Absolutamente
não pode continuar assim... Já passa... É todo o dia! Arre!
— Mas
é meu filho, minh’ama.
— E
que tem isso? Os filhos de vocês agora têm tanto luxo. Antigamente,
criavam-se à toa; hoje, é um deus nos acuda; exigem cuidados, têm
moléstias... Fique sabendo: não pode ir amanhã!
— Ele
vai melhorando, dona Laura; e o doutor disse que não deixasse de
levá-lo lá, amanhã...
— Não
pode, não pode, já lhe disse! O conselheiro precisa chegar cedo à
escola; há exames e tem que almoçar cedo... Não vai, não senhora!
A gente tem criados pra quê? Não vai, não!
— Vou,
e vou sim!... Que bobagem!... Quer matar o pequeno, não é? Pois
sim... Está-se “ninando”...
— O
que é que você disse, hein?
— É
isso mesmo: vou e vou!
— Atrevida.
— Atrevida
é você, sua... Pensa que não sei...
Em
seguida as duas mulheres se puseram caladas durante um instante: a
patroa — uma alta senhora, ainda moça, de uma beleza suave e
marmórea — com os lábios finos muito descorados e entreabertos,
deixando ver os dentes aperolados, muito iguais, cerrados de cólera;
a criada agitada, transformada, com faiscações desusadas nos olhos
pardos e tristes. A patroa não se demorou assim muito tempo.
Violentamente contraída naquele segundo a sua fisionomia
repentinamente se abriu num choro convulsivo.
A
injúria da criada, decepções matrimoniais, amarguras do seu ideal
amoroso, fatalidades de temperamento, todo aquele obscuro drama de
sua alma, feito de uma porção de coisas que não chegava bem a
colher, mas nas malhas das quais se sentia presa e sacudida,
subiu-lhe de repente à consciência, e ela chorou.
Na
sua simplicidade popular, a criada também se pôs a chorar,
enternecida pelo sofrimento que ela mesma provocara na ama.
E
ambas, pelo fim dessa transfiguração inopinada, entreolharam-se
surpreendidas, pensando que se acabavam de conhecer naquele instante,
tendo até ali vagas notícias uma da outra, como se vivessem longe,
tão longe, que só agora haviam distinguido bem nitidamente o tom de
voz próprio a cada uma delas.
No
entendimento peculiar de uma e de outra, sentiram-se irmãs na
desoladora mesquinhez da nossa natureza e iguais, como frágeis
consequências de um misterioso encadear de acontecimentos, cuja
ligação e fim lhes escapavam completamente, inteiramente...
A
dona da casa, à cabeceira da mesa de jantar, manteve-se silenciosa,
correndo, de quando em quando, o olhar ainda úmido pelas ramagens do
atoalhado, indo, às vezes, com ele até à bandeira da porta
defronte, donde pendia a gaiola do canário, que se sacudia na prisão
niquelada.
De
pé, a criada avançou algumas palavras. Desculpou-se inábil e
despediu-se humilde.
— Deixe-se
disso, Gabriela, disse dona Laura. Já passou tudo; eu não guardo
rancor; fique! Leve o pequeno amanhã... Que vai você fazer por esse
mundo afora?
— Não
senhora... Não posso... É que...
E
de um hausto falou com tremuras na voz:
— Não
posso, não minh’ama; vou-me embora!
Durante
um mês, Gabriela andou de bairro em bairro, à procura de aluguel.
Pedia lessem-lhe anúncios, corria, seguindo as indicações, a casas
de gente de toda a espécie. Sabe cozinhar? perguntavam. — Sim,
senhora, o trivial. — Bem e lavar? Serve de ama? — Sim, senhora;
mas se fizer uma coisa, não quero fazer outra. — Então, não me
serve, concluía a dona da casa. É um luxo... Depois queixam-se que
não têm onde se empreguem...
Procurava
outras casas; mas nesta já estavam servidas, naquela o salário era
pequeno e naquela outra queriam que dormisse em casa e não trouxesse
o filho.
A
criança, durante esse mês, viveu relegada a um canto da casa de uma
conhecida da mãe. Um pobre quarto de estalagem, úmido que nem uma
masmorra. De manhã, via a mãe sair; à tarde, quase à boca da
noite, via-a entrar desconfortada. Pelo dia em fora, ficava num
abandono de enternecer. A hóspede, de longe em longe, olhava-o cheia
de raiva. Se chorava aplicava-lhe palmadas e gritava colérica: “Arre
diabo! A vagabunda de tua mãe anda saracoteando... Cala a boca,
demônio! Quem te fez, que te ature...”.
