sábado, 31 de janeiro de 2026
Roteiro do silêncio
As asas não se concretizam.
Terríveis e pequenas circunstâncias
Transformam claridades, asas, grito,
Em labirinto de exígua ressonância.
Os solilóquios do amor não se
eternizam.
E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia. E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam alegria.
Hilda Hilst, em De amor tenho vivido – 50 poemas
A Loja Mágica
Eu já tinha visto várias vezes a
Loja Mágica, a distância; já tinha passado diante da sua vitrine
cheia de objetos curiosos, bolas mágicas, galinhas mágicas, cones
coloridos, bonecos de ventríloquo, material para mágicas usando
cestos, baralhos que pareciam comuns, todo tipo de coisa; mas nunca
me ocorrera entrar ali até que um dia, quase sem aviso, Gip me puxou
pelo dedo até aquela vitrine, e se comportou de tal forma que não
tive escolha senão entrar ali com ele. Eu não lembrava que a loja
ficava justamente ali, para falar a verdade — uma fachada de
tamanho modesto em Regent Street, entre uma loja de fotografias e uma
loja cheia de pintos recém-saídos das incubadoras. Mas lá estava
ela. Eu tinha imaginado que ela ficava mais perto de Piccadilly
Circus, ou depois da esquina, em Oxford Street, ou mesmo em Holborn;
sempre a vira do outro lado da rua e um pouco inacessível, com algo
em sua posição que lembrava uma miragem; mas aqui estava ela,
agora, sem nenhuma dúvida, e a ponta do dedinho gordo de Gip batia
com ruído na vitrine.
— Se eu fosse rico — disse Gip,
apontando para o Ovo Que Desaparece — eu compraria aquele ali para
mim. E aquele. — Era o Bebê Que Chora, Muito Humano. — E aquele
também. — Este último era uma coisa misteriosa, e se chamava, de
acordo com um cartãozinho pregado sobre a caixa, “Compre Um e
Deixe Seus Amigos Espantados”.
— Qualquer coisa — explicou Gip —
desaparece embaixo de um desses cones. Li isso num livro. E ali, pai,
está a Moeda Que Desaparece... só que eles a colocaram com o outro
lado para cima, para ninguém perceber como é feito.
Gip, bom menino, herdou as boas
maneiras de sua mãe, e não pediu para entrar na loja nem me
aborreceu em qualquer sentido; mas, sabem como é, de maneira
inconsciente ele puxava meu dedo na direção da porta e suas
intenções eram muito claras.
— Olhe aquilo — disse, apontando a
Garrafa Mágica.
— E se você tivesse uma dessas? —
perguntei, e ele me olhou radiante, ao ouvir uma pergunta tão
promissora.
— Eu ia mostrá-la a Jessie —
respondeu ele, como sempre pensando nos outros.
— Faltam menos de cem dias para seu
aniversário, Gibbles — falei, pousando minha mão na maçaneta.
Gip não respondeu, mas agarrou meu
dedo com mais força, e assim entramos na loja.
Não era uma loja como as outras; era
um bazar mágico, e toda a desenvoltura que Gip iria assumir se se
tratasse de uma simples loja de brinquedos ia fazer-lhe falta agora.
Ele deixou a conversação por minha
conta.
A loja era pequena, estreita, não
muito bem-iluminada, e os sininhos presos à porta tintinaram
novamente sua musiquinha plangente quando ela se fechou às nossas
costas. Por alguns instantes ficamos ali sozinhos e pudemos olhar à
nossa volta. Havia um tigre de papel machê sobre a tampa de vidro
que cobria um balcão não muito alto: um tigre sério, com olhos
bondosos, que agitava a cabeça metodicamente; havia uma porção de
bolas de cristal, uma mão de porcelana segurando cartas de um
baralho mágico, um bom estoque de aquários mágicos de variados
tamanhos, e uma cartola que exibia suas molas internas com pouca
modéstia. No chão estavam pousados espelhos mágicos: um que nos
reproduzia longos e finos, um que inchava nossas cabeças e sumia com
nossas pernas, e um que nos tornava atarracados e gordos como peças
do jogo de damas; e enquanto ríamos diante deles o lojista, suponho,
entrou no aposento.
De qualquer modo, em certo momento ali
estava ele atrás do balcão: um homem moreno, de aspecto curioso,
pele macilenta, com uma orelha maior que a outra e um queixo como o
bico de uma bota.
— Em que posso ajudá-los? — disse
ele, abrindo os seus dedos longos e mágicos sobre o tampo de vidro
do balcão; e com um sobressalto percebemos sua presença ali.
— Gostaria de comprar alguns truques
simples para o meu filho — respondi.
— De prestidigitação? —
perguntou ele. — Mecânicos? Domésticos?
— Tem alguma coisa divertida? —
perguntei.
— Hmmm... — disse o lojista, e
coçou a cabeça por um instante, pensativo. Então, com um gesto bem
visível, retirou da cabeça uma bola de vidro. — Alguma coisa
assim? — perguntou, estendendo a bola.
Aquilo foi inesperado. Eu já tinha
visto esse truque em parques de diversões inúmeras vezes — faz
parte do repertório de qualquer mágico — mas não estava
esperando por ele ali.
— Muito bom — falei, com uma
risada.
— Não é mesmo? — disse o
lojista.
Gip estendeu a mão que estava livre
para receber o objeto... e achou apenas uma mão aberta e vazia.
— Está no seu bolso — disse o
lojista. E lá estava mesmo!
— Quanto custa? — perguntei.
— Não cobramos pelas bolas de vidro
— disse o lojista, com cortesia. — Elas vêm para nós... —
tirou mais uma, agora do cotovelo — ... de graça. — Tirou mais
uma bola da nuca, e a colocou em cima do balcão, junto da outra. Gip
examinou sua bola de vidro com olhar esperto, depois observou as duas
sobre o balcão, e finalmente encarou o lojista, que estava sorrindo.
— Pode ficar com estas também —
disse o lojista — e, se não se incomodar, fique com esta,
da minha boca. Olhe aí!
Gip me olhou calado em busca de
orientação, e com um silêncio profundo separou para si as quatro
bolas, agarrou de novo meu dedo, e preparou-se para o prodígio
seguinte.
— É assim que obtemos nosso
material mais barato — observou o lojista.
Dei aquela risada de quem soube
entender a piada.
— Em vez de ir ao armazém de
atacado — falei. — Claro que fica bem mais em conta.
— De certa forma, sim — disse o
lojista. — Embora sempre acabemos pagando. Mas não pagamos tão
caro quanto as pessoas imaginam. Nossos equipamentos maiores, nossas
provisões diárias e todas as outras coisas de que precisamos vêm
todas de dentro dessa cartola. E, sabe, cavalheiro, se me permite
dizê-lo, não existe uma grande loja de atacado, não para
artigos de Mágica Genuína. Não sei se reparou no nosso letreiro: A
GENUÍNA LOJA MÁGICA. — Ele puxou um cartão de visita da bochecha
e o estendeu para mim. — Genuína — repetiu, apontando a palavra
com o dedo. — Não há o menor engano, cavalheiro.
Pensei que ele estava mantendo a piada
com bastante seriedade.
Ele se virou para Gip com o mais
afável dos sorrisos.
— E você, sabia? É o Tipo Certo de
Garoto.
Fiquei surpreso com o fato de ele
saber disso, porque, no interesse da disciplina, nós mantemos isto
em segredo, em nossa casa; mas Gip recebeu a informação com um
sólido silêncio, mantendo os olhos fitos no homem.
— Somente o Tipo Certo de Garoto
consegue entrar por aquela porta.
E então, como que para ilustrar o que
ele dizia, ouviu-se um barulho na porta, e uma voz de criança quase
guinchando se ouviu do lado de fora.
— Nãããão... Eu quero
entrar lá dentro, papai, eu QUERO entrar lá! Nããão...
E depois a voz cansada de um pai,
cheia de consolos e promessas.
— Está fechada, Edward — dizia
ele.
— Mas não está! — disse eu.
— Está, senhor — disse o lojista.
— Sempre está, para esse tipo de criança.
Enquanto ele falava tive pela vitrine
o vislumbre do rosto do menino, um rosto branco, miúdo, pálido de
tanto comer doces e comidas açucaradas, distorcida por maus
sentimentos; um pequeno e implacável egoísta, batendo no vidro
mágico.
