Vahla… todos os teus tios e tias
tavam em casa comendo, dançando, esperando você nascer.
— MAE ALICE DAVIS
Anos atrás, quando minha mãe contou
a história do meu nascimento, fiquei bem surpresa. Era uma memória
feliz e saudável. “MaMama”, como eu a chamo, tem a tendência de
contar histórias chocantes do nada: parentes se engraçando uns com
os outros; ou como ela começou a cuidar dos irmãos aos 4 anos; as
traições do meu pai. Enterrada entre todas essas narrativas
fabulosamente terríveis, há um conto encantador: a história do meu
nascimento.
MaMama tem duas expressões que
provocam muito riso e também uma sensação de conforto em mim e
meus irmãos. Uma é “Ma”, uma forma afetuosa de nos chamar —
os filhos dela. A outra é “e coisa e tal”. Ela sempre inclui
essa expressão nas frases.
Com seu sotaque da Carolina do Sul,
ela dizia:
— Vahla, quando você nasceu e coisa
e tal, todos os teus tios e tias e coisa e tal, todo mundo tava lá.
Eles tavam bebendo, dançando e coisa e tal, esperando por você. A
Srta. Clara Johnson estava atrasada e coisa e tal, então sua avó
fez o parto. Tava todo mundo feliz!
Quando ela me contou essa história
pela primeira vez, deixei que um longo instante de silêncio se
instalasse no final. Fiquei esperando por uma reviravolta. Fiquei
esperando por uma interjeição; algo que tenha interferido na
beleza do momento. Mas aquela virada terrível nunca veio. Era uma
história de família linda e comum, centrada na minha chegada à
terra dos vivos. Para o meu espanto, a história do meu nascimento
não me confundiu, nem trouxe dor ou incômodo ao âmago do meu ser.
Era apenas uma história de amor e vida.
Amo muito essa história e sempre peço
que minha mãe a reconte. É sério, eu peço o tempo todo. E toda
vez que ela conta, adiciona um detalhe maravilhoso: que comeu um
sanduíche de sardinha, cebola, tomate e mostarda logo depois de dar
à luz. Uma combinação nojenta, eu sei, mas ela explica: “Foi o
melhor sanduíche que comi na vida.”
Ela me deu o nome de Viola em
homenagem à minha tia-avó por parte de pai. Nasci no dia 11 de
agosto de 1965, em St. Matthews, Carolina do Sul, a quinta de seis
filhos, na casa dos meus avós maternos na Plantation Singleton. E,
sim, era e ainda é um sistema colonial agrícola de plantation.*
Não uma fazenda. Dirija pela longa estrada de terra mais ou menos
650 hectares adentro e chegará à casa do latifúndio linda, enorme
e branca. Dirija um pouco mais e lá estará a pequenina igreja de um
cômodo só. E, caso se aventure mais um pouco, chegará aos degraus
das casas dos meeiros, banheiros e chuveiros externos e um poço.
Meus avós maternos, Mozell e Henry
Logan, assim como os outros meeiros, tinham uma casa de um cômodo
só, com uma grande lareira.
A filha deles, MaMama, a mais velha de
18 filhos, parou de estudar no oitavo ano porque engravidou e também
porque apanhava muito na escola. E com isso quero dizer que ela era
espancada até ficar com feridas abertas e sangrar.
Minha avó e minha tia tiveram que ir
à escola confrontar a professora, que também era negra, mas com a
pele mais clara, e sofria com um problema muito comum chamado
colorismo. Ela punia minha mãe por ser retinta, do interior, caipira
e por ter “cabelo duro”.
A família de MaMama não tinha
privadas, chuveiros ou banheiros dentro de casa. Isso, misturado à
quantidade de crianças e à pobreza terrível, significava que por
vezes ela cheirava a xixi. Mais um atributo vergonhoso que motivava o
medo e a raiva da professora em relação à retinta MaMama. Mais uma
vez, associando a cor da pele a tudo o que é negativo e errado. A
verdade é que senti um tipo diferente de tristeza por minha mãe
quando descobri o que de fato motivou a decisão dela de não voltar
à escola.
Mesmo assim, minha mãe seguiu com a
vida. Ela se casou e teve o primeiro filho, meu irmão, John Henry,
aos 15 anos. Teve minha irmã Dianne aos 18, Anita aos 19, Deloris
aos 20, e eu aos 22. Anos mais tarde, aos 34, teve minha irmã
Danielle.
