[…]
O truztruz. Com pouco, nesse passo, os
todos homens se apessoando, no corpo daquele corredor ― as fileiras
em mexe-mexe desde a sala-de-fora até à cozinha, sobre mais entre
os conspirados silêncios, os movimentos com energias. Arte e tanto,
Zé Bebelo expunha o que recomendava. Sempre uma ou outra lamparina
se acendeu, para os companheiros empalidecidos. Agora a gente ia
romper a pé, sem os recursos, dava dó era a quantia de munição de
se largar ali, no se pór em salvo. Assaz, então, tudo o que
possível se encheu, de balas e caixas ― os bornais e capangas,
patronas e cartucheiras. Mas não bastava. A ser que, daí, um
inventou uma fronha de cama: a que, presada com correia ou corda,
para tiracol, concabia tiros em boa dose; e muitos assim
aproveitavam, logo não restou fronha a dispor. Mesmo, a alguma
matula, também, se devia, por garantir. Desde aí, no concorrer, se
saía por uma porta. O quanto a noite se atravava de bom grosso.
Adiante primeiro foram mandados João Concliz, Moçambicão e
Suzarte, para reconhecerem se estava limpo o caminho, rumo de fuga,
sem o estorvável. Ponto que os poucos feridos, que havendo, se
queixavam em condições, mesmo o Nicolau, que se escorava no rifle e
às vezes se retardava. Só ficando na Casa os mortos, que não
careciam de se rezar a eles adeus, os soldados amanhã que viessem,
que enterrassem. Soformamos diversos golpes, acho que cinco. Diadorim
e eu entramos no derradeiro, com o comando do próprio Zé Bebelo; e
com o Acauã, o Fafafa, Alaripe e Sesfrêdo, que acompanhavam comigo.
Saíram os de primeiramente, iam um ante outro ― como um rio a
buscar baixo; ou um cão, cão. A gente demorava. Aquela cozinha
grande, no cabo do negócio, muito aprisionava, de sobreleve; e
contei os companheiros, as respirações. Saíram outros e outros.
Dos dianteiros, nem se percebia rumor. Toda a hora eu esperava um
tiro e um grito de alto-lá-o-rei! Mas era só o tremer daquela paz
em proporção. Admirei Zé Bebelo. A vez nossa chegada, ali o
acostumar os olhos com o outro mudar. Abaixamos, e saímos também.
Semoveu-se.
Livrados! No escuso, o tudo ajudando,
fizemos passagem, avante mais. Tempo que andamos, contracalados,
soprando o sangue para se esfriar; até que se cobrou veras de perigo
não haver, no regozijo de poupados de qualquer espreita ou
agredimento. Se esbarrou, para ar, um sueto de uns momentos. ― Não
é que o gato ficou lá... ― um, risonho, falou. ― Ah, demais. A
lá é a Casa... ― outro se pôs. Aquela à-morte fazenda-grande
dos Tucanos. Vai, eu, o cheiro fartado, bom, de folhas folhagens e do
capim do campo, enunciou em meu lembrar o mau-cheiro dos defuntos,
que agora próprio no meu nariz eu nem não aventava mais. E Zé
Bebelo, segredando comigo, espiou para trás, observou assim, pegando
na minha mão! ― Riobaldo, escuta, botei fora minha ocasião última
de engordar com o Governo e ganhar galardão na política... Era
verdade, e eu limpei o haver! ele estava pegando na mão do meu
caráter. Aí, aclarava ― era o fornido crescente ― o azeite da
lua. Andávamos. Saiba o senhor, pois saiba! no meio daquele luar, me
lembrei de Nossa Senhora.
A de entre, entramos, pela esquerda e
rumo do norte. Desde o depois, o do poente mesmo. Com foras e
auroras, estávamos outra vez no público do campo. Antes da manhã,
agora se passava a Vereda-Grande, no Vau-dos-Macacos. Ao que, em
rompendo a luz toda da manhã, se chegou no sítio dum Dodó
Ferreira, onde a gente bebeu leite e os meus olhos pulavam nas
árvores. Aquilo, de verdade, e eu em mim ― como um boi que se sai
da canga e estrema o corpo por se prazer. Assim foi que, nesse
arraiar de instantes, eu tornei a me exaltar de Diadorim, com esta
alegria, que de amor achei. Alforria é isso. Sobre mesmo a pé, e
com o peso completo, caminhar pelos Gerais parecia que pouquinho me
cansava. Diadorim ― o nome perpetual. Mas os caminhos é que estão
se jazendo em tudo no chão, sempre uns contra os outros; retorce que
os falsíssimos do demo se reproduzem. O senhor vá me ouvindo, vá
mais me entendendo.
No sítio desse Dodó Ferreira, o
Nicolau e o Leocádio iam ficar acoitados lá, até que pudessem
sarar de todo somenos. Nós, não. De que desde dali, rifles nas
costas, riscamos de rota abatida para o Currais-do-Padre, para
renovame; porque lá se tinha resguardada uma boa cavalaria. A força
de inchar pé e esmorecer pernas, pelo que aquilo nem foi viagem: era
rojão de escabrear, menção de cativeiros. Desgraça de estrada, as
pedras do mundo, minhas léguas arrependidas. De que serve eu lhe
contar minuciado ― o senhor não padeceu feliz comigo ―? Saber as
revezadas do capim? Ah, então, que foram: mimoso, sempre-verde,
marmelada, agrestes e grama-de-burro. A caminhada é assim, é ser:
despesa grossa, o abalo. Contra a mera vontade, que meio me lembro,
aquelas ladeiras de chapadas. Subindo para terreno concertado, cada
tabuleiro que o fim dele é dificultoso, pior do que batoqueira de
caatingal. Os muitos campos, com tristeza agora bota valesse menos
que alpercata. O vento endureceu. Aí passa gavião, apanha guincho,
de todas as estirpes deles ― o que gaviãozinho quiriquitou! E lá
era que o senhor podia estudar o juízo dos bandos de papagaios. O
quanto em toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal
e se bebia estável. Assim que a matlotagem desmereceu em acabar,
mesmo fome não curtimos, por um bem! se caçou boi. A mais, ainda
tinha araticúm maduro no cerrado. Mas, para balear uma rês da
solta, era o mistér de toda sorte e diligência, por ser um gado
estruso, estranhador. O fumo de pitar se acabando repentino na
algibeira de uns e outros ― bondade dos companheiros era que
acudia. E deu daquele vento trazedor! chegou chuva. A gente se
escondendo, divididos, em baixo dos pequizeiros, que tempesteava.
Dormir remolhado, se dormia, com a lama da friagem. De madrugar,
depois, se achava era pé de onça, circulando as marcas. E a gente
ia, recomeçado, se andava, no desânimo, nas campinas altas. Tão
território que não foi feito para isso, por lá a esperança não
acompanha. Sabia, sei. O pobre sozinho, sem um cavalo, fica no seu,
permanece, feito numa crôa ou ilha, em sua beira de vereda. Homem a
pé, esses Gerais comem.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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