domingo, 24 de agosto de 2025

O Apanhador no Campo de Centeio


17

Cheguei lá cedo demais e, por isso, me sentei num daqueles sofás de couro, bem pertinho do relógio do saguão, e fiquei olhando as garotas. Muita gente já tinha chegado de férias e acho que havia mais ou menos um milhão de pequenas por ali, sentadas ou em pé esperando os namorados. Garotas de pernas cruzadas, garotas de pernas descruzadas, garotas com pernas fabulosas, garotas com pernas pavorosas, garotas que pareciam boazinhas, garotas que, se a gente fosse conhecer, ia ver que eram umas safadas. Era realmente uma paisagem interessante. De certo modo, também era meio deprimente, porque a gente ficava pensando no que ia acontecer com todas elas. Quer dizer, depois que terminassem o ginásio e a faculdade. A maioria ia provavelmente casar com uns bobalhões. Esses sujeitos que vivem dizendo quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina. Sujeitos que ficam doentes de raiva, igualzinho umas crianças, se perdem no golfe ou até mesmo num jogo besta como pingue-pongue. Sujeitos que são um bocado perversos. Sujeitos que nunca na vida abriram um livro. Sujeitos chatos pra burro. Mas é preciso ter cuidado com isso, com essa mania de chamar certos caras de chatos. Não entendo bem os chatos. Juro que não. No Elkton Hills, durante uns dois meses fui companheiro de quarto dum garoto, o Harris Macklin. Ele era muito inteligente e tudo, mas era um dos maiores chatos que já encontrei na minha vida. Tinha uma dessas vozes de taquara rachada e praticamente não parava nunca de falar. Não havia jeito de se calar, e o pior de tudo é que, em primeiro lugar, nunca dizia uma única coisa que a gente tivesse interesse em ouvir. Mas tinha uma coisa que ele fazia como ninguém: o filho da puta assoviava como gente grande. Ele ficava fazendo a cama ou pendurando seus trecos no armário – vivia pendurando alguma coisa no armário, me deixava maluco – e, quando não estava tagarelando com aquela voz de taquara rachada, ficava assoviando o tempo todo. Ele era capaz de assoviar até troços clássicos, mas quase sempre assoviava músicas de jazz. Era capaz de pegar um negócio em como, por exemplo, “Tin Roof Blues”, e assoviar tão fácil e bonito – sem parar de pendurar os trecos no armário – que deixava a gente doido. Claro que eu nunca disse a ele que o achava um assoviador fabuloso. Ninguém vai chegar junto de um cara e dizer: “Você é um assoviador fabuloso”. Mas morei com ele uns dois meses, apesar de toda a chatura, só porque ele assoviava bem pra burro. Por isso, tenho minhas dúvidas quanto aos chatos. Talvez a gente não deva sentir tanta pena de ver uma garota legal se casar com um deles. A maioria não faz mal a ninguém e talvez, sem que a gente saiba, sejam todos uns assoviadores fabulosos ou coisa parecida. Nunca se sabe...
Afinal, avistei a Sally subindo a escada e comecei a descer para encontrá-la. Ela estava um estouro. No duro, mesmo. Estava com um casaco preto e uma espécie de boina preta. Ela quase nunca usava chapéu, mas aquela boina ficava cem por cento. O mais engraçado é que, na hora que a vi, me deu uma bruta vontade de casar com ela. Sou biruta. Nem ao menos gostava muito dela e, apesar disso, de repente, me senti como se estivesse apaixonado e quisesse casar com ela. Juro por Deus que sou biruta. Reconheço.
Holden! – ela gritou. – Que bom te encontrar! Faz séculos que não nos vemos!
Ela tinha uma dessas vozes altas pra chuchu, que encabulam a gente. Podia dar-se ao luxo de fazer aquele escândalo porque era mesmo bonita pra cachorro, mas aquela maneira de falar sempre me aporrinhava.
Que bom encontrar com você – falei. Era verdade mesmo. – Como vai você?
Maravilhosamente bem. Estou atrasada?
Disse que não, mas, para falar a verdade, ela estava atrasada uns dez minutos. Mas eu estava pouco ligando para isso. Toda aquela besteira que vem nas piadas do “Saturday Evening Post” e tudo, mostrando uns caras esperando pela namorada na esquina, furiosos porque ela está atrasada – isso é tudo conversa fiada. Se uma garota está bonita quando chega, qual é o sujeito que vai se importar por causa do atraso? Ninguém se importa.