Apenas 11 dos 18 filhos de Mozell e
Henry Logan sobreviveram — MaMama, obviamente, sendo um deles.
Foram vários natimortos e um bebê, do qual minha mãe fala
constantemente, que morreu em um incêndio quando recém-nascido. O
nome desse bebê era Deloris.
MaMama conta que, por volta dos 4 ou 5
anos, tinha a gigantesca responsabilidade de cuidar dos irmãos mais
novos. Ela conta que tirava a chupeta da própria boca para colocá-la
na boca do irmão, de tão criança que era. Como a maioria das
crianças na época, enquanto os adultos trabalhavam na plantação,
elas eram deixadas sozinhas em casa, sem a supervisão de um adulto.
Com frequência eles cozinhavam, limpavam a casa e trocavam fraldas.
Ela estava brincando com fósforos um
dia na lareira da cabana de madeira onde eles moravam e o tapete
começou a pegar fogo. Isso assustou MaMama. Ela pensou rápido e
pegou o irmãozinho, Jimmy, e correu para fora de casa. Conforme a
casa era consumida pelo fogo, ela não conseguiu voltar para pegar a
irmãzinha, que estava no quarto dos fundos. Quando Deloris foi
encontrada, estava perfeita e lindamente intacta, mas morrera por
inalar fumaça.
“Ela era uma bebê linda, parecia
uma boneca”, contava MaMama.
Infelizmente, ela levou a culpa pela
morte da bebê e foi espancada pelo pai e pela mãe. Minha mãe diz
que até hoje tem problemas em um dos braços por causa disso.
MaMama sempre contava essa história.
Por fim, depois de tantos anos, eu disse a ela: “Você sabe que não
foi sua culpa. Não foi sua culpa. Estou te dando permissão
para se perdoar. Seus pais estavam errados por te espancar.
Foi um acidente. Você não deveria sequer ter sido colocada naquela
posição.”
Silêncio doloroso. Então ela
simplesmente mudou de assunto. Sei que MaMama nunca vai se perdoar,
mesmo que anos depois tenhamos constatado na certidão de óbito que
MaMama não poderia ter mais de 3 anos, não 4 ou 5, quando a
irmãzinha dela morreu.
Adoro olhar para a minha mãe. Absorvo
cada detalhe do rosto, das mãos, da pele dela. Observo todas as
cicatrizes. Algumas me lembram do abuso que ela sofreu; outras, não.
O braço esquerdo machucado. A cicatriz no antebraço direito,
causada pelo meu pai quando o rasgou. Cicatrizes no rosto, nas
pernas… Cicatrizes. Penso na complexidade de seu coração de
criança comparado à guerreira maternal e feroz, que tirava a peruca
para acabar com quem se atrevesse a pensar em machucar seus bebês.
Penso na coragem dela ao lutar pela
reforma da previdência social nos anos 1970. Sendo presa. Nos
segurando em um dos braços e brandindo o punho com o outro, enquanto
éramos jogados em viaturas. Ela discursando na Brown University:
“Posso ter estudado só até o oitavo ano e estava nervosa, mas
falei.” Penso na mulher que sobreviveu a um terrível abuso sexual
apenas para se casar com meu pai, que era extremamente agressivo, mas
que depois de muitos anos se tornou um parceiro de verdade.
Tudo isso me vem à mente quando olho
para um dos maiores amores da minha vida, minha mãe, e a ouço
recontar as mesmas histórias.
— O médico disse que você ia ter
uma cabeça enorme, uma barrigona e pernas tortas — disse minha
mãe, enquanto dava garfadas no arroz e bebia sua mimosa. Estava
contando uma história de quando eu tinha mais ou menos 2 anos.
— Você tava no Memorial Hospital.
Era só uma bebê. Eles colocaram todos aqueles aparelhos em você e
tinha toda aquela crosta e pus e coisa e tal ao redor de seus olhos e
nariz. Seu pai foi lá te ver e foi a primeira vez que vi ele chorar
como um bebê. Eu sabia que meu leite tava ruim. O médico disse que
você não ia crescer, sabe, normal.