— Não adianta, senhor — disse o
lojista quando eu, com meu impulso instintivo para ajudar, fui na
direção da porta. Logo o garoto mimado foi levado para longe, aos
berros.
— Como consegue fazer isto? —
perguntei, já mais à vontade.
— Mágica! — disse o lojista,
fazendo um gesto descuidado com a mão, e, presto! Faíscas de um
fogo multicor brotaram dos seus dedos e sumiram por entre as sombras
da loja.
— Você estava dizendo — falou
ele, virando-se para Gip —, antes de entrar, que gostaria de ter
uma caixinha dos nossos “Compre Um e Deixe Seus Amigos Espantados”?
Gip, com um valoroso esforço,
respondeu:
— Sim.
— Está no seu bolso.
E inclinando-se sobre o balcão —
ele tinha um corpo extraordinariamente longo — aquele sujeito
incrível produziu o objeto no estilo habitual dos mágicos.
— Papel! — disse ele, e tirou uma
folha de papel de embrulho da cartola que exibia suas molas. —
Barbante! — e vejam só, sua boca tornou-se um estojo oco de onde
ele começou a puxar um interminável fio de barbante, que cortou com
os dentes depois de amarrar o pacote (e, ao que me pareceu, engoliu o
rolo).
Depois ele acendeu uma vela no nariz
de um dos bonecos de ventríloquo, colocou um dos dedos (que tinha se
transformado num bastão de cera de lacrar) na chama, e selou o
pacote.
— E há também o Ovo Que Desaparece
— lembrou ele, e, retirando um exemplar do bolso do meu casaco, fez
outro pacote, e depois repetiu tudo com o Bebê Que Chora, Muito
Humano. Quando todos os pacotes ficaram prontos, entreguei-os a Gip,
que os apertou de encontro ao peito.
Ele quase não disse nada, mas seu
olhar era eloquente; o modo como apertava os pacotes nos braços era
eloquente. Naquele instante ele era um playground de emoções
indizíveis. Aquilo, sim, era Mágica verdadeira.
Então, com um sobressalto, senti
alguma coisa se movendo dentro do meu chapéu, alguma coisa macia e
irrequieta. Ergui-o, e um pombo com as penas eriçadas — um
cúmplice, sem dúvida — saltou sobre o balcão e correu a se
esconder, pelo que pude ver, dentro de uma caixa de papelão por trás
do tigre.
— Ora, ora! — exclamou o lojista,
tomando meu chapéu com um gesto hábil. — Que pássaro descuidado,
e ainda por cima chocando!
Ele balançou meu chapéu e derramou
na mão estendida dois ou três ovos, uma bola de gude, um relógio,
mais uma meia dúzia das inevitáveis bolinhas de vidro, e pedaços
de papel amassado, cada vez mais e mais e mais, falando o tempo
inteiro de como as pessoas esquecem de limpar os seus chapéus pelo
lado de dentro do mesmo modo como o fazem por fora, falando
com polidez, é claro, mas com certa determinação pessoal.
— Todo tipo de coisa se acumula,
cavalheiro... Não no seu caso particular, é claro... Mas
quase todo cliente... Incrível as coisas que conduzem consigo...
O monte de papel amassado acumulava-se
e erguia-se em cima do balcão até que ele ficou praticamente
oculto, menos sua voz, que prosseguia.
— Nenhum de nós sabe na verdade o
que se oculta por trás de nossa aparência de seres humanos,
cavalheiro. Será que não somos mais do que fachadas limpas,
sepulcros caiados por fora...
Sua voz parou, exatamente como quando
a gente alveja o gramofone de um vizinho com um tijolo e boa
pontaria; o mesmo silêncio instantâneo, e o roçagar do papel se
interrompeu, e tudo ficou muito calmo...
— Ainda precisa do meu chapéu? —
perguntei, após um intervalo.
Não houve resposta.
Olhei para Gip, e Gip olhou para mim,
e ali estavam nossas imagens distorcidas nos espelhos mágicos, com
uma aparência muito esquisita, e grave, e quieta...
— Acho que vamos embora agora —
falei. — Pode me dizer quanto foi? — E depois de uma pausa, num
tom mais alto: — Quero a conta, por favor, e também o meu chapéu.
Pensei ter ouvido um fungado por trás
da pilha de papel amassado.
— Vamos olhar atrás do balcão, Gip
— falei. — Ele está brincando conosco.
Conduzi Gip e demos uma volta em torno
do tigre, que ainda agitava a cabeça, e quem acha que estava atrás
do balcão? Ninguém! Somente meu chapéu caído no chão, e um
coelho de longas orelhas, o típico coelhinho dos mágicos, perdido
em meditação, e com uma aparência tão amarfanhada e boba como só
os coelhos de mágico têm. Recuperei meu chapéu, e o coelho se
afastou dando pulinhos.
— Pai! — disse Gip, com um
sussurro culpado.
— O que é, Gip?
— Eu gosto desta loja, pai.
“Eu também deveria estar gostando”,
pensei comigo mesmo, “se este balcão não tivesse se alongado até
barrar o nosso acesso à porta de saída”. Mas não chamei a
atenção de Gip para esse detalhe.
— Coelhinho! — disse ele,
estendendo a mão para o coelho, que passou por nós pulando. —
Coelhinho, faça uma mágica para Gip!
Seus olhos acompanharam o bichinho
enquanto este se esgueirava através de uma porta cuja existência
eu, com toda certeza, não tinha percebido até então. Essa porta
abriu-se, e através dela avistei o homem que tinha uma orelha maior
que a outra. Continuava sorrindo; seu olhar, ao cruzar com o meu,
tinha uma expressão divertida, mas com um quê de desafio.
— Acho que gostaria de ver a nossa
sala de demonstrações, cavalheiro — disse ele, com inocente
suavidade. Gip puxou meu dedo, querendo avançar. Olhei para o balcão
e olhei de novo o lojista. Eu estava começando a achar aquela mágica
genuína demais.
— Acho que não temos muito tempo —
falei. Mas antes que concluísse a frase já estávamos na tal sala
de demonstrações.
— Todo o material é da mesma
qualidade — disse o homem, esfregando suas mãos muito flexíveis.
— Ou seja, a melhor. Não existe nada aqui que não seja de Mágica
genuína, com todas as garantias. Se me der licença...
Ele estendeu a mão e puxou alguma
coisa agarrada à manga do meu casaco, e vi que era um pequeno
diabinho vermelho, que se contorcia, pendurado pela cauda. A
criaturinha mexia-se sem parar, tentando morder sua mão, mas ele
logo o atirou para trás de um balcão afastado. Claro que aquilo não
passava de um bonequinho de borracha, mas, por um instante...! E o
gesto dele foi exatamente o de quem pega a contragosto algum bichinho
repulsivo e que morde. Olhei para Gip, mas Gip estava com o olhar
pregado num cavalinho mágico. Alegrei-me por ele não ter visto
aquela coisa.
— Veja só — falei em voz baixa,
indicando Gip e depois o diabinho vermelho com o olhar —, vocês
não têm muitas dessas coisas por aqui, não?
— Não, não é nosso! Provavelmente
entrou aqui com o senhor — disse o lojista, também em voz baixa, e
com um sorriso mais desconcertante do que nunca. — É espantosa a
quantidade de coisas que conduzimos conosco sem perceber! — E
virando-se para Gip: — E então? Algo lhe interessou?
Muitas coisas ali tinham interessado
Gip.
Ele virou-se para o comerciante com
uma mistura de confidencialidade e respeito.
— Aquela é uma Espada Mágica? —
perguntou.
— Uma Espada Mágica de Brinquedo.
Ela não curva, não quebra, nem corta os dedos. Ela pode tornar
invisível durante uma batalha qualquer pessoa com menos de dezoito
anos. O preço vai de meia-coroa até sete coroas e seis pence, de
acordo com o tamanho. Aquelas panóplias são artigos para cavaleiros
andantes muito jovens, e são muito úteis: escudo de segurança,
sandálias de velocidade, elmo de invisibilidade.
— Oh, pai! — exclamou Gip.
