“Todo começo é difícil; isso vale
para qualquer ciência”, alertava Marx no prefácio do Capital.
Poderia ter acrescentado: muito mais difícil é o fim, pois o
primeiro volume foi o único que concluiu antes de morrer. Os anos de
luta e trabalho árduo deixaram-no física e mentalmente exaurido.
“Não espere pelo segundo volume”,
escreveu ao tradutor russo em outubro de 1868. “A publicação
talvez se atrase outros seis meses. Não posso terminá-lo até que
certos dados oficiais, coletados durante o último ano e em 1866, na
França, nos Estados Unidos e na Inglaterra, sejam coligidos e
divulgados.” Em 1870 tinha uma nova desculpa para os atrasos:
Não só fui contido por minha
doença ao longo de todo o inverno, como descobri ser necessário
investir em meu russo. Pois, ao lidar com a questão fundiária,
tornou-se essencial o estudo, a partir de fontes primárias, das
relações de propriedade de terra na Rússia.
Ao longo dos anos seguintes, acumulou
uma montanha de estatísticas e livros russos – para grande
irritação de Engels, que, segundo confessava, adoraria tocar fogo
naquilo tudo. Ele suspeitava que Marx estivesse usando seus arquivos
como uma barricada atrás da qual se escondia dos apelos exasperados
de amigos e editores.
A suspeita era plenamente justificada.
Quando começou a organizar o volume seguinte a partir da montanha de
papéis deixada após a morte de Marx, em 1883, Engels descreveu a
extensão de sua tarefa em uma carta ao socialista alemão August
Bebel:
Ao lado de partes totalmente
concluídas estão outras apenas esboçadas; com exceção talvez de
dois capítulos, tudo o mais não passa de rascunho. Citações sem
qualquer tipo de ordem, amontoadas de forma confusa e coletadas com o
único propósito de uma futura seleção. Além do mais, há a
caligrafia que com certeza ninguém senão eu consegue decifrar, e
mesmo assim com bastante dificuldade. Você me pergunta por que eu,
entre todas as pessoas, não percebi quão longe isso tinha chegado.
É bastante simples: se soubesse, eu o importunaria dia e noite até
que tudo estivesse terminado e impresso. E Marx sabia disso melhor
que ninguém.
O segundo livro foi publicado em 1885,
seguido por um terceiro (também compilado por Engels) em 1894. O que
geralmente se denomina “o quarto volume”, Teorias da
mais-valia, saiu em 1905, editado por Karl Kautski a partir das
anotações de Marx, em meados dos anos 1860, sobre a história da
economia, em grande parte composta por excertos de teóricos
anteriores, como Adam Smith e David Ricardo.
Em suma, O Capital é uma obra
incompleta e fragmentada: o plano original de Marx, cabe lembrar,
previa seis volumes. Nas palavras do especialista marxiano Maximilien
Rubel, “não temos diante de nós uma bíblia marxista de cânones
eternamente codificados”. Isso deve ser enfatizado porque muitos
comunistas tratavam a obra como uma escritura sagrada. Argumentavam
que tudo o que Marx dissera era verdadeiro – e o que não foi dito,
por conseguinte, não era verdade. As duas alegações são
insustentáveis: há silêncios e omissões que poderiam ter sido
resolvidos se ele dispusesse de tempo e energia suficientes; e há
erros e concepções equivocadas, dos quais seus críticos se
apoderaram de maneira triunfante, e que podem igualmente ser
reconhecidos pelos admiradores do Capital. “O fato de que
Marx tenha descoberto com brilhantismo um novo continente”, declara
o economista Michael Lebowitz, “não significa que o tenha mapeado
de modo adequado.”
A terra incognita que ele
desbravou era o novo mundo do capitalismo industrial, uma paisagem
ignorada por Adam Smith. Desde o início Marx alertava os leitores
para o fato de que estavam penetrando uma terra de fantasia onde nada
é o que parece. Observe-se a escolha verbal logo na primeira
sentença do Capital: “A riqueza das sociedades em que
domina o modo de produção capitalista aparece como uma
‘imensa coleção de mercadorias’, e a mercadoria individual,
como sua forma elementar” (grifo meu). Embora menos dramática que
a célebre sentença de abertura do Manifesto Comunista (“Um
espectro ronda a Europa…”), o argumento é semelhante: somos
introduzidos em um mundo de espectros e fantasmagorias. As páginas
do Capital contêm frases como “objetividade
fantasmagórica”, “aparência sem substância”, “meras
ilusões” e “falsa aparência”. Somente ao transpor os véus da
ilusão pôde ele revelar a exploração que dá vida ao capitalismo.
