sábado, 3 de janeiro de 2026
Diário de Bernardo Soares
83.
Remoinhos, redemoinhos, na futilidade
fluida da vida! Na grande praça ao centro da cidade, a água
sobriamente multicolor da gente passa, desvia-se, faz poças, abre-se
em riachos, junta-se em ribeiros. Os meus olhos veem desatentamente,
e construo em mim essa imagem áquea que, melhor que qualquer outra,
e porque pensei que viria chuva, se ajusta a este incerto movimentos.
Ao escrever esta última frase, que
para mim exatamente diz o que define, pensei que seria útil pôr no
fim do meu livro, quando o publicar, abaixo das "Errata"
umas "Não-Errata", e dizer: a frase "a este incerto
movimentos", na página tal, é assim mesmo, com as vozes
adjetivas no singular e o substantivo no plural. Mas que tem isto com
aquilo em que estava pensando? Nada, e por isso me deixo pensá-lo.
À roda dos meios da praça, como
caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que uma criança
espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro,
os carros elétricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro
alto. À roda da estátua central as pombas são migalhas pretas que
se mexem, como se lhes desse um vento espalhador. Dão passinhos,
gordas sobre pés pequenos. E são sombras, sombras...
Vista de perto; toda a gente é
monotonamente diversa. Dizia Vieira que Frei Luís de Sousa escrevia
“o comum com singularidade”. Esta gente é singular com
comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo isto me
faz pena, sendo-me todavia indiferente. Vim parar aqui sem razão,
como tudo na vida.
Do lado do oriente, entrevista, a
cidade ergue-se quase a prumo falso, assalta estaticamente o Castelo.
O sol pálido molha de um aureolar vago essa mole súbita de casas
que para aqui o oculta. O céu é de um azul humidamente
esbranquiçado. A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais
branda. O vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente,
cheira vagamente ao maduro e verde do mercado próximo. Do lado
oriental da Praça há mais forasteiros que do outro. Como descargas
alcatifadas, as portas onduladas descem para cima; não sei porquê,
é assim a frase que me transmite aquele som. É talvez porque fazem
mais esse som ao descer, porém agora sobem. Tudo se explica.
De repente estou só no mundo. Vejo
tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é
estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda
a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta.
Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu
fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa,
de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me
cercam — só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me
acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Aranha
Quando toquei a campainha, ele estava
na sexta ou sétima cerveja, e eu fui até a geladeira e peguei uma
para mim. Depois voltei e me sentei. Ele parecia realmente na fossa.
– Que é que há, Max?
– Acabei de perder uma. Ela saiu há
umas duas horas.
– Não sei o que dizer, Max.
Ele ergueu o olhar.
– Escuta, sei que não vai acreditar
nisso, mas não como uma mulher há quatro anos.
Dei uma mamada na minha cerveja.
– Acredito em você, Max. Na
verdade, em nossa sociedade há um grande número de pessoas que vão
do berço à cova sem comer mulher nenhuma. Ficam sentadas em
quartinhos apertados e fazem objetos de papel laminado, que penduram
na janela, e ficam vendo o sol batendo neles, vendo eles se virarem
no vento...
– Bem, acabo de perder uma. E ela
estava bem aqui...
– Me conta como foi.
– Bem, a campainha tocou, e lá
estava uma jovem, loura, com um vestido branco e sapatos azuis, e ela
disse: “Você é Max Miklovik?” Respondi que era e ela disse que
tinha lido minha merda e pediu para entrar. Eu disse que sim, de
fato, e deixei ela entrar e ela se dirigiu para uma poltrona no canto
e se sentou. Eu fui à cozinha, preparei dois uísques com água,
voltei, dei um a ela e fui me sentar no sofá.
– Bonitona? – perguntei.
– Bonitona mesmo, e um corpão, o
vestido não escondia nada. Aí ela me perguntou: “Já leu Jerzy
Kosinski?” “Li Pássaro Pintado”, eu disse. “Um
escritor horrível.” “É um escritor muito bom”, ela disse.
Max calou-se, pensando em Kosinski,
imagino.
– E aí, que aconteceu?