MaMama estava visitando minha casa em
Los Angeles quando contou essa história. Era um dia de folga das
gravações de How to Get Away with Murder, também conhecida
por Como defender um assassino. Estávamos no quintal. Eu
sabia a história de cor, mas a ouvi mesmo assim.
— Ele queria fazer um experimento
com você. Disse que ia quebrar suas pernas pra ver se elas cresciam
retas. Mas vi como ele me olhava. Não sou burra. Ele viu que eu era
pobre e negra. Então tirei você daquele hospital. Aquele médico
ficou falando: “Sra. Davis, você está cometendo um grande erro!”
Mas falei que ele não ia fazer experimentos na minha bebê. Te levei
pra casa da Srta. Cora, e ela fez uma sopa de feijão-de-lima, e você
comeu a tigela toda e bebeu um copão de água gelada e foi isso.
A Srta. Cora era nossa parente
distante e vivia em Prospect Heights, um projeto habitacional
para pessoas de baixa renda em Pawtucket, Rhode Island.
— A Srta. Cora disse: “Tem nada
errado com essa bebê!” E depois da sopa você abraçou a perna
dela e não soltava por nada.
Eu só escutava, sempre em silêncio.
Tenho a vaga memória desse momento de abraçar a perna da Srta.
Cora, sentindo gratidão, mas só me lembro daquele momento.
— Sei que o médico não está vivo
hoje porque isso foi quando você era bebê. Mas queria que ele te
visse agora — diz ela, como sempre, com uma grande explosão de
alegria, rindo, gargalhando. — Você não tem pernas tortas nem uma
barrigona. Sua cabeça é grande, mas isso é o que te faz ser uma
boa atriz! Vahla, prepare pra sua mãe outra dessas momosas
ou… você sabe do que estou falando.
Não importa o que eu faça, não
consigo fazê-la lembrar a palavra “mimosa”, então parei de
tentar, porque meio que gosto do jeito que ela fala.
Corro para preparar outra mimosa —
com mais suco que champanhe —, já ansiosa e reunindo coragem para
fazer uma pergunta muito arriscada. Qualquer coisa para arrancar
segredos dela. A “história da cabeça grande” é uma de suas
favoritas. Cresci odiando essa história. Deixo que ela a termine
antes de perguntar algo mais desafiador. Uma das belezas de
envelhecer é poder conhecer melhor seus pais.
— Hã… Mãe… você chegou a ter
um caso? Já se apaixonou por outra pessoa? Você teve um caso com
Howie?
Howie era um cara branco muito legal
que morava no segundo andar do número 128 da Washington Street, um
complexo de apartamentos em que moramos. Toda vez que meu pai batia
na minha mãe, ela corria para o apartamento de Howie. Ele lavava as
feridas dela e deixava minha mãe se esconder lá até que meu pai se
acalmasse. Era a personificação do estereótipo do hippie dos anos
1970. Aquele era Howie. Ele tocava violão para nós e nos dava
doces. Só doces normais, sem, digamos, “aditivos”.
— Não, Vahla. Nunca fiz nada com
Howie. Ele era só um cara legal. Seu pai sempre me acusou de me
meter com ele.
Tenho que dizer que fiquei
decepcionada. Eu estava esperando não apenas por algo indecente, mas
meio que esperava que minha mãe tivesse alguma história em que
explorasse sua alegria, seus desejos ou um pouquinho de felicidade,
mesmo que fosse tendo um caso.
Ela tomou outro gole.
— Mas me apaixonei pelo meu
ginecologista.
Me endireitei.
— AHHH! É mesmo?!
— Vahla, eu estava grávida de
Danielle e, sabe, ele cuidava de mim, me ouvia. Eu estava muito
sensível na época, e ele foi tão legal…
Esperei por mais detalhes, mas foi só
isso. Ela se apaixonara por um homem que cuidara dela. Teimosa como
um touro, inocente como uma criança e fiel mesmo quando abandonada.
Louvado seja Deus pelas mimosas ou, como MaMama as chama, “momosas”.
Quando jovem, pensava, talvez de
maneira arrogante, que podia me sair melhor que minha mãe. Eu ia
lutar com dragões. Ser mais forte e mais confiante. Não ia fugir
das lembranças ruins. Eu ia ser uma “heroína”, uma vencedora.