A mercadoria, argumenta Marx, tem duas
propriedades: o valor de uso e o de troca. A utilidade de um objeto é
suficientemente óbvia: um casaco nos aquece e protege, um pedaço de
pão nos alimenta. Se o valor de troca fosse uma medida de utilidade,
o pedaço de pão exigiria um preço muito mais alto que, digamos, um
vistoso colete de seda estampada, o que evidentemente não é o caso.
Como, então, se estabelece o valor de troca?
Tomemos agora duas mercadorias,
trigo e ferro. Seja qual for sua relação de troca, será sempre
possível representá-la por uma equação em que dada quantidade de
trigo é igualada a alguma quantidade de ferro. Por exemplo: 1
quarter de trigo = x
quintais de ferro. O que diz essa equação? Que algo em comum da
mesma grandeza existe em duas coisas diferentes, em 1 quarter
de trigo e igualmente em x quintais de ferro. Ambas são, portanto,
iguais a uma terceira, que em si e para si não é nem uma nem outra.
Cada uma das duas, como valor de troca, deve portanto ser redutível
a essa terceira.
O que há de comum entre as
mercadorias é o fato de serem produtos do trabalho. Assim, o valor
de um objeto deve refletir a quantidade de trabalho nele
“cristalizado” – o trabalho diretamente envolvido na fabricação
de um objeto, bem como o trabalho que produziu as máquinas usadas na
manufatura e também aquele despendido na elaboração de
matéria-prima. (Marx apressa-se em explicar o que entende por “tempo
de trabalho socialmente necessário”: são as horas que um
trabalhador médio leva para completar sua tarefa. Do contrário,
seria possível supor que uma mercadoria feita por trabalhadores
desajeitados e preguiçosos é mais valiosa, uma vez que sua produção
leva mais tempo.)
Até esse ponto nada de novo: “teorias
do valor-trabalho” semelhantes foram propostas por Adam Smith,
David Ricardo e muitos outros economistas clássicos. Smith começa A
riqueza das nações com a seguinte assertiva: “O trabalho
anual de cada nação constitui o fundo que originalmente lhe fornece
todos os bens necessários e todos os confortos materiais para a
vida…” Marx, contudo, vai além disso. Assim como as mercadorias
têm um caráter dual – possuem tanto valor de uso quanto de troca
–, o trabalho por si só apresenta uma natureza dupla. O valor de
uso é criado pelo trabalho “concreto” ou “útil”, definido
por Marx como “determinada atividade produtiva adequada a certo
fim”; já o valor de troca deriva do trabalho “abstrato” ou
“indiferenciado”, medido puramente em termos de duração – e
há entre os dois uma tensão inerente. Um alfaiate, por exemplo,
pode se esforçar para fazer o casaco mais resistente que sua
capacidade permita. No entanto, caso seja demasiado resistente, o
comprador não precisará voltar para comprar um novo casaco, o que
porá em risco o comércio do alfaiate. O mesmo se aplica ao tecelão
que cria o tecido com o qual se costurou o casaco. A necessidade de
criar valor de uso encontra-se, portanto, em conflito com a
necessidade de criação de valor de troca.
Para ilustrar os dois aspectos
referentes ao trabalho, Marx lança-se a uma reflexão longa e
progressivamente surreal sobre os valores relativos do casaco e de 20
varas de linho. “Essa comparação comprova apenas que ele (o
casaco) significa mais dentro da relação de valor com o linho que
fora dela, assim como algumas pessoas significam mais dentro de um
casaco com galões que fora dele.” No que diz respeito ao valor de
uso, o linho é algo nitidamente distinto do casaco; mas, como valor,
é na verdade a mesma coisa, uma expressão do trabalho abstrato.
Assim, o linho recebe uma forma de
valor diferente de sua forma natural. Sua existência como valor
aparece em sua igualdade com o casaco, assim como a natureza de
carneiro do cristão revela-se em sua semelhança com o Cordeiro de
Deus.
