terça-feira, 6 de janeiro de 2026

| 2 | Nascimento



Todo começo é difícil; isso vale para qualquer ciência”, alertava Marx no prefácio do Capital. Poderia ter acrescentado: muito mais difícil é o fim, pois o primeiro volume foi o único que concluiu antes de morrer. Os anos de luta e trabalho árduo deixaram-no física e mentalmente exaurido.
Não espere pelo segundo volume”, escreveu ao tradutor russo em outubro de 1868. “A publicação talvez se atrase outros seis meses. Não posso terminá-lo até que certos dados oficiais, coletados durante o último ano e em 1866, na França, nos Estados Unidos e na Inglaterra, sejam coligidos e divulgados.” Em 1870 tinha uma nova desculpa para os atrasos:

Não só fui contido por minha doença ao longo de todo o inverno, como descobri ser necessário investir em meu russo. Pois, ao lidar com a questão fundiária, tornou-se essencial o estudo, a partir de fontes primárias, das relações de propriedade de terra na Rússia.

Ao longo dos anos seguintes, acumulou uma montanha de estatísticas e livros russos – para grande irritação de Engels, que, segundo confessava, adoraria tocar fogo naquilo tudo. Ele suspeitava que Marx estivesse usando seus arquivos como uma barricada atrás da qual se escondia dos apelos exasperados de amigos e editores.
A suspeita era plenamente justificada. Quando começou a organizar o volume seguinte a partir da montanha de papéis deixada após a morte de Marx, em 1883, Engels descreveu a extensão de sua tarefa em uma carta ao socialista alemão August Bebel:

Ao lado de partes totalmente concluídas estão outras apenas esboçadas; com exceção talvez de dois capítulos, tudo o mais não passa de rascunho. Citações sem qualquer tipo de ordem, amontoadas de forma confusa e coletadas com o único propósito de uma futura seleção. Além do mais, há a caligrafia que com certeza ninguém senão eu consegue decifrar, e mesmo assim com bastante dificuldade. Você me pergunta por que eu, entre todas as pessoas, não percebi quão longe isso tinha chegado. É bastante simples: se soubesse, eu o importunaria dia e noite até que tudo estivesse terminado e impresso. E Marx sabia disso melhor que ninguém.

O segundo livro foi publicado em 1885, seguido por um terceiro (também compilado por Engels) em 1894. O que geralmente se denomina “o quarto volume”, Teorias da mais-valia, saiu em 1905, editado por Karl Kautski a partir das anotações de Marx, em meados dos anos 1860, sobre a história da economia, em grande parte composta por excertos de teóricos anteriores, como Adam Smith e David Ricardo.
Em suma, O Capital é uma obra incompleta e fragmentada: o plano original de Marx, cabe lembrar, previa seis volumes. Nas palavras do especialista marxiano Maximilien Rubel, “não temos diante de nós uma bíblia marxista de cânones eternamente codificados”. Isso deve ser enfatizado porque muitos comunistas tratavam a obra como uma escritura sagrada. Argumentavam que tudo o que Marx dissera era verdadeiro – e o que não foi dito, por conseguinte, não era verdade. As duas alegações são insustentáveis: há silêncios e omissões que poderiam ter sido resolvidos se ele dispusesse de tempo e energia suficientes; e há erros e concepções equivocadas, dos quais seus críticos se apoderaram de maneira triunfante, e que podem igualmente ser reconhecidos pelos admiradores do Capital. “O fato de que Marx tenha descoberto com brilhantismo um novo continente”, declara o economista Michael Lebowitz, “não significa que o tenha mapeado de modo adequado.”
A terra incognita que ele desbravou era o novo mundo do capitalismo industrial, uma paisagem ignorada por Adam Smith. Desde o início Marx alertava os leitores para o fato de que estavam penetrando uma terra de fantasia onde nada é o que parece. Observe-se a escolha verbal logo na primeira sentença do Capital: “A riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma ‘imensa coleção de mercadorias’, e a mercadoria individual, como sua forma elementar” (grifo meu). Embora menos dramática que a célebre sentença de abertura do Manifesto Comunista (“Um espectro ronda a Europa…”), o argumento é semelhante: somos introduzidos em um mundo de espectros e fantasmagorias. As páginas do Capital contêm frases como “objetividade fantasmagórica”, “aparência sem substância”, “meras ilusões” e “falsa aparência”. Somente ao transpor os véus da ilusão pôde ele revelar a exploração que dá vida ao capitalismo.
A mercadoria, argumenta Marx, tem duas propriedades: o valor de uso e o de troca. A utilidade de um objeto é suficientemente óbvia: um casaco nos aquece e protege, um pedaço de pão nos alimenta. Se o valor de troca fosse uma medida de utilidade, o pedaço de pão exigiria um preço muito mais alto que, digamos, um vistoso colete de seda estampada, o que evidentemente não é o caso. Como, então, se estabelece o valor de troca?

