terça-feira, 2 de setembro de 2025

Darl


À nossa frente rola a corrente grossa e escura. Eleva até nós seu murmúrio incessante e múltiplo, a superfície amarela encrespa-se monstruosamente em torvelinhos que percorrem a superfície durante breve momento, silenciosos, efêmeros e profundamente significativos, como se, logo embaixo da superfície, alguma coisa grande e viva despertasse subitamente de um estado de estupor e recaísse, a seguir, no seu leve adormecimento.
A corrente chapinha e murmura entre os raios das rodas e em volta dos tornozelos das mulas, amarela, cheia de detritos e de grossas placas de espuma, como se tivesse suado, como se tivesse escorrido de um cavalo a galopar. Corre, através da vegetação, em tom queixoso, pensativo; nela, os caniços flexíveis e os rebentes inclinam-se como se enfrentassem um temporal, ondulando sem reflexos, como se suspensos, por invisíveis cordéis, dos ramos em cima. Sobre a superfície incessante, eles surgem — árvores, caniços, rebentos — desenraizados, arrancados da terra, espectrais na cena de imensa conquanto circunscrita desolação tomada pela vez da água excessiva e lastimosa.
Cash e eu estamos sentados na carroça; Jewel vai a cavalo, junto à roda direita, atrás. O cavalo está trêmulo e seu olho de um azul puro de olho de criança gira, selvagem, no comprido focinho encarnado, enquanto a respiração soa estertorosa como um ronco. Jewel está ereto no cavalo, olhando com ar calmo, firme e rápido, em frente e em volta, com seu rosto tranquilo, um pouco pálido e alerta. O rosto de Cash também está compenetrado; ele e eu nos olhamos com olhares demorados, inquisidores, que mergulham livremente nos olhos um do outro e no derradeiro lugar secreto onde, por um instante, Cash e Darl se agacham, dominados por antigos terrores e pressentimentos, alertas, sigilosos e despudorados. Quando falamos, nossas vozes soam tranquilas, destacadas.
Acho que ainda estamos na estrada.”
Tull veio aqui e derrubou estes dois grandes carvalhos. Ouvi dizer que as árvores serviam para identificar o vau, quando a água subia muito.”
Acho que ele cortou-os dois anos atrás, quando desmatava esta região. Talvez não pensasse que alguém poderia utilizar o vau.”
Deve ter sido. Sim, com certeza. Tirou muita madeira, naquela ocasião. Com ela, pagou a hipoteca. É o que ouvi dizer.”
Sim. Creio que sim. Vernon é bem capaz disso.”
É verdade. A maioria das pessoas que tira madeira por aqui precisa de uma fazenda danada de boa para manter a serraria. Ou talvez um armazém. Mas Vernon sabe se arranjar.” “Também acho. É um espertalhão.” “Sim. Vernon é um espertalhão. Sim, o vau deve estar por aqui. Ele nunca teria conseguido tirar aquela madeira daqui se não nivelasse a estrada velha. Acho que ainda estamos nela.” Cash olha em volta, calmamente, atentando na posição das árvores, inclinando-se para um e outro lado, olhando para trás, ao longo da estrada sem contorno, vagamente modelada no ar pela posição das árvores podadas e abatidas, como se a estrada também houvesse sido arrancada da terra e flutuasse, deixando em sua espectral trajetória um monumento à desolação, uma desolação, contudo, mais profunda que esta em que agora avançamos, a conversar tranquilamente sobre a segurança passada e coisas triviais. Jewel olha-o, depois olha para mim, depois seu rosto se desvia para aquela calma, continua pesquisa do cenário, o cavalo tremendo, com calma e firmeza, entre suas pernas.
Ele podia adiantar-se e sondar o terreno para nós”, digo. 
Sim”, diz Cash, sem me fitar. Seu rosto perfila-se quando ele olha para onde Jewel avançou. 
Ele não pode perder o rio”, digo. “Não pode deixar de vê-lo cinquenta metros adiante.”
Cash não me olha. Continua com o rosto perfilado. “Se eu tivesse a suspeita, teria vindo aqui, na semana passada, dar uma espiada.”
A ponte estava em pé, então”, digo. Ele não me olha. “Whitfield atravessou-a a cavalo.” Jewel olha outra vez para nós, com expressão sóbria, vigilante e submissa. Tem a voz calma. “Que querem que eu faça?”
Eu devia ter vindo aqui, na semana passada, dar uma espiada”, diz Cash. “Então, ninguém sabia de nada”, digo. “Não havia maneira de saber.”
Vou avançar”, diz Jewel. “Vocês me acompanhem por onde eu for.” Instiga o cavalo. O cavalo recua, arqueado. Jewel inclina-se para ele, fala com ele, convence-o a avançar, pousando os cascos de leve, tremendo, respirando roucamente. Fala ao cavalo, murmura coisas ao cavalo. “Vamos em frente”, diz. “Não deixarei que nada de mau lhe aconteça. Em frente, agora.”