Essa jocosa analogia deveria nos
prevenir para o fato de que estamos lendo uma anedota, uma jornada
picaresca pelos reinos do mais elevado nonsense. Ainda estudante,
Marx se apaixonara pelo digressivo romance de Laurence Sterne, A
vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy. Trinta anos
depois descobria um tema que lhe permitia mimetizar o estilo solto e
fragmentário inaugurado por Sterne. Como Tristram Shandy, O
Capital é cheio de paradoxos e hipóteses, intricadas
explicações e tolas extravagâncias, narrativas fracionadas e
curiosas excentricidades. De que outro modo poderia ele fazer justiça
à lógica misteriosa e em geral confusa do capitalismo? Como observa
Marx ao final de sua exaustiva ladainha sobre linho e casacos: “À
primeira vista, a mercadoria parece algo trivial, evidente. Ao
analisá-la, vê-se que é algo muito complicado, repleto de
sutilezas metafísicas e teológicas.”
Quando da madeira se faz uma mesa,
esta continua sendo madeira – uma coisa ordinária, material. Mas,
ao ser transformada em mercadoria, ela transcende a materialidade.
Não só coloca os pés no chão; ela,
em relação a outras mercadorias, se põe sobre a cabeça e
desenvolve em sua mente de madeira ideias grotescas, muito mais
assombrosas do que se começasse a dançar por iniciativa própria.
Uma vez que diferentes mercadorias
refletem o trabalho de seus produtores, o relacionamento social entre
os homens “assume a forma fantasmagórica de uma relação entre
coisas”. A única analogia que Marx encontra para essa bizarra
transformação está no nebuloso reino da religião:
Lá, os produtos do cérebro humano
(isto é, os deuses) parecem figuras autônomas, dotadas de vida
própria, que mantêm relações entre si e com os homens. Assim é
também no mundo das mercadorias e dos produtos feitos pela mão
humana. A isso eu chamo de fetichismo que adere aos produtos do
trabalho quando são produzidos como mercadorias.
No sentido religioso, os fetiches são
objetos venerados por seus supostos poderes sobrenaturais, tais como
as relíquias dos santos da Europa medieval. (Já em 1842, Marx, com
apenas 24 anos, ridicularizou um autor alemão segundo o qual essa
forma de fetichismo “eleva o homem acima de seus desejos
sensoriais”, impedindo que ele se torne um mero animal. Longe de
libertar o homem de seus desejos relativos aos sentidos, objetou
Marx, o fetichismo é a religião do desejo sensorial: “A fantasia,
originando-se no desejo, leva ilusoriamente o adorador do fetiche a
acreditar que um objeto inanimado abrirá mão do caráter natural
que possui no intuito de satisfazer os desejos dele.”) Em uma
economia capitalista, o fetichismo é a crença de que as mercadorias
têm algum valor místico intrínseco. Como os ossos dos
santos, esta é uma ilusão. “Até agora”, escreve Marx, “nenhum
químico descobriu valor de troca em pérolas ou diamantes.”
A escolha desse exemplo é bastante
curiosa, pois expõe as limitações da própria teoria de Marx. Se,
como sugere, o valor de troca de pérolas e diamantes deriva
unicamente do tempo de trabalho gasto em sua extração e
transformação, por que as pessoas pagam às vezes centenas de
milhares de libras por um solitário de diamante ou um colar de
pérolas? Tais preços extraordinários não devem algo ao caráter
de exclusividade, ao sentimento de beleza, ou até mesmo ao prestígio
social? Se o tempo de trabalho fosse isoladamente o fator
determinante, um rabisco de Picasso em um guardanapo ou um chapéu
que pertenceu a John Lennon valeriam pouco mais que algumas libras –
e o “valor” de uma garrafa de vinho tinto proveniente de uma
ótima safra seria idêntico ao de uma safra inferior, se ambos
encerrarem a mesma quantidade de trabalho.
Os discípulos mais reverentes de Marx
lidam com esses problemas rejeitando-os como excêntricas e
irrelevantes exceções à regra. Além do mais, o próprio Marx não
sugeriu que as mercadorias tinham “sutilezas metafísicas e
teológicas”? A teoria que relaciona o valor de algo com o trabalho
despendido para produzi-lo talvez ajude pouco na compreensão de por
que alguns tufos da cabeleira de Elvis Presley, guardados pelo seu
barbeiro, alcançaram a quantia de 115 mil dólares em um leilão em
2002; mas talvez a noção de fetichismo da mercadoria – “a magia
e a necromancia que nublam os produtos do trabalho” – ofereça ao
menos uma explicação parcial.