– Uma aranha tecia uma teia acima
dela. Ela deu um gritinho. Disse: “Essa aranha fez cocô em cima de
mim.”
– E fez mesmo?
– Eu disse a ela que as aranhas não
fazem cocô. Ela disse: “Sim, fazem, sim.” E eu disse: “Jerzy
Kosinski é uma aranha”, e ela disse: “Eu me chamo Lyn”, e eu
disse “Oi, Lyn”.
– Belo papo.
– Belo papo. Aí ela disse: “Quero
lhe dizer uma coisa.” E eu disse: “Manda.” E ela disse:
“Aprendi a tocar piano aos treze anos com um conde de verdade. O
Conde Rudolph Stauffer.” “Beba, beba”, eu disse a ela.
– Posso pegar outra cerveja, Max?
– Claro, traga uma pra mim.
Quando voltei, ele continuou.
– Ela acabou a bebida e eu fui pegar
o copo. Quando estendi a mão, me curvei pra dar um beijo nela. Ela
recuou. “Merda, que é um beijinho?”, eu perguntei. “As aranhas
se beijam.” “As aranhas não se beijam”, ela disse. Eu não
podia fazer nada senão ir preparar mais dois drinques, um pouco mais
fortes. Voltei, entreguei a bebida a Lyn e tornei a me sentar no
sofá.
– Acho que os dois deviam estar no
sofá – eu disse.
– Mas não estávamos. E ela
continuou falando. “O Conde”, disse, “tinha uma testa alta,
olhos de avelã, cabelos cor-de-rosa, longos dedos finos, e vivia
cheirando a sêmen.”
– Ah.
– Ela disse: “Ele tinha sessenta e
seis anos mas era tesudo. Ensinou piano à minha mãe também. Minha
mãe tinha trinta e cinco e eu treze, e ele ensinou piano a nós
duas.”
– Que era que você devia responder
a isso? – perguntei.
– Não sei. Por isso disse:
“Kosinski não escreve merda nenhuma.” E ela disse: “Ele fez
amor com minha mãe.” E eu disse: “Quem? Kosinski?” E ela:
“Não, o Conde.” “O Conde fodeu com você?” perguntei. “Não,
ele nunca fodeu comigo. Mas me apalpava em várias partes, me deixava
muito excitada. E tocava piano maravilhosamente.”
– Como você reagia a isso tudo?
– Bem, falei a ela da época em que
trabalhei pra Cruz Vermelha, durante a Segunda Guerra Mundial. A
gente saía recolhendo garrafas de sangue. Tinha uma enfermeira,
cabelos negros, muito gorda, e depois do almoço ela se deitava na
grama com as pernas abertas pro meu lado. Ficava me olhando fixo.
Depois que a gente recolhia o sangue, eu levava as garrafas para o
depósito. Era frio lá dentro, e as garrafas eram guardadas em
pequenos sacos brancos, e às vezes, quando eu as entregava à garota
encarregada do quarto de depósito, uma garrafa escorregava do saco e
se quebrava no chão. POU! Sangue e vidro pra todo lado. Mas a garota
sempre dizia: “Está tudo bem, não se preocupe com isso.” Eu
achava ela muito bondosa e passei a dar beijos nela quando entregava
o sangue. Era muito legal beijar ela dentro daquela geladeira, mas eu
nunca conseguia nada com a de cabelos pretos que se deitava na grama
depois do almoço e abria as pernas pra mim.
– Você contou isso a ela?
– Contei.
– E que foi que ela disse?
– Disse: “A aranha está descendo!
Está descendo pra cima de mim!” “Oh, meu deus!”, eu disse, e
peguei a Cartela de Corrida, abri e peguei a aranha entre o
terceiro páreo pra novatos de três anos em mil e duzentos metros e
o quarto páreo que tinha um prêmio de cinco mil dólares para
cavalos de quatro anos para cima em dois mil metros. Joguei o jornal
no chão e consegui dar um beijinho rápido em Lyn. Ela não
retribuiu.
– Que foi que ela disse do beijo?