Tomemos agora duas mercadorias, trigo e ferro. Seja qual for sua relação de troca, será sempre possível representá-la por uma equação em que dada quantidade de trigo é igualada a alguma quantidade de ferro. Por exemplo: 1 quarter de trigo = x quintais de ferro. O que diz essa equação? Que algo em comum da mesma grandeza existe em duas coisas diferentes, em 1 quarter de trigo e igualmente em x quintais de ferro. Ambas são, portanto, iguais a uma terceira, que em si e para si não é nem uma nem outra. Cada uma das duas, como valor de troca, deve portanto ser redutível a essa terceira.

O que há de comum entre as mercadorias é o fato de serem produtos do trabalho. Assim, o valor de um objeto deve refletir a quantidade de trabalho nele “cristalizado” – o trabalho diretamente envolvido na fabricação de um objeto, bem como o trabalho que produziu as máquinas usadas na manufatura e também aquele despendido na elaboração de matéria-prima. (Marx apressa-se em explicar o que entende por “tempo de trabalho socialmente necessário”: são as horas que um trabalhador médio leva para completar sua tarefa. Do contrário, seria possível supor que uma mercadoria feita por trabalhadores desajeitados e preguiçosos é mais valiosa, uma vez que sua produção leva mais tempo.)
Até esse ponto nada de novo: “teorias do valor-trabalho” semelhantes foram propostas por Adam Smith, David Ricardo e muitos outros economistas clássicos. Smith começa A riqueza das nações com a seguinte assertiva: “O trabalho anual de cada nação constitui o fundo que originalmente lhe fornece todos os bens necessários e todos os confortos materiais para a vida…” Marx, contudo, vai além disso. Assim como as mercadorias têm um caráter dual – possuem tanto valor de uso quanto de troca –, o trabalho por si só apresenta uma natureza dupla. O valor de uso é criado pelo trabalho “concreto” ou “útil”, definido por Marx como “determinada atividade produtiva adequada a certo fim”; já o valor de troca deriva do trabalho “abstrato” ou “indiferenciado”, medido puramente em termos de duração – e há entre os dois uma tensão inerente. Um alfaiate, por exemplo, pode se esforçar para fazer o casaco mais resistente que sua capacidade permita. No entanto, caso seja demasiado resistente, o comprador não precisará voltar para comprar um novo casaco, o que porá em risco o comércio do alfaiate. O mesmo se aplica ao tecelão que cria o tecido com o qual se costurou o casaco. A necessidade de criar valor de uso encontra-se, portanto, em conflito com a necessidade de criação de valor de troca.
Para ilustrar os dois aspectos referentes ao trabalho, Marx lança-se a uma reflexão longa e progressivamente surreal sobre os valores relativos do casaco e de 20 varas de linho. “Essa comparação comprova apenas que ele (o casaco) significa mais dentro da relação de valor com o linho que fora dela, assim como algumas pessoas significam mais dentro de um casaco com galões que fora dele.” No que diz respeito ao valor de uso, o linho é algo nitidamente distinto do casaco; mas, como valor, é na verdade a mesma coisa, uma expressão do trabalho abstrato.

Assim, o linho recebe uma forma de valor diferente de sua forma natural. Sua existência como valor aparece em sua igualdade com o casaco, assim como a natureza de carneiro do cristão revela-se em sua semelhança com o Cordeiro de Deus.