De forma geral, de acordo com Marx, o
fetichismo da mercadoria representa “a dominação da coisa sobre o
homem, do trabalho morto sobre o trabalho vivo, do produto sobre o
produtor”. (Aqui novamente vemos o lento desabrochar de uma imagem
semeada muitos anos antes. Um de seus primeiros artigos da Gazeta
Renana, em 1842, abordava uma nova lei que impedia que os camponeses
apanhassem madeira morta em florestas particulares, direito que
usufruíam desde tempos medievais. “Há a possibilidade que algumas
árvores jovens possam ser danificadas”, relatou Marx, “e não é
necessário dizer que os ídolos de madeira triunfam, e os seres
humanos são sacrificados!” A ideia voltou à tona em um discurso
de 1856 para uma audiência de cartistas: “Em nossos dias, tudo
parece impregnado de seu contrário…. Todas as nossas invenções e
progressos parecem dotar as forças materiais de vida intelectual e
reduzir a vida humana a força material”.) “Tudo que é sólido
se desmancha no ar”, escreveu ele no Manifesto Comunista; no
Capital, tudo que é verdadeiramente humano se desmancha em
objetos inanimados que adquirem vida e vigor assustadores.
Surge então outra dificuldade, da
qual Marx não se esquiva: por que os trabalhadores são tiranizados
e alienados pelos objetos que criam? Se o valor de uma mercadoria é
criado pelos trabalhadores, por que eles não ficam com a totalidade
desse valor? Isso geralmente ocorre, argumenta ele, em economias não
desenvolvidas. “Naquele estado original das coisas, que precede
tanto a apropriação da terra quanto a acumulação de capital, o
produto integral do trabalho pertence ao trabalhador. Este não tem
senhor nem proprietário fundiário com o qual deva repartir o fruto
de seu trabalho”, escreveu Adam Smith na Riqueza das nações.
Se um carpinteiro vende uma mesa e usa o dinheiro para comprar um
saco de trigo, as transações podem ser descritas pela fórmula
M-D-M – as mercadorias (M) são transformadas em
dinheiro (D), que então é reconvertido em outras
mercadorias. Mas há uma outra forma de circulação de mercadorias,
cada vez mais predominante no capitalismo industrial, que pode ser
descrita como D-M-D. O capitalista usa o dinheiro para comprar
várias mercadorias – força de trabalho, matéria-prima,
maquinaria – que produzem uma nova mercadoria, por sua vez vendida
no mercado.
Os dois ciclos podem ser divididos nas
mesmas fases antitéticas: M-D (venda) e D-M (compra).
O que distingue uma da outra é a ordem de sucessão: em um caso, o
ponto de partida e de chegada do movimento são as mercadorias; no
outro, o dinheiro.
Na circulação M-D-M,
o dinheiro é ao final convertido em mercadoria e funciona como valor
de uso. O dinheiro está, assim, definitivamente gasto. Na forma
inversa, D-M-D, o
comprador gasta dinheiro para, como vendedor, recuperá-lo…. Ele
libera o dinheiro só com a astuciosa intenção de apoderar-se dele
novamente. O dinheiro é, portanto, apenas adiantado.
Enquanto na “circulação simples de
mercadorias”, representada por M-D-M, o duplo deslocamento
da mesma quantidade de dinheiro provoca sua definitiva transferência
de uma mão para outra, em D-M-D o duplo deslocamento da mesma
mercadoria leva o dinheiro a fluir de volta a seu ponto de partida.
Não haveria sentido em entregar-se a
esse elaborado ritual se o investimento inicial retornasse sem
alteração. Por isso, Marx reescreve a fórmula como D-M-D’,
em que D’ é o valor original mais um acréscimo. “Chamo
este incremento, ou excedente sobre o valor original, de
‘mais-valia’.” É o movimento de D para D’ que
converte o dinheiro em capital. Obviamente, ele admite ser “também
possível que, em M-D-M, os dois extremos, M e M,
por exemplo, milho e roupas, representem grandezas de valor
quantitativamente diferentes. O camponês pode vender seu grão acima
do valor ou comprar as roupas abaixo do valor delas. Pode também ser
enganado pelo comerciante de roupas”. Porém, tal diferença de
valor é “puramente casual” e não invalida a distinção básica
entre as duas fórmulas. A circulação simples de mercadorias –
vender para comprar – é um meio de alcançar um fim: a satisfação
das necessidades. A circulação do dinheiro como capital é um fim
em si mesmo.