– Disse que o pai dela era um gênio
na indústria de computadores e raramente estava em casa, mas de
alguma forma descobriu sobre a mãe e o Conde. Pegou ela um dia
depois da escola e bateu com a cabeça dela na parede, perguntando
por que tinha protegido a mãe. O pai ficou muito furioso quando
descobriu a verdade. Terminou parando de bater com a cabeça dela na
parede e foi lá dentro e bateu a cabeça da mãe contra a parede.
Ela disse que foi horrível, e jamais voltaram a ver o Conde.
– Que foi que você disse a isso?
– Eu disse que um dia encontrei uma
mulher num bar e levei ela pra casa. Quando ela tirou a calcinha,
tinha tanto sangue e merda que eu não consegui. Ela fedia como um
poço de petróleo. Ela me massageou as costas com azeite de oliva e
eu lhe dei cinco dólares, meia garrafa de vinho do Porto azedo, o
endereço de meu melhor amigo, e mandei embora.
– Isso aconteceu mesmo?
– É. Depois a Lyn me perguntou se
eu gostava de T. S. Eliot. Respondi que não. Aí ela disse: “Eu
gosto do que você escreve, Max, é tão feio e demente que me
fascina. Eu me apaixonei por você. Escrevi uma carta atrás da outra
pra você, mas você jamais respondeu.” “Desculpa, boneca”, eu
disse. Ela disse: “Eu fiquei louca. Fui pro México. Me meti em
religião. Usava um xale preto e saía cantando nas ruas às três
horas da manhã. Ninguém me incomodava. Eu tinha todos os seus
livros numa maleta e bebia tequila e acendia velas. Depois conheci um
toureiro que me fez esquecer você. Isso durou várias semanas.”
– Esses caras arranjam muita xoxota.
– Eu sei – disse Max. – De
qualquer modo, ela disse que acabaram se enchendo um do outro, e eu
disse: “Deixa eu ser seu toureiro.” E ela disse: Você é como
todo homem. Só quer foder.” “Chupar e foder”, eu disse. Me
aproximei dela. “Me dê um beijo”, disse. “Max”, ela disse,
“você só quer brincar. Não liga pra mim.” “Eu ligo pra mim”,
respondi. “Se você não fosse um escritor tão grande”, ela
disse, “nenhuma mulher jamais sequer falaria com você.” Vamos
foder”, eu disse. “Quero que se case comigo”, ela disse. “Eu
não quero me casar com você”, eu disse. Ela pegou a bolsa e foi
embora.
– É o fim da história? –
perguntei.
– É isso aí – disse Max. – Sem
um rabo em quatro anos e perco esse. Orgulho, estupidez, seja lá o
que for.
– Você é um bom escritor, Max, mas
não é um sedutor.
– Você acha que um bom sedutor
teria dado um jeito?
– Claro. Sabe, cada jogada dela deve
ser respondida com a resposta certa. Cada resposta certa leva o papo
numa outra direção, até que o sedutor tem a mulher acuada num
canto, ou, mais adequadamente, estendida.
– Como posso aprender?
– Não tem aprendizado. É um
instinto. Você tem de saber o que a mulher está dizendo de fato
quando diz outra coisa. Não se pode ensinar.
– Que foi que ela disse mesmo?
– Queria você, mas você não soube
como chegar a ela. Não soube construir uma ponte. Fracassou, Max.
– Mas ela leu todos os meus livros.
Achava que eu sabia alguma coisa.
– Agora ela sabe alguma coisa.
– O quê?
– Que você é um asno burro, Max.
– Sou?
– Todos os escritores são. É por
isso que escrevem.
– Que negócio é esse de “é por
isso que escrevem”?
– Quero dizer que eles escrevem
essas coisas porque não entendem.
– Eu escrevo muitas coisas – disse
Max, triste.
– Me lembro de que, quando era
menino, li um livro de Hemingway. Um cara vivia indo pra cama com uma
mulher e não conseguia, porque amava a mulher e ela o amava. Deus do
céu, eu pensei, que livro sensacional. Todos esses séculos, e
ninguém escreveu sobre esse aspecto da coisa. Achava que o cara era
simplesmente um burro feliz demais pra conseguir. Mais adiante, li no
livro que ele tinha perdido os órgãos genitais na guerra. Que
decepção.
