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Assim como volumes pequenos serviam a
propósitos específicos, os grandes volumes atendiam a outras
necessidades dos leitores. Por volta do século V, a Igreja católica
começou a produzir enormes livros de culto – missais, corais,
antifonários – que, expostos sobre um atril no meio do coro,
permitiam que os leitores seguissem as palavras ou notas musicais sem
nenhuma dificuldade, como se estivessem lendo uma inscrição
monumental. Há um belo antifonário na biblioteca da abadia de Saint
Gal, contendo uma seleção de textos litúrgicos em letras tão
grandes que podem ser lidas a uma boa distância, seguindo-se a
cadência de cantos melódicos, por coros de até vinte cantores; a
vários metros de distância, posso ver as notas com absoluta
clareza, e gostaria que meus livros de referência pudessem ser
consultados com a mesma facilidade. Alguns desses livros de culto
eram tão imensos que tinham de ser postos sobre rodinhas para que
pudessem ser movidos. No entanto, muito raramente saíam do lugar.
Decorados com latão ou marfim, protegidos com cantos de metal,
fechados por fivelas gigantescas, eram livros para serem lidos
comunalmente e à distância, desautorizando qualquer leitura íntima
ou sentimento de posse individual.
Visando ler um livro de maneira
confortável, os leitores inventaram engenhosos aperfeiçoamentos
para o atril e a escrivaninha. Há uma estátua de são Gregório, o
Grande, feita de pedra pigmentada em Verona, em algum momento do
século XIV, e preservada no Victoria and Albert Museum de Londres:
ela mostra o santo numa espécie de mesa de leitura articulada, que
lhe permitia apoiar o atril em diferentes ângulos ou levantá-lo
para poder sair. Uma gravura do século XIV mostra um estudioso numa
biblioteca cheia de livros, escrevendo numa mesa-com-atril octogonal
que lhe permite trabalhar de um lado, depois girar a mesa e ler os
livros já dispostos nos outros sete lados. Em 1588, o engenheiro
italiano Agostino Ramel i, a serviço do rei da França, publicou um
livro que descrevia uma série de máquinas. Uma delas era uma “mesa
de leitura rotativa”, que Ramel i apresenta como “uma bela e
engenhosa máquina, muito útil e conveniente para as pessoas que têm
prazer no estudo, em especial para aquelas que sofrem de indisposição
ou que estão sujeitas à gota, pois com esse tipo de máquina um
homem pode ver e ler uma grande quantidade de livros sem sair do
lugar: ademais, tem esta excelente conveniência que é a de ocupar
pouco espaço no lugar onde é colocada, como qualquer pessoa de
discernimento pode apreciar vendo o desenho”. (Um modelo em escala
real dessa maravilhosa roda de leitura apareceu no filme Os três
mosqueteiros, dirigido em 1974 por Richard Lester.) Assento e
mesa de leitura podiam se combinar num único móvel. A engenhosa
cadeira de rinha (assim chamada por ter sido representada em
ilustrações de briga de galo) foi feita na Inglaterra no início do
século XVIII, especificamente para bibliotecas. O leitor sentava-se
a cavalo nela, de frente para a estante atrás da cadeira, e
apoiava-se nos braços largos, obtendo suporte e conforto.
Às vezes um dispositivo de leitura
surgia de um tipo diferente de necessidade. Benjamin Franklin conta
que, durante o reinado da rainha Maria, seus ancestrais protestantes
escondiam as Bíblias inglesas, mantendo-as “abertas e presas com
fitas sob um banco portátil”. Sempre que o trisavô de Franklin
lia para a família, “punha o banco de cabeça para baixo sobre os
joelhos, virando as páginas sob as fitas. Um dos meninos ficava na
porta para avisar se via chegando o apparitor, que era um
oficial da corte espiritual. Nesse caso, o banco voltava à posição
normal e a Bíblia continuava escondida como antes”.
Fazer um livro artesanalmente, fossem
os imensos volumes presos aos atris ou os requintados livretes feitos
para mãos de criança, era um processo longo e laborioso. Uma
mudança ocorrida na Europa na metade do século XV não só reduziu
o número de horas de trabalho necessárias para produzir um livro,
como aumentou enormemente a produção de livros, alterando para
sempre a relação do leitor com aquilo que deixava de ser um objeto
único e exclusivo confeccionado pelas mãos de um escriba. A
mudança, evidentemente, foi a invenção da imprensa.
Em algum momento da década de 1440,
um jovem gravador e lapidador do arcebispado da Mogúncia, cujo nome
completo era Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg (que o
espírito prático do mundo dos negócios abreviou para Johann
Gutenberg), percebeu que se poderia ganhar em rapidez e eficiência
se as letras do alfabeto fossem cortadas na forma de tipos
reutilizáveis, e não como os blocos de xilogravura então usados
ocasionalmente para imprimir ilustrações. Gutenberg experimentou
durante muitos anos, tomando emprestadas grandes quantias de dinheiro
para financiar o empreendimento.