Tentei me informar sobre o preço, mas
ele não me deu atenção. Tinha se voltado totalmente para Gip, o
qual já havia largado meu dedo, e agora estava lhe mostrando todo o
seu estoque como se nada pudesse impedi-lo. Daí a pouco percebi, com
alguma desconfiança e uma ponta de ciúme, que Gip estava segurando
o dedo daquele sujeito do modo como geralmente segura o meu. Sem
dúvida era um indivíduo interessante, pensei, e tinha um estoque
interessante de truques falsos, truques falsos muito bem-feitos,
mas mesmo assim...
Fui acompanhando os dois, falando
pouco, mas mantendo sempre um olho nas prestidigitações do sujeito.
Afinal, Gip estava se divertindo. E sem dúvida quando quiséssemos
ir embora poderíamos fazê-lo sem dificuldade.
Era um lugar enorme, desordenado, uma
espécie de galeria cujo espaço era dividido por barracas, estandes,
pilastras, e arcadas que conduziam a outras divisões, onde era
possível ver ajudantes de aparência esquisita vagabundeando e
olhando para nós; aqui e ali viam-se cortinas e espelhos de
aparência estranha. Tudo era tão fora do comum que acabei me vendo
incapaz de apontar a porta por onde tínhamos entrado.
O lojista mostrou a Gip trens mágicos
que se moviam sem usar vapor ou mecanismos de relojoaria, bastando
ligar o sinal; e algumas caixas muito valiosas de soldadinhos que
começavam a se movimentar assim que se erguia a tampa da caixa e
alguém dizia... bem, não tenho um ouvido muito bom, e era um som
que parecia um travalínguas, mas Gip, que tem o ouvido da mãe,
aprendeu bem rápido. “Bravo!”, exclamou o lojista, jogando os
soldados de volta à caixa sem a menor cerimônia, e entregando-a a
Gip. “Agora!”, disse e Gip fez com que voltassem a se mover.
— Vai levar esta caixa? —
perguntou o homem.
— Sim, vamos levar, a menos que você
cobre o preço total. Nesse caso vou precisar da ajuda de algum
magnata.
— Deus meu! Não! — exclamou o
lojista, voltando a guardar os soldadinhos e fechando a tampa. Ele
agitou a caixa no ar — e ali estava ela, envolta em papel pardo,
amarrada, e com o nome e o endereço completos de Gip!
O homem riu ao ver o meu espanto.
— Esta é a mágica genuína —
disse. — A coisa de verdade.
— É genuína demais para meu gosto
— falei novamente.
Depois ele se dedicou a mostrar outros
truques a Gip, truques bizarros, e feitos de um modo mais bizarro
ainda. Ele explicava o método, revirava os objetos, e lá estava o
meu garoto, abanando com firmeza a cabecinha, com ar de entendedor.
Eu não lhe dei a atenção que
deveria dar. O Lojista Mágico dizia: “Hey, presto!”, e eu
escutava sua voz de menino ecoando: “Hey, presto!” Mas minha
atenção estava voltada para outras coisas. Eu começava a ter uma
percepção mais clara do quanto aquele lugar era bizarro; ele era,
para falar a verdade, impregnado por uma impressão tremenda de
bizarrice. Havia algo de bizarro em sua própria aparência, no teto,
no piso, nas cadeiras distribuídas ao acaso. Eu tinha a sensação
esquisita de que quando não estava olhando diretamente para aquelas
coisas elas mudavam, moviam-se, ficavam silenciosamente brincando de
esconder às minhas costas. E a cornija era adornada por uma
guirlanda de máscaras, que eram muito mais expressivas do que era
possível a uma máscara de gesso.
De súbito, meu olhar foi atraído por
um daqueles estranhos assistentes. Estava um pouco afastado, e sem se
dar conta da minha presença — eu o avistava em diagonal, junto a
uma pilha de brinquedos e através de uma arcada; ele estava
encostado a um pilar numa atitude ociosa, e fazendo as coisas mais
horríveis com o rosto! A mais horrível de todas era algo que ele
fazia com o nariz. Fazia aquilo na atitude de quem não tem nenhuma
tarefa para cumprir e está apenas se divertindo à toa. No começo o
nariz era pequeno, bulboso, mas de repente ele se projetava para
diante como um telescópio, e ia se alongando e se afinando até
tornar-se uma espécie de chicote vermelho e flexível. Parecia uma
coisa de pesadelo! Ele ficava fazendo floreios e atirando aquilo para
diante, como um pescador que atira a linha de sua vara.
Pensei de imediato que Gip não
deveria ver aquilo. Virei-me, e vi que ele estava completamente
entretido pelo lojista, sem imaginar nada desagradável. Os dois
conferenciavam em voz baixa e olhavam na minha direção. Gip estava
de pé sobre um banquinho, e o lojista segurava na mão uma espécie
de barril grande.
— Vamos brincar de esconder, pai! —
gritou Gip. — Você me procura!
E, antes que eu pudesse fazer qualquer
coisa para evitá-lo, o lojista o cobriu com o barril enorme. Percebi
de imediato o que aconteceria.
— Tire isso daí! — ordenei. —
Agora! Vai assustar o menino. Tire-o daí!
O homem das orelhas desiguais me
obedeceu sem dizer nada, e virou o barril na minha direção,
mostrando que não havia nada dentro. E o banquinho também estava
vazio! Bastara um segundo para meu filho desaparecer?...
Vocês conhecem, talvez, aquela
sensação sinistra quando alguma coisa como uma mão enorme brota de
um lugar desconhecido e aperta nosso coração. Sabem, portanto, que
aquilo afasta de cena o Eu normal de um indivíduo e o deixa tenso,
decidido, nem lento nem apressado, nem enfurecido nem com medo. Foi o
que aconteceu comigo.
Fui na direção do lojista e dei um
chute no banquinho, jogando-o para longe.
— Pare com essa palhaçada —
disse. — Onde está meu filho?
— Está vendo? — disse ele, ainda
mostrando o interior do barril. — Não há ilusão alguma...
Estendi a mão para agarrá-lo pela
lapela, mas ele se esquivou, com um movimento ágil. Tentei de novo,
e ele voltou a me evitar, e abriu uma porta para fugir.
— Pare! — gritei, e ele recuou,
rindo. Saltei para agarrá-lo, e mergulhei na escuridão.
Thud!
— Meu Deus! Desculpe, senhor, não
vi que estava aí!
Eu estava em Regent Street, e tinha
acabado de esbarrar num operário, um homem de aparência decente; e
a um metro de distância, talvez, e também numa atitude perplexa,
estava Gip. Houve um rápido pedido de desculpas, e Gip virou-se para
mim com um sorriso radiante, como se por alguns instantes tivesse me
perdido de vista.
E carregava quatro pacotes embaixo do
braço!
Imediatamente apossou-se do meu dedo.
Por um segundo fiquei completamente
perdido. Olhei em redor à procura da porta da lojinha, e vejam só,
não havia porta nenhuma ali! Nenhuma loja, nada, apenas uma pilastra
comum separando a loja de fotografias e a loja com os pintos e as
incubadoras!...
Fiz a única coisa que me foi possível
no meio daquele tumulto mental. Fui direto até a beira da calçada e
ergui meu guarda-chuva, chamando um cabriolé.
— Vamos de carro! — exclamou Gip,
no auge da exultação.
Ajudei-o a subir; com algum esforço
lembrei-me do meu endereço para informar o cocheiro, e acomodei-me.
Alguma coisa inesperada proclamava sua presença no bolso do meu
casaco; extraí dele uma bola de vidro. Com um trejeito petulante,
joguei-a pela janela do carro.
Gip não disse nada.
Durante algum tempo nenhum de nós
falou.
— Pai! — disse ele daí a pouco. —
Aquela, sim, é que era uma loja!
Aquilo me serviu de deixa para começar
a examinar de que maneira ele tinha visto todo o episódio. Ele me
parecia ileso, e até aí, tudo bem; não estava assustado nem
desorientado, estava, sim, tremendamente satisfeito com as aventuras
daquela tarde, e trazia quatro pacotes apertados de encontro ao
peito.
Que diabos! O que poderia haver dentro
deles?
— Hmmm... — falei. — Garotos não
podem ir todos os dias a uma loja como aquela.
Ele recebeu isto com seu estoicismo
habitual, e por um momento lamentei ser seu pai e não sua mãe, e
não poder naquele mesmo instante, na rua, dentro do carro, dar-lhe
um beijo. Afinal, pensei, a coisa não tinha sido tão grave.