– Você acha que essa garota vai
voltar? – me perguntou Max. – Você devia ter visto aquele corpo,
aquele rosto, aqueles olhos.
– Não vai voltar – eu disse, me
levantando.
– Mas que faço eu? – perguntou
Max.
– Simplesmente continue escrevendo
seus pobres poemas, contos e romances...
Deixei-o lá e desci a escada. Nada
mais tinha a dizer-lhe. Eram quinze para as oito e eu tinha um
jantar. Entrei no carro e fui até o McDonald’s, pensando que
provavelmente escolheria camarão frito.
Charles Bukowski, em Numa Fria
Nada, esta espuma
Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à
superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
Eu ainda olhei em vão ―
[…]
De a de lado. Todos eles passarem,
tropeando, nós todos, o rumor constante dos cascos. Cavalo,
cavalaria! Cortejo que fazia suas voltas, pelos ermos, pelos ocos,
pelos altos, a forma duma mistura de gente amontada, uma continuação
grande, solevando para adiante o aprumo de meus homens, os chapéus
deles quase todos bem engraxados com sêbo de boi e nata de leite, em
ponta os canos dos rifles de guerra, a tiracol. Com qual seguimento?
Só , o que esperava a gente, era o pouso para jantar; passeata para
a estrela-da-tarde. Mas, do que um falava, outro mal ouvia e ria; do
que esses se riam, outros ainda falavam. Prosapeavam. Me prazia. Me
prazia o ranger o couro das jerebas, aquele chio de carne em asso. A
poeira avermelhava e branqueava! poeiras que punham o vento mais
áspero. Uns homens em cavalos e armas. Quem visse, fuga fugia,
corria! tinham de temer, vigiando com seus olhos escondidos no mato
em beiras de estrada. Até os bichos, do cerradão, que escutam o
começo de tudo, de seu longe e de seu perto, e logo sabem esperar,
ocultos no rareamento, assim não se viam, nenhuns, não se achavam;
os pássaros sempre já tinham revoado. Ah, não, eu bem que tinha
nascido para jagunço. Aquilo ― para mim ― que se passou: e ainda
hoje é forte, como por um futuro meu. Eu estou galhardo. Naquilo, eu
tinha amanhecido. Comi carne de onça? Esquipando, eu queria que a
gente entrasse, daquele jeito, era em alguma grande verdadeira
cidade.
Só às vezes, em repente de receio,
eu ainda olhei em vão ― com as presenças de Zé Bebelo me
cismava. Se o que sei. Com um arranco de freio, raciocinado. Mas,
dando de rédeas sem descanso, derrubei dos ombros aquele meu
costume, Zé Bebelo terminara. Só os meus homens. Escutava, olhava ―
e eram aqueles: que muitas estrepolias ainda iam decerto agir, e
muita má gente matar. Aos dez e dézes, digo, afirmo que me lembro
de todos. Esses passam e transpassam na minha recordação, vou
destacando a contagem. Nem é por me gabar de retentiva cabedora,
nome por nome, mas para alimpar o seguimento de tudo o mais que vou
narrar ao senhor, nesta minha conversa nossa de relato. O senhor me
entende? A mesmice dos cabras jagunços ― no contemplar a cavalhada
― no passo, os animais dando dos quartos, comuns assim, que não
fazem penachos, que não tiram arredondamentos da magreza. Os filhos
nascidos de distritos de lugares diversos, mas agora debaixo da minha
estima completa, dever de coração enérgico. Até os capiaus e os
catrumanos copiavam o comportamento, uns amontados, outros restantes
apressados mesmo a pé, e iam pegando o exato. Até o catrumano
Teofrásio, em seu jegue, que, como prestável jumento, cumpria bem
seu ir, desde que tinha companhia de outros animais. E o Guirigó e o
Borromeu, eu meando os dois, ao alcance de qualquer minha mão.
Sempre, mesmo como sempre. Mas, um, era Diadorim ― montado à
baiana, gineta, com estribos curtos e rédea muito ponderada,
bridando bem, em seu argel travado, às upas! cavalo bulideiro,
cavalo de olhos pretos conforme como a noite ― Diadorim, que era o
Menino, que era o Reinaldo. E eu. Eu? Nos estribos de ferro, freio de
ferro, silha forte e silha mestra ― e o par de coldres! Assaz,
então, cantaram!
