terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Introdução: A Obra-prima Ignorada



Em fevereiro de 1867, pouco antes de entregar aos editores o primeiro volume do Capital, Karl Marx insistiu para que Friedrich Engels lesse A obra-prima ignorada, de Honoré de Balzac. A narrativa, dizia Marx, era uma pequena obra-prima “repleta da mais fina ironia”.
Não se sabe se Engels seguiu o conselho. Caso o tenha feito, com certeza percebeu a ironia, embora possa ter se espantado com o fato de que seu velho amigo se deleitasse com a narrativa. A obra-prima ignorada conta a história de Frenhofer, um grande pintor que passa dez anos trabalhando e aperfeiçoando um retrato que irá revolucionar a arte, ao exibir “a mais completa representação da realidade”. Quando finalmente Poussin e Porbus, seus colegas de ofício, têm permissão para contemplar a tela acabada, ficam horrorizados ao ver uma bruma de formas aleatórias e uma confusão de cores sem nexo. “Ah!”, exclama Frenhofer, iludido com o espanto dos amigos, “não esperavam tamanha perfeição!” No entanto, o velho pintor logo escuta Poussin dizer a Porbus que mais cedo ou mais tarde o artista perceberia a verdade – do retrato tantas vezes pintado, nada mais restava.

Nada em minha tela! – exclamou Frenhofer, olhando alternadamente para os dois pintores e o quadro.
Que fez você? – perguntou Porbus em voz baixa a Poussin.
O velho segurou com força o braço do rapaz e disse-lhe:
Você nada vê ali, tolo! Patife! Canalha! Tratante! Para que veio então aqui? Meu bom Porbus – e continuou, virando-se para o outro pintor –, será que você também se diverte às minhas custas? Responda! Sou seu amigo. Diga, por acaso arruinei meu quadro?
Porbus, indeciso, não se atreveu a falar; porém, a ansiedade estampada na face lívida do ancião era tão comovente que ele apontou para a tela e disse:
Veja!
Frenhofer contemplou seu quadro um instante e cambaleou:
Nada! Nada! E dediquei-lhe dez anos de trabalho!
Desabou na cadeira e chorou.

Após escorraçar os dois homens de seu estúdio, Frenhofer queima todas as suas telas e se mata.
De acordo com o cunhado de Marx, Paul Lafargue, a narrativa de Balzac “causou-lhe grande impressão porque em parte era uma descrição dos seus sentimentos”. Marx trabalhou vários anos em sua própria obra-prima ignorada. E, ao longo dessa demorada gestação, a resposta costumeira que dava àqueles que pediam para ver o andamento do trabalho era idêntica à de Frenhofer: “Não, não! Ainda preciso fazer alguns retoques. Ontem, ao entardecer, pensei que tinha terminado…. Hoje, à luz da manhã, reconheci meu erro.” Em 1846, quando já se esgotara o prazo de entrega do livro, Marx escreveu a seu editor alemão:

Não permitirei que o publiquem sem que eu o revise uma vez mais, tanto no que concerne ao tema quanto ao estilo. Sem mencionar que um escritor que trabalha ininterruptamente não pode, ao fim de seis meses, publicar palavra por palavra o que escreveu seis meses antes.

Doze anos depois, ainda longe de finalizar o trabalho, explicou que “tudo se desenrola com extremo vagar porque, tão logo se inicia a apresentação final de temas a que se dedicaram anos de estudo, eles revelam novos aspectos e demandam reflexões mais profundas”. Perfeccionista obsessivo, Marx estava sempre em busca de novas nuanças em sua paleta, estudava matemática, observava o movimento dos corpos celestes, aprendia russo por conta própria para ler livros sobre o sistema agrário daquele país. Ou, para citar Frenhofer ainda uma vez:

Ai de mim! Por um instante acreditei que minha obra estivesse concluída; mas seguramente me enganei em alguns detalhes e não descansarei enquanto não dissipar minhas dúvidas. Estou decidido a viajar. Em busca de modelos, visitarei a Turquia, a Gré cia e a Ásia, a fim de comparar meu quadro com as mais variadas formas da natureza.

