A noite do Juízo Final
Recém-passado o Natal, com estrondo
os canhões da terra voaram a cidade de Arequipa. Arrebentou-se a
cordilheira e a terra vomitou os alicerces das casas. Ficou gente
esquartejada debaixo dos escombros e as colheitas queimadas debaixo
das cinzas. Ergueu-se o mar, enquanto isso, e afogou o porto de
Arica.
Ontem, quando entardecia, um frade
descalço convocou a multidão na praça de Lima. Anunciou que esta
cidade libertina afundaria nas próximas horas e com ela seus
arredores até onde se perdia a vista.
– Ninguém poderá fugir! –
gritava, uivava – Nem o mais veloz dos cavalos nem a mais rápida
nave poderão escapar!
Quando o sol se pôs, já estavam as
ruas cheias de penitentes que se açoitavam à luz dos faróis. Os
pecadores gritavam suas culpas nas esquinas e dos balcões os ricos
arrojavam à rua as baixelas de prata e as roupas de festa. Segredos
tenebrosos se revelavam em viva voz. As esposas infiéis arrancavam
as pedras das ruas para golpear o peito. Os ladrões e os sedutores
se ajoelhavam na frente de suas vítimas, os amos beijavam os pés de
seus escravos e os mendigos não tinham mãos para tantas esmolas. A
Igreja recebeu ontem à noite mais dinheiro que em todas as quaresmas
de toda a sua história. Quem não buscava padre para confessar,
buscava padre para casar. Estavam abarrotados os templos de gente que
quis ficar ao seu amparo.
E depois, amanheceu.
O sol brilha como nunca em Lima. Os
penitentes buscam unguentos para suas costas esfoladas e os amos
perseguem seus escravos. As recém-casadas perguntam por seus maridos
novinhos em folha, que a luz do dia evaporou; os arrependidos andam
pelas ruas em busca de pecados novos. Escutam-se prantos e maldições
atrás de cada porta. Não há um mendigo que não se tenha perdido
de vista. Também os curas esconderam-se, para contar as montanhas de
moedas que Deus aceitou ontem à noite. Com o dinheiro que sobra, as
igrejas de Lima comprarão na Espanha autênticas penas do arcanjo
Gabriel.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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