Anjos invisíveis: Eis-nos
quase aqui, vindos pelo longo caminho que existe antes de vós. Mas
não estamos cansados, tal estrada não exige força e, se vigor
reclamasse, nem o de vossa prece nos ergueria. Só uma vertigem é o
que faz rodopiar aos gritos com as folhas até a abertura de um
nascimento. Basta uma vertigem, que sabemos? Se homens hesitam sobre
homens, anjos ignoram sobre anjos, o mundo é grande e abençoado
seja o que é. Não estamos cansados, nossos pés jamais foram
lavados. Grasnando a esta próxima diversão, viemos sofrer o que tem
que ser sofrido, nós que ainda não fomos tocados, nós que ainda
não somos menino e menina. Eis-nos nas malhas da tragédia
verdadeira, da qual extrairemos a nossa forma primeira. Quando
abrirmos os olhos para sermos os nascidos, de nada nos lembraremos:
crianças balbuciantes seremos e vossas mesmas armas empunharemos.
Cegos no caminho que antecede passos, cegos prosseguiremos quando de
olhos já vendo nascermos. Também ignoramos a que viemos. Basta-nos
a convicção de que aquilo a ser feito será feito: queda de anjo é
direção. Nosso verdadeiro começo é anterior ao visível começo,
e nosso verdadeiro fim será posterior ao fim visível. A harmonia, a
terrível harmonia, é o nosso único destino prévio.
Sacerdote: No amor pelo Senhor
não me perdi, sempre seguro no Teu dia como na Tua noite. E esta
simples mulher por tão pouco se perdeu, e perdeu a sua natureza, e
ei-la a nada mais possuir e, agora pura, o que lhe resta ainda
queimarão. Os estranhos caminhos. Ela consumiu sua fatalidade num só
pecado em que se deu toda, e ei-la no limiar de ser salva. Cada
humilde via é via: o pecado grosseiro é via, a ignorância dos
mandamentos é via, a concupiscência é via. Só não era via a
minha prematura alegria de percorrer como guia e tão facilmente a
sacra via. Só não era via a minha presunção de ser salvo a meio
do caminho. Senhor, dai-me a graça de pecar. É pesada a falta de
tentação em que me deixaste. Onde estão a água e o fogo pelos
quais nunca passei? Senhor, dai-me a graça de pecar. Esta vela que
fui, acesa em Teu nome, esteve sempre acesa na luz e nada vi. Mas, ah
esperança que me abrirá as portas de Teu violento céu: agora
percebo que, se de mim não fizeste o facho que arderá, pelo menos
fizeste aquele que ateia o fogo. Ah esperança, na qual ainda vejo
meu orgulho de ser eleito: em culpa bato no peito, e com alegria que
eu desejaria mortificada digo: o Senhor apontou-me para pecar mais
que aquela que pecou, e afinal consumirei minha tragédia. Pois foi
de minha palavra irada que Te serviste para que eu cumprisse, mais do
que o pecado, o pecado de castigar o pecado. Para que tão baixo eu
desça de minha perigosa paz que a escuridão total – onde não
existem candelabros nem púrpura papal e nem mesmo o símbolo da Cruz
–, a escuridão total sejas Tu. “As trevas não te cegarão”,
foi dito nos Salmos.
Povo: Há dias temos fome e
aqui estamos a buscar alimento.
Entram pecadora e dois guardas.
Sacerdote: “Ela fez suas
delícias da escravidão dos sentidos”, pelo sinal da Santa Cruz.
Povo: Ei-la, ei-la e ei-la.
Criança com sono: Ei-la.
Mulher do povo: Ei-la, a que
errou, a que para pecar de dois homens e de um sacerdote e de um povo
precisou.
1º guarda: Somos os guardas de
nossa pátria. Sufocamos em abafada paz, e da última guerra já
esquecemos até os clarins. Nosso amado rei nos espalha em postos de
extrema confiança, mas na vigília inútil de nossa virilidade quase
adormecemos. Feitos para gloriosamente morrer, eis que
envergonhadamente vivemos.