Jewel”, diz Cash, “Jewel não olha para trás. Continua a instigar o cavalo.”
Ele pode nadar”, digo. “Se deixar o cavalo à vontade...” Quando Jewel nasceu, passava mal de saúde. Mãe sentava-se à luz da candeia, embalando-o num travesseiro que trazia ao colo. Nós acordávamos e víamos que ela estava ali. Não faziam ruído algum.
Aquele travesseiro era maior que ele”, diz Cash. Inclinava-se um pouco para a frente. “Eu devia ter vindo aqui na semana passada e dar uma espiada. Eu devia ter feito isso.”
““Certo", eu digo. “Nem os pés nem a cabeça dele tocavam as extremidades do travesseiro. Você não podia prever”, digo.
Eu devia ter feito isso”, insiste ele. Levanta as rédeas. As mulas avançam por entre os rastos. As rodas murmuram, vivas,. na água. Ele olha para trás e para baixo, para Addie.
Não está bem equilibrado”, diz. Afinal, as árvores abrem-se; contra o rio agora desvendado, Jewel para o cavalo, meio virado, com água pela barriga. Do outro lado do rio podemos ver Vernon e Pai e Vardaman e Dewey Dell. Vernon faz sinais para nós, aponta-nos a corrente mais embaixo. “Estamos muito acima”, diz Cash. Vernon também grita, mas não conseguimos distinguir o que diz, por causa do ruído da água. A água corre, agora, firme e profunda, contínua, sem dar impressão de movimento, até que um toro aparece, girando vagarosamente. "Observe-o", diz Cash. Nós o observamos e vemos que hesita e se imobiliza por um instante, e a corrente acumula-se, atrás dele, em onda espessa, e submerge-o num átimo, antes que ele volte a ser arrastado, empurrado pela água. "Lá vai", digo.
Sim”, diz Cash. “Lá vai.” Olhamos novamente para Vernon. Ele agora levanta e baixa os braços. Descemos a corrente, com lentidão e cautela, observando Vernon. Ele baixa as mãos. “O lugar é aqui”, diz Cash.
Então, com todos os demônios, vamos atravessar”, diz Jewel. E instiga o cavalo. 
Espere”, diz Cash. Jewel para outra vez. “Bem, por amor de Deus...”, diz. Cash olha para a água, depois olha para Addie. “Não está bem equilibrado”, diz. 
Neste caso, volte àquela maldita ponte e atravesse”, diz Jewel. “Você e Darl. Deixe a carroça por minha conta.” Cash não lhe presta atenção alguma, “Não está bem equilibrado”, diz. “Sim senhor. Temos de o observar bem.”
Observar, observar... Que diabo”, diz Jewel. “Saia dessa carroça e deixe por minha “conta. Por Deus, se você está com medo de guiá-la...” Seus olhos estão pálidos, quais dois cavacos esbranquiçados na cara. Cash olha para ele.
Tudo dará certo”, diz. “Ouça o que devemos fazer. Volte com o cavalo até a ponte, atravesse a ponte a pé e desça pela margem, ao nosso encontro, com a corda. Vernon pode levar seu cavalo para casa e guardá-lo até nossa volta.”
Vá para o inferno”, diz Jewel. 
Pegue a corda, desça pela margem e prepare-se”, diz Cash. “Aqui, bastam dois: um para guiar, o outro para segurar.”
O diabo o leve”, diz Jewel.
Jewel pega a ponta da corda, atravessa a corrente e estende-a”, digo. “Quer fazer isto. Jewel?”
Jewel me observa, com expressão dura. Olha rapidamente para Cash, depois para mim, outra vez, com olhos alertas e duros. “Pouco me importa. Temos é de fazer alguma coisa. Parados aqui, sem levantar um maldito dedo…”
Vamos fazer isto mesmo, Cash”, digo.
Não há outra coisa a fazer”, diz Cash. O rio, por si mesmo, não tem mais de cem metros de largura, e Pai e Vernon e Vardaman e Dewey Dell são as únicas coisas à vista, sem falar na monotonia singular daquela desolação que parece estender-se, terrível, da direita para a esquerda, como se tivéssemos atingido o lugar onde o movimento do mundo devastado se acelera, pouco antes do precipício final. Contudo, eles parecem encolhidos. Como se o espaço entre nós fosse só tempo: uma coisa irrevogável, Como se o tempo já não corresse diretamente à nossa frente, em linha decrescente, mas se escoasse, paralelo, entre nós, qual corda dobrada, e a distância fossem as dobras, não o intervalo entre elas. As mulas param, com os quartos dianteiros já um pouco inclinados e as ancas elevadas. Também elas respiram agora com profundo som enrouquecido, olham uma vez para trás, roçando em nós seus olhos selvagens, tristes, profundos e desesperançados, como se já tivessem visto na água grossa a imagem do desastre de que não podem falar e que não podemos ver.