Olererê, Baiana,
eu ia e não vou mais...
Eu faço
que vou
lá dentro, oh Baiana,
e volto do meio pra trás...
Ao demais eu ouvi, soturno sorridente.
Ora vez, que, desse jeito, fomos
entortando, entre as duas chapadas, encalço da estrada do rio; e se
chegou na fazenda cercã, que era por lá, a Barbaranha dita, em um
lugar redondo e simples, no Pé-da-Pedra. O que eu já disse ao
senhor, respeitante. Mas acrescento que o dono, no atual, era um seo
Ornelas ― Josafá Jumiro Ornelas, por nome todo.
― De uns três dias foi o São João,
então amanhã é o São Pedro... ― alguém disse, de voz.
Soubessem que esse seo Ornelas era
homem bom descendente, posseiro de sesmaria. Antes, tinha valido, com
muitos passados, por causa de política, e ainda valesse, compadre
que era do Coronel Rotílio Manduca em sua Fazenda Baluarte.
― Ao que ele tem, mas tem, mesmo,
muita coragem?! ― eu me fiz.
― Aí falam em sessenta ou oitenta
mortes contáveis... o Marcelino Pampa afiançou ... e ainda não
esmoreceu os ânimos…
Chegamos, com proceder seguro, e o céu
por cima dali estava muito sereno. Na fazenda tinham levantado um
mastro, na frente do pátio; vi movimentos de gente. As mulheres, na
boca do forno fumaçando, mexiam com feixes verdes de mariana e
vassourinha e carregavam as latas pretas de assar biscoitos. Só
aqueles formosos cheiros das quitantas e do forno quente varrido, já
confortavam meu estómago. No mastro, que era arvorado para honra de
bandeira do santo, eu amarrei o cabresto do meu cavalo.
Mas não desordeei nem coagi, não dei
em nenhuma desbraga. Eu não estava com gosto de aperrear ninguém. E
o fazendeiro, senhor dali, de dentro saiu, veio saudar, convidar para
a hospedagem, me deu grandes recebimentos. Apreciei a soberania dele,
os cabelos brancos, os modos calmos. Bom homem, abalável. Para ele,
por nobreza, tirei meu chapéu e conversei com pausas.
― Amigo em paz? Meu chefe, entre, a
valer: a casa velha é sua, vossa... ― ele pronunciou.
Eu disse que sim. Mas, para evitar
algum acanhamento e desajeito, mais tarde, também falei: ― Dou
todo respeito, meu senhor. Mas a gente vamos carecer de uns
cavalos... Assim logo eu disse, em antes de vir a amolecer as
situações e estorvar o expediente negócio a boa conversação
cordial.
O homem não treteou. Sem se franzir
nem sorrir, me respondeu:
― O senhor, meu chefe, requer e
merece, e com gosto eu cedo... Acho que tenho para coisa de uns cinco
ou sete, em estado regular.
E eu entrei com ele na casa da
fazenda, para ela pedindo em voz alta a proteção de Jesus. Onde
tive os usuais agrados, com regalias de comida em mesa. Sendo que
galinha e carnes de porco, farofas, bons quitutes ceamos, sentados,
lá na sala. Diadorim, eu, João Goanhá, Marcelino Pampa, João
Concliz, Alaripe e uns outros, e o menino pretinho Guirigó mais o
cego Borromeu ― em cujas presenças todos achavam muita graça e
recreação.
A dona fazendeira era mulher já em
idade fora de galas; mas tinham três ou quatro filhas, e outras
parentas, casadas ou moças, bem orvalhosas. Aquietei o susto delas,
e nenhuma falta de consideração eu não proporcionei nem consenti,
mesmo porque meu prazer era estar vendo senhoras e donzelas navegarem
assim no meio nosso, garantidas em suas honras e prendas, e com toda
cortesia social. A ceia indo principiando, somente falei também de
sérios assuntos, que eram a política e os negócios da lavoura e
cria. Só faltava lá uma boa cerveja e alguém com jornal na mão,
para alto se ler e a respeito disso tudo se falar.
