O
diabo está bêbado e reumático e tem milhões de anos de idade.
Sentado em cima de uma fogueira de cacos de vidro, envolvido em
chamas, jorra suor. Reza a missa com as costas apeadas no tronco
daquela figueira que, condenada por Cristo, não dá frutos.
“Que
se estiver caminhando, veja minha sombra. Que se estiver dormindo...”
Sacode a cabeça. Os cornos de trapo balançam sobre os olhos e um
fio de baba despenca, trêmulo, de seu lábio; ao redor, estão
pendurados os santos do céu e do inferno. A fumaça ondula entre
caveiras e amuletos e oferendas; os bodes bebem vinho negro, os galos
gritam, os sapos se incham de fumaça de charuto. “Eu te esconjuro
pelos nove meses que tua mãe te carregou no ventre, pela água que
te jogaram em cima e pelo sal que te deram para comer. Osso por osso
e músculo por músculo, veia por veia, nervo por nervo...”
O
diabo se levanta estalando e começa a caminhar encosta acima, pelos
arbustos. Um cetro de sete dentes de ferro serve de bastão: os sete
soldados, guardiões dos portões do inferno, o guiam no negror da
noite e lhe dão forças para manter rijos os músculos enquanto
dribla as pedras e a ramagem do morro. Anda torto, enrolando-se aos
tropeções com sua própria capa rubro-negra, chamuscada e rota, e a
cada passo uma dor aguda retorce seus rins.
Para
na metade do caminho. Junto à cascata, uma mulher, de pé, está
esperando. Ela carrega uma menina nos braços.
– Tem
muita febre?
– Não.
A
morte, sua longa língua:
– Está
indo. É dor demais para seu pouco tamanho.
“Galo
que canta, cão que late, passarinho que pia, gato que mia, criança
que chora, Satanás...”
O
diabo coça a orelha pontiaguda:
– Não.
Porque eu não quero.
Doze
rosas brancas. Um punhal virgem. Sete velas vermelhas, sete velas
negras. Uma toalha intacta. Um copo não tocado por nenhuma boca.
“A
estrela e a lua são duas irmãs
Cosme
e Damião”
Acendem
as velas. Lá embaixo, antes do mar, tremem, fracas, as luzes da
cidade. A madrugada começa a desenhar sua linha no horizonte.
–
Sonhei que ela morria.
– Quem
dorme com a boca para baixo não sonha.
– Um
cavalo apoiava as patas na minha barriga. E depois, com mãos de
mulher, me apertava a garganta. Percebi que, se eu dissesse o nome
dela, ela morria.
– Qual
é o nome?
– O
nome de minha mãe.
O
diabo coça a barbicha com a unha, longa, do polegar. O diabo não
tem cheiro de enxofre. Tem cheiro de cachaça.
–
Quantos anos tem?
– Anos,
não. Tem dias. – A avó vem buscá-la. É ela quem quer levar a
menina.
A
menina está estendida sobre o pano branco, rodeada de flores e
velas. O diabo se inclina, se ajoelha, e com a ponta da adaga desenha
dois talhos, em cruz, no meio da cabeça. Apoia sobre a ferida suas
gengivas sem dentes e bebe o sangue. A menina não tem força para se
queixar.
– Iara,
que será chamada por outro nome, não vai morrer. O dia que o mundo
acabar ela se salvará num carro de fogo. Os tempos mudam todos os
dias, mas, de agora em diante, ela é minha neta.
Despeja
as rosas nas águas da nascente do morro, para que levem as desgraças
e as atirem no mar.
–
Oxalá, Deus das Alturas, Criador do Céu,
do Inferno, do Mundo, dos filhos, da tristeza, me ajuda a criar esta
filha. Ela é tua filha e minha neta, e filha de minha tristeza, ai.
Depois
ergue o punho para as últimas estrelas do céu e, apontando para ela
com os sete dentes de ferro enferrujado, clama, a voz rouca:
– Na
hora em que te lembrares, Deus, que essa menina existe sobre a Terra,
ela sofrerá. Tua vingança, que os veados da igreja chamam de
mistério! Mas por feitiço ela não vai sofrer. Nem por mau-olhado.
Nem por inveja, nem por praga, nem por quebranto. Nem por maldição.
Cospe
no chão. E continua acusando as alturas e sacudindo o punho peludo,
enquanto a luz invade, lenta, o ar cinzento:
– Ah,
velho carrasco! Carniceiro!
Ela
entrará num jardim e deixará a criança na soleira de uma casa de
ricos. Depois continuará caminhando até a costa, até chegar na
praia do Diabo, que é pequena mas engoliu muita gente. E começará
a buscar, na areia ainda fria e úmida, o cordãozinho com aquele
talismã que a protegia das penúrias durante o dia, e dos pesadelos
durante a noite. E, se Iemanjá a chamar das lonjuras do mar, ela se
despirá e se deixará ir navegando como se seu corpo fosse uma vela
branca, atrás da voz da deusa.
Eduardo
Galeano, in Vagamundo
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