2º guarda: Somos um guarda de
um Senhor, cujo domínio nos parece bem confuso: ora se estende até
onde vão as fronteiras marcadas por costume e uso, e nossas lanças
então se erguem ao grito da fanfarra. Ora tal domínio penetra em
terras onde existe lei bem anterior. Pois eis-nos desta vez a guardar
o que por si mesmo será sempre guardado, pelo povo e pelo fado. Sob
este céu de asfixiada tranquilidade, pode faltar o pão, mas nunca
faltará o mistério da realização. Pois que estamos nós
fantasticamente a velar? Senão o destino de um coração.
1º guarda: Como vossas últimas
palavras lembram o saudoso reboar de um canhão. Que desejo de enfim
vigiar um mundo menor, onde seja nossa lança a ferir de morte o que
vai morrer. Mas cá estamos a guardar uma mulher que a bem dizer por
si mesma já foi incendiada.
Anjos invisíveis: Incendiada
pela harmonia, a sangrenta suave harmonia, que é o nosso destino
prévio.
Entra o esposo.
Povo: Eis o marido, aquele que
foi traído.
Esposo: Ei-la, a que será
queimada pela minha cólera. Quem falou através de mim que me deu
tal fatal poder? Fui eu aquele que incitou a palavra do sacerdote e
juntou a tropa deste povo e despertou a lança dos guardas, e deu a
este pátio tal ar de glória que abate os seus muros. Ah, esposa
ainda amada, desta invasão eu queria estar livre. Sonhava estar só
contigo e recordar-te nossa alegria passada. Deixai-a só comigo,
pois desde ontem vivo e não vivo, deixai-a só comigo. Diante de vós
– estrangeiros à minha felicidade anterior e à minha desdita de
agora – não consigo mais ver nesta mulher aquela que foi e não
foi minha, nem na nossa festa passada aquela que era e não era
nossa, nem consigo sentir a amargura que esta é minha e só minha.
Que sucede a este meu coração que não reconhece mais o filho de
sua Vingança? Ah, remorso: eu deveria ter vibrado o punhal com minha
própria mão, e saberia então que, se fora eu o traído era eu
mesmo o vingado. Mas esta cena não é mais de meu mundo, e esta
mulher, que recebi na modéstia, eu perco ao som de trombetas.
Deixai-me só com a pecadora. Quero recuperar meu antigo amor, e
depois encher-me de ódio, e depois eu mesmo assassiná-la, e depois
adorá-la de novo, e depois jamais esquecê-la, deixai-me só com a
pecadora. Quero possuir a minha desgraça e a minha vingança e a
minha perda, e vós todos impedis que seja eu o senhor deste
incêndio, deixai-me só com a pecadora.
Sacerdote: Há quantos anos não
nascia um santo. Há quantos anos uma criança não profetizava no
berço. Há quantos anos o cego não via, o leproso não se curava,
ah, que árido tempo. Estamos sob o peso de tal mistério a se
revelar que no primeiro a quem se apontar, num raio, Teu esperado
milagre há de se consumar.
1º guarda: Cada um diz e
ninguém ouve.
2º guarda: Cada um está só
com a culpada.
Entra o amante.
1º guarda: A comédia está
completa: eis o amante, estou radiante.
Povo: Eis o amante, eis o
amante e eis o amante.
Criança com sono: Eis o
amante.
Amante: Ironia que não me faz
rir: chamar de amante aquele que de amor ardeu, chamar de amante
aquele que o perdeu. Não o amante, mas o amante traído.
Povo: Não compreendemos, não
compreendemos e não compreendemos.
Amante: Pois esta mulher que
nos meus braços a seu esposo enganava, nos braços do esposo
enganava aquele que o enganava.
Povo: Pois então escondia do
esposo o seu amante, e do amante escondia o esposo? Eis o pecado do
pecado.
Amante: Mas eu não rio e por
um momento não sofro. Abro os olhos até agora fechados pela
jactância, e vos pergunto: quem? Quem é esta estrangeira, quem é
esta solitária a quem não bastou um coração.
Esposo: É aquela para quem das
viagens eu trazia brocado e preciosa pedraria, e por quem todo o meu
comércio de valor se tornara um comércio de amor.
Amante: Pois na sua límpida
alegria ela me vinha tão singular que jamais eu a suporia vinda de
um lar.