Aos
poucos, a criança torrou-se de medo; nada pedia, sofria fome, sede,
calado. Enlanguescia a olhos vistos e sua mãe, na caça de aluguel,
não tinha tempo para levá-lo ao doutor do posto médico. Baço,
amarelado, tinha as pernas que nem palitos e o ventre como o de um
batráquio. A mãe notava-lhe o enfraquecimento, os progressos da
moléstia e desesperava, não sabendo que alvitre tomar. Um dia pelos
outros, chegava em casa semiembriagada, escorraçando o filho e
trazendo algum dinheiro. Não confessava a ninguém a origem dele; em
outros mal entrava, beijava muito o pequeno, abraçava-o. E assim
corria a cidade. Numa destas correrias passou pela porta do
conselheiro, que era o marido de dona Laura. Estava no portão, a
lavadeira, parou e falou-lhe; nisto, viu aparecer a sua antiga patroa
numa janela lateral. “— Bom dia minh’ama”, — “Bom dia,
Gabriela. Entre.” Entrou. A esposa do conselheiro perguntou-lhe se
já tinha emprego; respondeu-lhe que não. “Pois olha, disse-lhe a
senhora, eu ainda não arranjei cozinheira, se tu queres...”
Gabriela
quis recusar, mas dona Laura insistiu.
Entre
elas, parecia que havia agora certo acordo íntimo, um quê de mútua
proteção e simpatia. Uma tarde em que dona Laura voltava da cidade,
o filho da Gabriela, que estava no portão, correu imediatamente para
a moça e disse-lhe, estendendo a mão: “a bênção”. Havia
tanta tristeza no seu gesto, tanta simpatia e sofrimento, que aquela
alta senhora não lhe pôde negar a esmola de um afago, de uma
carícia sincera. Nesse dia, a cozinheira notou que ela estava triste
e, no dia seguinte, não foi sem surpresa que Gabriela se ouviu
chamar.
— O
Gabriela!
— Minh’ama.
— Vem
cá.
Gabriela
concertou-se um pouco e correu à sala de jantar, onde estava a ama.
— Já
batizaste o teu pequeno? perguntou-lhe ela ao entrar.
— Ainda
não.
— Por
quê? Com quatro anos!
— Por
quê? Porque ainda não houve ocasião...
— Já
tens padrinhos?
— Não,
senhora.
— Bem;
eu e o conselheiro vamos batizá-lo. Aceitas?
Gabriela
não sabia como responder, balbuciou alguns agradecimentos e voltou
ao fogão com lágrimas nos olhos.
O
conselheiro condescendeu e cuidadosamente começou a procurar um nome
adequado. Pensou em Huáscar, Ataliba, Guatemozim; consultou
dicionários, procurou nomes históricos, afinal resolveu-se por
“Horácio”, sem saber por quê.
Assim
se chamou e cresceu. Conquanto tivesse recebido um tratamento médico
regular e a sua vida na casa do conselheiro fosse relativamente
confortável, o pequeno Horácio não perdeu nem a reserva nem o
enfezado dos seus primeiros anos de vida. À proporção que crescia,
os traços se desenhavam, alguns finos: o corte da testa, límpida e
reta; o olhar doce e triste, como o da mãe, onde havia, porém,
alguma coisa a mais — um fulgor, certas expressões particulares,
principalmente quando calado e concentrado. Não obstante, era feio,
embora simpático e bom de ver.
Pelos
seis anos, mostrava-se taciturno, reservado e tímido, olhando
interrogativamente as pessoas e coisas, sem articular uma pergunta.
Lá vinha um dia, porém, que o Horácio rompia numa alegria ruidosa;
punha-se a correr, a brincar, a cantarolar, pela casa toda, indo do
quintal para as salas, satisfeito, contente, sem motivo e sem causa.