Essa jocosa analogia deveria nos prevenir para o fato de que estamos lendo uma anedota, uma jornada picaresca pelos reinos do mais elevado nonsense. Ainda estudante, Marx se apaixonara pelo digressivo romance de Laurence Sterne, A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy. Trinta anos depois descobria um tema que lhe permitia mimetizar o estilo solto e fragmentário inaugurado por Sterne. Como Tristram Shandy, O Capital é cheio de paradoxos e hipóteses, intricadas explicações e tolas extravagâncias, narrativas fracionadas e curiosas excentricidades. De que outro modo poderia ele fazer justiça à lógica misteriosa e em geral confusa do capitalismo? Como observa Marx ao final de sua exaustiva ladainha sobre linho e casacos: “À primeira vista, a mercadoria parece algo trivial, evidente. Ao analisá-la, vê-se que é algo muito complicado, repleto de sutilezas metafísicas e teológicas.”
Quando da madeira se faz uma mesa, esta continua sendo madeira – uma coisa ordinária, material. Mas, ao ser transformada em mercadoria, ela transcende a materialidade.
Não só coloca os pés no chão; ela, em relação a outras mercadorias, se põe sobre a cabeça e desenvolve em sua mente de madeira ideias grotescas, muito mais assombrosas do que se começasse a dançar por iniciativa própria.
Uma vez que diferentes mercadorias refletem o trabalho de seus produtores, o relacionamento social entre os homens “assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas”. A única analogia que Marx encontra para essa bizarra transformação está no nebuloso reino da religião:

Lá, os produtos do cérebro humano (isto é, os deuses) parecem figuras autônomas, dotadas de vida própria, que mantêm relações entre si e com os homens. Assim é também no mundo das mercadorias e dos produtos feitos pela mão humana. A isso eu chamo de fetichismo que adere aos produtos do trabalho quando são produzidos como mercadorias.

No sentido religioso, os fetiches são objetos venerados por seus supostos poderes sobrenaturais, tais como as relíquias dos santos da Europa medieval. (Já em 1842, Marx, com apenas 24 anos, ridicularizou um autor alemão segundo o qual essa forma de fetichismo “eleva o homem acima de seus desejos sensoriais”, impedindo que ele se torne um mero animal. Longe de libertar o homem de seus desejos relativos aos sentidos, objetou Marx, o fetichismo é a religião do desejo sensorial: “A fantasia, originando-se no desejo, leva ilusoriamente o adorador do fetiche a acreditar que um objeto inanimado abrirá mão do caráter natural que possui no intuito de satisfazer os desejos dele.”) Em uma economia capitalista, o fetichismo é a crença de que as mercadorias têm algum valor místico intrínseco. Como os ossos dos santos, esta é uma ilusão. “Até agora”, escreve Marx, “nenhum químico descobriu valor de troca em pérolas ou diamantes.”
A escolha desse exemplo é bastante curiosa, pois expõe as limitações da própria teoria de Marx. Se, como sugere, o valor de troca de pérolas e diamantes deriva unicamente do tempo de trabalho gasto em sua extração e transformação, por que as pessoas pagam às vezes centenas de milhares de libras por um solitário de diamante ou um colar de pérolas? Tais preços extraordinários não devem algo ao caráter de exclusividade, ao sentimento de beleza, ou até mesmo ao prestígio social? Se o tempo de trabalho fosse isoladamente o fator determinante, um rabisco de Picasso em um guardanapo ou um chapéu que pertenceu a John Lennon valeriam pouco mais que algumas libras – e o “valor” de uma garrafa de vinho tinto proveniente de uma ótima safra seria idêntico ao de uma safra inferior, se ambos encerrarem a mesma quantidade de trabalho.
Os discípulos mais reverentes de Marx lidam com esses problemas rejeitando-os como excêntricas e irrelevantes exceções à regra. Além do mais, o próprio Marx não sugeriu que as mercadorias tinham “sutilezas metafísicas e teológicas”? A teoria que relaciona o valor de algo com o trabalho despendido para produzi-lo talvez ajude pouco na compreensão de por que alguns tufos da cabeleira de Elvis Presley, guardados pelo seu barbeiro, alcançaram a quantia de 115 mil dólares em um leilão em 2002; mas talvez a noção de fetichismo da mercadoria – “a magia e a necromancia que nublam os produtos do trabalho” – ofereça ao menos uma explicação parcial.
De forma geral, de acordo com Marx, o fetichismo da mercadoria representa “a dominação da coisa sobre o homem, do trabalho morto sobre o trabalho vivo, do produto sobre o produtor”. (Aqui novamente vemos o lento desabrochar de uma imagem semeada muitos anos antes. Um de seus primeiros artigos da Gazeta Renana, em 1842, abordava uma nova lei que impedia que os camponeses apanhassem madeira morta em florestas particulares, direito que usufruíam desde tempos medievais. “Há a possibilidade que algumas árvores jovens possam ser danificadas”, relatou Marx, “e não é necessário dizer que os ídolos de madeira triunfam, e os seres humanos são sacrificados!” A ideia voltou à tona em um discurso de 1856 para uma audiência de cartistas: “Em nossos dias, tudo parece impregnado de seu contrário…. Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar as forças materiais de vida intelectual e reduzir a vida humana a força material”.) “Tudo que é sólido se desmancha no ar”, escreveu ele no Manifesto Comunista; no Capital, tudo que é verdadeiramente humano se desmancha em objetos inanimados que adquirem vida e vigor assustadores.
Surge então outra dificuldade, da qual Marx não se esquiva: por que os trabalhadores são tiranizados e alienados pelos objetos que criam? Se o valor de uma mercadoria é criado pelos trabalhadores, por que eles não ficam com a totalidade desse valor? Isso geralmente ocorre, argumenta ele, em economias não desenvolvidas. “Naquele estado original das coisas, que precede tanto a apropriação da terra quanto a acumulação de capital, o produto integral do trabalho pertence ao trabalhador. Este não tem senhor nem proprietário fundiário com o qual deva repartir o fruto de seu trabalho”, escreveu Adam Smith na Riqueza das nações. Se um carpinteiro vende uma mesa e usa o dinheiro para comprar um saco de trigo, as transações podem ser descritas pela fórmula M-D-M – as mercadorias (M) são transformadas em dinheiro (D), que então é reconvertido em outras mercadorias. Mas há uma outra forma de circulação de mercadorias, cada vez mais predominante no capitalismo industrial, que pode ser descrita como D-M-D. O capitalista usa o dinheiro para comprar várias mercadorias – força de trabalho, matéria-prima, maquinaria – que produzem uma nova mercadoria, por sua vez vendida no mercado.
Os dois ciclos podem ser divididos nas mesmas fases antitéticas: M-D (venda) e D-M (compra). O que distingue uma da outra é a ordem de sucessão: em um caso, o ponto de partida e de chegada do movimento são as mercadorias; no outro, o dinheiro.

