terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Cerimônia

O diabo está bêbado e reumático e tem milhões de anos de idade. Sentado em cima de uma fogueira de cacos de vidro, envolvido em chamas, jorra suor. Reza a missa com as costas apeadas no tronco daquela figueira que, condenada por Cristo, não dá frutos.
Que se estiver caminhando, veja minha sombra. Que se estiver dormindo...” Sacode a cabeça. Os cornos de trapo balançam sobre os olhos e um fio de baba despenca, trêmulo, de seu lábio; ao redor, estão pendurados os santos do céu e do inferno. A fumaça ondula entre caveiras e amuletos e oferendas; os bodes bebem vinho negro, os galos gritam, os sapos se incham de fumaça de charuto. “Eu te esconjuro pelos nove meses que tua mãe te carregou no ventre, pela água que te jogaram em cima e pelo sal que te deram para comer. Osso por osso e músculo por músculo, veia por veia, nervo por nervo...”
O diabo se levanta estalando e começa a caminhar encosta acima, pelos arbustos. Um cetro de sete dentes de ferro serve de bastão: os sete soldados, guardiões dos portões do inferno, o guiam no negror da noite e lhe dão forças para manter rijos os músculos enquanto dribla as pedras e a ramagem do morro. Anda torto, enrolando-se aos tropeções com sua própria capa rubro-negra, chamuscada e rota, e a cada passo uma dor aguda retorce seus rins.
Para na metade do caminho. Junto à cascata, uma mulher, de pé, está esperando. Ela carrega uma menina nos braços.
Tem muita febre?
Não.
A morte, sua longa língua:
Está indo. É dor demais para seu pouco tamanho.
Galo que canta, cão que late, passarinho que pia, gato que mia, criança que chora, Satanás...”
O diabo coça a orelha pontiaguda:
Não. Porque eu não quero.
Doze rosas brancas. Um punhal virgem. Sete velas vermelhas, sete velas negras. Uma toalha intacta. Um copo não tocado por nenhuma boca.
A estrela e a lua são duas irmãs
Cosme e Damião”
Acendem as velas. Lá embaixo, antes do mar, tremem, fracas, as luzes da cidade. A madrugada começa a desenhar sua linha no horizonte.
Sonhei que ela morria.
Quem dorme com a boca para baixo não sonha.
Um cavalo apoiava as patas na minha barriga. E depois, com mãos de mulher, me apertava a garganta. Percebi que, se eu dissesse o nome dela, ela morria.
Qual é o nome?
O nome de minha mãe.
O diabo coça a barbicha com a unha, longa, do polegar. O diabo não tem cheiro de enxofre. Tem cheiro de cachaça.
Quantos anos tem?
Anos, não. Tem dias. – A avó vem buscá-la. É ela quem quer levar a menina.
A menina está estendida sobre o pano branco, rodeada de flores e velas. O diabo se inclina, se ajoelha, e com a ponta da adaga desenha dois talhos, em cruz, no meio da cabeça. Apoia sobre a ferida suas gengivas sem dentes e bebe o sangue. A menina não tem força para se queixar.
Iara, que será chamada por outro nome, não vai morrer. O dia que o mundo acabar ela se salvará num carro de fogo. Os tempos mudam todos os dias, mas, de agora em diante, ela é minha neta.
Despeja as rosas nas águas da nascente do morro, para que levem as desgraças e as atirem no mar.
Oxalá, Deus das Alturas, Criador do Céu, do Inferno, do Mundo, dos filhos, da tristeza, me ajuda a criar esta filha. Ela é tua filha e minha neta, e filha de minha tristeza, ai.
Depois ergue o punho para as últimas estrelas do céu e, apontando para ela com os sete dentes de ferro enferrujado, clama, a voz rouca:
Na hora em que te lembrares, Deus, que essa menina existe sobre a Terra, ela sofrerá. Tua vingança, que os veados da igreja chamam de mistério! Mas por feitiço ela não vai sofrer. Nem por mau-olhado. Nem por inveja, nem por praga, nem por quebranto. Nem por maldição.
Cospe no chão. E continua acusando as alturas e sacudindo o punho peludo, enquanto a luz invade, lenta, o ar cinzento:
Ah, velho carrasco! Carniceiro!
Ela entrará num jardim e deixará a criança na soleira de uma casa de ricos. Depois continuará caminhando até a costa, até chegar na praia do Diabo, que é pequena mas engoliu muita gente. E começará a buscar, na areia ainda fria e úmida, o cordãozinho com aquele talismã que a protegia das penúrias durante o dia, e dos pesadelos durante a noite. E, se Iemanjá a chamar das lonjuras do mar, ela se despirá e se deixará ir navegando como se seu corpo fosse uma vela branca, atrás da voz da deusa.
Eduardo Galeano, in Vagamundo

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