Mas foi somente quando começamos a
abrir os pacotes que me senti mais seguro. Três deles continham
caixas de soldados, soldadinhos de chumbo bem comuns, mas de tão boa
qualidade que Gip logo esqueceu terem sido eles, originalmente, parte
de um truque mágico do tipo mais genuíno; e o quarto pacote
continha um gatinho, um pequeno gatinho branco, vivo, com excelente
saúde, excelente temperamento e um notável apetite.
Acompanhei a abertura dos pacotes com
um alívio provisório, e fiquei por ali, pelo quarto do garoto,
durante um tempo maior que o normal.
Isto aconteceu há seis meses. E agora
estou começando a acreditar que tudo está bem. O gatinho tinha
apenas a mágica natural de todos os gatos, e os soldados formam uma
companhia tão confiável quanto a que qualquer coronel poderia
desejar. E Gip?
Os pais mais inteligentes devem
compreender que com Gip tenho que usar bastante cuidado.
O máximo que consegui, certo dia, foi
isto. Falei:
— Não gostaria que seus soldados
ficassem vivos, Gip, e pudessem marchar sozinhos?
— Os meus fazem isso — disse ele.
— Basta que eu diga uma palavra que sei, antes de abrir a caixa.
— E então eles marcham sozinhos por
aí?
— Oh, claro, pai. Eu não ia gostar
se não fosse assim.
Não externei nenhuma surpresa
inadequada, e desde então já por uma ou duas vezes me aproximei
dele, sem avisar, enquanto brincava com os soldadinhos, mas não os
vi se comportar magicamente.
É tão difícil perceber.
Há também a questão financeira.
Tenho o hábito incurável de pagar minhas contas. Tenho percorrido
Regent Street de cima a baixo, várias vezes, procurando a loja.
Estou inclinado a considerar que, da minha parte, minha obrigação
está cumprida, e, já que o nome e o endereço de Gip são
conhecidos, posso deixar que essas pessoas, sejam elas quem forem,
nos enviem a conta de acordo com a sua conveniência.
H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias
Forças ocultas
Um homem deposita a semente num útero
e se ausenta. Depois, outra causa assume, trabalha nela e gera uma
criança. Que fenômeno gerado a partir de tal material!
A criança engole o alimento. Em
seguida, uma causa o conduz e provoca a percepção, o impulso, a
vitalidade, a força e muito mais. Quantos fenômenos estranhos!
Observe as forças ocultas que os
produzem tal como observa aquela que eleva e abaixa os objetos: sem
os olhos, porém não sem clareza.
Marco Aurélio, em Meditações
"Um outro pode ser a gente, mas a gente não pode ser um outro, nem convém..."
[…]
Ao que, numa tarde, seo Ornelas ―
segundo seu contar ― proseava nas entradas da cidade, em roda com o
dr. Hilário mais outros dois ou três senhores, e o soldado
ordenança, que à paisana estava. De repente, veio vindo um homem,
viajor. Um capiau a pé, sem assinalamento nenhum, e que tinha um pau
comprido num ombro! com um saco quase vazio pendurado da ponta do
pau. ― ...Semelhasse que esse homem devia de estar chegando da
Queimada Grande, ou da Sambaíba. Nele não se via fama de crime nem
vontade de proezas. Sendo que mesmo a miseriazinha dele era trivial
no bem-composta... Seo Ornelas departia pouco em descrições: ―
...Aí, pois, apareceu aquele homenzém, com o saco mal-cheio
estabelecido na ponta do pau, do ombro, e se aproximou para os da
roda, suplicou informação: ― O qual é que é, aqui, mò que
pergunte, por osséquio, o senhor doutor delegado? ― ele
extorquiu. Mas, antes que um outro desse resposta, o dr. Hilário
mesmo indicou um Aduarte Antoniano, que estava lá ― o sujeito mau,
agarrado na ganância e falado de ser muito traiçoeiro. ― O
doutor é este, amigo... ― o dr. Hilário, para se rir,
falsificou. Apre, ei ― e nisso já o homem, com insensata rapidez,
desempecilhou o pau do saco, e desceu o dito na cabeça do Aduarte
Antoniano ― que nem fizesse questão de aleijar ou matar... A
trapalhada: o homenzinho logo sojigado preso, e o Aduarte Antoniano
socorrido, com o melór e sangue num quebrado na cabeça, mas sem a
gravidade maior. Ante o que, o dr. Hilário, apreciador dos exemplos,
só me disse: ― Pouco se vive, e muito se vê... Reperguntei
qual era o mote. ― Um outro pode ser a gente, mas a gente não
pode ser um outro, nem convém... ― o dr. Hilário completou.
Acho que esta foi uma das passagens mais instrutivas e divertidas que
em até hoje eu presenciei...
Tal, e outras, contou o seo Ornelas,
senhor de prosa muito renovada. Pelo que, por todo o seroar, deixei
com ele a mão; ainda que às vezes eu ficasse em dúvida: se
competia, sendo eu um chefe, aturar que um outro fiasse e tecesse,
guiando a fala. E também, com o tardio da noite, veio a hora de se
desapear da mesa, e eu teimei em rejeitar oferta de cama em catre em
quarto ou sala, mas fui fora, caçar o meio da minha gente; por sinal
que armei rede por entre cajueiro e jenipapeiro, perto dos currais,
e, para o segundo sono, mudei de rearmar, de faveira para faveira, lá
para dentro duma cerca. Mas, na mesa, aquele menino Guirigó, na
senvergonhice inocente de sua pouca geração, tinha adormecido
completo antecipadamente, eu consenti que as mulheres carregassem o
coitadinho diabinho, pesado como um de maioridade, e levassem para
dormir sei lá onde, por entre colchão e lençol. A vida inventa! A
gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o
poder de continuação ― porque a vida é mutirão de todos, por
todos remexida e temperada. Assim eu tinha trazido o pretinho
Guirigó, do Sucruiú, e agora ele estava indo para se deitar no
limpo e fofo, nos braços das jovens e donzelas carregado. Somente
que, inteirado no sono, ele mesmo disso não soubesse, nem
aproveitasse, do que em sua existência dele era que estava se
sucedendo. ― A pois, boa noite o senhor tenha, Chefe, com um
aprazível amanhecer... ― assim seo Ornelas me saudou. Ao que eu,
regozijado e bem servido, retribuí a ele, quase com aquelas mesmas
palavras.
As partes, que se deram ou não se
deram, ali na Barbaranha, eu aplico, não por vezo meu de dar
delongas e empalhar o tempo maior do senhor como meu ouvinte. Mas só
porque o compadre meu Quelemém deduziu que os fatos daquela éra
faziam significado de muita importância em minha vida verdadeira, e
entradamente o caso relatado pelo seo Ornelas, que com a lição
solerte do dr. Hilário se tinha formado. Aí, narro. O senhor me
releve e suponha.
No outro dia, acordei com a boca
amarga e doce, e o través de baixar alguma ordem comandando; esse
dia com essa noite não se pertencia. Achamos, de recrutagem, os
cavalos que pudemos ― o que foram os dez, os burros e mulas também
contados. O seo Ornelas honrava os atos. Além do que quis que eu
falhasse, para a festa, com o meu povo; mas achei mais sobressaído
ir mesmo embora, exato. Semeei para trás de mim o bom ensejo, para
poder ser de vir a colher, mais para diante, outros assim tão bons e
melhores. Sincero o dito, a gente agradeceu, subindo todos em selas,
e a limpo seguimos ― a manhã ainda com diversas claridades. Seo
Ornelas externou as despedidas, com o xtotó de foguetes, conforme se
lembrou de mandar começar a soltação, cujos por bem uma
meia-dúzia. O pessoal deu vivas, gloriando o mastro com a bandeira
do santo. Ao que, pelo mais, puxei em frente, pondo meu cavalo: com
espora, rédea e pernas. Deciso.
Rompemos umas duas léguas, em
estradas de muita areia. Mas eu já estava agastado. O que nesta vida
muda com mais presteza: é lufo de noruega, caminhos de anta em
setembro e outubro, e negócios dos sentimentos da gente. Assim, de
repente, eu achei: que a conversa com aquele seo Ornelas tinha me
rebaixado. Aos poucos eu tivesse perdido a vigiação de minha
alçada, no acaso da presença dele, debaixo daqueles telhados. A
opinião das outras pessoas vai se escorrendo delas, sorrateira, e se
mescla aos tantos, mesmo sem a gente saber, com a maneira da ideia da
gente! Se sério, então, um tinha de apertar os dentes, drede em
amouco, opor seus olhos. A cuspir para diante. Alguma instância, das
outras pessoas, pegava na gente, assim feito doença, com retardo.