Por que Marx se lembrou da narrativa de Balzac no exato momento em que se preparava para desvelar ao julgamento público sua obra mais grandiosa? Por acaso temia que também tivesse trabalhado em vão, que sua “completa representação da realidade” se mostrasse ininteligível? Certamente tinha tais apreensões – a personalidade de Marx era repleta de um curioso híbrido de furiosa confiança e angustiante hesitação –, e, por isso, para se antecipar à crítica, alertou no prefácio: “Presumo, naturalmente, a existência de leitores que desejam aprender algo de novo e queiram, portanto, também pensar por conta própria.” Porém, o que mais espanta acerca de sua identificação com o criador da obra-prima ignorada é o fato de Frenhofer ser um artista – não um estudioso de economia política ou filósofo, tampouco um historiador ou polemista.
A “mais fina” ironia de todas na Obra-prima ignorada, como destaca o escritor norte-americano Marshall Berman, é que a tela mencionada por Balzac é a descrição perfeita de uma pintura abstrata do século XX – e o fato de seu criador ignorar isso simplesmente aprofunda a ressonância. “A questão é que onde uma época vê apenas caos e incoerência, outra, posterior ou mais moderna, pode descobrir significado e beleza”, escreve Berman.

Portanto, a própria incompletude da obra tardia de Marx pode estabelecer mais interseções com nossa época que a mais ‘acabada’ obra do século XIX: O Capital ultrapassa as obras bem-acabadas do século de Marx na direção do modernismo descontínuo de nosso próprio século.

Como Frenhofer, Marx era um modernista avant la lettre. Sua famosa advertência sobre a desarticulação, no Manifesto do Partido Comunista – “Tudo que é sólido se desmancha no ar” –, prefigura os homens ocos e a cidade irreal descritos por T. S. Eliot, ou a imagem de que “tudo desmorona; o centro não mais retém”, de Yeats. Na época em que escreveu O Capital, Marx superava a prosa de convenção com sua radical colagem literária – justapondo vozes e citações de mitologia e literatura, relatórios de inspetores de fábrica e contos de fada, nos moldes dos Cantos, de Ezra Pound, ou de A terra desolada, de Eliot. O Capital é tão dissonante quanto Schoenberg, tão angustiante quanto Kafka.
Karl Marx via a si mesmo como um artista criativo, um poeta da dialética. “Agora, em relação à minha obra, lhe direi a mais pura verdade”, escreveu a Engels em julho de 1865. “Sejam quais forem os defeitos, meus escritos têm a vantagem de compor um todo artístico.” Marx buscava luz sobre as motivações e os interesses materiais das pessoas mais em poetas e romancistas do que em filósofos e ensaístas políticos: em uma carta de dezembro de 1868, anotou uma passagem de outra obra de Balzac, O cura da aldeia, e perguntou se Engels, a partir de seu próprio conhecimento de economia prática, poderia comprovar o quadro apresentado pelo escritor. (O conservador e monarquista Balzac talvez pareça um herói improvável; Marx, porém, sempre achou que os grandes escritores têm uma percepção da realidade social que transcende seus preconceitos pessoais.) Se desejasse escrever um tratado de economia convencional, ele o teria feito. A ambição de Marx, contudo, era muito mais audaciosa. Berman descreve o autor do Capital como “um dos gigantes atormentados do século XIX – ao lado de Beethoven, Goya, Tolstói, Dostoiévski, Ibsen, Nietzsche e Van Gogh – que nos angustiam com sua própria loucura, mas cuja agonia engendrou grande parte do capital espiritual de que ainda nos nutrimos”.
No entanto, quantas pessoas se lembrariam de incluir Karl Marx entre os grandes artistas e escritores? Mesmo em nossa era pós-moderna, a narrativa fragmentada e a radical descontinuidade do Capital são consideradas equivocadamente um desleixo e uma imprecisão por parte de muitos leitores. O principal objetivo deste livro é persuadir, ao menos alguns dos que formaram essa ideia, a rever sua opinião: quem almeja compreender Beethoven, Goya ou Tolstói deveria ser capaz de “aprender algo de novo” com a leitura do Capital – e não apenas porque sua temática ainda governa nossas vidas. Nas palavras de Marshall Berman: “Como pode O Capital morrer se ainda vive o capital?”
O fato de Marx não ter finalizado sua obra-prima é simbólico. O primeiro volume foi o único que ele publicou em vida; após sua morte, outros coligiram os volumes subsequentes, tendo por base anotações e esboços encontrados em seu gabinete. A obra de Marx é tão aberta – e, portanto, desdobrável – quanto o próprio sistema capitalista. Marx foi verdadeiramente um gigante atormentado. Por isso, antes de abordar sua obra-prima, vamos buscar as origens de seu tormento e de sua inspiração.

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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