A
Torá, onde se encontram os dez mandamentos que Deus escreveu em duas
pedras no monte Sinai, diz que o sábado é dia sagrado e que nesse
dia todo tipo de trabalho está proibido. Os intérpretes da lei, no
seu zelo para garantir o cumprimento rigoroso da lei, fizeram um
levantamento de todas as formas possíveis de se transgredir esse
mandamento. Fizeram aquilo a que hoje os juristas chamam de
“regulamentar” uma lei. Dirigindo-se aos alfaiates, os
intérpretes os advertiram de que, ao pôr do sol da sexta-feira,
quando o sábado se inicia, é importante que tirem das suas roupas
quaisquer agulhas que ali tivessem sido colocadas durante o dia. E
isso porque as agulhas, sendo seu instrumento de trabalho, se ficarem
espetadas na sua roupa, é como se eles, alfaiates, estivessem
levando suas ferramentas por onde vão. E quem caminha carregando o
seu instrumento de trabalho está trabalhando. O alfaiate distraído
que se esquecesse de pôr a agulha sobre a mesa estaria, sem saber,
quebrando o quarto mandamento e incorrendo na ira de Yaweh. Aí
fiquei pensando: Deus é realmente um credor terrível! Vê tudo,
contabiliza tudo. Contabiliza até a agulha de um alfaiate
distraído... O dr. John Mackay, um dos mais extraordinários líderes
do movimento ecumênico, contou que na Escócia, sua terra natal, aos
domingos não era permitido tomar o bonde para ir à igreja porque
isso implicava uma transação comercial: a passagem de bonde tinha
de ser paga. Os pobres, assim, iam a pé para a igreja, enquanto os
ricos iam nos seus carros... Escreveu um jovem poeta protestante de
há uns quarenta anos: “Domingo Deus descansa e os homens sofrem
mais...”.
Rubem
Alves, in Ostra feliz não faz pérola
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