Mas você conhece aquela frase: “Me
mostre um herói e te mostrarei uma tragédia.” Como uma geek
do teatro, aprendi que tragédias sempre terminam com a queda do
herói. Todos que foram influenciados por ele, que se beneficiaram
dele ou que confiaram nele são esmagados na queda. Heróis sempre
causam a própria queda, como é o caso de Édipo. Eu não queria
causar minha própria queda. Não queria seguir a vida e não ser
responsável pela minha imprudência. Queria estar mais consciente do
meu calcanhar de aquiles. Acreditava que autoconsciência era
o que garantiria minhas bênçãos. Não fazia ideia da gigantesca
tarefa que estava pedindo ao universo.
Em um desses episódios nos quais
minha mãe revelava fatos extremamente importantes de maneira
espontânea, sem aviso ou contexto, ela me contou que, embora tenha
usado o nome Mary Alice Davis durante boa parte da vida, seu nome
real era Mae. “M-A-E”, ela sempre diz, não “M-A-Y”. Cedo ela
trocou o nome para Mary porque todas as garotas no interior se
chamavam Mae, e ela não queria ser como todo mundo. Como isso é
foda!
A mulher que me esforcei tanto para
não ser foi minha musa inspiradora em How to Get Away with
Murder. Ela só contou a mim e às minhas irmãs sobre a mudança
de nome já muito tarde na vida. Eu tinha 35 anos quando descobri.
Não foi uma mudança oficial, apenas informal. Quando ela me contou,
certamente não foi como uma confissão, e sim uma correção. Era
quase como se estivesse insultada por eu dizer o nome dela errado. Eu
estava enviando dinheiro a ela via Western Union, como sempre fiz.
— Vahla! Pare de escrever Mary!! Meu
nome não é Mary! É Mae. M-A-E! Você cisma em escrever meu nome
errado!
Silêncio.
— MaMama, do que você está
falando? Você sempre foi Mary: Mary Alice Davis.
— Vahla! Eu sempre fui Mae. Só
nunca gostei desse nome. Todo mundo no interior se chama Mae.
— Eu… Eu… estou confusa.
— Minha identidade diz “Mae”,
então envie para “Mae Alice Davis”.
Silêncio.
— Vahla?! Você ouviu o que sua mãe
disse, não ouviu?
— Hãã. Sim. Ouvi, mãe.
Não questionei. Por mais confusa que
eu estivesse, não queria fazer perguntas, porque ela não parecia
disposta a responder. Além disso, ia me dar uma surra quando me
visse de novo. Não estou brincando. Após duas gerações da
escravidão, por mais dócil que ela parecesse às vezes, minha mãe
tinha um gancho de direita brutal. Então nem mencionei que o nome da
irmã dela era Mary, um fato interessante diante da mudança de nome
dela de “Mae” para “Mary”.
Por mais que eu tenha tentado esculpir
MaMama na tentativa de chegar ao cerne de quem ela é, nunca
consegui. Existem décadas de segredos reprimidos, traumas, sonhos e
esperanças perdidas. Era mais fácil viver sob aquele véu e vestir
uma máscara do que lidar com eles.
Diferentemente da minha mãe, meu pai
era um homem mais simples. Dan Davis nasceu em 1936, em St. Matthews,
Carolina do Sul. Pelo que sei, ele tinha duas irmãs. Não consigo me
lembrar de jeito nenhum, mas ele tinha, acredito, um relacionamento
ruim com o padrasto, cujo sobrenome era Duckson.
Papai diz que estudou até o quinto
ano, mas, avaliando sua caligrafia ao longo dos anos, eu diria que a
educação formal dele parou perto do segundo. Ele pode não ter
estudado, mas não era burro. Analfabeto aos 15 anos, aprendeu a ler
porque um amigo o ensinou, observando outdoors na estrada.
Aos 15, após anos de agressões, ele
fugiu de casa para trabalhar como tratador de cavalos em hipódromos
pelo país. Tratou de alguns dos maiores cavalos de corrida da
história, e mesmo assim odiava o trabalho. Com tristeza, MaMama
conta que meu pai nunca tratou do famoso puro-sangue Secretariat.
Ainda temos fotos dele com os vencedores, porque o tratador quase
sempre saía na foto quando um cavalo ganhava.
