quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

1603 – Santiago do Chile

A matilha

O cabildo de Santiago comprou uma nova marca de prata para ferrar os índios na cara. O governador, Alonso de Ribera, manda que se destine a gastos de guerra e sustento de soldados a quinta parte do valor de cada araucano vendido nos portos de Valdívia e Arica.
Se sucedem caçadas. Os soldados atravessam o Bío-Bío e nas noites dão seus botes. Incendeiam e degolam e regressam tocando homens, mulheres e crianças amarrados pelos pescoços. Uma vez marcados, são vendidos para o Peru.
O governador ergue a botija de vinho e brinda pelas batalhas vencidas. Brinda à flamenca, como Pedro de Valdívia. Primeiro, por todos os fidalgos e as damas que lhe vieram à memória, gole após gole. Quando se acabam as pessoas, brinda pelos santos e anjos; e nunca se esquece de agradecer-lhes o pretexto.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Nenhum comentário:

Postar um comentário