terça-feira, 2 de setembro de 2025

Os homens se apessoando


[…]

O truztruz. Com pouco, nesse passo, os todos homens se apessoando, no corpo daquele corredor ― as fileiras em mexe-mexe desde a sala-de-fora até à cozinha, sobre mais entre os conspirados silêncios, os movimentos com energias. Arte e tanto, Zé Bebelo expunha o que recomendava. Sempre uma ou outra lamparina se acendeu, para os companheiros empalidecidos. Agora a gente ia romper a pé, sem os recursos, dava dó era a quantia de munição de se largar ali, no se pór em salvo. Assaz, então, tudo o que possível se encheu, de balas e caixas ― os bornais e capangas, patronas e cartucheiras. Mas não bastava. A ser que, daí, um inventou uma fronha de cama: a que, presada com correia ou corda, para tiracol, concabia tiros em boa dose; e muitos assim aproveitavam, logo não restou fronha a dispor. Mesmo, a alguma matula, também, se devia, por garantir. Desde aí, no concorrer, se saía por uma porta. O quanto a noite se atravava de bom grosso. Adiante primeiro foram mandados João Concliz, Moçambicão e Suzarte, para reconhecerem se estava limpo o caminho, rumo de fuga, sem o estorvável. Ponto que os poucos feridos, que havendo, se queixavam em condições, mesmo o Nicolau, que se escorava no rifle e às vezes se retardava. Só ficando na Casa os mortos, que não careciam de se rezar a eles adeus, os soldados amanhã que viessem, que enterrassem. Soformamos diversos golpes, acho que cinco. Diadorim e eu entramos no derradeiro, com o comando do próprio Zé Bebelo; e com o Acauã, o Fafafa, Alaripe e Sesfrêdo, que acompanhavam comigo. Saíram os de primeiramente, iam um ante outro ― como um rio a buscar baixo; ou um cão, cão. A gente demorava. Aquela cozinha grande, no cabo do negócio, muito aprisionava, de sobreleve; e contei os companheiros, as respirações. Saíram outros e outros. Dos dianteiros, nem se percebia rumor. Toda a hora eu esperava um tiro e um grito de alto-lá-o-rei! Mas era só o tremer daquela paz em proporção. Admirei Zé Bebelo. A vez nossa chegada, ali o acostumar os olhos com o outro mudar. Abaixamos, e saímos também. Semoveu-se.
Livrados! No escuso, o tudo ajudando, fizemos passagem, avante mais. Tempo que andamos, contracalados, soprando o sangue para se esfriar; até que se cobrou veras de perigo não haver, no regozijo de poupados de qualquer espreita ou agredimento. Se esbarrou, para ar, um sueto de uns momentos. ― Não é que o gato ficou lá... ― um, risonho, falou. ― Ah, demais. A lá é a Casa... ― outro se pôs. Aquela à-morte fazenda-grande dos Tucanos. Vai, eu, o cheiro fartado, bom, de folhas folhagens e do capim do campo, enunciou em meu lembrar o mau-cheiro dos defuntos, que agora próprio no meu nariz eu nem não aventava mais. E Zé Bebelo, segredando comigo, espiou para trás, observou assim, pegando na minha mão! ― Riobaldo, escuta, botei fora minha ocasião última de engordar com o Governo e ganhar galardão na política... Era verdade, e eu limpei o haver! ele estava pegando na mão do meu caráter. Aí, aclarava ― era o fornido crescente ― o azeite da lua. Andávamos. Saiba o senhor, pois saiba! no meio daquele luar, me lembrei de Nossa Senhora.
A de entre, entramos, pela esquerda e rumo do norte. Desde o depois, o do poente mesmo. Com foras e auroras, estávamos outra vez no público do campo. Antes da manhã, agora se passava a Vereda-Grande, no Vau-dos-Macacos. Ao que, em rompendo a luz toda da manhã, se chegou no sítio dum Dodó Ferreira, onde a gente bebeu leite e os meus olhos pulavam nas árvores. Aquilo, de verdade, e eu em mim ― como um boi que se sai da canga e estrema o corpo por se prazer. Assim foi que, nesse arraiar de instantes, eu tornei a me exaltar de Diadorim, com esta alegria, que de amor achei. Alforria é isso. Sobre mesmo a pé, e com o peso completo, caminhar pelos Gerais parecia que pouquinho me cansava. Diadorim ― o nome perpetual. Mas os caminhos é que estão se jazendo em tudo no chão, sempre uns contra os outros; retorce que os falsíssimos do demo se reproduzem. O senhor vá me ouvindo, vá mais me entendendo.
No sítio desse Dodó Ferreira, o Nicolau e o Leocádio iam ficar acoitados lá, até que pudessem sarar de todo somenos. Nós, não. De que desde dali, rifles nas costas, riscamos de rota abatida para o Currais-do-Padre, para renovame; porque lá se tinha resguardada uma boa cavalaria. A força de inchar pé e esmorecer pernas, pelo que aquilo nem foi viagem: era rojão de escabrear, menção de cativeiros. Desgraça de estrada, as pedras do mundo, minhas léguas arrependidas. De que serve eu lhe contar minuciado ― o senhor não padeceu feliz comigo ―? Saber as revezadas do capim? Ah, então, que foram: mimoso, sempre-verde, marmelada, agrestes e grama-de-burro. A caminhada é assim, é ser: despesa grossa, o abalo. Contra a mera vontade, que meio me lembro, aquelas ladeiras de chapadas. Subindo para terreno concertado, cada tabuleiro que o fim dele é dificultoso, pior do que batoqueira de caatingal. Os muitos campos, com tristeza agora bota valesse menos que alpercata. O vento endureceu. Aí passa gavião, apanha guincho, de todas as estirpes deles ― o que gaviãozinho quiriquitou! E lá era que o senhor podia estudar o juízo dos bandos de papagaios. O quanto em toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal e se bebia estável. Assim que a matlotagem desmereceu em acabar, mesmo fome não curtimos, por um bem! se caçou boi. A mais, ainda tinha araticúm maduro no cerrado. Mas, para balear uma rês da solta, era o mistér de toda sorte e diligência, por ser um gado estruso, estranhador. O fumo de pitar se acabando repentino na algibeira de uns e outros ― bondade dos companheiros era que acudia. E deu daquele vento trazedor! chegou chuva. A gente se escondendo, divididos, em baixo dos pequizeiros, que tempesteava. Dormir remolhado, se dormia, com a lama da friagem. De madrugar, depois, se achava era pé de onça, circulando as marcas. E a gente ia, recomeçado, se andava, no desânimo, nas campinas altas. Tão território que não foi feito para isso, por lá a esperança não acompanha. Sabia, sei. O pobre sozinho, sem um cavalo, fica no seu, permanece, feito numa crôa ou ilha, em sua beira de vereda. Homem a pé, esses Gerais comem.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Nenhum comentário:

Postar um comentário