Diz que teve o sol
Duro entre os lençóis, Mancio Serra
de Leguízamo descarrega a consciência. Frente ao tabelião, dita e
jura:
– Que achamos estes reinos de tal
maneira que em todos eles não havia um ladrão, um homem de vícios!
nem folgazão, nem havia mulher adúltera nem nada...
O velho capitão de Pizarro não quer
ir embora do mundo sem dizer pela primeira vez:
– Que as terras e montes e minas
e pastos e caça e madeiras e todo gênero de aproveitamentos estavam
governados ou repartidos de maneira que cada um conhecia e tinha sua
fazenda, sem que nenhum outro a ocupasse ou tomasse...
Do exército que conquistou o Peru,
dom Mancio é o último sobrevivente. Há mais de meio século, ele
foi um dos que invadiram esta cidade sagrada de Cuzco, saquearam as
joias das tumbas e as casas e a machadadas arrancaram as paredes do
Templo do Sol tão coalhado de ouro que seus resplendores davam cor
de defunto a quem entrava. Pelo que diz, recebeu a melhor parte: o
rosto de ouro do sol, com seus raios e chamas de fogo, que reinava,
imenso, sobre a cidade e deixava cego os cuzquenhos na hora do
amanhecer.
Uma noite, dom Mancio apostou o sol no
baralho. Perdeu.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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