Apartado de todos ― era a norma que me servia ― no sutil e no
trivial. A culpa minha, maior, era meu costume de curiosidades de
coração. Isso de estimar os outros, muito ligeiro, defeito esse que
me entorpecia. O tanto que, daí depois, essas pessoas andavam em
minha desilusão: de repente todos estavam endoidecendo... Do agravo,
como ia em pensar, achei asperezas até na goela; e o cuspe não
cabia em minha boca, salgado como um suadouro de cangalha. Aí então,
estou lembrado, vendo como vi o Alaripe de mim a curta distância ―
e que, em tudo comedido, guardava o balanceio brando no coxim da
sela, de vaqueiro de gado tangedor. Chamei para ele vir.
― Ah, o velho entregou os cavalos,
hem, Alaripe? Coração dele aguou... ― blasonei. ― ...Deu por
paz. Alaripe, ei, essa paz não te enjôa? ― Ah, é deveras... A
uns, é o que sucede...
― Mas a paz não é boa? Então,
como é que ela enjôa, assim mesmo? ― Natureza da gente, mal
completada... ― Tudo tu vê, Alaripe! eu acho que o enjôo da paz
será também algum outro medo da guerra... ― Pode que seja. ― E
mas só o medo da guerra é que vira valentia... ― Mal bem não
entendo, meu chefe, mas deve de ser... ― Pois não é? Só quando
se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põe
ponte...
Assaz essas coisas, eu inventava em
fala, para ter meus eixos, meus aços. A boca do boi quer sal ― o
sal do barro vermelho. Eu estava chamando umas bizarrias. Força
dessa minha maneira! eu estava pelo calor de tudo. E a gente ia indo,
aquela comprida cavalhada. Um ribeirão raso e estreito se passou ―
nem bem seis braças. Riacho desses que os que vão morrer chamam de
rio-Jordão. Todo o mundo passou, por tanto, diante de mim, eu
esbarrado em pé ― isto é, a cavalo.
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
A bravata
Z. M. sentia que a vida lhe fugia por
entre os dedos. Na sua humildade esquecia que ela mesma era fonte de
vida e de criação. Então saía pouco, não aceitava convites. Não
era mulher de perceber quando um homem estava interessado nela a
menos que ele o dissesse – então se surpreendia e aceitava.
De tarde – era primavera, primeiro
dia de primavera – foi visitar uma amiga que a pôs em brios. Como
então ela, uma mulher feita, era tão humilde? como é que não
percebia que vários homens a queriam? como não percebia que devia,
dentro de sua própria dignidade, ter um caso de amor? Disse ainda
que a vira entrar numa sala onde todos eram conhecidos. E por acaso
nenhum dos presentes chegava a seus pés. E no entanto entrou tímida
como ausente, como uma corça de cabeça baixa. “Você precisa
andar de cabeça levantada, você tem que sofrer porque você é
diferente, cosmicamente diferente, então aceite que você não pode
ter a vida burguesa, e entre numa sala com a cabeça levantada.”
“Mas entrar sozinha numa sala cheia de gente?” “Exatamente.
Você não precisa de companhia para ir, você mesma é bastante.”
Lembrou-se que no fim da tarde havia
uma espécie de coquetel para os professores primários, em férias.
Lembrou-se da atitude nova que desejava, não combinou a ida com
nenhum professor ou professora – arriscar-se-ia toda só. Vestiu um
vestido mais ou menos novo, mas a coragem não vinha. Então – só
o entendeu depois – pintou demais os olhos e demais a boca até que
seu rosto parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma
alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era
vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exatamente o que
ela não era. Mas na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria
exigindo demais de si mesma? Toda vestida, com uma máscara de
pintura no rosto – ah persona, como não te usar e enfim
ser! –, sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão
conhecida e seu coração pedia para ela não ir. Parecia que previa
que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o
cigarro-de-coragem, levantou-se e foi.
Pareceu-lhe que as torturas de uma
pessoa tímida jamais foram completamente descritas. No táxi que
rolava ela morria um pouco.
E ei-la de repente diante de um salão
enorme com talvez muitas pessoas, mas pareciam poucas dentro do
descomunal espaço onde se processava como um ritual moderno o
coquetel.
Quanto tempo suportou de cabeça
falsamente erguida? A máscara a incomodava, ela sabia ainda por cima
que era mais bonita sem pintura. Mas sem pintura seria a nudez da
alma. E ela não podia se arriscar nem se dar esse luxo.
Falava sorrindo com um, falava
sorrindo com outro. Mas como em todos os coquetéis, nesse era
impossível a conversa e quando ela viu estava de novo sozinha.
Viu um homem que tinha sido seu
amante. E ela pensou: por mais amor que este homem tenha recebido,
fui eu que lhe dei toda a minha alma e todo o meu corpo. Os dois se
olharam, perscrutaram-se, ele com certeza espantado com a máscara de
pintura. Não soube o que fazer senão perguntar-lhe se ele era seu
amigo, se podia ser. Ele disse que sim, para sempre.
Até que sentiu que não suportava
mais manter a cabeça de pé. Mas como atravessar a enorme extensão
até a porta? Sozinha, como uma fugitiva? Então em meias palavras
confessou seu drama a uma das professoras e ela levou-a pela enorme
extensão até a porta.
E no escuro da noite primaveril ela
era uma mulher infeliz. Sim, era diferente. Mas sim, era tímida.
Sim, era supersensível. Sim, vira um amor passado. O escuro e o
perfume da primavera. O coração do mundo batia-lhe no peito. Sempre
soubera sentir o cheiro da natureza. Achou finalmente um táxi onde
se sentou quase em lágrimas de alívio, lembrando-se que em Paris
lhe acontecera o mesmo porém pior ainda. Foi para casa como uma
foragida do mundo. Era inútil esconder: a verdade é que não sabia
viver. Em casa estava agasalhante, ela se olhou ao espelho quando
estava lavando as mãos e viu a persona afivelada no seu
rosto: a persona tinha um sorriso parado de palhaço. Então
lavou o rosto e com alívio estava de novo de alma nua. Tomou então
uma pílula para dormir. Antes que chegasse o sono, ficou alerta e se
prometeu que nunca mais se arriscaria sem proteção. A pílula de
dormir começava a apaziguá-la. E a noite incomensurável dos sonhos
começou.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Capítulo 31 – A Borboleta Preta
No dia seguinte, como eu estivesse a
preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão
negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da
véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no
susto que tivera e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A
borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na
testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu sacudisse
de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu
pai.
Era negra como a noite; e o gesto
brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um
certo ar escarninho, uma espécie de ironia mefistofélica, que me
aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá,
minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão
dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
Não caiu morta; ainda torcia o corpo
e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão
e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou
dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
– Também por que diabo não era ela
azul? disse eu comigo.
E esta reflexão, – uma das mais
profundas que se tem feito desde a invenção das borboletas, – me
consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me
estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso.
Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era
linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas
borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre
azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá
comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto,
o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo,
e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino,
uma estatura colossal. Então disse consigo: “Este é provavelmente
o inventor das borboletas.”
A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o
medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de
agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e ela beijou-me na
testa.
Quando enxotada por mim, foi pousar na
vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que
descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor
das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.
Pois um golpe de toalha rematou a
aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores,
nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois
palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas!
Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não
teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse
com um alfinete, para recreio dos olhos.
Não era. Esta última ideia
restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um
piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as
próvidas formigas...
Não, volto à primeira ideia; creio
que para ela era melhor ter nascido azul.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Um doutor formado
O pai morava no fim de um lugar.
Aqui é lacuna de gente — ele falou:
Só quase que tem bicho andorinha e
árvore.
Quem aperta o botão do amanhecer é o
arãquã.
Um dia apareceu por lá um doutor
formado: cheio
de suspensórios e ademanes.
Na beira dos brejos
gaviões-caranguejeiros comiam
caranguejos.