Quando mais jovem, eu amava ir
trabalhar com meu pai. Amava estar cercada de cavalos. Até o cheiro
do esterco, do feno e da comida dos cavalos me empolgava. Vê-los nos
estábulos e alimentá-los com meu pai é uma lembrança feliz.
Quando os donos apareciam e diziam ao
meu pai como escovar os cavalos e como alimentá-los, a atmosfera se
transformava em algo muito diferente. Quando meu pai estava perto
daqueles homens, era quase como se fosse um escravizado, e eles, seus
senhores. Ele fazia cinco tarefas de uma vez. A enorme seringa com
doses de vitaminas para os cavalos, as diferentes misturas de
alimentos, as escovações e o feno. Eles não entendiam o quanto
estavam exigindo dele. Eu sentia a frustração, a raiva dele. Mas
que escolha meu pai tinha?
Para piorar, tratadores recebiam um
salário com que mal dava para viver. Imagine tirar sua família do
Sul com a esperança de uma vida melhor. Mesmo assim, tudo o que você
tem, tudo o que consegue ganhar não é suficiente para mantê-los
vivos e funcionais. Ele ficava visivelmente satisfeito por eu
presenciar as dificuldades do trabalho dele. Acho que era uma forma
de validar a realidade da situação que ele vivia.
Mas meu pai, que chamávamos de
MaPapa, era mais do que o trabalho. Ele era um excelente contador de
histórias. Também tocava gaita e violão muito bem. Ele amava soul,
jazz e blues, principalmente B.B. King.
Como MaPapa já faleceu, nunca saberei
que fantasmas o fizeram fugir de casa aos 15 anos. Por mais que o
ame, sei que eles o assombraram a vida inteira. Eles se entranharam
nele, transformando-se em ódio e alcoolismo. Esse ódio costumava
ser extravasado no dia do pagamento.
Sempre fui introvertida e, quando
criança, era muito tímida. Bem cedo me tornei uma ávida
observadora do mundo ao meu redor. Eu me camuflava em quase qualquer
ambiente e conseguia ver sem dizer nada. O que via em meu pai era um
homem que, sozinho e solteiro, podia pegar o salário e gastar tudo
com mulheres e bebida. Mas ele não era sozinho. Durante minha
infância, meu pai tinha cinco filhos para alimentar (exceto minha
irmã Danielle, que é quase 12 anos mais nova que eu). Cada centavo
que ele ganhava era para nós. Embora trabalhasse duro, aguentando o
desrespeito dos donos brancos de cavalos, não era suficiente.
Então ele se enfurecia.
Seus casos não eram segredo para
ninguém. A única “outra” de que me lembro em detalhes era
Patricia, uma mulher corpulenta que morava perto da Railroad Street,
em Central Falls. A Railroad Street ficava nos limites da cidade, que
tinha só dois quilômetros quadrados. Meu pai me levava até lá e
sempre me dava um dólar ou 75 centavos em moedas de 25 para não
contar a MaMama aonde íamos.
— Tudo bem, papai — dizia eu,
empolgada ao aceitar o dinheiro.
Eu não tinha mais que 5 ou 6 anos.
Meu pai estava sempre bem-vestido e
muitas vezes teve um carro bacana. O carro daquela época era um
conversível. Não me pergunte como ele conseguia pagar aquele carro,
mas considero esse período “bons anos”, financeiramente falando.
Ele ia ao apartamento de Patricia, e
ela atendia à porta nua, o que me traumatizou profundamente. Eu
ficava petrificada. Ela não fazia qualquer tentativa de esconder nem
seu traseiro nu, nem as más intenções com meu pai. Em vez disso,
corria para os braços dele, beijando-o e dando risadinhas.
— Ah, Dan! É a sua bebê?
Eu queria dizer: Vaca, eu sou a
bebê da MaMama! Não sua!
Eu a odiava.
Meu pai apenas dizia:
— Vá lá pra baixo e espere seu
pai.
Patricia então fechava a porta na
minha cara, rindo.
Eu odiava ir lá para baixo. Eles
queriam que eu brincasse com uma garotinha da minha idade. Ela tinha
os melhores brinquedos, mas nunca queria brincar comigo. Não queria
que eu tocasse em seus brinquedos, e a mãe dela aparecia e me
enxotava dali. Eu acabava sentada sozinha, querendo minha mãe mais
do que nunca.