Na circulação M-D-M, o dinheiro é ao final convertido em mercadoria e funciona como valor de uso. O dinheiro está, assim, definitivamente gasto. Na forma inversa, D-M-D, o comprador gasta dinheiro para, como vendedor, recuperá-lo…. Ele libera o dinheiro só com a astuciosa intenção de apoderar-se dele novamente. O dinheiro é, portanto, apenas adiantado.

Enquanto na “circulação simples de mercadorias”, representada por M-D-M, o duplo deslocamento da mesma quantidade de dinheiro provoca sua definitiva transferência de uma mão para outra, em D-M-D o duplo deslocamento da mesma mercadoria leva o dinheiro a fluir de volta a seu ponto de partida.
Não haveria sentido em entregar-se a esse elaborado ritual se o investimento inicial retornasse sem alteração. Por isso, Marx reescreve a fórmula como D-M-D’, em que D’ é o valor original mais um acréscimo. “Chamo este incremento, ou excedente sobre o valor original, de ‘mais-valia’.” É o movimento de D para D’ que converte o dinheiro em capital. Obviamente, ele admite ser “também possível que, em M-D-M, os dois extremos, M e M, por exemplo, milho e roupas, representem grandezas de valor quantitativamente diferentes. O camponês pode vender seu grão acima do valor ou comprar as roupas abaixo do valor delas. Pode também ser enganado pelo comerciante de roupas”. Porém, tal diferença de valor é “puramente casual” e não invalida a distinção básica entre as duas fórmulas. A circulação simples de mercadorias – vender para comprar – é um meio de alcançar um fim: a satisfação das necessidades. A circulação do dinheiro como capital é um fim em si mesmo.
É a mais-valia que transforma o dinheiro em capital. Mas de onde ela provém? Marx investiga esse mistério a partir da perspectiva de um capitalista aprendiz. Cada estágio da circulação – D-M e M-D’ – é uma mera troca de equivalentes. Se os bens são trocados com base em seu valor real, seria impossível que aqueles que possuem dinheiro obtivessem lucro:

Admita-se que seja permitido aos vendedores, por um privilégio inexplicável, vender a mercadoria acima do seu valor, a 110, quando ela vale 100, portanto com um aumento nominal de 10% do preço. O vendedor embolsa uma mais-valia de dez. Mas depois de ter sido vendedor, ele se torna comprador. Um terceiro possuidor de mercadorias vai ao seu encontro agora como vendedor e goza por sua vez do privilégio de vender sua mercadoria 10% mais cara. Nosso amigo ganhou dez como vendedor para perdê-los como comprador. De fato, o resultado dessa rede é que todos os possuidores de mercadorias vendem reciprocamente suas mercadorias 10% acima do valor, o que é exatamente o mesmo que vender as mercadorias por seus valores verdadeiros…. Tudo fica como antes.

Deve haver circunstâncias particulares – como no caso do camponês e do comerciante de roupas – em que um capitalista de incorrigível estupidez seja convencido a comprar mercadorias acima de seu valor ou vendê-las muito barato, mas este dificilmente pode ser o princípio subjacente a todo o sistema. Para extrair mais-valia, o possuidor de dinheiro deve encontrar uma mercadoria que tenha a peculiar propriedade de adquirir mais valor durante o consumo que o valor de fato empregado na produção. Se tiver sorte, nosso homem descobre uma mercadoria com essa característica única – a força de trabalho, que tem “a qualidade oculta de gerar valor para si própria. Dá origem a filhotes vivos ou ao menos põe ovos de ouro”.
A força de trabalho, de acordo com Marx, é uma mercadoria, por isso seu valor é medido, como o de qualquer outra mercadoria, pela quantidade de tempo de trabalho necessário para produzi-la e reproduzi-la. (Outro eco de Adam Smith, que escreveu: “A demanda por homens necessariamente governa a produção dos homens como qualquer outra mercadoria.”) Pode parecer grotesco estimar o valor dos seres humanos como se fossem latas de feijões cozidos, mas é justamente esta a tese de Marx: para o possuidor de dinheiro, o mercado de trabalho nada mais é que um ramo do mercado. Como o capitalista estima, porém, o valor dessa mercadoria específica?

Se o proprietário da força de trabalho esteve no batente hoje, ele deve poder repetir o mesmo processo amanhã, sob as mesmas condições de força e saúde. A soma dos meios de subsistência deve, pois, ser suficiente para mantê-lo como indivíduo trabalhador em seu estado de vida normal. As próprias necessidades naturais, como alimentação, roupa, aquecimento, moradia etc. são diferentes de acordo com o clima e outras peculiaridades naturais de um país. Por outro lado, o número e a extensão das necessidades básicas, assim como a forma de satisfazê-las, são um produto histórico…. Diferentemente das outras mercadorias, a determinação do valor da força de trabalho contém um elemento histórico e moral. No entanto, para certo país, em determinado período, a quantidade média necessária para a produção dos meios básicos de subsistência é um dado conhecido.

Uma vez que o trabalhador é mortal, o cálculo deve incluir os “meios de subsistência necessários à produção de seus substitutos, isto é, dos filhos de trabalhadores, de modo que essa raça peculiar de mercadorias se perpetue no mercado”. Deve também haver um componente – “ínfimo para a força de trabalho comum” – para a educação e o treinamento.
Marx calcula que o total necessário para a sobrevivência equivale a cerca de seis horas de trabalho por dia. Mas o possuidor de dinheiro permitirá que seus trabalhadores larguem o batente ao final das seis horas necessárias? Claro que não. Para receber o salário, devem trabalhar mais cinco ou seis horas, fornecendo, assim, o “mais-trabalho” que gera o lucro. “Não há um único átomo de mais-valia que não derive de trabalho alheio não pago”, conclui Marx, que relaciona essa exploração ao “velho procedimento do conquistador que compra as mercadorias dos vencidos com o próprio dinheiro que roubou deles”. A única diferença em relação a épocas anteriores é a artimanha empregada para dissimular o roubo de suas vítimas.
Descoberto o segredo, o possuidor de dinheiro naturalmente deseja obter ainda mais de sua galinha dos ovos de ouro. O método mais óbvio é fazer com que os trabalhadores tenham longas jornadas de trabalho, e no Capítulo 8 do Capital, “A jornada de trabalho”, Marx demonstra o custo humano dessa fórmula aparentemente impessoal.
A Lei Fabril (Factory Act) de 1850 limitou a semana de trabalho britânica a 60 horas. (Sessenta horas de trabalho efetivo, acrescentando-se meia hora de intervalo para o café e uma hora para o almoço, o que significa um turno de 12 horas de segunda a sexta-feira e mais oito horas no sábado.) A lei também criou um pequeno exército de inspetores de fábricas, cujos relatórios semestrais municiaram Marx das provas detalhadas da “avidez dos capitalistas pelo mais-trabalho”. Incontáveis minutos, furtados do horário de refeições e descanso dos trabalhadores, constituíam um formidável butim: um dono de fábrica alertou um inspetor para o fato de que, se diminuísse o horário das refeições em dez minutos por dia, ele colocaria anualmente em seu bolso mil libras esterlinas. A imprensa burguesa forneceu mais munição a Marx. Um relatório do jornal Daily Telegraph sobre o comércio de rendas em Nottingham revelou que