Cash volta-se para o interior da carroça. Pousa as mãos estendidas em Addie e balança-a um pouco. Seu rosto está calmo, cabisbaixo, calculista e preocupado. Apanha a caixa de ferramentas e a põe embaixo do banco; juntos, empurramos Addie, colocando-a entre as ferramentas e o fundo da carroça. Depois, ele me olha.
Não”, digo. “Creio que vou ficar. Talvez sejam necessários os dois.”
Da caixa de ferramentas ele retira a corda enrolada, passa-a por trás do banco, em duas voltas, dá-me uma ponta, sem atar, e estende a outra a Jewel, que dá uma volta no arção da sela.
Ele tem de obrigar o cavalo a entrar na corrente. O cavalo avança, levantando os joelhos, arqueando o pescoço, irritado, de má vontade. Jewel vai sentado um pouco para a frente, com os joelhos erguidos; mais uma vez seu olhar rápido, firme e calmo passa por cima de nós e segue. Faz o cavalo penetrar na corrente, falando-lhe com um murmúrio apaziguador. O cavalo escorrega, afunda na água até a sela, volta a pisar firme e a corrente bate contra as coxas de Jewel.
Cuidado”, diz Cash.
O pior já passou”, diz Jewel, “Pode vir agora.”
Cash empunha as rédeas e faz a parelha entrar, com cuidado e com perícia, na corrente.
Senti que a corrente nos levava e percebi, assim, que estávamos no vau, pois só por meio desse contato escorregadio sabíamos que avançávamos de verdade. O que havia sido uma superfície lisa era agora uma sucessão de altos e baixos que se formavam à nossa volta, empurrando-nos, molestando-nos com seus toques ligeiros e preguiçosos, nos inúteis instantes de solidez embaixo dos pés. Cash voltou-se para me olhar e então eu compreendi que estávamos perdidos. Mas eu não vi justificativa para a corda até que o tronco apareceu. Emergiu da água e parou um instante, firme como Cristo por cima dessa desolação encrespada e selvagem.
Saia e deixe que a corrente o leve até a curva do rio”, disse Cash. “Você conseguirá facilmente.”
Não”, eu disse, “prefiro me molhar dessa maneira.”
O tronco aparece de súbito entre duas ondas, como se houvesse subido bruscamente do fundo do rio. De sua ponta pende uma comprida borda de espuma semelhante à barba de um velho ou de um bode. Quando Cash me fala, sei que ele esteve observando os detalhes, esse tempo todo, e observando Jewel três metros à nossa frente.
Solte a corda”, ele diz. Com a outra mão aperta as duas voltas da corda embaixo do banco.
Continue, Jewel”, ele diz. “Veja se nos leva à frente do tronco.”
Jewel grita com o cavalo; mais uma vez parece suspender o cavalo entre os joelhos. Está quase a atingir o vau, e o cavalo sentiu alguma coisa, pois acomete, brilhando de umidade, meio fora da água, avançando numa sucessão de saltos. Move-se com incrível rapidez; por isso, Jewel percebe, afinal, que a corda está livre, pois eu o vejo, com a cabeça virada, puxar as rédeas do cavalo, enquanto o tronco recua, entre nós, com um grande salto surdo, batendo contra a parelha. As mulas também o viram; por um momento elas também brilham, negras, fora da água. Então, a que está mais embaixo na corrente desaparece, arrastando a outra; a carroça fica enviesada, no alto do vau, enquanto o tronco, arremetendo contra ela, a faz estremecer e avançar. Cash está meio virado para trás, as rédeas escapando-lhe da mãe e desaparecendo na água, e a outra mão apertando Addie, segurando-a contra o lado mais alto da carroça.
Salte”, diz calmamente. “Separe-se da parelha e não procure lutar. A corrente conduzirá você ao cotovelo do rio.”
Venha você também”, digo.
Vernon e Vardaman correm pela margem, Pai e Dewey Dell nos observam, Dewey Dell com o cesto e o embrulho nos braços. Jewel empenha-se em fazer o cavalo recuar. A cabeça de uma das mulas aparece, de olhos escancarados; olha para trás, para nós, por um instante, e emite um som quase humano. A cabeça desaparece outra vez.
Atrás, Jewel”, grita Cash. “Atrás, Jewel.”
Por outro breve instante eu o vejo dobrado contra a carroça oscilante, o braço envolvendo Addie e suas ferramentas; vejo a cabeça espumejante do tronco saltador surgir novamente e, mais além, Jewel e o cavalo assustado, que torce a cabeça, onde cai, como marteladas, o punho de Jewel. Salto da carroça na corrente que passa. Entre duas ondas, vejo as mulas uma vez mais. Rolam para fora da água, uma atrás da outra, girando sobre si mesmas, de pernas entesadas, como se tivessem perdido todo o contato com a terra.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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