Seo Ornelas me intimou a sentar em
posição na cabeceira, para principal. ― Aqui é que se abancava
Medeiro Vaz, quando passou... ― essas palavras. Medeiro Vaz tinha
regido nessas terras. Verdade era? Aquele velho fazendeiro possuía
tudo. Conforme jagunço de meio-ofício tinha sido, e amigo
hospedador, abastado em suas propriedades. De ser de linhagem de
família, ele conseguia as ponderadas maneiras, cidadão, que se
representava; que, isso, ainda que eu pelejasse constante, tarde
seria para bem aprender. Na verdade. Aquela hora, eu, pelo que disse,
assumi incertezas. Espécie de medo? Como que o medo, então, era um
sentido sorrateiro fino, que outros e outros caminhos logo tomava.
Aos poucos, essas coisas tiravam minha vontade de comer farto.
― O sertão é bom. Tudo aqui é
perdido, tudo aqui é achado... ― ele seo Ornelas dizia. ― O
sertão é confusão em grande demasiado sossego…
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Meninos
— Meleca, casca de ferida e cabeça
de camarão, disse o menino.
— Meleca, casca de ferida e formiga
— disse o seu amigo Remi.
— Deu empate.
— Peraí. A meleca era sua?
— Vai dizer que você já comeu
meleca de outro?
— Já.
— Arglwolg! Ganhou!
Mas haveria revanche.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Capítulo XI – O Soldado Amarelo
Fotograma do Filme Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos
Fabiano meteu-se na vereda que ia
desembocar na lagoa seca, torrada, coberta de catingueiras e capões
de mato. Ia pesado, o aió cheio a tiracolo, muitos látegos e
chocalhos pendurados num braço. O facão batia nos tocos. Espiava o
chão como de costume, decifrando rastos. Conheceu os da égua ruça
e da cria, marcas de cascos grandes e pequenos. A égua ruça, com
certeza. Deixara pêlos brancos num tronco de angico. Urinara na
areia e o mijo desmanchara as pegadas, o que não aconteceria se se
tratasse de um cavalo.
Fabiano ia desprecatado, observando
esses sinais e outros que se cruzavam, de viventes menores. Corcunda,
parecia farejar o solo - e a catinga deserta animava-se, os bichos
que ali tinham passado voltavam, apareciam-lhe diante dos olhos
miúdos.
Seguiu a direção que a égua havia
tomado. Andara cerca de cem braças quando o cabresto de cabelo que
trazia no ombro se enganchou num pé de quipá. Desembaraçou o
cabresto, puxou o facão, pôs-se a cortar as quipás e as
palmatórias que interrompiam a passagem.
Tinha feito um estrago feio, a terra
se cobria de palmas espinhosas. Deteve-se percebendo rumor de
garranchos, voltou- se e deu de cara com o soldado amarelo que, um
ano antes, o levara a cadeia, onde ele aguentara uma surra e passara
a noite. Baixou a arma. Aquilo durou um segundo.
Menos: durou uma fração de segundo.
Se houvesse durado mais tempo, o amarelo teria caído esperneando na
poeira, com o quengo rachado. Como o impulso que moveu o braço de
Fabiano foi muito forte, o gesto que ele fez teria sido bastante para
um homicídio se outro impulso não lhe dirigisse o braço em sentido
contrário. A lâmina parou de chofre, junto à cabeça do intruso,
bem em cima do boné vermelho. A princípio o vaqueiro não
compreendeu nada. Viu apenas que estava ali um inimigo. De repente
notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade.
Sentiu um choque violento, deteve-se, o braço ficou irresoluto,
bambo, inclinando-se para um lado e para outro.
O soldado, magrinho, enfezadinho,
tremia. E Fabiano tinha vontade de levantar o facão de novo. Tinha
vontade, mas os músculos afrouxavam. Realmente não quisera matar um
cristão: procedera como quando, a montar brabo, evitava galhos e
espinhos. Ignorava os movimentos que fazia na sela. Alguma coisa o
empurrava para a direita ou para a esquerda. Era essa coisa que ia
partindo a cabeça do amarelo. Se ela tivesse demorado um minuto,
Fabiano seria um cabra valente. Não demorara. A certeza do perigo
surgira - e ele estava indeciso, de olho arregalado, respirando
com dificuldade, um espanto verdadeiro no rosto barbudo coberto de
suor, o cabo do facão mal seguro entre os dois dedos úmidos.