A
madrinha espantava-se com esses bruscos saltos de humor, queria
entendê-los, explicá-los e começou por se interessar pelos seus
trejeitos. Um dia, vendo o afilhado a cantar, a brincar, muito
contente, depois de uma porção de horas de silêncio e calma,
correu ao piano e acompanhou-lhe a cantiga, depois, emendou com uma
ária qualquer. O menino calou-se, sentou-se no chão e pôs-se a
olhar, com olhos tranquilos e calmos, a madrinha, inteiramente delido
nos sons que saíam dos seus dedos. E quando o piano parou, ele ainda
ficou algum tempo esquecido naquela postura, com o olhar perdido numa
cisma sem fim. A atitude imaterial do menino tocou a madrinha, que o
tomou ao colo, abraçando-o e beijando-o, num afluxo de ternura, a
que não eram estranhos os desastres de sua vida sentimental.
Pouco
depois a mãe lhe morria. Até então vivia numa semidomesticidade.
Daí em diante, porém, entrou completamente na família do
conselheiro Calaça. Isso, entretanto, não lhe retirou a
taciturnidade e a reserva; ao contrário, fechou-se em si e nunca
mais teve crises de alegria.
Com
sua mãe ainda tinha abandonos de amizade, efusões de carícias e
abraços. Morta que ela foi, não encontrou naquele mundo tão
diferente, pessoa a quem se pudesse abandonar completamente, embora
pela madrinha continuasse a manter uma respeitosa e distante amizade,
raramente aproximada por uma carícia, por um afago.
Ia
para o colégio calado, taciturno, quase carrancudo, e, se, pelo
recreio, o contágio obrigava-o a entregar-se à alegria e aos
folguedos, bem cedo se arrependia, encolhia-se e sentava-se, vexado,
a um canto. Voltava do colégio como fora, sem brincar pelas ruas,
sem traquinadas, severo e insensível. Tendo uma vez brigado com um
colega, a professora o repreendeu severamente, mas o conselheiro, seu
padrinho, ao saber do caso, disse com rispidez: “Não continue,
hein? O senhor não pode brigar — está ouvindo?”.
E
era assim sempre o seu padrinho, duro, desdenhoso, severo em demasia
com o pequeno, de quem não gostava, suportando-o unicamente em
atenção à mulher — maluquices da Laura, dizia ele. Por vontade
dele, tinha-o posto logo num asilo de menores, ao morrer-lhe a mãe;
mas a madrinha não quis e chegou até a conseguir que o marido o
colocasse num estabelecimento oficial de instrução secundária,
quando acabou com brilho o curso primário.
Não
foi sem resistência que ele acedeu, mas os rogos da mulher, que
agora juntava à afeição pelo pequeno uma secreta esperança no seu
talento, tanto fizeram que o conselheiro se empenhou e obteve.
Em
começo, aquela adoção fora um simples capricho de dona Laura; mas,
com o tempo, os seus sentimentos pelo menino foram ganhando
importância e ficando profundos, embora exteriormente o tratasse com
um pouco de cerimônia.
Havia
nela mais medo da opinião, das sentenças do conselheiro, do que
mesmo necessidade de disfarçar o que realmente sentia, e pensava.
Quem
a conheceu solteira, muito bonita, não a julgaria capaz de tal
afeição; mas, casada, sem filhos, não encontrando no casamento
nada que sonhara, nem mesmo o marido, sentiu o vazio da existência,
a inanidade dos seus sonhos, o pouco alcance da nossa vontade; e, por
uma reviravolta muito comum, começou a compreender confusamente
todas as vidas e almas, a compadecer-se e a amar tudo, sem amar bem
coisa alguma. Era uma parada de sentimento e a corrente que se
acumulara nela, perdendo-se do seu leito natural, extravasara e
inundara tudo.
Tinha
um amante e já tivera outros, mas não era bem a parte mística do
amor que procurara neles. Essa, ela tinha certeza que jamais podia
encontrar; era a parte dos sentidos tão exuberantes e exaltados
depois das suas contrariedades morais.
Pelo
tempo em que o seu afilhado entrara para o colégio secundário, o
amante rompera com ela; e isto a fazia sofrer, tinha medo de não
possuir mais beleza suficiente para arranjar um outro como “aquele”.
E a esse desastre sentimental não foi estranha a energia dos seus
rogos junto ao marido para admissão do Horácio no estabelecimento
oficial.
