmo no início do século XXI. Claro, estou
falando de glória permanente, não transitória.
Muitas vezes me perguntam se existe
algo que eu ache que os escritores devem fazer, e há pouco tempo,
numa entrevista, eu me ouvi respondendo: “Várias coisas. Amar as
palavras, pensar muito em cada frase. E prestar atenção no mundo”.
Nem é preciso dizer que, assim que
essas expressões despretensiosas caíram da minha boca, pensei em
mais algumas fórmulas para a virtude do escritor.
Por exemplo: “Seja sério”. Pelo
que entendo: Nunca seja cínico. E isso não impede de ser
engraçado.
E... se me permitem mais uma: “Trate
de nascer num tempo em que você tenha uma boa probabilidade
de ser elevado e influenciado por Dostoiévski, Tolstói, Turguêniev
e Tchekhov”.
A verdade é que, qualquer que seja a
ideia que nos ocorra quando se trata de dizer o que um escritor deve
ser idealmente, sempre existe algo mais. Todas essas
definições nada significam sem exemplos. Portanto, se me pedissem
que desse o nome de um escritor vivo que exemplifica tudo aquilo que
um escritor pode ser, eu imediatamente pensaria em Nadine Gordimer.
Um grande escritor de ficção cria
— por meio de atos de imaginação, por meio de uma linguagem que
parece inevitável, por meio de formas vívidas — um mundo novo, um
mundo único, individual; e ao mesmo tempo reage a um mundo, o
mundo que o escritor compartilha com outras pessoas, mas que é
desconhecido ou mal conhecido por um número de pessoas ainda maior,
pessoas confinadas em seus próprios mundos: chamem a isso história,
sociedade, o que quiserem.
A obra vasta, de eloquência
impressionante, e extremamente diversificada, de Nadine Gordimer é,
antes de tudo, um tesouro de seres humanos em situações,
histórias guiadas por personagens. Seus livros trouxeram para nós a
sua imaginação, que agora é parte da imaginação de seus muitos
leitores em todo o mundo. Em especial, eles trouxeram para nós que
não somos sul-africanos um retrato muito vasto da parte do mundo da
qual ela é nativa e na qual prestou uma atenção muito exigente e
responsável.
Sua atitude exemplar e influente
durante as muitas décadas da luta revolucionária pela justiça e
pela igualdade na África do Sul, sua solidariedade natural com lutas
semelhantes em várias partes do mundo têm sido reconhecidamente
celebradas. Poucos escritores de primeira linha, hoje, cumpriram as
múltiplas tarefas éticas ao alcance de um escritor de consciência
e de grande talento intelectual de modo tão dedicado, vigoroso e
destemido como o fez Nadine Gordimer.
Mas, é claro, a primeira tarefa de um
escritor é escrever bem. (E continuar escrevendo bem. Nem
consumir-se, nem esgotar-se.) No fim — vale dizer, do ponto de
vista da literatura — Nadine Gordimer não é representativa de
ninguém nem de nada, senão de si mesma. E da nobre causa da
literatura.
Não deixemos que a ativista dedicada
jamais encubra a dedicada serva da literatura — a incomparável
contadora de histórias.
Escrever é saber uma coisa. Que
prazer ler um escritor que sabe muita coisa. (Uma experiência rara
hoje em dia...) Literatura, eu diria, é conhecimento —
ainda que conhecimento imperfeito, mesmo nos melhores casos. Como
todo conhecimento.
Porém, mesmo agora, mesmo agora, a
literatura permanece como um de nossos principais modos de
compreensão. E Nadine Gordimer entende muito de vida privada — de
laços de família, afetos de família; dos poderes de Eros — e das
contraditórias demandas que as lutas na arena pública podem impor a
um escritor sério.
Todos em nossa cultura degenerada nos
conclamam a simplificar a realidade, a desprezar a
sabedoria. Existe bastante sabedoria na obra de Nadine Gordimer. Ela
articulou uma visão complexa e admirável do coração humano e as
contradições inerentes a viver na literatura e na história.
