III
Começo declarando que me chamo Paulo
Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo
S. Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este
rosto vermelho e cabeludo têm-me rendido muita consideração.
Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor.
Para falar com franqueza, o número de
anos assim positivo e a data de S. Pedro são convencionais: adoto-os
porque estão no livro de assentamentos de batizados da freguesia.
Possuo a certidão, que menciona padrinhos, mas não menciona pai nem
mãe. Provavelmente eles tinham motivos para não desejarem ser
conhecidos. Não posso, portanto, festejar com exatidão o meu
aniversário. Em todo o caso, se houver diferença, não deve ser
grande: mês a mais ou mês a menos. Isto não vale nada:
acontecimentos importantes estão nas mesmas condições.
Sou, pois, o iniciador de uma família,
o que, se por um lado me causa alguma decepção, por outro lado me
livra da maçada de suportar parentes pobres, indivíduos que de
ordinário escorregam com uma sem-vergonheza da peste na intimidade
dos que vão trepando.
Se tentasse contar-lhes a minha
meninice, precisava mentir. Julgo que rolei por aí à toa. Lembro-me
de um cego que me puxava as orelhas e da velha Margarida, que vendia
doces. O cego desapareceu. A velha Margarida mora aqui em S.
Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa-me dez
mil-réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que
me deu. Tem um século, e qualquer dia destes compro-lhe mortalha e
mando enterrá-la perto do altar-mor da capela.
Até os dezoito anos gastei muita
enxada ganhando cinco tostões por doze horas de serviço. Aí
pratiquei o meu primeiro ato digno de referência. Numa sentinela,
que acabou em furdunço, abrequei a Germana, cabritinha sarará
danadamente assanhada, e arrochei-lhe um beliscão retorcido na popa
da bunda. Ela ficou-se mijando de gosto. Depois botou os quartos de
banda e enxeriu-se com o João Fagundes, um que mudou o nome para
furtar cavalos. O resultado foi eu arrumar uns cocorotes na Germana e
esfaquear João Fagundes. Então o delegado de polícia me prendeu,
levei uma surra de cipó de boi, tomei cabacinho e estive de molho,
pubo, três anos, nove meses e quinze dias na cadeia, onde aprendi
leitura com o Joaquim sapateiro, que tinha uma bíblia miúda, dos
protestantes.
Joaquim sapateiro morreu. Germana
arruinou. Quando me soltaram, ela estava na vida, de porta aberta,
com doença do mundo.
Nesse tempo eu não pensava mais nela,
pensava em ganhar dinheiro. Tirei o título de eleitor, e seu
Pereira, agiota e chefe político, emprestou-me cem mil-réis a juro
de cinco por cento ao mês. Paguei os cem mil-réis e obtive duzentos
com o juro reduzido para três e meio por cento. Daí não baixou
mais, e estudei aritmética para não ser roubado além da
conveniência.
De bicho na capação (falando com
pouco ensino), esperneei nas unhas do Pereira, que me levou músculo
e nervo, aquele malvado. Depois vinguei-me: hipotecou-me a
propriedade e tomei-lhe tudo, deixei-o de tanga. Mas isso foi muito
mais tarde.
A princípio o capital se desviava de
mim, e persegui-o sem descanso, viajando pelo sertão, negociando com
redes, gado, imagens, rosários, miudezas, ganhando aqui, perdendo
ali, marchando no fiado, assinando letras, realizando operações
embrulhadíssimas. Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos,
briguei com gente que fala aos berros e efetuei transações
comerciais de armas engatilhadas. Está um exemplo. O dr. Sampaio
comprou-me uma boiada, e na hora da onça beber água deu-me com o
cotovelo, ficou palitando os dentes. Andei, virei, mexi, procurei
empenhos — e ele duro como beira de sino. Chorei as minhas
desgraças: tinha obrigações em penca, aquilo não era trato, e
tal, enfim, etc. O safado do velhaco, turuna, homem de facão grande
no município dele, passou-me um esbregue. Não desanimei: escolhi
uns rapazes em Cancalancó e quando o doutor ia para a fazenda,
caí-lhe em cima, de supetão. Amarrei-o, meti-me com ele na
capoeira, estraguei-lhe os couros nos espinhos dos mandacarus,
quipás, alastrados e rabos-de-raposa.
— Vamos ver quem tem roupa na
mochila. Agora eu lhe mostro com quantos paus se faz uma canoa.
O doutor, que ensinou rato a furar
almotolia, sacudiu-me a justiça e a religião.
— Que justiça! Não há justiça
nem há religião. O que há é que o senhor vai espichar aqui trinta
contos e mais os juros de seis meses. Ou paga ou eu mando sangrá-lo
devagarinho.
Dr. Sampaio escreveu um bilhete à
família e entregou-me no mesmo dia trinta e seis contos e trezentos.
Casimiro Lopes foi o portador. Passei o recibo, agradeci e
despedi-me:
— Obrigado, Deus o acrescente. Sinto
muito ter-lhe causado incômodo. Adeus. E não me venha com a sua
justiça, porque se vier, eu viro cachorro doido e o senhor morre na
faca cega.
Não tornei a aparecer por aquelas
bandas. Se tornasse, era um tiro de pé de pau na certa, a cara
esfolada para não ser reconhecido quando me encontrassem com os
dentes de fora, fazendo munganga ao sol, e a supressão da minha
fortuna, que eu conduzia dentro de um chocalho grande, arrolhado com
folhas e pendurado no arção da sela. Ali estava em segurança: se o
dinheiro e as folhas caíssem, o chocalho tocava.
Afinal, cansado daquela vida de
cigano, voltei para a mata. Casimiro Lopes, que não bebia água na
ribeira do Navio, acompanhou-me. Gosto dele. É corajoso, laça,
rasteja, tem faro de cão e fidelidade de cão.
Graciliano Ramos, em S. Bernardo

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