Tinha medo e repetia que estava em
perigo, mas isto lhe pareceu tão absurdo que se pôs a rir. Medo
daquilo? Nunca vira uma pessoa tremer assim. Cachorro. Ele não era
dunga na cidade? Não pisava os pés dos matutos, na feira?
Não botava gente na cadeia?
Sem-vergonha, mofino. Irritou-se. Porque seria que aquele safado
batia os dentes como um caititu? Não via que ele era incapaz de
vingar-se? Não via? Fechou a cara. A ideia do perigo ia-se sumindo.
Que perigo? Contra aquilo nem precisava facão, bastavam as unhas.
Agitando os chocalhos e os látegos, chegou a mão esquerda, grossa e
cabeluda, à cara do polícia, que recuou e se encostou a uma
catingueira. Se não fosse a catingueira, o infeliz teria caído.
Fabiano pregou nele os olhos ensanguentados, meteu o facão na
bainha. Podia matá-lo com as unhas. Lembrou-se da surra que levara e
da noite passada na cadeia. Sim senhor. Aquilo ganhava dinheiro para
maltratar as criaturas inofensivas. Estava certo? O rosto de Fabiano
contraía-se, medonho, mais feio que um focinho. Hem? Estava certo?
Bulir com as pessoas que não fazem mal a ninguém. Porque?
Sufocava-se, as rugas da testa aprofundavam-se, os pequenos olhos
azuis abriam-se demais, numa interrogação dolorosa.
O soldado encolhia-se, escondia-se por
detrás da árvore. E Fabiano cravava as unhas nas palmas calosas.
Desejava ficar cego outra vez. Impossível readquirir aquele instante
de inconsciência. Repetia que a arma era desnecessária, mas tinha a
certeza de que não conseguiria utilizá-la – e apenas queria
enganar-se. Durante um minuto a cólera que sentia por se considerar
impotente foi tão grande que recuperou a força e avançou para o
inimigo.
A raiva cessou, os dedos que feriam a
palma descerraram-se – e Fabiano estacou desajeitado, como um pato,
o corpo amolecido.
Grudando-se à catingueira, o soldado
apresentava apenas um braço, uma perna e um pedaço da cara, mas
esta banda de homem começava a crescer aos olhos do vaqueiro. E a
outra parte, a que estava escondida, devia ser maior. Fabiano tentou
afastar a ideia absurda: – Como a gente pensa coisas bestas!
Alguns minutos antes não pensava em
nada, mas agora suava frio e tinha lembranças insuportáveis. Era um
sujeito violento, de coração perto da goela. Não, era um cabra que
se arreliava algumas vezes – e quando isto acontecia, sempre se
dava mal. Naquela tarde, por exemplo, se não tivesse perdido a
paciência e xingado a mãe da autoridade, não teria dormido
na cadeia depois de aguentar zinco no lombo. Dois excomungados
tinham-lhe caído em cima, um ferro batera-lhe no peito, outro nas
costas, ele se arrastara tiritando como um frango molhado. Tudo
porque se esquentara e dissera uma palavra inconsideradamente. Falta
de criação. Tinha lá culpa? O sarapatel se formara, o cabo abrira
caminho entre os feirantes que se apertavam em redor: - “Toca pra
frente”. Depois surra e cadeia, por causa de uma tolice. Ele,
Fabiano, tinha sido provocado. Tinha ou não tinha? Salto de reiúna
em cima da alpercata. Impacientara-se e largara o palavrão. Natural,
xingar a mãe de uma pessoa não vale nada, porque todo o mundo vê
logo que a gente não tem a intenção de maltratar ninguém. Um
ditério sem importância. O amarelo devia saber isso. Não sabia.
Saíra-se com quatro pedras na mão, apitara. E Fabiano comera da
banda podre. – “Desafasta”.