Esposo: Não houve joia que ela
não cobiçasse, e com ela a nudez do colo não abafasse. Nada
existiu que eu não lhe desse, pois para um viajante humilde e
fatigado a paz está na sua mulher.
Sacerdote: “Os inimigos do
homem estão na sua própria casa.”
Esposo: Mas na transparência
de um brilhante ela já perscrutava a vinda de um amante. Quem vos
diz é quem experimentou a peçonha: acautelai-vos de uma mulher que
sonha.
Amante: Ah, desdita, pois se
também junto a mim ela sonhava. O que então mais desejava? Quem é
esta estrangeira?
Sacerdote: É aquela a quem nos
dias santos dei inutilmente palavras de Virtude que poderiam sua
nudez cobrir com mil mantos.
Mulher do povo: Todas estas
palavras têm estranhos sentidos. Quem é esta que pecou e mais
parece receber louvor ao pecado?
Amante: É aquela irrevelada
que só a dor aos meus olhos revelou. Pela primeira vez, amo. Eu te
amo.
Esposo: É aquela a quem o
pecado tardiamente me anunciou. Pela primeira vez eu te amo, e não à
minha paz.
Povo: É aquela que na verdade
a ninguém se deu, e agora é toda nossa.
Anjos invisíveis: Pois é
terrível a harmonia.
Povo: Não compreendemos, não
compreendemos e etc.
Anjos invisíveis: Mesmo aquém
da orla do mundo nós mal entendemos, quanto mais vós, os famintos,
e vós, os saciados. Que vos baste a sentença geradora: o que tem de
ser feito será feito, este é o único princípio perfeito.
Povo: Não compreendemos, temos
fome e temos fome.
1º guarda: Esta gente
fatigante, se for chamada a festa ou enterro, é possível que
cante...
Povo: ... Temos fome.
2º guarda: Armam sempre a
mesma emboscada que consiste numa só entoada...
Povo: ... Temos fome.
Sacerdote: Não interrompais
com vossa fome, antes sossegai, pois vosso será o Reino dos Céus.
Povo: Onde comeremos, comeremos
e comeremos, e tão gordos ficaremos que pelo buraco de uma agulha
enfim e enfim não passaremos.
Sacerdote: Que veio fazer este
povo? E a que vieram o esposo, o amante, os guardas? Pois sozinha
comigo, e esta mulher seria incendiada.
Amante: Que veio fazer esta
gente? Sozinha comigo, ela amaria de novo, de novo pecaria,
arrepender-se-ia de novo – e assim num só instante o Amor de novo
se realizaria, aquele em que em si próprio traz o seu punhal e fim.
Eu te lembraria dos recados ao cair da noite... O cavalo impaciente
aguardava, a lanterna no pátio... E depois... Ah, terra, teus campos
ao amanhecer, certa janela que já começava no escuro a madrugar. E
o vinho que de alegria eu depois bebia, até com lágrimas de bêbado
me turvar. (Ah então é verdade que mesmo na felicidade eu já
procurava nas lágrimas o gosto prévio da desgraça experimentar.)
Anjos invisíveis: O gosto
prévio da terrível harmonia.
Criança com sono: Ela está
sorrindo.
Povo: Está sorrindo, está
sorrindo e está sorrindo.
Esposo: E seus olhos brilham
úmidos como numa glória...
Mulher do povo: Afinal que
sucede que esta mulher a ser queimada já se torna a sua própria
história?
Povo: A que sorri esta mulher?
Sacerdote: Talvez pense que,
sozinha, e já seria incendiada.
Povo: A que sorri esta mulher?
1º e 2º guardas: Ao pecado.
Anjos invisíveis: À harmonia,
harmonia, harmonia que não tarda.
Amante: Sorris inacessível, e
a primeira cólera me possui. Lembra-te que na alcova onde te conheci
era outro o teu sorriso, e o brilho de teus olhos, as tuas únicas
lágrimas. Por que estranha graça o pecado abjeto transfigurou-te
nesta mulher que sorri cheia de silêncio?
Esposo: Ira impotente: ei-la
sorrindo, de mim ainda mais ausente do que quando era de um outro.