O
conselheiro, homem de mais de sessenta anos, continuava superiormente
frio, egoísta e fechado, sonhando sempre uma posição mais alta ou
que julgava mais alta. Casara-se por necessidade decorativa. Um homem
de sua posição não podia continuar viúvo; atiraram-lhe aquela
menina pelos olhos, ela o aceitou por ambição e ele por
conveniência. No mais, lia os jornais, o câmbio especialmente, e,
de manhã, passava os olhos nas apostilas de sua cadeira —
apostilas por ele organizadas, há quase trinta anos, quando dera as
suas primeiras lições, moço, de vinte e cinco anos, genial nas
aprovações e nos prêmios.
Horácio,
toda a manhã, ao sair para o colégio, lá avistava o padrinho
atarraxado na cadeira de balanço a ler atentamente o jornal: “A
bênção, meu padrinho!” — “Deus te abençoe”, dizia ele,
sem menear a cabeça do espaldar e no mesmo tom de voz com que
pediria os chinelos à criada.
Em
geral, a madrinha estava deitada ainda e o menino saía para o
ambiente ingrato da escola, sem um adeus, sem dar um beijo, sem ter
quem lhe reparasse familiarmente o paletó. Lá ia. A viagem de
bonde, ele a fazia humilde, espremido a um canto do veículo, medroso
que seu paletó roçasse as sedas de uma rechonchuda senhora ou que
seus livros tocassem nas calças de um esquelético capitão de uma
milícia qualquer. Pelo caminho, arquitetava fantasias; seu espírito
divagava sem nexo. À passagem de um oficial a cavalo, imaginava-se
na guerra, feito general, voltando vencedor, vitorioso de ingleses,
de alemães, de americanos e entrando pela rua do Ouvidor aclamado
como nunca se fora aqui. Na sua cabeça ainda infantil, em que a
fraqueza de afetos próximos concentrava o pensamento, a imaginação
palpitava, tinha uma grande atividade, criando toda a espécie de
fantasmagorias que lhe apareciam como fatos possíveis, virtuais.
Eram-lhe
as horas de aula um bem triste momento. Não que fosse vadio,
estudava o seu bocado, mas o espetáculo do saber, por um lado
grandioso e apoteótico, pela boca dos professores, chegava-lhe
tisnado e um quê desarticulado. Não conseguia ligar bem umas coisas
às outras, além do que, tudo aquilo lhe aparecia solene, carrancudo
e feroz. Um teorema tinha o ar autoritário de um régulo selvagem; e
aquela gramática cheia de regrinhas, de exceções, uma coisa
cabalística, caprichosa e sem aplicação útil.
O
mundo parecia-lhe uma coisa dura, cheia de arestas cortantes,
governado por uma porção de regrinhas de três linhas, cujo segredo
e aplicação estavam entregues a uma casta de senhores, tratáveis
uns, secos outros, mas todos velhos e indiferentes.
Aos
seus exames ninguém assistia, nem por eles alguém se interessava;
contudo, foi sempre regularmente aprovado. Quando voltava do colégio,
procurava a madrinha e contava-lhe o que se dera nas aulas.
Narrava-lhe pequenas particularidades do dia, as notas que obtivera e
as travessuras dos colegas.
Uma
tarde, quando isso ia fazer, encontrou dona Laura atendendo a uma
visita. Vendo-o entrar e falar à dona da casa, tomando-lhe a bênção
a senhora estranha perguntou: “Quem é este pequeno?” — “É
meu afilhado”, disse-lhe dona Laura. “Teu afilhado? Ah! sim! É o
filho da Gabriela...”
Horácio
ainda esteve um instante calado, estatelado e depois chorou
nervosamente.
Quando
se retirou observou a visita à madrinha:
— Você
está criando mal esta criança. Faz-lhe muitos mimos, está lhe
dando nervos...
— Não
faz mal. Podem levá-lo longe.
E
assim corria a vida do menino em casa do conselheiro.
Um
domingo ou outro, só ou com um companheiro, vagava pelas praias,
pelos bondes ou pelos jardins. O Jardim Botânico era-lhe preferido.