Depois de muito tempo, meu pai
aparecia e repetia:
— Não conte à sua mãe onde
estivemos.
E assim que chegávamos em casa, minha
mãe perguntava:
— Aonde vocês foram?
— Papai me deu 75 centavos pra não
contar — dizia eu sem pensar.
Meu pai revirava os olhos, e a
confusão estava armada.
O caso com Patricia terminou quando
MaMama descobriu que ele estava no bar da cidade com ela. MaMama nos
disse que já voltava. Ela saiu do apartamento, foi até lá e deu um
tapão em Patricia, que caiu do banquinho em que estava sentada. Meu
pai ficou lívido e deu um tapa na minha mãe.
Ironicamente, Patricia escreveu uma
carta para a minha mãe expondo o “canalha imprestável” que meu
pai era. Minha mãe guardou a carta debaixo do colchão por muito
tempo e, às vezes, a pegava para ler. Isso sempre a deixava
deprimida.
Minhas irmãs e eu também a líamos.
Nas minhas fantasias, sempre a imaginei pensando no que diabos fazer
com aquela informação. Desejava que MaMama pudesse ter adquirido
meios para imaginar uma vida livre daquele tipo de dor. Uma que
rejeitasse tudo que a família ensinara a ela sobre casamento e nunca
desistir, nunca deixar seu homem mesmo que ele a traísse e aguentar
todo tipo de abuso. Imaginei que, se tivesse o vocabulário e os
recursos, ela simplesmente diria: “Me ajude!”, “Me guie!”.
Mas, mesmo adulta e com filhos, ela ainda era aquela garotinha negra
de 15 anos do interior da Carolina do Sul que engravidou e se casou
antes que tivesse idade para dirigir.
Minha irmã mais velha, Dianne, conta
a história de uma briga dos meus pais fora de casa. Meu pai gritava:
— Mae Alice! Você quer que eu fique
ou vá embora? Diga! Você quer que eu fique ou vá?
Minha irmã estava enviando mensagens
telepáticas: Por favor, diga a ele para ir embora! Diga a ele
para ir, mamãe!
Mas minha mãe só gritou: — Quero
que você fique!
Era uma escolha que traria enormes
consequências. O abuso provoca tantas lembranças traumáticas que
se misturam com atitudes difíceis de se livrar. Pode ser algo que
tenha acontecido quarenta anos antes, mas permanece vivo, no
presente.
Como eu disse, Mae Alice tem um
coração leal. Seu coração se apega e não pede nada em troca. Ela
mostra as garras apenas quando aqueles que ama precisam de proteção
ou para defender quem sente que lhe pertence. Minha mãe nunca ergue
os punhos para defender… a si mesma. Existe uma linha muito tênue
entre predadores e abusadores e minha mãe. Ela se autossacrifica à
custa da própria alegria.
Uma noite, meu pai chegou em casa do
bar e caiu na porta de entrada. Minha mãe gritou:
— Já pra cama, todos vocês!Ela o
ajudou a ir até a cama. Ele tinha levado uma facada nas costas, na
parte inferior, lado esquerdo. Fui espiar. Minha mãe tirou a camisa
dele e usou um pano com água oxigenada para limpar o sangue. Era um
ferimento profundo, com a pele pendurada.
Meu pai ficou gemendo e dizendo:
— Mae Alice, não chame a
ambulância. Não chame, Mae Alice.
Por fim, minha mãe ficou perto da
cama chorando. Lembro-me de entrar e ficar ao lado dela. Ela me
abraçou e disse:
— Não posso fazer nada. Não posso
fazer nada!
Só ficamos ali e eu me lembro de
esperar que ele morresse. Imaginei como nossa vida seria sem ele.
Imaginei uma vida sem ataques de ódio embriagados e as constantes
agressões que minha mãe sofria. Secretamente, senti como nossa vida
seria muito melhor. No dia seguinte, ele estava melhor. A morte não
viria até 2006 e, cara, minhas orações seriam diferentes dessa
vez. Cada último suspiro que ele dava, eu suspirava junto com ele.
Vindo de St. Matthews, Carolina do
Sul, uma área influenciada pela cultura Gullah das Sea Islands, meu
pai, assim como minha mãe, cresceu acreditando em haints,**
espíritos malignos e fantasmas.