E era mesma a distância entre as rãs
e a relva.
A gente brincava com terra.
O doutor apareceu. Disse: Precisam de
tomar
anquilostomina.
Perto de nós sempre havia uma espera
de rolinhas.
O doutor espantou as rolinhas.
Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo
Diário de Bernardo Soares
89.
A única atitude digna de um homem
superior é o persistir tenaz de uma atividade que se reconhece
inútil, o hábito de uma disciplina que se sabe estéril, e o uso
fixo de normas de pensamento filosófico e metafísico cuja
importância se sente ser nula.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
O leitor simbólico
Anunciação (1333), de Simone Martini
Em 1929, no Hospice de Beaune, na
França, o fotógrafo húngaro André Kertész, que se exercitara em
sua arte durante o serviço militar no exército austro-húngaro,
fotografou uma mulher velha sentada na cama, lendo. Trata-se de uma
composição perfeitamente enquadrada. No centro, enrolada em um xale
preto, está a pequenina mulher, tendo a na cabeça uma touca de
dormir preta que inesperadamente revela os cabelos presos na parte
posterior da cabeça; travesseiros brancos servem-lhe de encosto e
uma colcha branca cobre-lhe os pés. Em torno e atrás dela, cortinas
brancas pregueadas descem entre as colunas escuras da cama, de
desenho gótico. Uma inspeção mais atenta revela, na moldura
superior da cama, uma pequena placa com o número 19, uma corda com
nós pendendo do teto da cama (para chamar por auxílio? para puxar a
cortina da frente?) e uma mesa de cabeceira sobre a qual estão uma
caixa, uma jarra e um copo. No chão, sob a mesa, encontra-se uma
bacia de estanho. Vimos tudo? Não. A mulher está lendo, segurando
um livro aberto a uma certa distância dos olhos obviamente ainda
agudos. Mas o que ela está lendo? Porque se trata de uma
velha senhora, porque está na cama, porque a cama está num lar para
gente idosa em Beaune, no coração da Borgonha católica, achamos
possível adivinhar a natureza de seu livro: um volume religioso, um
compêndio de sermões? Se assim fosse – o exame com uma lente de
aumento não nos diz nada –, a imagem seria de algum modo coerente,
completa, o livro definindo a leitora e identificando a cama como um
lugar espiritualmente tranquilo.
Mas e se descobríssemos que o livro
era na verdade outra coisa? Se, por exemplo, ela estivesse lendo
Racine, Corneil e – uma leitora sofisticada, culta – ou, mais
surpreendente ainda, Voltaire? E se o livro fosse o Les enfants
terribles de Cocteau, aquele romance escandaloso da vida
burguesa, publicado no mesmo ano em que Kertész tirou a fotografia?
De repente, a velha senhora banal não é mais banal: ela se torna,
mediante o simples ato de segurar um determinado livro em vez de
outro, uma questionadora, um espírito inflamado de curiosidade, uma
rebelde.
Sentada diante de mim no metrô de
Toronto, uma mulher está lendo a edição Penguin de Labirintos,
de Borges. Eu quero chamá-la, quero acenar-lhe, sinalizar que também
sou daquela religião. Ela, cuja face esqueci, cujas roupas mal
notei, jovem ou velha, não sei dizer, está mais próxima de mim,
pelo mero ato de segurar aquele determinado livro nas mãos, do que
muitas outras pessoas que vejo diariamente. Uma prima minha de Buenos
Aires tinha profunda consciência de que os livros funcionam como
insígnia, como sinal de aliança, e, ao escolher um livro para levar
consigo em suas viagens, fazia-o sempre com o mesmo cuidado com que
escolhia a mala de mão. Não viajava com Romain Rolland, porque
achava que pareceria muito pretensiosa, nem com Agatha Christie,
porque pareceria vulgar demais. Camus era apropriado para uma viagem
curta, Cronin para uma longa; um romance policial de Vera Caspary ou
Ellery Queen era aceitável para um fim de semana no campo; um
romance de Graham Greene era adequado a viagens de avião ou navio.
A associação de livros com seus
leitores é diferente de qualquer outra entre objetos e seus
usuários. Ferramentas, móveis, roupas, tudo tem uma função
simbólica, mas os livros infligem a seus leitores um simbolismo
muito mais complexo do que o de um mero utensílio. A simples posse
de livros implica uma posição social e uma certa riqueza
intelectual. Na Rússia do século XVIII, durante o reinado de
Catarina, a Grande, um certo sr. Klostermann fez fortuna vendendo
longas fileiras de encadernações recheadas de papel velho, o que
permitia aos cortesãos criar a ilusão de uma biblioteca e assim
obter o favor de sua imperatriz letrada. Em nossos dias, os
decoradores enchem paredes com metros e metros de livros para dar ao
ambiente uma atmosfera “sofisticada” ou oferecem papel de parede
que cria a ilusão de uma biblioteca; os produtores de programas de
entrevistas na televisão acreditam que um fundo de estantes de
livros acrescenta um toque de inteligência ao cenário. Nesses
casos, a noção geral de livros é suficiente para denotar
atividades elevadas, da mesma forma que mobília de veludo vermelho
acaba sugerindo prazeres sensuais. Tão importante é o simbolismo do
livro que sua presença ou ausência pode, aos olhos do observador,
dar ou tirar poder intelectual a uma personagem.
No ano de 1333, o pintor Simone
Martini terminou uma Anunciação para o painel central de um altar
do Duomo de Siena o primeiro altar ocidental ainda existente dedicado
a esse tema. A cena está circunscrita por três arcos góticos: um
mais alto, no centro, contendo uma formação de anjos em ouro
escuro, em torno do Espírito Santo em forma de pomba, e um arco
menor de cada lado. Sob o arco à esquerda do observador, um anjo
ajoelhado, com vestes bordadas, segura um ramo de oliveira na mão
esquerda; ele ergue o dedo indicador da mão direita para denotar
silêncio, com o gesto retórico comum na estatuária romana e grega
antiga. Sob o arco da direita, num trono dourado incrustado de
marfim, senta-se a Virgem, com um manto púrpura franjado de ouro. Ao
lado dela, no meio do painel, encontra-se um vaso de lírios. A flor
imaculadamente branca, com seus rebentos assexuados e sem estames,
servia de emblema perfeito para Maria, cuja pureza são Bernardo
comparou à “inviolável castidade do lírio”. O lírio, a
flor-de-lis, era também o símbolo da cidade de Florença e, mais
para o final da Idade Média, substituiu o cajado de arauto levado
pelo anjo nas Anunciações florentinas. Os pintores sienenses,
arqui-inimigos dos florentinos, não podiam apagar por completo a
flor-de-lis tradicional das representações da Virgem, mas não
homenageariam Florença permitindo que o anjo carregasse a flor da
cidade. Portanto, o anjo de Martini carrega apenas um ramo de
oliveira, a planta simbólica de Siena.
Para alguém da época de Martíni,
cada objeto e cada cor da pintura tinham um significado específico.
Embora o azul tenha se tornado depois a cor da Virgem (a cor do amor
celestial, a cor da verdade vista depois que as nuvens se
dispersaram), a púrpura, cor da autoridade e também da dor e da
penitência, constituía, no tempo de Martini, um lembrete das
futuras provações da Virgem. Num relato popular do período inicial
de sua vida no apócrifo Protoevangelion de Tiago Menor, do
século II (um notável sucesso durante toda a Idade Média, com o
qual o público de Martini estaria familiarizado), conta-se que o
conselho de sacerdotes exigiu um novo véu para o templo.
Escolheram-se sete virgens imaculadas da tribo de Davi e tirou-se a
sorte para ver quem iria fiar a lã para cada uma das sete cores
exigidas; a cor púrpura caiu para Maria. Antes de começar a fiar,
ela foi ao poço para pegar água e ali ouviu uma voz, que lhe disse:
“Derrama tua arte cheia de graça, o Senhor está contigo; tu és
abençoada entre as mulheres”. Maria olhou para a direita e para a
esquerda (observa o proto-evangelista, com um toque de autor de
romance), não viu ninguém e, tremendo, entrou em casa e sentou-se
para trabalhar na lã púrpura. “E eis que o anjo do Senhor veio a
ela e disse: Não temas, Maria, pois tu encontraste favor aos olhos
de Deus.” Assim, antes de Martini, o anjo anunciador, o tecido
púrpura e o lírio representando cada um a aceitação da palavra de
Deus, a aceitação do sofrimento e a virgindade imaculada –
marcavam as qualidades pelas quais a Igreja cristã queria que Maria
fosse cultuada. Então, em 1333, Martini pôs um livro nas mãos
dela.
