quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A morte de Miguel Páramo

O Padre Rentería iria se lembrar muitos anos depois da noite em que a dureza de sua cama o manteve acordado e depois obrigou-o a sair. Foi a noite em que morreu Miguel Páramo.
Percorreu as ruas solitárias de Comala, espantando com seus passos os cães que fuçavam o lixo. Chegou até o rio e ali se entreteve olhando nos remansos o reflexo das estrelas que estavam caindo do céu. Levou várias horas lutando com seus pensamentos, jogando-os na água negra do rio.
O assunto começou” pensou “quando Pedro Páramo, de coisa baixa que era, alçou-se a maior. Foi crescendo feito praga. O ruim disso é que obteve tudo de mim: ‘Confesso, padre, que ontem dormi com Pedro Páramo.’ ‘Confesso, padre, que tive um filho de Pedro Páramo.’ ‘Que emprestei minha filha a Pedro Páramo.’ Sempre esperei que ele viesse para confessar de alguma coisa; mas não fez isso nunca. E depois estendeu os braços de sua maldade com esse filho que teve. O filho que ele reconheceu, sabe Deus por quê. O que eu sei é que pus em suas mãos esse instrumento.”
Lembrava-se perfeitamente do dia em que ele tinha levado o filho, recém-nascido.
Tinha dito a ele:
Dom Pedro, a mãe morreu ao dar à luz. Disse que era seu. Aqui está ele.
E ele nem titubeou, disse apenas:
E por que o senhor não fica com ele, padre? Faça-o cura.
Com o sangue que está dentro dele, não quero assumir essa responsabilidade.
Mas o senhor acha mesmo meu sangue ruim?
Realmente, sim, dom Pedro.
Pois vou provar que não é verdade. Deixe o menino comigo. Sobra gente que se encarregue de cuidar dele.
Pois foi precisamente o que pensei. Pelo menos com o senhor não lhe faltará sustento.
O menininho se retorcia, pequeno como era, feito uma víbora.
Damiana! Tome conta dessa coisa. É meu filho.
Depois havia aberto uma garrafa:
Pela finada e pelo senhor, tomarei este gole.
E por ele?
Por ele também, por que não?
Encheu outra taça e os dois beberam pelo porvir daquela criatura.
Assim foi.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

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