Meu pai fez os haints estarem
presentes na nossa vida. Não podíamos varrer seus pés que ele
ficava lívido, dizendo que aquilo significava que iria preso. Disse
que já tinha sido preso por esfaquear um cara que puxou sua camisa
acima da cabeça. Não podíamos passar por uma lápide sem fazer o
sinal da cruz — o movimento do sinal da cruz “católico” —,
ou a pessoa morta não descansaria em paz. Teríamos que cuspir no
dedo, enfiá-lo na terra e passar pela lápide de novo. Não podíamos
nos olhar no espelho no escuro por muito tempo, ou nos
transformaríamos em monstros. Se acordássemos meio tontos pela
manhã, ainda sem nos mexer ou falar, meu pai entrava correndo no
quarto e perguntava: “O que foi? O que foi?” Antes que pudéssemos
responder, ele dizia: “A bruxa está solta. São os haints.
Eu, eu, eu peguei.”
Ele pegava um papel ou um pano, jogava
uma pitada de sal e pimenta e o sacudia sobre nós para se livrar da
bruxa. É óbvio que, já que estávamos totalmente despertos e
começando a nos mexer, aquilo era prova de que papai havia espantado
os haints. Com ar vitorioso, ele procurava saber mais:
— O que aconteceu? Você teve um mau
pensamento sobre uma pessoa mais velha que viu?
Deloris ou eu mencionávamos o velho
cabeludo que morava no fim da rua, e que achávamos parecido com um
monstro. O Sr. Miacca, para ser exata.
O Sr. Miacca era um personagem
fictício em uma lenda popular de Joseph Jacobs (compilada em seu
Contos de fadas ingleses) que comia garotinhos no jantar. Toda
vez que esse homem passava por nós, sussurrávamos para nossa
irmãzinha, Danielle: “Danielle! Lá vem ele. O Sr. Miacca!”
Isso a fazia ter calafrios, e ela
parava imediatamente o que quer que estivesse fazendo de errado.
— Chega. Chega! — dizia papai, de
novo passando o papel com sal e pimenta sobre nós. — Parem de
mexer com aquele homem! Estão ouvindo? Parem até de pensar coisas
ruins sobre ele!
Por causa do papai, o mito dos haints
fazia parte de nossa vida. Haints, que também são
mencionados em O sol é para todos, eram o equivalente às
Fúrias sobre as quais mais tarde aprendi no teatro grego. As Fúrias
são deusas nas tragédias gregas que vêm do submundo para se vingar
de uma pessoa que fez algo errado. O propósito das Fúrias era fazer
a pessoa pagar pelos erros, mesmo se parte deles fosse uma maldição
geracional. Os rituais de haints do papai nos lembravam de nos
responsabilizarmos. Eles faziam pontes que nos ajudavam a lidar com a
vida. Eram um guia interessante, do qual nunca duvidei até a
adolescência. Confiei 100% nos haints até não fazerem mais
sentido. Conforme me afastava dos meus pais, buscava minha
individualidade, deixando de lado o que me ensinaram.
Meu pai e minha mãe estavam fugindo
de memórias ruins. Ambos tinham sonhos e esperanças desconhecidos.
Nenhum contava com as ferramentas para lidar com o mundo e encontrar
paz ou alegria. Mamãe trabalhou esporadicamente em fábricas e era
uma apostadora compulsiva.
Meu pai era alcoólatra e desaparecia
por meses quando éramos muito pequenos. Ele sempre voltava, mas,
quando eu tinha 5 anos, me lembro de ele ficar longe por um longo
período. Só mais tarde me dei conta de que ele estava entorpecido,
o que sem dúvida é uma solução compreensível para lidar com
este mundo problemático. Então, ele voltava de sabe-se lá onde e
espancava MaMama. Atacava em vez de ser atacado.
Ele foi distante para nós durante a
maior parte da minha infância. Eu não sabia como me aproximar. Meu
pai foi o primeiro homem que me amou. Ele me buscava na escola
durante o almoço quando fazíamos a refeição fora da escola. Me
levava para restaurantes familiares para comer salsicha,
cachorro-quente com carne moída, cebola e sal de aipo. Ele inseria
uma moeda de 25 centavos na máquina do cavalo mecânico e me deixava
montar, um sorriso de orelha a orelha, antes de me levar de volta
para a escola. Ele me amava. Disso eu tenho certeza. Mas o amor e os
fantasmas que o assombravam lutavam por espaço dentro dele, e às
vezes os fantasmas venciam.
