quinta-feira, 9 de outubro de 2025

1589 – Cuzco

Diz que teve o sol

Duro entre os lençóis, Mancio Serra de Leguízamo descarrega a consciência. Frente ao tabelião, dita e jura:
Que achamos estes reinos de tal maneira que em todos eles não havia um ladrão, um homem de vícios! nem folgazão, nem havia mulher adúltera nem nada...
O velho capitão de Pizarro não quer ir embora do mundo sem dizer pela primeira vez:
Que as terras e montes e minas e pastos e caça e madeiras e todo gênero de aproveitamentos estavam governados ou repartidos de maneira que cada um conhecia e tinha sua fazenda, sem que nenhum outro a ocupasse ou tomasse...
Do exército que conquistou o Peru, dom Mancio é o último sobrevivente. Há mais de meio século, ele foi um dos que invadiram esta cidade sagrada de Cuzco, saquearam as joias das tumbas e as casas e a machadadas arrancaram as paredes do Templo do Sol tão coalhado de ouro que seus resplendores davam cor de defunto a quem entrava. Pelo que diz, recebeu a melhor parte: o rosto de ouro do sol, com seus raios e chamas de fogo, que reinava, imenso, sobre a cidade e deixava cego os cuzquenhos na hora do amanhecer.
Uma noite, dom Mancio apostou o sol no baralho. Perdeu.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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