terça-feira, 22 de outubro de 2019

A força feia do sofrimento

Sei seja de se anuir que sempre haja vergonheira de jagunços, a sobre-corja? Deixa, que, daqui a uns meses, neste nosso Norte não se vai ver mais um qualquer chefe encomendar para as eleições as turmas de sacripantes, desentrando da justiça, só para tudo destruirem, do civilizado e legal! Assim dizendo, na verdade sentava o dizer, com ira razoável. A gente devia mesmo de reprovar os usos de bando em armas invadir cidades, arrasar o comércio, saquear promotor amontado à força numa má égua, de cara para trás, com lata amarrada na cauda, e ainda a cambada dando morras e aí soltando os foguetes! Até não arrombavam pipas de cachaça diante de igreja, ou isso de se expor padre sacerdote nú no olho da rua, e ofender as donzelas e as famílias, gozar senhoras casadas, por muitos homens, o marido obrigado a ver? Ao quando falava, com o fogo que puxava de si, Zé Bebelo tinha de se esbarrar, ia até na varanda ou na janela, a apitar o apito, ditar as boas ordens. Daí, mais renovado, voltava para perto de mim, repunha: ― Ah, cujo vou, siô Baldo, vou. Só eu que sou capaz de fazer e acontecer. Sendo porque fui eu só que nasci para tanto! Dizendo que, depois, estável que abolisse o jaguncismo, e deputado fosse, então reluzia perfeito o Norte, botando pontes, baseando fábricas, remediando a saúde de todos, preenchendo a pobreza, estreando mil escolas. Começava por aí, durava um tempo, crescendo voz na fraseação, o muito instruído no jornal. Ia me enjoando. Porque completava sempre a mesma coisa.
Mas, minha vida na fazenda, era ruim ou era boa? Se melhor era. Arre, eu estava feito um inhampas. Aí lordeei. Me acostumei com o fácil movimento, entrei de amizade com os capangas. Sempre chegavam pessoas de fora, que conversavam em sozinhos com Zé Bebelo, gente de cidade. De um, eu soube que era delegado, em missão. E ele me apresentava com a honra de: Professor Riobaldo, secretário sendo. Nas folgas vagas, eu ia com os companheiros, obra de légua dali, no Leva, aonde estavam arranchadas as mulheres, mais de cinquenta. Elas vinham vindo, tantas, que, quase todo dia, mais tinham de baratear. Não faltava esse bom divertir. Zé Bebelo aprovava! ― Onde é que já se viu homem valer, se não tem à mão estadas raparigas? Ondé? Mesmo cachaça ele fornecia, com regra. ― Melhor, se não eles por si providenceiam, dão logo em comida, armamento de primeira, monte de munição, roupas e calçados para os melhores. E o cobre para semanal de pagamento, pois nenhum daqueles homens estava ali por amor-de-deus, mas ajeitando seu meio de viver. Diziam que era dinheiro do cofre do Governo. Parecia.
A tal que, enfim, veio o dia de se sair, guerreiramente, por vales e montes, a gente toda. Oi, o alarido! Aos quantos gritos, um araral, revoo avante de pássaros ― o senhor mesmo nunca viu coisa assim, só em romance descrito. De glória e avio de própria soldadesca, e cavalos que davam até medo de não se achar pasto que chegasse, e o pessoal perto por uns mil. Acompanhado dos chefes-de-turma ― que ele dava patente de serem seus sotenentes e oficiais de seu terço ― Zé Bebelo, montado num formudo ruço-pombo e com um chapéu distintíssimo na cabeça, repassava daqui prali, eguando bem, vistoriava. Me chamou para junto, eu tinha de ter à mão um caderno grosso, para por ordem dele assentar nomes, números e diversos, amanuense. Com eles eu estava vindo, então, o senhor vê. Vinha, para conhecer esse destino-meu-deus. O que me animou foi ele predizer que, quando eu mais não quisesse, era só opor um aceno, e ele dava baixa e alta de me ir m embora.
Digo que fui, digo que gostei. A passeata forte, pronta comida, bons repousos, companheiragem. O teor da gente se distraía bem. Eu avistava as novas estradas, diversidade de terras. Se amanhecia num lugar, se ia à noite noutro, tudo o que podia ser ranço ou discórdia consigo restava para trás. Era o enfim. Era. ― Mais, mais, há-de dará é para diante, quando se formar combate! ― uns proseavam. Zé Bebelo querendo. Sabia o que queria, homem de muita raposice. Já no sair da Nhanva, tinha composto seu povo em avulsos ― cada grupo, cada rumo. Um pelo São Lamberto, da mão direita; outro pegou o Riacho da gente no Só-Aqui, indo o Ribeirão da Barra; outro tomou sempre à mão esquerda, encostando ombro no São Francisco; mas nós, que vínhamos mais Zé Bebelo mesmo em capitania, rompemos, no meio, seguindo o traço do Córrego Felicidade. Passamos perto de Vila Inconfidência, viemos acampar no arraial Pedra-Branca, beira do Água-Branca. E tudo correndo bem. Dum batalhão para outro, se expedia gente com ordens e recados. Arrastávamos uma rede grande, peixe grande por pegar. E foi. Eu não vi essa célebre batalha ― eu tinha ficado na Pedra-Branca. Não por medo, não. Mas Zé Bebelo me mandou: ― Tem paciência, você espera, para reunir os municipais do lugar e fazer discurso, logo que um estafeta vier relatar qual foi nossa primeira vitória…
Se deu, o que se disse. Só que, em vez de estafeta, a galope, veio Zé Bebelo mesmo. Eu tinha ficado com ruma de foguetes, para soltar, e foi festa. Zé Bebelo mandou dispor uma tábua por cima de um canto de cerca, conforme ele ali subiu e muito falou. Referiu. Para lá do Rio Pacú, no município de Brasília, tinham volteado um bando de jagunços ― o com o valentão Hermógenes à testa ― e derrotado total. Mais de dez mortos, mais de dez cabras agarrados presos; infelizmente só, foi que aquele Hermógenes conseguira de fugir. Mas não podia ir a longe! Ao que Zé Bebelo elogiou a lei, deu viva ao governo, para perto futuro prometeu muita coisa republicana. Depois, enxeriu que eu falasse discurso também. Tive de. ― Você deve de citar mais é em meu nome, o que por meu recato não versei. E falar muito nacional... ― se me se soprou. Cumpri. O que um homem assim devia de ser deputado ― eu disse, encalquei. Acabei, ele me abraçou. O povo eu acho que apreciava. Daí, quando se estava no depois do almoço, vieram cavaleiros nossos, tangendo o troço de presos. Senti pena daqueles pobres, cansados, azombados, quase todos sujos de sangues secos ― se via que não tinham esperança nenhuma decente. Iam outras cadeias, de certo, até para a da Capital. Zé Bebelo, olhando, me olhou, notou moleza. ― Tem dó não. São os danados de façanhosos... Ah, era. Disso eu sabia. Mas como ia não ter pena? O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

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