Ele e o seu constante amigo Salvador sentavam-se a um banco,
conversavam sobre os estudos comuns, maldiziam este ou aquele
professor. Por fim, a conversa vinha a enfraquecer; os dois se
calavam instantes. Horácio deixava-se penetrar pela flutuante poesia
das coisas, das árvores, dos céus, das nuvens; acariciava com o
olhar as angustiadas colunas das montanhas, simpatizava com o
arremesso dos píncaros, depois deixava-se ficar, ao chilreio do
passaredo, cismando vazio, sem que a cisma lhe fizesse ver coisa
definida, palpável pela inteligência. Ao fim, sentia-se como que
liquefeito, vaporizado nas coisas era como se perdesse o feitio
humano e se integrasse naquele verde-escuro da mata ou naquela mancha
faiscante de prata que a água a correr deixava na encosta da
montanha. Com que volúpia, em tais momentos, ele se via dissolvido
na natureza, em estado de fragmentos, em átomos, sem sofrimento, sem
pensamento, sem dor! Depois de ter ido ao indefinido, apavorava-se
com o aniquilamento e voltava a si, aos seus desejos, às suas
preocupações com pressa e medo.
— Salvador,
de que gostas mais, do inglês ou francês?
— Eu
do francês; e tu?
— Do
inglês.
— Por
quê?
— Porque
pouca gente o sabe.
A
confidência saía-lhe a contragosto, era dita sem querer. Temeu que
o amigo o supusesse vaidoso. Não era bem esse sentimento que o
animava; era uma vontade de distinção, de reforçar a sua
individualidade, que ele sentia muito diminuída pelas circunstâncias
ambientes. O amigo não entrava na natureza do seu sentimento e
despreocupadamente perguntou:
— Horácio,
já assististe uma festa de São João?
— Nunca.
— Queres
assistir uma?
— Quero,
onde?
— Na
ilha, em casa de meu tio.
Pela
época, a madrinha consentiu. Era um espetáculo novo; era um outro
mundo que se abria aos seus olhos. Aquelas longas curvas das praias,
que perspectivas novas não abriam em seu espírito! Ele se ia todo
nas cristas brancas das ondas e nos largos horizontes que
descortinava.
Em
chegando a noite, afastou-se da sala. Não entendia aqueles
folguedos, aquele dançar sôfrego, sem pausa, sem alegria, como se
fosse um castigo. Sentado a um banco do lado de fora, pôs-se a
apreciar a noite, isolado, oculto, fugido, solitário, que se sentia
ser no ruído da vida. Do seu canto escuro, via tudo mergulhado numa
vaga semiluz. No céu negro, a luz pálida das estrelas; na cidade
defronte, o revérbero da iluminação; luz, na fogueira votiva, nos
balões ao alto, nos foguetes que espoucavam, nos fogaréus das
proximidades e das distâncias — luzes contínuas, instantâneas,
pálidas, fortes; e todas no conjunto pareciam representar um esforço
enorme para espancar as trevas daquela noite de mistérios.
No
seio daquela bruma iluminada, as formas das árvores boiavam como
espectros; o murmúrio do mar tinha alguma coisa de penalizado diante
do esforço dos homens e dos astros para clarear as trevas. Havia
naquele instante, em todas as almas, um louco desejo de decifrar o
mistério que nos cerca; e as fantasias trabalhavam para idear meios
que nos fizessem comunicar com o Ignorado, com o Invisível. Pelos
cantos sombrios da chácara pessoas deslizavam. Iam ao poço ver a
sombra — sinal de que viveriam o ano; iam disputar galhos de arruda
ao diabo; pelas janelas, deixavam copos com ovos partidos para que o
sereno, no dia seguinte, trouxesse as mensagens do Futuro.
O
menino, sentindo-se arrastado por aquele frêmito de augúrio e
feitiçaria, percebeu bem como vivia envolvido, mergulhado, no
indistinto, no indecifrável; e uma onda de pavor, imensa e
aterradora, cobriu-lhe o sentimento.
Dolorosos
foram os dias que se seguiram. O espírito sacolejou-lhe o corpo
violentamente. Com afinco estudava, lia os compêndios; mas não
compreendia, nada retinha. O seu entendimento como que vazava.
Voltava, lia, lia e lia e, em seguida, virava as folhas sofregamente,
nervosamente, como se quisesse descobrir debaixo delas um outro mundo
cheio de bondade e satisfação. Horas havia que ele desejava
abandonar aqueles livros, aquela lenta aquisição de noções e
ideias, reduzir-se e anular-se; horas havia, porém, que um desejo
ardente lhe vinha de saturar-se de saber, de absorver todo o conjunto
das ciências e das artes. Ia de um sentimento para outro; e foi vã
a agitação. Não encontrava solução, saída; a desordem das
ideias e a incoerência das sensações não lhe podiam dar uma e
cavavam-lhe a saúde. Tornou-se mais flébil, fatigava-se facilmente.