É a mais-valia que transforma o
dinheiro em capital. Mas de onde ela provém? Marx investiga esse
mistério a partir da perspectiva de um capitalista aprendiz. Cada
estágio da circulação – D-M e M-D’ – é uma mera
troca de equivalentes. Se os bens são trocados com base em seu valor
real, seria impossível que aqueles que possuem dinheiro obtivessem
lucro:
Admita-se que seja permitido aos
vendedores, por um privilégio inexplicável, vender a mercadoria
acima do seu valor, a 110, quando ela vale 100, portanto com um
aumento nominal de 10% do preço. O vendedor embolsa uma mais-valia
de dez. Mas depois de ter sido vendedor, ele se torna comprador. Um
terceiro possuidor de mercadorias vai ao seu encontro agora como
vendedor e goza por sua vez do privilégio de vender sua mercadoria
10% mais cara. Nosso amigo ganhou dez como vendedor para perdê-los
como comprador. De fato, o resultado dessa rede é que todos os
possuidores de mercadorias vendem reciprocamente suas mercadorias 10%
acima do valor, o que é exatamente o mesmo que vender as mercadorias
por seus valores verdadeiros…. Tudo fica como antes.
Deve haver circunstâncias
particulares – como no caso do camponês e do comerciante de roupas
– em que um capitalista de incorrigível estupidez seja convencido
a comprar mercadorias acima de seu valor ou vendê-las muito barato,
mas este dificilmente pode ser o princípio subjacente a todo o
sistema. Para extrair mais-valia, o possuidor de dinheiro deve
encontrar uma mercadoria que tenha a peculiar propriedade de adquirir
mais valor durante o consumo que o valor de fato empregado na
produção. Se tiver sorte, nosso homem descobre uma mercadoria com
essa característica única – a força de trabalho, que tem “a
qualidade oculta de gerar valor para si própria. Dá origem a
filhotes vivos ou ao menos põe ovos de ouro”.
A força de trabalho, de acordo com
Marx, é uma mercadoria, por isso seu valor é medido, como o de
qualquer outra mercadoria, pela quantidade de tempo de trabalho
necessário para produzi-la e reproduzi-la. (Outro eco de Adam Smith,
que escreveu: “A demanda por homens necessariamente governa a
produção dos homens como qualquer outra mercadoria.”) Pode
parecer grotesco estimar o valor dos seres humanos como se fossem
latas de feijões cozidos, mas é justamente esta a tese de Marx:
para o possuidor de dinheiro, o mercado de trabalho nada mais é que
um ramo do mercado. Como o capitalista estima, porém, o valor dessa
mercadoria específica?
Se o proprietário da força de
trabalho esteve no batente hoje, ele deve poder repetir o mesmo
processo amanhã, sob as mesmas condições de força e saúde. A
soma dos meios de subsistência deve, pois, ser suficiente para
mantê-lo como indivíduo trabalhador em seu estado de vida normal.
As próprias necessidades naturais, como alimentação, roupa,
aquecimento, moradia etc. são diferentes de acordo com o clima e
outras peculiaridades naturais de um país. Por outro lado, o número
e a extensão das necessidades básicas, assim como a forma de
satisfazê-las, são um produto histórico…. Diferentemente das
outras mercadorias, a determinação do valor da força de trabalho
contém um elemento histórico e moral. No entanto, para certo país,
em determinado período, a quantidade média necessária para a
produção dos meios básicos de subsistência é um dado conhecido.
Uma vez que o trabalhador é mortal, o
cálculo deve incluir os “meios de subsistência necessários à
produção de seus substitutos, isto é, dos filhos de trabalhadores,
de modo que essa raça peculiar de mercadorias se perpetue no
mercado”. Deve também haver um componente – “ínfimo para a
força de trabalho comum” – para a educação e o treinamento.
Marx calcula que o total necessário
para a sobrevivência equivale a cerca de seis horas de trabalho por
dia. Mas o possuidor de dinheiro permitirá que seus trabalhadores
larguem o batente ao final das seis horas necessárias? Claro que
não. Para receber o salário, devem trabalhar mais cinco ou seis
horas, fornecendo, assim, o “mais-trabalho” que gera o lucro.
“Não há um único átomo de mais-valia que não derive de
trabalho alheio não pago”, conclui Marx, que relaciona essa
exploração ao “velho procedimento do conquistador que compra as
mercadorias dos vencidos com o próprio dinheiro que roubou deles”.
A única diferença em relação a épocas anteriores é a artimanha
empregada para dissimular o roubo de suas vítimas.
Descoberto o segredo, o possuidor de
dinheiro naturalmente deseja obter ainda mais de sua galinha dos ovos
de ouro. O método mais óbvio é fazer com que os trabalhadores
tenham longas jornadas de trabalho, e no Capítulo 8 do Capital, “A
jornada de trabalho”, Marx demonstra o custo humano dessa fórmula
aparentemente impessoal.