Na iconografia cristã, o livro ou
rolo pertencia tradicionalmente à divindade masculina, ao Deus Pai
ou ao Cristo triunfante, o novo Adão, em quem a palavra de Deus se
fez carne.
O livro era o repositório da lei de
Deus; quando o governador da África romana perguntou a um grupo de
prisioneiros cristãos o que haviam trazido consigo para se defender
no tribunal, eles responderam: “Textos de Paulo, um homem justo”.
O livro também conferia autoridade intelectual, e, desde as
primeiras representações, Cristo foi pintado com frequência
exercendo a função rabínica de professor, intérprete, erudito,
leitor. A mulher pertencia o Filho, afirmando seu papel de mãe.
Nem todos concordavam. Dois séculos
antes de Martini, Pedro Abelardo, o cônego de Notre Dame de Paris
que fora castrado como punição por seduzir sua pupila Heloísa,
iniciou com a antiga amada, agora abadessa do Paracleto, uma
correspondência que se tornaria famosa. Nessas cartas, Abelardo, que
fora condenado pelos concílios de Sens e Soissons e proibido de
ensinar ou escrever pelo papa Inocêncio II, sugeria que as mulheres
estavam de fato mais próximas de Cristo do que qualquer homem. A
obsessão masculina por guerra, violência, honra e poder, Abelardo
contrapunha o refinamento da alma e da inteligência na mulher,
"capaz de conversar com Deus, o Espírito, no reino interior da
alma em termos de amizade íntima". Uma contemporânea de
Abelardo, a abadessa Hildegard de Bingen, uma das maiores figuras
intelectuais de seu século, sustentava que a debilidade da Igreja
era uma debilidade masculina e que as mulheres deveriam usar a força
de seu sexo naquele tempus muliebre, naquela Idade da Mulher.
Mas a hostilidade arraigada contra as
mulheres não seria superada com facilidade. A advertência de Deus a
Eva no Gênesís 3:16 foi usada repetidamente para pregar as virtudes
da docilidade e brandura feminina: “teus desejos te impelirão para
teu marido e tu estarás sob o seu domínio”. “A mulher foi
criada para ser a companheira e ajudante do homem”, parafraseou
santo Tomás de Aquino. Na época de Martini, são Bernardino de
Siena, talvez o pregador mais popular de seu tempo, viu em Maria de
Martini não alguém que tivesse intimidade com Deus, o Espírito,
mas um exemplo de mulher submissa e cumpridora dos deveres. Escreveu
ele sobre a pintura: “Parece-me com certeza a mais bela, a mais
reverente, a mais modesta pose que jamais se viu numa Anunciação.
Vê-se que ela não olha para o anjo, mas está sentada numa postura
quase amedrontada. Ela sabia muito bem que era um anjo, então por
que ficaria perturbada? O que faria ela se fosse um homem? Tomem-na
como exemplo, meninas, do que devem fazer. Jamais falem com um homem,
exceto se seu pai ou sua mãe estiver presente”.
Nesse contexto, associar Maria com
poder intelectual era um ato temerário. Na introdução a um livro
escolar escrito para seus alunos em Paris, Abelardo deixou claro o
valor da curiosidade intelectual: “Duvidando chegamos a questionar,
e questionando aprendemos a verdade”. O poder intelectual vinha da
curiosidade, mas para os detratores de Abelardo – cujas vozes
misóginas são Bernardino ecoava – a curiosidade, especialmente
nas mulheres, era um pecado, o pecado que levara Eva a provar do
fruto proibido do conhecimento. A inocência virginal das mulheres
deveria ser preservada a qualquer custo.
Na concepção de são Bernardino, a
educação era o resultado perigoso da curiosidade – e sua causa
maior Como vimos, a maioria das mulheres de todo o século XIV – na
verdade de toda a Idade Média – eram educadas até o ponto em que
isso fosse útil ao lar dos homens. Dependendo da posição social
que ocupavam, as jovens que Martini conhecia recebiam pouco ou nenhum
ensinamento intelectual. Se crescessem numa família aristocrática,
seriam treinadas para ser damas de companhia ou ensinadas a dirigir
uma propriedade, atividade que exigia delas apenas uma instrução
rudimentar em leitura e escrita, embora algumas se tornassem bastante
letradas. Se pertencessem à classe mercantil, desenvolveriam alguma
habilidade nos negócios, e nesse caso era essencial um pouco de
leitura, escrita e matemática. Comerciantes e artesãos às vezes
ensinavam suas artes às filhas, que esperavam transformar em
assistentes sem salário. Os filhos dos camponeses de ambos os sexos
não costumavam receber nenhuma instrução. Nas ordens religiosas,
as mulheres às vezes exerciam atividades intelectuais, mas o faziam
sob a constante censura de seus superiores religiosos masculinos. Na
medida em que as escolas e universidades estavam, em sua maioria,
fechadas às mulheres, o florescimento artístico e intelectual do
final do século XII ao século XIV esteve centrado nos homens! As
mulheres cujas obras notáveis emergiram nessa época – com
Hildegard de Bingen, Juliana de Norwich, Cristina de Pisa e Maria da
França venceram contra todas as probabilidades.
Nesse contexto, a Maria de Martini
pede um segundo olhar, menos superficial. Ela está sentada de
maneira desajeitada, com a mão direita apertando o manto junto ao
pescoço, virando o corpo na direção oposta da estranha presença,
os olhos fixos não nos olhos angélicos, mas (ao contrário da
descrição preconcebida de são Bernardino) nos lábios de anjo. As
palavras que ele pronuncia fluem de sua boca para o olhar de Maria,
escritas em grandes letras de ouro; Maria não apenas ouve, mas vê a
Anunciação. Sua mão esquerda segura o livro que estava lendo
mantendo-o aberto com o polegar. É um volume de bom tamanho,
provavelmente um in-octavo, encadernado em vermelho.
Mas que livro é esse?
Vinte anos antes de Martini terminar
sua pintura, Giotto dera à Maria de sua Anunciação um pequeno
livro de horas azul, num dos afrescos que fez para a capela Arena, em
Pádua. A partir do século XIII o livro de horas (concebido
aparentemente por Bento de Aniano no século VIII, e como um
suplemento do oficio canônico) foi o livro de orações particular
dos ricos, e sua popularidade continuou até os séculos XV e XVI –
como se vê em numerosas representações da Anunciação, nas quais
a Virgem é mostrada lendo seu livro de horas, como se fora uma dama
real ou aristocrática. Em muitos lares mais abastados, o livro de
horas era o único existente, e mães e amas usavam-no para ensinar
as crianças a ler.
É possível que a Maria de Martini
esteja simplesmente lendo um livro de horas. Mas poderia ser outro
livro. De acordo com a tradição que via no Novo Testamento a
realização das profecias feitas no Velho – uma crença comum na
época de Martini , Maria teria consciência, após a Anunciação,
de que os eventos de sua vida e da vida de seu Filho haviam sido
previstos em Isaías e nos assim chamados Livros Sapienciais da
Bíblia: Provérbios, Jó e Eclesiastes, e dois livros dos Apócrifos,
A sabedoria de Jesus, filho de Sirach e A sabedoria de
Salomão. Na espécie de paralelismo literário que deliciava as
plateias medievais, a Maria de Martini poderia estar lendo, logo
antes da chegada do anjo, o capítulo de Isaías que anuncia o
destino dela: “Que a Virgem conceba e dê à luz um filho, e o
chame Emanuel”.
Mas é ainda mais iluminador presumir
que a Maria de Martini está lendo os Livros Sapienciais.
