[...]
A guerra tem destas coisas, contar é
que não é plausível. Mas, mente pouco, quem a verdade toda diz.
Trás isso, o Rodrigues Peludo esbarrou, o instante, mas endurecendo
a cabeça, para não se virar para espiar para o Lacrau. Em tanto que
o Lacrau, meio mostrando o rifle, pronunciou! ― Estou na regra, tio
mano, que na regra estou, como senhor de minhas ações, contra quem
eu seja. E a carabina ― porque sempre foi minha de posse, arma que
de patrão não ganhei. Estou inteiro... Ninguém respondeu palavra.
Sendo que o Rodrigues Peludo deixou de contravir, e, puxando pelo
sair assim, escorregou adiante o corpo, se foi.
Numa roda-morta, se esperou, té que
de lá, da dobrada duma ladeirinha, os três tiros eles deram,
somando o aprovado. A tanto, trêsmente, também se respondeu
desfechando. Aí, para a gente Zé Bebelo disse: ― Sou lá o
maluco? Aqueles outros não têm a constância de observar, não
merecem a palavra dada. O que fiz, foi encaminhar o que vamos pór em
obra. E aceitei nossa vitória!
Seja ou não se aquele negócio
entendessem, os companheiros aprovavam. Até Diadorim. Seja Zé
Bebelo levantava a ideia maior, os prezados ditos, uma ideia tão
comprida. O teatral do mundo: um de estadela, os outros ensinados
calados. Sempre sendo, em todo o caso, que Zé Bebelo me semi-olhava
espreitado avulso, sob receios e respeito. Só eu, afora ele, ali,
misturava as matérias. Só eu era que guardava minha exata
esperação, o que me engraçava. O que era que Zé Bebelo ia
proceder, nas horas vespertinas, no posto-que? Do que ele tinha
pensado e principiado ― as tramóias de trair ― ia poder largar,
e achar feição para outro salvamento, agora, nessa conjunção?
Mas, porém, não nego que eu, mesmo por estima, queria que ele bem
acertasse na tarefa de meter seu siso, de remerecer. O raciocínio,
que dele eu gostava, constante de admiração; e pela necessidade.
Medonho e esquisito achei, que fosse para ter de matar completo Zé
Bebelo. Como é que? Mas ele abria lugar demais, o perto demais,
sobre papel que não era o pra ele, a meu parecer. Pelo que eu tinha
precisão de me livrar, daquele movimento sem termo nem nenhumas
outras ociosidades. O senhor me organiza? Saiba: essas coisas, eu
pouco pensei, no lazer de um momento.
― Amigos, agora eu louvo e a todos
gabo, cada um qual melhor. E então vamos voltados: papocar fogo, pra
paga, até a noitinha se ilustrar! ― Zé Bebelo determinou, tão
versado. A este ponto, que, por se possuir basta munição, a gente
se prezasse de atirar, por sustos e estragos, primeiramente para o
aviável do matinho dos pastos e da baixada, e dos morrotes
cerradeiros, onde existiam uns valos. Com o que, no ablativo do
mandado, Marcelino Pampa ia retornar para as senzalas, o Freitas
Macho para a tulha, e para o engenho o Jõe Bexiguento, sobrenomeado
Alparcatas. Mas Zé Bebelo reservou que eu estivesse com ele e mais
Alaripe, por se pôr o Lacrau em conversa deposta.
Onde o que o Lacrau teve para relatar
era pouco, pouco. Deu razão das coisas perguntadas. Dizendo que o
inimigo se formava em tanto de uns cem, mas a quanta parte deles de
jagunços mal assentados, sem quilates; ainda aguardavam outra gente
por vir, de refrescos, que decerto em pronto não viessem, por
estorvo dos soldados. Nisso não sabia contar das pessoas nem dos
maiores motivos do Hermógenes e do Ricardão, nem acerca da morte de
Joca Ramiro aumentava passagens mais do que as de todos já
entendidas. Daí, no que Zé Bebelo e Alaripe se afastaram no
corredor, ele Lacrau aliviado se gracejou de rosto, como falou! ― O
esmarte homem que é este chefe nosso Zebebéo! Outro não vi, para
espiritar na gente o pavor e a ação de acerto... As agudezas. A vez
da má verdade.
Fomos. Fui. Para o recanto duma
janela, nesse comenos. A pra efetuar fogo. A ordem não era-de?
Desígnios esses, de Zé Bebelo. Sucinto em cada puxada de gatilho,
relembrei o dito do Lacrau! que Zé Bebelo o que era. Sendo que uma
criatura, só a presença, tira o leite do medo de outra. Aí,
Diadorim mesmo, que era o mais corajoso, sabia tanto? O que o medo é!
um produzido dentro da gente, um depositado; e que às horas se mexe,
sacoleja, a gente pensa que é por causas! por isto ou por aquilo,
coisas que só estão é fornecendo espelho. A vida é para esse
sarro de medo se destruir; jagunço sabe. Outros contam de outra
maneira.