A Lei Fabril (Factory Act) de
1850 limitou a semana de trabalho britânica a 60 horas. (Sessenta
horas de trabalho efetivo, acrescentando-se meia hora de intervalo
para o café e uma hora para o almoço, o que significa um turno de
12 horas de segunda a sexta-feira e mais oito horas no sábado.) A
lei também criou um pequeno exército de inspetores de fábricas,
cujos relatórios semestrais municiaram Marx das provas detalhadas da
“avidez dos capitalistas pelo mais-trabalho”. Incontáveis
minutos, furtados do horário de refeições e descanso dos
trabalhadores, constituíam um formidável butim: um dono de fábrica
alertou um inspetor para o fato de que, se diminuísse o horário das
refeições em dez minutos por dia, ele colocaria anualmente em seu
bolso mil libras esterlinas. A imprensa burguesa forneceu mais
munição a Marx. Um relatório do jornal Daily Telegraph
sobre o comércio de rendas em Nottingham revelou que
… crianças de nove ou dez anos
são arrancadas de suas camas imundas às duas, três ou quatro horas
da manhã e obrigadas, para ganhar sua subsistência, a trabalhar até
às dez, 11 ou 12 horas da noite; enquanto braços e pernas definham,
a estatura se atrofia, as linhas faciais se embotam e a essência se
imobiliza num torpor pétreo cuja aparência é horripilante.
Há nesse trecho forte influência da
Situação da classe operária na Inglaterra, livro escrito
por Friedrich Engels em 1845. A obra intercala observações pessoais
a informações condenatórias oriundas de jornais, comissões
parlamentares, inspetores de fábricas e atas do Parlamento
britânico. “Deliciei-me com o testemunho de meus oponentes”,
escreveu Engels, maravilhado com o fato de o governo da Inglaterra
ter publicado tantas evidências contra si próprio. As citações
dos “livros azuis”b do governo e de artigos do Economist
no Capital demonstram quanto Karl Marx aprendeu com essa
técnica.
O capítulo sobre a jornada de
trabalho, um dos mais longos do livro, é um compêndio de histórias
de horror, moldado apropriadamente por Marx em estilo gótico. “O
capital é trabalho morto que apenas se reanima, à maneira dos
vampiros, ao sugar o trabalho vivo. E quanto mais trabalho vivo
sugar, mais viverá”, escreve ele nos parágrafos iniciais. Depois
de um banquete de sangue que se estende por mais de 70 páginas, Marx
conclui que “o explorador não deixa o trabalhador escapar”. Para
se proteger desse sanguessuga, os trabalhadores “precisam reunir
suas ideias e, como classe, conquistar uma lei estatal, uma barreira
social intransponível, que os impeça de vender a si e a sua
descendência à escravidão e à morte por meio de contrato
voluntário com o capital”. Mas admite que a lei não seria o
suficiente para conter o possuidor de dinheiro e seus parceiros
capitalistas, visto que dispõem de outra alternativa para aumentar a
produtividade, e portanto a mais-valia.
Se a força de trabalho é de fato uma
mercadoria singularmente valiosa, é de esperar que a competição
entre os empregadores eleve os salários – e em tempos de pleno
emprego isso pode realmente ocorrer. À medida que o custo do
trabalho cresce, porém, o possuidor de dinheiro descobre que o
investimento em maquinaria poupadora de trabalho, que em outros
tempos parecia antieconômico, agora tem um aval financeiro, em
especial se o empregador não pode prolongar a jornada de trabalho.
Como escreve Marx, “é impulso imanente e tendência constante do
capital aumentar a força produtiva do trabalho para tornar a
mercadoria mais barata e, pelo barateamento da mercadoria, baratear o
próprio trabalhador”.
Em tese, as máquinas poderiam aliviar
o fardo do trabalhador. Sob o sistema de produção capitalista,
argumenta Marx, seus efeitos são invariavelmente nocivos, embora
bastante benéficos para o possuidor de dinheiro. (O capítulo sobre
maquinaria industrial começa com uma citação dos Princípios da
economia política, de John Stuart Mill: “É de duvidar que
todas as invenções mecânicas até agora introduzidas aliviaram a
labuta diária de algum ser humano.”) Ao substituir a força humana
independente por uma impressionante habilidade produtiva, a máquina
submete cada vez mais o trabalhador ao capital.
[...]
Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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