crianças de nove ou dez anos são arrancadas de suas camas imundas às duas, três ou quatro horas da manhã e obrigadas, para ganhar sua subsistência, a trabalhar até às dez, 11 ou 12 horas da noite; enquanto braços e pernas definham, a estatura se atrofia, as linhas faciais se embotam e a essência se imobiliza num torpor pétreo cuja aparência é horripilante.

Há nesse trecho forte influência da Situação da classe operária na Inglaterra, livro escrito por Friedrich Engels em 1845. A obra intercala observações pessoais a informações condenatórias oriundas de jornais, comissões parlamentares, inspetores de fábricas e atas do Parlamento britânico. “Deliciei-me com o testemunho de meus oponentes”, escreveu Engels, maravilhado com o fato de o governo da Inglaterra ter publicado tantas evidências contra si próprio. As citações dos “livros azuis”b do governo e de artigos do Economist no Capital demonstram quanto Karl Marx aprendeu com essa técnica.
O capítulo sobre a jornada de trabalho, um dos mais longos do livro, é um compêndio de histórias de horror, moldado apropriadamente por Marx em estilo gótico. “O capital é trabalho morto que apenas se reanima, à maneira dos vampiros, ao sugar o trabalho vivo. E quanto mais trabalho vivo sugar, mais viverá”, escreve ele nos parágrafos iniciais. Depois de um banquete de sangue que se estende por mais de 70 páginas, Marx conclui que “o explorador não deixa o trabalhador escapar”. Para se proteger desse sanguessuga, os trabalhadores “precisam reunir suas ideias e, como classe, conquistar uma lei estatal, uma barreira social intransponível, que os impeça de vender a si e a sua descendência à escravidão e à morte por meio de contrato voluntário com o capital”. Mas admite que a lei não seria o suficiente para conter o possuidor de dinheiro e seus parceiros capitalistas, visto que dispõem de outra alternativa para aumentar a produtividade, e portanto a mais-valia.
Se a força de trabalho é de fato uma mercadoria singularmente valiosa, é de esperar que a competição entre os empregadores eleve os salários – e em tempos de pleno emprego isso pode realmente ocorrer. À medida que o custo do trabalho cresce, porém, o possuidor de dinheiro descobre que o investimento em maquinaria poupadora de trabalho, que em outros tempos parecia antieconômico, agora tem um aval financeiro, em especial se o empregador não pode prolongar a jornada de trabalho. Como escreve Marx, “é impulso imanente e tendência constante do capital aumentar a força produtiva do trabalho para tornar a mercadoria mais barata e, pelo barateamento da mercadoria, baratear o próprio trabalhador”.
Em tese, as máquinas poderiam aliviar o fardo do trabalhador. Sob o sistema de produção capitalista, argumenta Marx, seus efeitos são invariavelmente nocivos, embora bastante benéficos para o possuidor de dinheiro. (O capítulo sobre maquinaria industrial começa com uma citação dos Princípios da economia política, de John Stuart Mill: “É de duvidar que todas as invenções mecânicas até agora introduzidas aliviaram a labuta diária de algum ser humano.”) Ao substituir a força humana independente por uma impressionante habilidade produtiva, a máquina submete cada vez mais o trabalhador ao capital.
[...]

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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