É uma honra singular ser convidada
para apresentar a primeira Conferência Nadine Gordimer e ter a
oportunidade — esta maravilhosa oportunidade — de render
homenagem àquilo que sua obra significou para mim, para todos nós,
com sua lucidez, paixão, eloquência e fidelidade à ideia da
responsabilidade do escritor com a literatura e com a
sociedade.
Por literatura, entendo a literatura
no sentido normativo, o sentido em que a literatura encarna e defende
padrões elevados. Por sociedade, entendo a sociedade no sentido
normativo, também — o que sugere que um grande escritor de ficção,
ao escrever com veracidade sobre a sociedade em que vive, não pode
deixar de evocar (ainda que por sua ausência) os melhores padrões
de justiça e de veracidade, pelos quais temos o direito (alguns
diriam, o dever) de militar nas sociedades necessariamente
imperfeitas em que vivemos.
Obviamente, penso no escritor de
romances, contos e peças como um agente moral. De fato, essa
concepção de escritor é um dos muitos contatos entre a idéia de
literatura de Nadine Gordimer e a minha. Na minha visão, e creio que
na de Nadine Gordimer, um escritor de ficção dedicado à literatura
é, necessariamente, alguém que pensa a respeito de problemas
morais: sobre o que é justo e injusto, o que é melhor ou pior, o
que é repulsivo e admirável, o que é lamentável e o que inspira
alegria e aprovação. Isso não implica moralizar, em nenhum sentido
direto ou bruto. Escritores de ficção séria pensam a respeito de
problemas morais de forma prática. Contam histórias. Narram.
Evocam nossa humanidade comum em narrativas com as quais podemos nos
identificar, muito embora a vida possa ser distante da nossa vida.
Eles estimulam a nossa imaginação. As histórias que contam,
ampliam e complicam — e, portanto, aprimoram — a nossa
solidariedade. Eles educam a nossa capacidade de juízo moral.
Quando digo que o escritor de ficção
narra, quero dizer que a história tem uma forma; um começo, um meio
(devidamente chamado de desenvolvimento) e um fim ou solução. Todo
escritor de ficção deseja contar muitas histórias, mas sabemos que
não podemos contar todas as histórias — sem dúvida, não
de forma simultânea. Sabemos que temos de escolher uma história,
digamos, uma história central; temos de ser seletivos. A arte
do escritor é encontrar o máximo possível nessa história, nessa
sequência... nesse tempo (a cronologia de uma história),
nesse espaço (a geografia concreta da história). “Há tantas
histórias para contar”, medita a voz do alter ego no
monólogo que abre o meu último romance, Na América. “Há
tantas histórias para contar, é difícil dizer por que se escolhe
uma e não outra, deve ser porque com essa história se tem a
sensação de que é possível contar muitas histórias, a sensação
de que haverá nela alguma necessidade; vejo que estou explicando
mal... Tem de ser algo parecido com se apaixonar. O que quer que
explique por que escolhemos essa história... não vai explicar
grande coisa. Uma história, quero dizer, uma história longa, um
romance, é como uma volta ao mundo em oitenta dias: mal conseguimos
lembrar o início, quando chegamos ao final.”
Um romancista, portanto, é alguém
que nos leva para uma viagem. Pelo espaço. Pelo tempo. Um romancista
guia o leitor na travessia de um abismo, faz algo ir a um lugar onde
não está.
Há uma antiga máxima que sempre
imaginei ter sido inventada por um estudante universitário de
filosofia (como eu mesma fui, um dia), tarde da noite, quando lutava
para vencer a abstrusa exposição de Kant na sua Crítica da
razão pura sobre as quase incompreensíveis categorias de tempo
e espaço, e resolveu que tudo aquilo poderia ser dito de forma muito
mais simples.
É assim:
“O tempo existe para que tudo não
aconteça de uma vez só... e o espaço existe para que não aconteça
tudo com você.”
Segundo esse critério, o romance é
um veículo ideal de espaço e também de tempo. O romance nos mostra
o tempo: ou seja, tudo não acontece de uma vez só. (É uma
sequência, uma linha.) Ele nos mostra o espaço: ou seja, o que
acontece não acontece a uma pessoa só.