Por que ouviu-me este povo tão mais do que minhas palavras queriam
ser ouvidas? Ah, mecanismo cruel que desencadeei com meus lamentos de
ferido. Pois eis que a tornei inatingível mesmo antes dela morrer. O
incitamento ao incêndio foi meu, mas não será minha vitória: esta
pertence agora ao povo, ao sacerdote, aos guardas. Pois vós,
infelizes, esconder não podeis que é de meu infortúnio que enfim
vivereis.
Amante: Sorris porque me usaste
para ainda viva seres pelo fogo ardida.
Esposo: Ouve-me ainda uma vez,
mulher... (Como é estranho, talvez ela ouvisse, mas sou eu que não
encontro mais as antigas palavras. Dúvida que já não tem
fronteiras: quando é que fui eu e quando é que não o fui? Era eu
quem a amava, mas quem é este a ser vingado? Aquele que em mim até
agora falava, calou-se logo que atingiu os seus desígnios. Que
sucede que não reconheço a antiga face de meu amor? Talvez ela me
ouvisse, mas falar para mim terminou.)
Anjos invisíveis: Retira as
mãos do rosto, esposo. Aquele que foste já cessou, o abrir-se da
cortina revelou: que és a ínfima, ínfima, ínfima roda da
terrível, terrível harmonia.
Amante: Pensei que vivera, mas
era ela quem me vivia. Fui vivido.
Esposo: Como te reconhecer, se
sorris toda santificada? Estes braços castos não são os braços
que enganosos me abraçavam. E estes cabelos serão os mesmos que eu
desatava? Interrompei-vos, quem vos diz é o mesmo que vos incitou.
Pois vejo um erro e vejo um crime, uma confusão monstruosa: ei-la
que pecou com um corpo, e incendeiam outro.
Sacerdote: Mas “Senhor, sois
sempre o mesmo”.
1º guarda: Todos lamentam o
que já é tarde para lamentar, e discordam por discordar, quando bem
sabem que aqui vieram para matar.
2º guarda: Eis enfim chegado o
momento que nos dará o sabor da guerra.
Sacerdote: Eis chegado o
momento em que, pela graça do Senhor, pecarei com a pecadora,
arderei com a pecadora, e nos infernos onde com ela descerei, pelo
Teu nome me salvarei.
Anjos invisíveis: Eis chegado
o momento. Já sentimos uma dificuldade de aurora. Estamos no limiar
de nossa primeira forma. Deve ser bom nascer.
Povo: Que fale a que vai
morrer.
Sacerdote: Deixai-a. Temo dessa
mulher que é nossa uma palavra que seja dela.
Povo: Que fale a que vai
morrer.
Amante: Deixai-a. Não vedes
que está tão sozinha.
Povo: Que fale, que fale e que
fale.
Anjos invisíveis: Que não
fale... Que não fale... Já mal precisamos dela.
Povo: Que fale, que fale e que
etc.
Sacerdote: Tomai-lhe a morte
como palavra.
Povo: Não compreendemos, não
compreendemos e não compreendemos.
1º e 2º guardas: Afastai-vos,
pois o fogo pode se alastrar e através de vossas vestes toda a
cidade incendiar.
Povo: Este fogo já era nosso,
e a cidade inteira queima.
1º e 2º guardas: Eis o
primeiro clarão. Viva o nosso Rei.
Povo: Marcada pela Salamandra.
1º e 2º guardas: Marcada pela
Salamandra...
Anjos invisíveis: Marcada pela
Salamandra...
1º e 2º guardas: Vede a
grande luz. Viva o nosso Rei.
Povo: Pois então hurra, hurra
e hurra.
Anjos invisíveis: Ah...
Sacerdote: Ave-maria, até onde
descerei?, “se bem que nada tenha a me censurar, isto não basta
para me justificar”, “Senhor liberai-me de minha necessidade”,
orai, orai...
Anjos invisíveis: ...
Estremecei, estremecei, uma praga de anjos já escurece o
horizonte...
Amante: Ai de mim que não sou
queimado. Estou sob o signo do mesmo fado mas minha tragédia não
arderá jamais.