No nono capítulo do Livro dos
Provérbios, a Sabedoria é representada como uma mulher que
“edificou sua casa, levantou sete colunas: [...] Enviou servos,
para que anunciassem nos pontos mais elevados da cidade: Quem for
simples apresente-se! Aos insensatos ela disse: Vinde comer o meu pão
e beber o vinho que preparei". E em duas outras seções dos
Provérbios, a Senhora Sabedoria é descrita como tendo origem em
Deus. Por meio dela, Ele criou a terra (3:19) no começo de todas as
coisas: “Desde a eternidade fui constituída, antes de suas obras
dos tempos antigos” (8:23). Séculos depois, o rabino de Lublin
explicava que a Sabedoria era chamada de Mãe porque, “quando um
homem confessa e se arrepende, quando seu coração aceita a
Compreensão e é convertido por ela, ele se torna como uma criança
recém-nascida e sua volta para Deus é como a volta para sua mãe”.
A Senhora Sabedoria é a protagonista
de um dos livros mais populares do século XV, L'orloge de
Sapience [A ampulheta da Sabedoria], escrito em francês (ou
traduzido para) em 1389 por um frade franciscano da Lorena, Henri
Suso. Em algum momento entre 1455 e 1460, um artista conhecido por
nós como Mestre de Jean Rolin criou para o livro uma série de
requintadas iluminuras. Uma dessas miniaturas representa a Sabedoria
sentada em seu trono, cercada por uma guirlanda de anjos escarlates,
segurando na mão esquerda o globo do mundo e na direita, um livro
aberto. Acima dela, em ambos os lados, anjos maiores ajoelham-se num
céu estrelado; abaixo dela, à direita, cinco monges discutem dois
tomos escolares abertos diante deles; à sua esquerda, com um livro
aberto sobre um atril drapejado, um doador coroado está rezando para
ela. A posição da Sabedoria é idêntica à de Deus Pai, que está
sentado num trono dourado exatamente igual em outras incontáveis
iluminuras, em geral como peça de acompanhamento da Crucificação,
segurando um orbe na mão esquerda e um livro na direita, cercado por
anjos ardentes semelhantes.
Carl Jung, associando Maria ao
conceito cristão oriental da Sofia, ou Sabedoria, sugeriu que
Sofia-Maria “revela-se aos homens como uma amistosa ajudante e
advogada contra Jeová, e mostra a eles o lado luminoso, o aspecto
generoso, justo e amigável de seu Deus”. Sofia, a Senhora
Sabedoria dos Provérbios de Orloge de Suso, derivam da antiga
tradição da Deusa-Mãe cujas imagens esculpidas, as assim chamadas
estatuetas de Vênus, encontram-se em toda a Europa e Norte da
África, datando de 25000 a 15000 a.C., e, no resto do mundo, em
épocas posteriores. Quando espanhóis e portugueses chegaram ao Novo
Mundo levando espadas e cruzes, os astecas e os incas (entre outros
povos nativos) transferiram suas crenças em várias divindades
terra-mãe, como Tonantzin e Pacha Mama, para um Cristo andrógino
ainda evidente na arte religiosa latino-americana atual.
Por volta do ano 500, Clóvis, rei dos
francos, depois de se converter ao cristianismo e reforçar o papel
da Igreja, baniu a adoração da deusa da Sabedoria sob suas diversas
formas – Diana, Ísis, Atena – e fechou o último dos templos
dedicados a ela. A decisão de Clóvis seguia ao pé da letra a
declaração de são Paulo (I Coríntios 1:24) segundo a qual somente
Cristo é “a sabedoria de Deus”. O atributo da sabedoria, então
usurpado da divindade feminina, passou a ser exemplificado com a
vasta e antiga iconografia que representa Cristo com livros. Cerca de
25 anos depois da morte de Clóvis, o imperador Justiniano compareceu
à consagração da recém-terminada catedral de Constantinopla,
Hagia Sofia (Santa Sabedoria), uma das maiores estruturas construídas
pelo homem na Antiguidade. Ali, reza a tradição, ele exclamou:
“Salomão, superei-te!”. Nenhum dos famosos mosaicos de Hagia
Sofia – nem mesmo a majestosa Virgem Entronada de 867 – concede a
Maria um livro. Mesmo em seu próprio templo, a Sabedoria permaneceu
subserviente.
Contra esse pano de fundo histórico,
a representação de Maria por Martini como herdeira - talvez como
encarnação - da Santa Sabedoria pode ser considerada um esforço
para restaurar o poder intelectual negado à divindade feminina. O
livro que Maria segura na pintura de Martini, cujo texto está
escondido de nós e cujo título só podemos adivinhar, poderia
sugerir o último murmúrio da deusa destronada, uma deusa mais velha
que a história, silenciada por uma sociedade que escolheu fazer seu
deus à imagem do homem.
Subitamente, sob essa luz, a
Anunciação de Martini torna-se subversiva.
Sabe-se pouco da vida de Simone
Martini. É provável que fosse discípulo de Duccio di Buoninsegna,
o pai da pintura sienense; a primeira obra datada de Martini, sua
Maestà, de 1315, baseia-se no modelo de Duccio. Trabalhou em
Pisa, Assis e, evidentemente, Siena, e em 1340 mudou-se para Avignon,
para a corte papal, onde dois afrescos em ruínas no portal da
catedral são tudo o que resta de sua obra. Não sabemos nada de sua
formação, de suas influências intelectuais, das discussões que
possa ter mantido sobre mulheres e poder, sobre a Mãe de Deus e
Nossa Senhora da Sabedoria, mas, no livro encadernado de vermelho que
pintou em algum momento do ano de 1333 para a catedral de Siena,
talvez tenha deixado uma pista para essas questões e, possivelmente,
uma declaração.
A Anunciação de Martini foi
copiada pelo menos sete vezes. Tecnicamente - ofereceu aos pintores
uma alternativa para o realismo sóbrio apresentado por Giotto em sua
Anunciação de Pádua; filosoficamente, pode ter ampliado o
escopo da leitura de Maria do pequenino livro de horas de Giotto para
um compêndio teológico inteiro com raízes nas crenças primitivas
na sabedoria da deusa. Em representações posteriores de Maria, o
Menino Jesus amarrota ou rasga uma página do livro que ela está
lendo, indicando sua superioridade intelectual. O gesto do Filho
representa o Novo Testamento trazido por Cristo, substituindo o
Velho, mas aos observadores do final da Idade Média, para quem a
relação de Maria com os Livros Sapienciais talvez ainda fosse
clara, a imagem servia também como um lembrete do ditado misógino
de são Paulo.
Sei que, para mim, ver alguém lendo
cria em minha mente uma curiosa metonímia na qual a identidade do
leitor é colorida pelo livro e pelo cenário em que ele está sendo
lido.
Parece apropriado que Alexandre, o
Grande, que compartilha na imaginação popular a paisagem mítica
dos heróis de Homero, sempre carregasse consigo um exemplar da
Ilíada e da Odisseia. Eu adoraria saber qual era o
livro que Hamlet tinha nas mãos quando desprezou a pergunta de
Polônio – “O que lês, meu senhor?” – com esta resposta:
“Palavras, palavras, palavras”. Aquele título esquivo poderia me
dizer um pouco mais sobre a personagem nebulosa do príncipe. O
sacerdote que salvou Tirant lo Blanc de Joan Martorel da pira
a que ele e o barbeiro haviam destinado a biblioteca enlouquecedora
de dom Quixote resgatou para as futuras gerações uma extraordinária
novela de cavalaria; ao saber exatamente qual livro dom
Quixote estava lendo, podemos compreender um pouco do mundo que
fascinava o cavaleiro da triste figura – uma leitura através da
qual nós também podemos nos tornar, por um momento, dom Quixote.
Às vezes o processo é invertido, e o
conhecimento do leitor afeta nossa opinião a respeito de um livro:
“Costumava lê-lo à luz de velas ou da lua, com a ajuda de uma
enorme lupa”, disse Adolf Hitler sobre o escritor de histórias de
aventuras Karl May, condenando assim o autor de romances de faroeste
como O tesouro do lago prateado ao destino de Richard Wagner,
cuja música durante muito tempo não foi tocada em público em
Israel porque Hitler a elogiara.
Durante os primeiros meses da fatwa
contra Salman Rushdie, quando se tornou de conhecimento público que
um autor fora ameaçado de morte por ter escrito um romance, John
Innes, repórter da televisão americana, aparecia com um exemplar de
Versos satânicos sempre que fazia um de seus comentários sobre
assuntos variados. Não se referia em momento algum ao livro, a
Rushdie ou ao aiatolá, mas a presença do romance junto ao seu
cotovelo indicava a solidariedade de um leitor com o destino do livro
e de seu autor.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
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