Uma das muitas memórias que definem
meu pai é a de quando eu tinha 14 anos. Morávamos no número 4 da
Park Street, uma casa de dois andares para duas famílias. O andar de
cima não tinha eletricidade nem aquecimento, mas pelo menos era uma
casa de dois andares e tínhamos a casa toda para nós. Minha
irmãzinha, Danielle, tinha mais ou menos um ano e meio. Eu daria a
vida por ela. Ela era o bem mais precioso que tínhamos.
Bem, meus pais estavam brigando. Nunca
soube o motivo. Na maior parte do tempo, as brigas começavam porque
meu pai queria extravasar. Eles estavam gritando um com o outro e meu
pai pegou um copo. Agarrei Danielle com um braço e coloquei o outro
entre meus pais, tentando fazê-los parar. Minhas outras irmãs não
estavam em casa. Minha irmã mais velha, Dianne, tinha me deixado um
aviso em tom sério: “Se eles começarem a brigar, tente pará-los.”
Até então, nunca havíamos tentado fazer isso por medo de que a
situação piorasse, porque ia piorar. Com meu braço entre eles, eu
disse gentilmente:
— Papai, por favor, pare.
Não funcionou.
— Me diz que eu não vou partir sua
cabeça, Mae Alice! Me diz!
Então ele quebrou o copo na lateral
da cabeça da minha mãe, e vi o vidro cortar a parte superior do
rosto dela, perto do olho, e o sangue jorrar. Muito sangue. Não
consegui mais. Não consegui ficar assistindo sem fazer nada,
enquanto ele erguia a mão para atingi-la de novo.
Então eu gritei:
— Pare! Pare com isso agora, papai!
Me dá o copo! Me dá!
Vi minha mão tremer
descontroladamente. Meu coração estava disparado. O medo me
dominava.
Meu pai ficou encarando minha mãe,
querendo atingi-la de novo. Ele não olhou para mim. Continuou
segurando o copo, o olhar fixo em minha mãe. Seus olhos estavam
injetados, querendo muito atingi-la de novo.Eu gritei outra vez:—
Me dá!Era como se, quanto mais alto eu gritasse, mais meu medo seria
liberado. E ele finalmente me deu o copo e se afastou. Escondi o copo
e senti como se tivesse levado uma surra ou corrido cinquenta
quilômetros.Tive que enfrentar meu pai, a figura de autoridade. A
pessoa que deveria tirar o copo de MIM, que deveria ME ensinar o
certo e o errado. A figura mais assustadora da minha vida e o
primeiro homem que todos nós amamos. Assustador? Sem saber, eu tinha
sido marcada, influenciada pelo comportamento deles e por tudo o que
eram. Por mais que desejasse que minha vida fosse melhor, as únicas
ferramentas que eu recebera para lidar com o mundo foram aquelas
dadas por eles. Pela maneira como falavam. Pela maneira como
brigavam. Pela forma como minha mãe fazia concessões. Como eles
amavam e quem amavam me moldou. Se eu não escapasse daquilo tudo, a
exaustão e o esgotamento seriam tudo o que eu sentiria depois de
cada luta da minha vida, até mesmo as menores?
Aquela briga marcou o começo da minha
mudança. Pensando na noite em que enfrentei meu pai e limpei o
sangue da minha mãe, eu sabia que minha vida seria uma luta. E
percebi: eu tinha forças para lutar.
___________________________________
*Plantation é um tipo de
sistema agrícola de exploração, baseado na monocultura de
exportação e sempre fazendo uso de grandes latifúndios e de mão
de obra escravizada. Este foi um sistema econômico agrícola
largamente implementado durante o processo de colonização das
Américas. [N. da E.]
**Haint é um tipo de fantasma
ou espírito maligno para os Gullah (ou Geechee), descendentes de
africanos escravizados que vivem na região da costa sudeste dos
Estados Unidos. No inglês vernáculo afro-americano, historicamente
o termo se refere a “fantasma” e, dentro da prática religiosa
hudu (ou hodu), haint é uma criatura que persegue sua vítima
até causar sua morte por exaustão. [N. da E.]
Viola Davis, em Em busca de mim

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