Em outras palavras, é criação não
só de uma voz, mas de um mundo. Imita as estruturas essenciais
segundo as quais experimentamos a nós mesmos como viventes no tempo,
habitantes de um mundo; pessoas que tentam compreender o sentido da
própria experiência. Mas o romance não faz o que as vidas (as
vidas que são vividas) não podem oferecer, exceto
depois que terminam. Ele confere — e retira — significado ou
sentido a uma vida. Isso é possível porque a narração é
possível, porque existem normas de narração que são tão
constitutivas do pensar, do sentir e do experimentar, como são, na
visão de Kant, as categorias mentais de espaço e tempo.
Uma forma espacial de conceber
a ação humana é um traço intrínseco da imaginação do
romancista, mesmo quando a intenção principal de determinada ficção
é precisamente afirmar a impossibilidade de um mundo autenticamente
espacial, como nas narrativas claustrofóbicas de Samuel Beckett e
Thomas Bernhard.
Uma convicção da riqueza potencial
da nossa existência no tempo é também característica da
imaginação que é especificamente romanesca, ainda quando a
intenção do romancista — de novo poderíamos citar Beckett e
Bernhard — é ilustrar a futilidade e o caráter repetitivo da ação
no tempo. A exemplo do mundo em que vivemos de fato, os mundos que os
romancistas criam possuem uma história e também uma geografia. Não
seriam romances se não fosse assim.
Noutras palavras — e mais uma vez —,
o romance conta uma história. Não quero dizer apenas que o conteúdo
de um romance é a história, a qual é depois distribuída ou
organizada em uma narrativa literária, de acordo com diversas ideias
de forma. Estou ponderando que ter uma história para contar é a
principal propriedade formal de um romance; e que o
romancista, a despeito da complexidade dos seus meios, é
condicionado — liberado — pela lógica fundamental da narração.
O esquema essencial da narração é
linear (mesmo quando é anticronológico). Parte de um “antes”
(ou: “no início”) para um “durante”, até um “por fim”
ou “depois”. Mas isso é muito mais do que a sequência habitual,
assim como o tempo vivido — que se estende com sentimento e se
encolhe com o embotamento do sentimento — não é uniforme, o tempo
do relógio. A tarefa do romancista consiste em vivificar o tempo,
bem como em animar o espaço.
A dimensão do tempo é essencial para
a prosa de ficção, mas não para a poesia (ou seja, poesia lírica),
se me permitem invocar a velha ideia de um sistema bipartidário para
a literatura. A poesia situa-se no presente. Poemas, mesmo quando
contam histórias, não são como histórias.
Uma diferença se encontra no papel da
metáfora, que, eu diria, é necessária na poesia. De fato,
na minha opinião, é tarefa do poeta — uma das tarefas —
inventar metáforas. Uma das fontes fundamentais do entendimento
humano é aquilo que pode ser chamado de sentido “pictórico”,
alcançado mediante a comparação de uma coisa com outra. Aqui estão
alguns exemplos veneráveis, familiares (e plausíveis) a todos:
o tempo como o fluxo de um rio;
a vida como um sonho;
a morte como o sono;
o amor como uma doença;
a vida como uma peça ou um palco;
a sabedoria como uma luz;
os olhos como estrelas;
o livro como um mundo;
o ser humano como uma árvore;
a música como alimento;
etc. etc.
Um grande poeta é alguém que refina
e elabora o grande acervo histórico de metáforas e aumenta o nosso
estoque de metáforas. As metáforas proporcionam uma forma profunda
de entendimento, e muitos romancistas — mas nem de longe todos eles
— recorreram a metáforas. A apreensão da experiência por meio da
metáfora não constitui o entendimento distintivo
proporcionado pelos grandes romancistas. Virginia Woolf não é uma
romancista melhor do que Thomas Bernhard porque ela usa metáforas e
ele não.
O entendimento do romancista é
temporal, mais do que espacial ou pictórico. Seu veículo é um
sentido de tempo que lhe foi transmitido — o tempo vivenciado como
uma arena de luta, de conflito ou de escolha. Todas as histórias são
sobre batalhas, lutas de um tipo ou outro, que terminam em vitória e
em derrota. Tudo se move rumo ao fim, quando o desfecho será
conhecido.