Conseguiu criar todos os elementos
essenciais da impressão tais como foram usados até o século XX:
prismas de metal para moldar as faces das letras, uma prensa que
combinava características daquelas utilizadas na fabricação de
vinho e na encadernação, e uma tinta de base oleosa – nada que já
existisse antes. Por fim, entre 1450 e 1455 Gutenberg produziu uma
Bíblia com 42 linhas por página – o primeiro livro impresso com
tipos – e levou as páginas impressas para a Feira Comercial de
Frankfurt. Por um extraordinário golpe de sorte, temos uma carta de
um certo Enea Silvio Piccolomini ao cardeal de Carvajal, datada de 12
de março de 1455, em Wiener Neustadt, contando a Sua Eminência que
vira a Bíblia de Gutenberg na feira: Não vi nenhuma Bíblia
completa, mas vi um certo número de livretes [cadernos] de cinco
páginas de vários dos livros da Bíblia, com letras muito claras e
dignas, sem quaisquer erros, que Vossa Eminência teria sido capaz de
ler sem esforço e sem óculos. Várias testemunhas disseram-me que
158 exemplares foram completados, enquanto outros dizem que havia
180. Não estou certo da quantidade, mas da conclusão dos livros, se
podemos crer nas pessoas, não tenho dúvidas. Soubesse eu de vossas
vontades, teria certamente comprado um exemplar. Vários desses
livretes de cinco páginas foram mandados para o próprio imperador.
Tentarei, tanto quanto possível, conseguir que uma dessas Bíblias
seja posta à venda e comprarei um exemplar para vós. Mas temo que
isso não seja possível, devido à distância e porque, dizem, antes
mesmo de os livros ficarem prontos já havia clientes a postos para
comprá-los.
Os efeitos da invenção de Gutenberg
foram instantâneos e de alcance extraordinário, pois quase
imediatamente muitos leitores perceberam suas grandes vantagens:
rapidez, uniformidade de textos e preço relativamente barato. Poucos
anos depois da impressão da primeira Bíblia, máquinas impressoras
estavam instaladas em toda a Europa: em 1465 na Itália, 1470 na
França, 1472 na Espanha, 1475 na Holanda e na Inglaterra, 1489 na
Dinamarca. (A imprensa demorou mais para alcançar o Novo Mundo: os
primeiros prelos chegaram em 1533 à Cidade do México e em 1638 a
Cambridge, Massachusetts.) Calculou-se que mais de 30 mil in
cunabula (palavra latina do século XVII que significa
“relacionado ao berço”, usada para descrever os livros impressos
antes de 1500) foram produzidos nesses prelos. Visto que as edições
do século XV costumaram ser de menos de 250 exemplares e
dificilmente chegavam a mil, a façanha de Gutenberg deve ser
considerada prodigiosa. De repente, pela primeira vez desde a
invenção da escrita, era possível produzir material de leitura
rapidamente e em grandes quantidades.
Talvez seja útil não esquecer que a
imprensa, apesar das óbvias previsões de “fim do mundo”, não
erradicou o gosto pelo texto escrito à mão. Ao contrário,
Gutenberg e seus seguidores tentaram imitar a arte dos escribas, e a
maioria dos incunabula tem uma aparência de manuscrito. No
final do século XV, embora a imprensa estivesse bem estabelecida, a
preocupação com o traço elegante não desaparecera e alguns dos
exemplos mais memoráveis de caligrafia ainda estavam por vir. Ao
mesmo tempo em que os livros se tornavam de acesso mais fácil e mais
gente aprendia a ler, mais pessoas também aprendiam a escrever,
frequentemente com estilo e grande distinção; o século XVI
tornou-se não apenas a era da palavra escrita, como também o século
dos grandes manuais de caligrafia. É interessante observar a
frequência com que um avanço tecnológico – como o de Gutenberg –
antes promove do que elimina aquilo que supostamente deve substituir,
levado-nos a perceber virtudes fora de moda que de outra forma não
teríamos notado ou que consideraríamos sem importância. Em nosso
tempo, a tecnologia dos computadores e a proliferação de livros em
CD-Rom não afetaram – até onde mostram as estatísticas – a
produção e venda de livros na antiquada forma de códice. Aqueles
que veem nos computadores a encarnação do diabo (como Sven Birkerts
os retrata numa obra dramaticamente intitulada Elegias a
Gutenberg) abrem espaço para que a nostalgia domine a
experiência. Por exemplo, 359437 livros novos (sem contar panfletos,
revistas e periódicos) foram acrescentados em 1995 às já
amplíssimas coleções da Biblioteca do Congresso.
O súbito aumento da produção de
livros depois de Gutenberg enfatizou a relação entre o conteúdo e
a forma física de um livro. Por exemplo: uma vez que se destinava a
imitar os caros volumes feitos à mão da época, a Bíblia de
Gutenberg era comprada em folhas reunidas e encadernada pelos
compradores em grandes e imponentes tomos – em geral in-quartos
medindo cerca de trinta por quarenta centímetros destinados a ficar
expostos sobre um atril. Uma Bíblia desse tamanho em velino teria
exigido a pele de mais de duzentas ovelhas (“uma cura certa para a
insônia”, comentou o livreiro e antiquário Alan G. Thomas). Mas a
produção rápida e barata levou a um mercado maior, composto por
gente que podia comprar exemplares para ler em particular e que,
portanto, não precisava de livros com tipos e formatos grandes; os
sucessores de Gutenberg começaram então a produzir volumes menores,
volumes que cabiam no bolso.
[…]
Alberto Manguel, em A História da Leitura

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