Amanhecia cansado de dormir e dormia cansado de estar em vigília.
Vivia irritado, raivoso, não sabia contra quem.
Certa
manhã, ao entrar na sala de jantar, deu com o padrinho a ler os
jornais, segundo o seu hábito querido.
— Horácio,
você passe na casa do Guedes e traga-me a roupa que mandei
consertar.
— Mande
outra pessoa buscar.
— O
quê?
— Não
trago.
— Ingrato!
Era de esperar...
E
o menino ficou admirado diante de si mesmo, daquela saída de sua
habitual timidez.
Não
sabia onde tinha ido buscar aquele desaforo imerecido, aquela tola
má-criação; saiu-lhe como uma coisa soprada por outro e que ele
unicamente pronunciasse.
A
madrinha interveio, aplainou as dificuldades; e, com a agilidade de
espírito peculiar ao sexo, compreendeu o estado d’alma do rapaz.
Reconstituiu-o com os gestos, com os olhares, com as meias palavras,
que percebera em tempos diversos e cuja significação lhe escapara
no momento, mas que aquele ato, desusadamente brusco e violento,
aclarava por completo. Viu-lhe o sofrimento de viver à parte, a
transplantação violenta, a falta de simpatia, o princípio de
ruptura que existia em sua alma, e que o fazia passar aos extremos
das sensações e dos atos.
Disse-lhe
coisas doces, ralhou-o, aconselhou-o, acenou-lhe com a fortuna, a
glória e o nome.
Foi
Horácio para o colégio abatido, preso de um estranho sentimento de
repulsa, de nojo por si mesmo. Fora ingrato, de fato; era um monstro.
Os padrinhos lhe tinham dado tudo, educado, instruído. Fora sem
querer, fora sem pensar; e sentia bem que a sua reflexão não
entrara em nada naquela resposta que dera ao padrinho. Em todo o
caso, as palavras foram suas, foram ditas com sua voz e a sua boca, e
se lhe nasceram do íntimo sem a colaboração da inteligência,
devia acusar-se de ser fundamentalmente mau...
Pela
segunda aula, pediu licença. Sentia-se doente, doía-lhe a cabeça e
parecia que lhe passavam um archote fumegante pelo rosto.
— Já,
Horácio? perguntou-lhe a madrinha, vendo-o entrar.
— Estou
doente.
E
dirigiu-se para o quarto. A madrinha seguiu-o. Chegado que foi,
atirou-se à cama, ainda meio vestido.
— Que
é que você tem, meu filho?
— Dores
de cabeça... um calor...
A
madrinha tomou-lhe o pulso, assentou as costas da mão na testa e
disse-lhe ainda algumas palavras de consolação: que aquilo não era
nada; que o padrinho não lhe tinha rancor; que sossegasse.
O
rapaz, deitado, com os olhos semicerrados, parecia não ouvir;
voltava-se de um lado para outro; passava a mão pelo rosto,
arquejava e debatia-se. Um instante pareceu sossegar; ergueu-se sobre
o travesseiro e chegou a mão aos olhos, no gesto de quem quer
avistar alguma coisa ao longe. A estranheza do gesto assustou a
madrinha.
— Horácio!...
Horácio!...
— Estou
dividido... Não sai sangue...
— Horácio,
Horácio, meu filho!
— Faz
sol... Que sol!... Queima... Árvores enormes... Elefantes...
— Horácio,
que é isso? Olha; é tua madrinha!
— Homens
negros... fogueiras... Um se estorce... Chi! Que coisa!... O meu
pedaço dança...
— Horácio!
Genoveva, traga água de flor... Depressa, um médico... Vá chamar,
Genoveva!
— Já
não é o mesmo... é outro... lugar, mudou... uma casinha branca...
carros de bois... nozes... figos... lenços...
— Acalma-te,
meu filho!
— Ué!
Chi! Os dois brigam...
Daí
em diante a prostração tomou-o inteiramente. As últimas palavras
não saíam perfeitamente articuladas. Pareceu sossegar. O médico
entrou, tomou a temperatura, examinou-o e disse com a máxima
segurança:
— Não
se assuste, minha senhora. É delírio febril, simplesmente. Dê-lhe
o purgante, depois as cápsulas, que, em breve, estará bom.