É melhor a gente andar depressa – falei. – A peça começa às duas e quarenta.
Começamos a descer as escadas em direção ao ponto de táxis.
O que é que nós vamos ver? – ela perguntou.
Sei lá. Os Lunts. Só consegui arranjar entrada para eles.
Os Lunts! Oh, que maravilhoso!
Tinha certeza que ela ia ficar maluca quando soubesse que ia ver os Lunts.
Ficamos nos esfregando um pouco no táxi, a caminho do teatro. No começo ela não queria, por causa do baton e tudo, mas eu estava sedutor pra diabo e ela não teve outra alternativa. Duas vezes, quando a porcaria do táxi teve que frear de repente, por causa do tráfego, por pouco não caí do assento. Essas drogas desses motoristas nunca olham por onde vão, palavra de honra. Aí, só mesmo de doido que eu sou, quando estávamos saindo dum apertão daqueles, eu disse a ela que estava apaixonado e tudo. Claro que era mentira, mas o caso é que eu estava sendo sincero na hora que falei. Sou louco mesmo. Juro que sou.
Meu querido, também gosto muito de você – ela disse. E aí engrenou uma segunda: – Me promete que vai deixar teu cabelo crescer. Esse cabelo à escovinha está ficando fora de moda. E teu cabelo é tão bonito…
Bonito uma ova.
A peça não era tão ruim. Eu já tinha visto piores. Mas era meio morrinha. Era a estória de uns quinhentos mil anos na vida de um casal velho. Começa quando os dois são jovens e os pais da moça são contra o casamento, mas ela acaba mesmo casando com o cara. E aí eles vão envelhecendo. O marido vai para a guerra e a mulher tem um irmão que é porrista. Não consegui me interessar muito. Quer dizer, não dei muita bola quando morria alguém na família ou coisa que o valha. Eles eram apenas um bando de atores. O marido e a mulher até que formavam um casal simpático os dois eram muito espirituosos e tudo – mas não consegui me interessar muito por eles. Em parte porque ficaram a peça inteirinha tomando chá ou coisa parecida. Toda vez que apareciam, lá vinha um mordomo empurrando um carrinho de chá para eles, ou então a mulher estava servindo chá a alguém. E todo o mundo estava sempre entrando ou saindo o tempo todo. A gente ficava tonto só de ver o pessoal se sentar e se levantar. O Alfred Lunt e a Lynn Fontanne faziam o papel do casal velho e trabalhavam muito bem, mas não gostei muito deles. Que eles eram diferentes, isso eram. Não agiam feito gente, mas não representavam como atores. É difícil de explicar. Agiam assim como se soubessem que eram famosos e tudo. Quer dizer, eram bons, mas eram bons demais. Quando um deles acabava de dizer sua parte, imediatamente o outro tratava de falar alguma coisa bem depressa. Queriam parecer gente de verdade, conversando e se interrompendo e tudo. Mas o problema é que pareciam demais com gente conversando e se interrompendo. Era um pouco como o Ernie tocando lá no Village. Se a gente faz uma coisa bem demais, aí, depois de algum tempo, se não tiver muito cuidado, começa a se exibir. E aí a gente deixa de ser bom de verdade. De qualquer modo, eles eram as únicas pessoas na peça – os Lunts, é claro – que pareciam ter algum miolo. Isso eu tenho que admitir.
No fim do primeiro ato, saímos com todos os outros trouxas para fumar um cigarro. Uma palhaçada completa. Nunca vi tanto cretino junto de uma vez só, todos fumando como umas chaminés e falando alto sobre a peça para que os outros vissem como eles eram inteligentes. O bestalhão de um artista de cinema estava fumando perto de nós. Não sei o nome dele, mas é o tal que faz sempre o papel dum cara que, na guerra, se borra todo de medo na hora de enfrentar o fogo. Estava com uma loura do barulho, e os dois estavam tentando bancar o blasé e tudo, como se não soubessem que todo mundo estava olhando para ele. Modesto pra burro. Me diverti um bocado com a estória. A Sally não falou muito, a não ser para se babar com os Lunts, porque estava ocupada em achar tudo bacana e em ser simpática. Aí, de repente, descobriu do outro lado do saguão um imbecil qualquer que ela conhecia. O cara estava de terno de flanela cinza-escuro e um desses coletes de xadrez. Completamente metido a besta. Crente que estava abafando. Ele estava encostado na parede, fumando pra chuchu, dando a impressão de que estava mortalmente aporrinhado. A Sally ficou repetindo: “Conheço aquele rapaz de algum lugar”. Ela sempre conhecia alguém, em qualquer lugar que estivesse, ou pelo menos pensava que conhecia. Ficou repetindo tanto, que me enchi e disse:
Se conhece, porque não vai até lá e dá um beijinho nele? Aposto que ele vai gostar.
Ela ficou furiosa comigo. Finalmente, o bobalhão nos viu e veio cumprimentá-la. Valia a pena ver os dois se cumprimentando. Parecia até que não se viam há uns vinte anos. Parecia até que os dois tomavam banho juntos, na mesma banheira, quando eram crianças. Velhos faixas. Era nojento. O mais engraçado é que eles, provavelmente, só se haviam encontrado uma única vez, em alguma festa cretina. Afinal, quando deram a baboseira por terminada, a Sally resolveu me apresentar. O nome do cara era George qualquer coisa – nem me lembro – e estudava no Andover. Grande coisa. Dava gosto ver a cara do sujeito quando a Sally pediu a opinião dele sobre a peça. Tratava-se de um desses cretinos que precisam de espaço quando começam a falar. Deu um passo para trás e pisou em cheio no pé de uma dona que estava bem ali. Acho que não sobrou um dedo inteiro no pé da infeliz. Disse que a peça em si não era nenhuma obra-prima, mas os Lunts, evidentemente, eram uns anjos. Anjos, pomba! Anjos. Era o fim. Aí, ele e a Sally começaram a falar de uma porção de gente que os dois conheciam. Era a conversa mais cretina do mundo. Ficavam pensando no nome dum lugar, o mais depressa que podiam, e então soltavam o nome de alguém que morava no tal lugar. Eu estava a ponto de vomitar quando chegou a hora de sentar outra vez. Estava mesmo. E então, quando acabou o segundo ato, os dois continuaram a tal conversa morrinha. Ficaram pensando em outros lugares e outros nomes de pessoas que moravam lá. Para piorar, o palhação tinha uma dessas vozes bem cretinas e pedantes, como se estivesse cansado pra burro. Parecia uma moça, com aquela voz de fresco. Mas o filho da mãe não teve o menor escrúpulo de se meter com minha pequena. Quando saímos do teatro pensei até que ele ia entrar conosco na droga do táxi, porque andou uns dois quarteirões com a gente, mas acabou dizendo que tinha de tomar uns drinques com uma turma de cretinos. Imaginei os caras sentados num bar, cada um metido numa droga dum colete xadrez, comentando peças, livros e mulheres com aquelas vozes cansadas e esnobes. Esses caras me enchem.
Quando tomamos o táxi, depois de ouvir aquele filho da mãe do Andover bem umas dez horas seguidas, eu já estava odiando a Sally. Estava decidido a levá-la para casa – estava mesmo – quando ela disse:
Tenho uma ideia maravilhosa!
Ela vivia tendo ideias maravilhosas.
Escuta. A que horas você precisa estar em casa para jantar? Você está com muita pressa? Tem hora certa para chegar em casa? – ela continuou.
Eu? Não. Não tenho hora certa – respondi. Puxa, nunca falei uma coisa mais verdadeira na minha vida. – Por quê?
Vamos patinar no gelo na Radio City?
Esse era o tipo de ideia maravilhosa que ela vivia tendo.
Patinar na Radio City? Agora? Agorinha mesmo?
Só uma hora, mais ou menos. Você não quer? Se não quiser...
Não disse que não queria. Claro. Se você quer...
Verdade? Não precisa dizer sim só para me agradar. Francamente, ir ou não ir é a mesmíssima coisa para mim.
A mesmíssima coisa uma ova.
A gente pode alugar aqueles amores de saiotes de patinar – ela disse. – A Jeannette Cultz alugou um, na semana passada.
Era por isso que ela estava tão seca para ir. Estava louca para se ver num daqueles saiotinhos que mal dão para cobrir a bundinha e tudo.
E lá fomos nós. Depois que nos deram os patins, entregaram à Sally um saiotinho azul justíssimo. Para falar a verdade, ela ficou ótima com aquilo. E o pior é que ela sabia. Ficou o tempo todo andando na minha frente, para que eu visse como a bundinha dela era bonitinha. E era bonitinha mesmo. Confesso que era.
[…]

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

Nenhum comentário:

Postar um comentário