“O moderno” é uma ideia, uma
ideia muito radical, que continua a se desenvolver. Estamos agora
numa segunda fase da ideologia do moderno (que recebeu o nome
pretensioso de “pós-moderno”).
Na literatura, em geral se considera
que o moderno remonta a Flaubert, o primeiro romancista integralmente
autoconsciente, que parecia moderno, ou avançado, porque se
preocupava com a sua prosa, julgava-a segundo critérios rigorosos —
como ritmo, economia, precisão, densidade — que pareciam
reverberar inquietações até então restritas ao domínio da
poesia.
Flaubert também proclamou a guinada
rumo à “abstração”, característica das estratégias modernas
de criar e defender a arte negando a primazia do tema. Certa vez, ele
descreveu Madame Bovary, romance com um tema e uma história
configurados de forma clássica, como um romance sobre a cor marrom.
Em outra ocasião, Flaubert disse que era sobre... nada.
Claro, ninguém achou que Madame
Bovary fosse de fato sobre a cor marrom ou sobre “nada”. O
que é exemplar é o grau do escrúpulo com a escrita — o
perfeccionismo, se preferirem — que essas hipérboles evidentes
implicam. Sobre Flaubert, poderíamos repetir o que Picasso disse a
respeito de Cézanne: o que prende todo romancista sério a Flaubert
é, mais ainda do que a sua obra, a sua inquietação.
Esse início do “moderno” na
literatura ocorreu na década de 1850. Um século e meio é um tempo
bastante longo. Muitas atitudes, escrúpulos e recusas associadas com
“o moderno” na literatura — bem como nas demais artes —
começaram a parecer convencionais ou mesmo estéreis. E, em certa
medida, esse juízo se justifica. Todas as idéias sobre literatura,
mesmo a mais exigente ou liberadora, podem tornar-se uma forma de
afetação intelectual ou de autocongratulação.
A maior parte das ideias sobre
literatura é reativa — na mão de talentos inferiores, meramente
reativa. Mas o que está acontecendo nos repúdios apresentados no
debate em curso sobre o romance ultrapassa o processo usual pelo qual
talentos novos precisam repudiar ideias antigas de excelência
literária.
Na América do Norte e na Europa
vivemos hoje, creio que é justo dizê-lo, um período de reação.
Nas artes ele assume a forma de uma reação intimidadora contra as
grandes obras modernistas, tidas como difíceis demais, exigentes
demais com o público, inacessíveis (ou “não amigáveis”). E na
política, ele assume a forma de uma rejeição de qualquer tentativa
de avaliar a vida pública pelo que é desdenhado como meros ideais.
Na era moderna, o apelo a um retorno
ao realismo nas artes muitas vezes anda de mãos dadas com o reforço
do realismo cínico no discurso político.
Hoje, a maior ofensa de todas, tanto
na arte como na cultura em geral, para não falar da vida política,
é dar a impressão de defender algo melhor, um padrão mais
exigente, que é atacado, tanto pela esquerda como pela direita, como
ingênuo ou como “elitista” (uma nova bandeira dos filisteus).
Declarações da morte do romance —
ou na sua nova forma, do fim dos livros — têm sido, é claro, um
dos pratos principais do debate sobre literatura há quase um século.
Mas recentemente elas alcançaram uma nova virulência e uma nova
persuasão teórica.
Desde a época em que os processadores
de textos tornaram-se ferramentas comuns para a maioria dos
escritores — inclusive para mim —, existem aqueles que afirmam
que agora existe um futuro novo e glorioso para a ficção.
O argumento é o seguinte:
O romance, como o conhecemos, chegou
ao seu fim. Porém não há motivo para se lamentar. Algo melhor (e
mais democrático) vai substituí-lo: o hiper-romance, que será
escrito no espaço não linear ou não sequencial, viabilizado pelo
computador.
