domingo, 5 de outubro de 2025

— Cante uma de suas músicas, Juventina!


Quando Juventina, meio sufocada, sentiu uma forte dor no peito, e o mundo rodopiou aos seus pés, ela cambaleou, cambaleou e, quase caindo, chamou por nós. Quem a viu de perto pôde perceber o tom acinzentado que se intrometeu em seu rosto negro por uns instantes e o leve tremor de seus lábios. Repentinamente, porém, ela pareceu ter reconquistado o equilíbrio. Nós, suas amigas, preocupadas com qualquer mal súbito que pudesse atingir Juventina, começamos a emitir ordens buscando confirmar se o vigor pairava ou não na vida dela.
Levante os braços, Juventina, e venha até aqui em linha reta!
Juventina, com os braços para o alto, andou com tal leveza que mais parecia dançar sobre as águas tranquilas de um rio.
Juventina, ande de fasto até encostar-se ao muro!
Ela andou tão ereta e sem qualquer interrupção, como se estivesse sendo vítima de um ímã a lhe puxar pelas costas, jogando-a no caminho do passado e não lhe permitindo a deslembrança de qualquer detalhe.
Cante uma de suas músicas, Juventina!
Então, uma voz cálida de tons diversos, em acordes de fazer dormir e acordar humanos, bichos, estrelas, pedras, plantas, enfim, toda a natureza, rompeu o espaço, silenciando os nossos amedrontados murmúrios, e imperou sozinha no tempo. E para o nosso espanto — e, ao mesmo tempo, para a nossa tranquilidade —, Juventina não só cantou, mas cantou a música de sua preferência, a “Canção para ninar menino grande”. Choramos e sorrimos aliviadas, embora eu ainda me recusasse a acreditar que a dor no peito de Juventina fosse apenas qualquer mal passageiro. Insistentemente, vigiava todo o corpo dela, temendo pela vida, ou melhor, pela morte dela. Ainda assim, Juventina estava bem, nada esmorecia nela. A dor no peito e os passos cambaleantes de minutos atrás, sintomas sem explicação, só podiam ser nada então. E depois, no decorrer de minha conversa com ela, quando já estávamos nós duas somente, foi que entendi. Era dor sim, a maior. E só Juventina sabia qual. Dor de amor, ela me contou mais tarde. Não que estivesse apaixonada. Não, não mais. Não mais. Agora ela só era Juventina. Paixões eram do tempo em que ela era Tina. Agora, só lembranças do que fora a Tina.
Uma carta escrita em papel de seda, abandonada tal qual o corpo violentado de uma mulher, ao lado de um não desejado homem adormecido depois do gozo, jazia sobre a mesa. Em letras desenhadas com esmero, podia-se ler a repetida frase: “Eu te amo, eu te amo.” Fio Jasmim pousou sobre a folha, que balançava ao vento, um descuidado olhar; já sabia de cor todo o conteúdo. Tina lhe escrevia quase sempre. Ele tinha inúmeras cartas dela e não sabia mais o que fazer com tantas folhas. Muito menos, com o amor da moça. Devolver as cartas, podia; mas, sem elas, como convencer a sua mulher de que ele, primeiramente, havia sido vítima do assédio sexual e, com o tempo, do amor louco da moça? Não, ele não era o culpado. A moça sabia que ele era casado e, mesmo assim, se oferecia. Lá estavam as palavras dela, escritas por ela, assinadas por ela. Tina Maria Perpétua.
Fio Jasmim novamente percorreu o olhar sobre o papel. Não podia deixá-lo sobre a mesa como se fosse um esquecimento. Já fizera isto várias vezes. Esquecera as cartas de Tina sobre a escrivaninha, sobre a mesa da cozinha, sobre a pia do banheiro e, um dia, até debaixo do travesseiro. Sabia que a sua mulher lia e engolia as apaixonadas declarações da outra, sem nada dizer. Fio amassou com força o papel de seda. O amor de Tina doeu-lhe entre os dedos. Pensou na moça com carinho e desejou a passividade do corpo dela.
[…]

Conceição Evaristo, em Canção para ninar menino grande

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