Anjos nascendo: Como é bom
nascer. Olha que doce terra, que suave e perfeita harmonia... Daquilo
que se cumpre nós nascemos. Nas esferas onde pousávamos era fácil
não viver e ser a sombra livre de uma criança. Mas nesta terra onde
há mar e espumas, e fogo e fumaça, existe uma lei que é antes da
lei e ainda antes da lei, e que dá forma à forma, à forma. Como
era fácil ser um anjo. Mas nesta noite de fogo que desejo furioso,
perturbado e vergonhoso de ser menino e menina.
Esposo: Ela pecou com um corpo
e incendeiam outro. Fui ferido numa alma, e eis-me vingado noutra.
Povo: Que bela cor de trigo tem
a carne queimada.
Sacerdote: Mas nem a cor é
mais dela. É a de Chama. Ah como arde a purificação. Enfim sofro.
Povo: Não compreendemos, não
compreendemos e temos fome de carne assada.
Esposo: Com meu manto eu ainda
poderia abafar o fogo de tuas vestes!
Amante: Nem a sua morte ele
compreende, aquele que partilhou comigo aquela que não foi de
ninguém.
Sacerdote: Como sofro. Mas
“ainda não resiste até o sangue”.
Esposo: Se com o meu manto eu
apagasse as tuas vestes...
Amante: Poderias, sim. Mas
compreende: teria ele a força de espalhar em longa vida o puro fogo
de um instante?
Sacerdote: Ei-la, a que se
tornará cinza e pó. Ah, “sois verdadeiramente um Deus oculto”.
1º guarda: Eu vos digo, arde
mais depressa que um pagão.
Sacerdote: “O mundo passa e
sua concupiscência com ele.”
2º guarda: Eu vos digo, é
tanta a fumaça que mal vejo o corpo.
Esposo: Mal vejo o corpo do que
fui.
Sacerdote: Louvado o Nome do
Senhor, “Vossa graça me basta”, “aconselho-te para te
enriqueceres comprar de mim ouro experimentado pelo fogo”, foi dito
no Apocalipse, louvado seja o nome do Senhor.
Povo: Pois amém, amém, e
amém.
Sacerdote: “Ela fez suas
delícias da escravidão dos sentidos.”
Esposo: Não passava de uma
mulher vulgar, vulgar, vulgar.
Amante: Ah ela era tão doce e
vulgar. Eras tão minha e vulgar.
Sacerdote: Eu sofro.
Amante: Para mim e para ela
começou o que há de ser para sempre.
Os anjos nascidos: Bom-dia!
Sacerdote: “Esperando que o
dia da eterna claridade se erga e que as sombras dos símbolos se
dissipem.”
1º e 2º guardas: Todos falam
e ninguém ouve.
Sacerdote: É uma confusão
melodiosa: já ouço os anjos dos que morrem.
Os anjos nascidos: Bom-dia,
bom-dia e bom-dia. E já não compreendemos, não compreendemos e não
compreendemos.
Esposo: Maldita sejas, se
pensas que de mim te livraste e que de ti eu me livrei. Sob o peso de
atração brutal, não sairás de minha órbita e eu não sairei da
tua, e com náusea giraremos, até que ultrapassarás a minha órbita
e eu ultrapassarei a tua, e num ódio sobre-humano seremos um só.
Sacerdote: A beleza de uma
noite sem paixão. Que abundância, que consolação. “Ele fez
grandes e incompreensíveis obras.”
1º e 2º guardas: Exatamente
como na guerra, queimando o mal, não é o bem que fica...
Os anjos nascidos: ... nós
nascemos.
Povo: Não compreendemos e não
compreendemos.
Esposo: Regressarei agora à
casa da morta. Pois lá está minha antiga esposa a esperar-me nos
seus colares vazios.
Sacerdote: O silêncio de uma
noite sem pecado... Que claridade, que harmonia.
Criança com sono: Mãe, que
foi que aconteceu?
Os anjos nascidos: Mamãe, que
foi que aconteceu?
Mulheres do povo: Meus filhos,
foi assim: etc. etc. e etc.
Personagem do povo: Perdoai-os,
eles acreditam na fatalidade e por isso são fatais.
Clarice Lispector, em Todos os contos
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