Quando Juventina, meio sufocada,
sentiu uma forte dor no peito, e o mundo rodopiou aos seus pés, ela
cambaleou, cambaleou e, quase caindo, chamou por nós. Quem a viu de
perto pôde perceber o tom acinzentado que se intrometeu em seu rosto
negro por uns instantes e o leve tremor de seus lábios.
Repentinamente, porém, ela pareceu ter reconquistado o equilíbrio.
Nós, suas amigas, preocupadas com qualquer mal súbito que pudesse
atingir Juventina, começamos a emitir ordens buscando confirmar se o
vigor pairava ou não na vida dela.
— Levante os braços, Juventina, e
venha até aqui em linha reta!
Juventina, com os braços para o alto,
andou com tal leveza que mais parecia dançar sobre as águas
tranquilas de um rio.
— Juventina, ande de fasto até
encostar-se ao muro!
Ela andou tão ereta e sem qualquer
interrupção, como se estivesse sendo vítima de um ímã a lhe
puxar pelas costas, jogando-a no caminho do passado e não lhe
permitindo a deslembrança de qualquer detalhe.
— Cante uma de suas músicas,
Juventina!
Então, uma voz cálida de tons
diversos, em acordes de fazer dormir e acordar humanos, bichos,
estrelas, pedras, plantas, enfim, toda a natureza, rompeu o espaço,
silenciando os nossos amedrontados murmúrios, e imperou sozinha no
tempo. E para o nosso espanto — e, ao mesmo tempo, para a nossa
tranquilidade —, Juventina não só cantou, mas cantou a música de
sua preferência, a “Canção para ninar menino grande”. Choramos
e sorrimos aliviadas, embora eu ainda me recusasse a acreditar que a
dor no peito de Juventina fosse apenas qualquer mal passageiro.
Insistentemente, vigiava todo o corpo dela, temendo pela vida, ou
melhor, pela morte dela. Ainda assim, Juventina estava bem, nada
esmorecia nela. A dor no peito e os passos cambaleantes de minutos
atrás, sintomas sem explicação, só podiam ser nada então. E
depois, no decorrer de minha conversa com ela, quando já estávamos
nós duas somente, foi que entendi. Era dor sim, a maior. E só
Juventina sabia qual. Dor de amor, ela me contou mais tarde. Não que
estivesse apaixonada. Não, não mais. Não mais. Agora ela só era
Juventina. Paixões eram do tempo em que ela era Tina. Agora, só
lembranças do que fora a Tina.
Uma carta escrita em papel de seda,
abandonada tal qual o corpo violentado de uma mulher, ao lado de um
não desejado homem adormecido depois do gozo, jazia sobre a mesa. Em
letras desenhadas com esmero, podia-se ler a repetida frase: “Eu te
amo, eu te amo.” Fio Jasmim pousou sobre a folha, que balançava ao
vento, um descuidado olhar; já sabia de cor todo o conteúdo. Tina
lhe escrevia quase sempre. Ele tinha inúmeras cartas dela e não
sabia mais o que fazer com tantas folhas. Muito menos, com o amor da
moça. Devolver as cartas, podia; mas, sem elas, como convencer a sua
mulher de que ele, primeiramente, havia sido vítima do assédio
sexual e, com o tempo, do amor louco da moça? Não, ele não era o
culpado. A moça sabia que ele era casado e, mesmo assim, se
oferecia. Lá estavam as palavras dela, escritas por ela, assinadas
por ela. Tina Maria Perpétua.
Fio Jasmim novamente percorreu o olhar
sobre o papel. Não podia deixá-lo sobre a mesa como se fosse um
esquecimento. Já fizera isto várias vezes. Esquecera as cartas de
Tina sobre a escrivaninha, sobre a mesa da cozinha, sobre a pia do
banheiro e, um dia, até debaixo do travesseiro. Sabia que a sua
mulher lia e engolia as apaixonadas declarações da outra, sem nada
dizer. Fio amassou com força o papel de seda. O amor de Tina
doeu-lhe entre os dedos. Pensou na moça com carinho e desejou a
passividade do corpo dela.
[…]
Conceição Evaristo, em Canção para ninar menino grande

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