Esse novo modelo de ficção propõe
liberar o leitor dos dois sustentáculos do romance tradicional: a
narrativa linear e o autor. O leitor, cruelmente obrigado a ler uma
palavra depois da outra para chegar ao fim de uma sentença, um
parágrafo depois do outro para chegar ao fim de uma cena, vai
exultar ao saber que, segundo uma explicação, sua “verdadeira
liberdade” é possível agora graças ao advento do computador: “a
liberdade da tirania da linha”. Um hiper-romance “não tem
início; é reversível; temos acesso a ele por várias entradas, e
nenhuma delas pode ser classificada oficialmente como a principal”.
Em vez de seguir uma história linear determinada pelo autor, o
leitor pode navegar à vontade numa “interminável vastidão de
palavras”.
Acho que a maioria dos leitores —
certamente, quase todos os leitores — ficarão admirados em
saber que a narração estruturada — desde o esquema
início-meio-fim mais elementar dos contos tradicionais até
narrativas não cronológicas, plurivocais, construídas de modo mais
elaborado — é na verdade uma forma de opressão, e não uma fonte
de prazer.
De fato, o que interessa à maioria
dos leitores na ficção é exatamente a história — sejam contos
de fadas, romances policiais ou as complexas narrativas de Cervantes,
Dostoiévski, Jane Austen, Proust e Italo Calvino. A história — a
idéia de que os eventos ocorrem numa ordem causal específica — é
a maneira como vemos o mundo e aquilo que nele mais nos interessa.
Quem lê sem pensar em mais nada, lê pela trama.
Contudo, os defensores da hiperficção
afirmam que achamos a trama “limitadora” e ficamos em atrito com
as suas limitações. Afirmam que sofremos e desejamos nos libertar
da tirania ancestral do autor, que determina como a história vai
terminar, e queremos ser leitores verdadeiramente ativos, que a
qualquer momento da leitura do texto podem escolher entre várias
continuações alternativas, ou desfechos da história, reordenando
os blocos de texto. A hiperficção é por vezes considerada uma
imitação da vida real, com a sua infinidade de oportunidades e de
desfechos surpreendentes, portanto suponho que ela esteja sendo
apregoada como uma espécie de realismo supremo.
A isso eu responderia que, embora seja
verdade que pretendemos organizar nossa vida e entender seu sentido,
não pretendemos escrever os romances dos outros. E uma das fontes de
que dispomos para nos ajudar a entender o sentido de nossa vida,
fazer escolhas e propor e aceitar critérios para nós mesmos, é a
nossa experiência de vozes confiáveis singulares, não a
nossa própria voz, que constitui esse grande corpo de obras que
educa o coração e os sentimentos e nos ensina a estar no mundo, que
incorpora e defende as glórias da língua (ou seja, expande o
instrumento fundamental da consciência): a saber, a literatura.
O mais verdadeiro é que o hipertexto
— ou eu deveria dizer a ideologia do hipertexto? — é
ultrademocrático e, portanto, está em total harmonia com os apelos
demagógicos em favor da democracia cultural que acompanham a
dominação cada vez mais coercitiva do capitalismo plutocrático (e
distrai dele a nossa atenção).
Essa proposta de que o romance do
futuro não terá nenhuma história, ou antes terá uma
história urdida pelo leitor (ou antes, pelos leitores), é
muito claramente destituída de apelo e, caso venha a ser aplicada,
levará de forma inevitável não à tão propalada morte do autor,
mas sim à extinção do leitor — todos os futuros leitores do que
é classificado como “literatura”. É fácil ver que isso só
poderia ser uma invenção da crítica literária acadêmica,
que passou a ser dominada por uma infinidade de ideias que exprimem a
mais veemente hostilidade ao próprio projeto da literatura em si.
Mas essa ideia vai além.
Tais proclamações de que o livro e o
romance em especial estão terminando não podem ser simplesmente
atribuídas à maldade acarretada pela ideologia que passou a dominar
os departamentos de literatura em muitas universidades importantes
dos Estados Unidos e na Europa Ocidental. (Não sei até que ponto
isso é verdade na África do Sul.) A força verdadeira por trás da
argumentação contra a literatura, contra os livros, deriva, quero
crer, da hegemonia do modelo proposto pela televisão.
[...]
Susan Sontag, em Ao Mesmo Tempo – Ensaios e Discursos

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