A ordem de se jantar, o Jacaré veio
avisando. Comi a pura farinha. Tomei mais. ― Os soldados? ― era o
que mais se perguntava. Tinham esbarrado tiroteio, a gente não
escutava o costurar. Medido nas suas partes, o dia estava gastado;
beirava o prazo da decisão. Escogitei. ― Diadorim, esta noite, no
começo da hora, você vem para perto, me assiste, comigo. Mas
Diadorim contradisse de querer saber que modos meus que eram, as
tantas espécies. Ainda pensei no Alaripe. A ele me fiz. ― A de
paga, amigo. Ora veja... ― o Alaripe divertido me achou. De qual
deles, agora, eu ia cobrar e arrecadar? Acauã ou o Mão-de-Lixa, ou
Diodólfo? Todos seguiam caminho de seus costumes; no novo não
conseguiam de se nortear. Três tristes de mim! Ali eu era o indêz?
Noção eu nem acertava, de reger; eu não tinha o tato mestre, nem a
confiança dos outros, nem o cabedal de um poder ― os poderes
normais para mover nos homens a minha vontade. Mesmo meu braço do
ferimento, que já estava muito melhorado por si, aí tornou a doer,
no injusto, em tanto que isto se passava. Drede, no retorcer do
vento, apurei o ruto de nossos cavalos, os ossos de feder, só a
lástima. Será que eu tivesse por dever de peitar pessoas? Ah, nos
curtos momentos, eu não ia explicar a eles coisas tão divagadas, e
que podiam mesmo não vir a ter fundamento nenhum. Porque ― eu digo
ao senhor ― eu mesmo duvidava. Tivesse de vigiar no estreito Zé
Bebelo, atravessar o projeto dele se o caso fosse, que modo que eu ia
enfrentar um homem assim? Ah, o julgamento no Sempre-Verde tinha sido
relaxado em brando ― para valer preços. Zé Bebelo, sozinho por
si, sem outro sobrecalor de regimento, servisse para governar os
arrancos do sertão? Não me importo... Não me importo... ― eu
quis, com outras palavras tais. Ali eu não tinha risco. Ali alguém
ia me chamar de Senhor-meu-muito-rei? Ali nada eu não era, só a
quietação. Conto os extremos? Só esperei por Zé Bebelo! ― o que
ele ia achar de fazer, ufano de si, de suas proezas, malazarte.
Deu comigo. ― Riobaldo, Tatarana...
Anda que me encarava, os sagazes olhos piscados. Aquele, me entendia;
me temesse? ― Riobaldo, Tatarana, vem comigo, quero ver a opinião,
sem sinal nem prova... Ali me levou para uma janela da cozinha, de lá
a grande espaço se tinha vista para o morro, com seus matos. Zé
Bebelo pegou o caneco, que encheu no pote d água.Também bebi. Assim
escutei! ele falava comigo, com o efeito de uma amizade.
― Rapaz, você é um que aceita o
matar ou morrer, simples igualmente, eu sei, você é desabusado na
coragem melhor ― que é a da valentia produzida...
Só mostrei meus ombros; seja que eu
secundei.
― A tão bom! que é que eles agora
vão fazer, os da banda contrária? ― aí ele indagou de mim.
― Ora... O que não sei, e saber
quero, é ― a gente ―; o que é que a gente agora vai fazer? ―
perguntei para cima. Outro tal, repontei! ― Estou em claro. E estou
em dúvida. Todo tempo me gasta... ― isto assim dito.
Só que Zé Bebelo queria não ouvir,
a seu seguro!
― Te põe no lugar. Hem? O que eles
fazem é que, a estas horas, estão no desembargar, para aquele
morro, que é aonde soldados não apertam cerco. De lá toram por
esse sul abaixo, via torta; de madruga já por lá, no Buriti-Alegre,
que foram surgir, escrevo. Agora, hem, maximé? ― e os soldados?
Andam tomando contas daí, que são lugares rededores, salvante a
sapata do morro, e dela os pertos ― a cava ―, porque lá,
conforme a boa regra de razão, paravam com os tiros sobre si. Oh, se
sabe!
Noves e nada eu não dissesse.
― A bem. Ã e nós? ― Zé Bebelo
tornou a indagar.
A resposta não dei. Aquilo tudo eu
estava pondo de remissa.
― Ah, tempo de partida! A gente,
nós, vamos é rente por essa cava, Riobaldo, meu filho. Sem tardada
― porque daqui a pois sai é a lua, declaradamente...
Ao que, já se estava no ponto.
Anoitecido. A uma estrela se repicava, nos pretos altos, o que vi em
virtude. A estrelinha, lume, lume. Assim ― quem era que tinha
podido mais? Zé Bebelo, ou eu? Será, quem era que tinha vencido?
Quite com isso, no cumprir, entreguei
os destinos.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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