Deu um passo para a catingueira. Se
ele gritasse agora “desafasta”, que faria o polícia? Não se
afastaria, ficaria colado ao pé de pau. Uma lazeira, a gente podia
xingar a mãe dele. Masentão... Fabiano estirava o beiço e rosnava.
Aquela coisa arriada e achacada metia as pessoas na cadeia, dava-lhes
surra. Não entendia. Se fosse uma criatura de saúde e muque, estava
certo. Enfim apanhar do governo não é desfeita, e Fabiano até
sentiria orgulho ao recordar-se da aventura. Mas aquilo... Soltou uns
grunhidos. Porque motivo o governo aproveitava gente assim? Só se
ele tinha receio de empregar tipos direitos. Aquela cambada só
servia para morder as pessoas inofensivas. Ele, Fabiano, seria tão
ruim se andasse fardado? Iria pisar os pés dos trabalhadores e dar
pancada neles? Não iria.
Aproximou-se lento, fez uma volta,
achou-se em frente do polícia, que embasbacou, apoiado ao tronco, a
pistola e o punhal inúteis. Esperou que ele se mexesse. Era uma
lazeira, certamente, mas vestia farda e não ia ficar assim, os olhos
arregalados, os beiços brancos, os dentes chocalhando como bilros.
Ia bater o pé, gritar, levantar a espinha, plantar-lhe o salto da
reiúna em cima da alpercata. Desejava que ele fizesse isso. A ideia
de ter sido insultado, preso, moído por uma criatura mofina era
insuportável. Mirava-se naquela covardia, via-se mais lastimoso e
miserável que o outro.
Baixou a cabeça, coçou os pêlos
ruivos do queixo. Se o soldado não puxasse o facão, não gritasse,
ele, Fabiano, seria um vivente muito desgraçado.
Devia sujeitar-se àquela tremura,
àquela amarelidão? Era um bicho resistente, calejado. Tinha nervo,
queria brigar, metera-se em espalhafatos e saíra de crista
levantada. Recordou-se de lutas antigas, em danças com fêmea e
cachaça. Uma vez, de lambedeira em punho, espalhara a negrada. Aí
Sinha Vitória começara a gostar dele. Sempre fora reimoso. Iria
esfriando com a idade? Quantos anos teria? Ignorava, mas certamente
envelhecia e fraquejava. Se possuísse espelhos, veria rugas e
cabelos brancos. Arruinado, um caco. Não sentira a transformação,
mas estava-se acabando.
O suor umedeceu-lhe as mãos duras.
Então? Suando com medo de uma peste que se escondia tremendo? Não
era uma infelicidade grande, a maior das infelicidades? Provavelmente
não se esquentaria nunca mais, passaria o resto da vida assim mole e
ronceiro. Como a gente muda! Era. Estava mudado. Outro indivíduo,
muito diferente do Fabiano que levantava poeira nas salas de dança.
Um Fabiano bom para aguentar facão no lombo e dormir na cadeira.
Virou a cara, enxergou o facão de
rasto. Aquilo nem era facão, não servia para nada. Ora não servia!
– Quem disse que não servia?
Era um facão verdadeiro, sim senhor,
movera-se como um raio cortando palmas de quipá. E estivera a pique
de rachar o quengo de um sem-vergonha. Agora dormia na bainha rota,
era um troço inútil, mas tinha sido uma arma. Se aquela coisa
tivesse durado mais um segundo, o polícia estaria morto. Imaginou-o
assim, caído, as pernas abertas, os bugalhos apavorados, um fio de
sangue empastando-lhe os cabelos, formando um riacho entre os seixos
da vereda. Muito bem! Ia arrastá-lo para dentro da catinga,
entregá-lo aos urubus. E não sentiria remorso. Dormiria com a
mulher, sossegado, na cama de varas. Depois gritaria aos meninos, que
precisavam criação. Era um homem, evidentemente.
Aprumou-se, fixou os olhos nos olhos
do polícia, que se desviaram. Um homem. Besteira pensar que ia ficar
murcho o resto da vida. Estava acabado? Não estava. Mas para que
suprimir aquele doente que bambeava e só queria ir para baixo?
Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira
e insultava os pobres! Não se inutilizava, não valia a pena
inutilizar-se. Guardava a sua força.
Vacilou e coçou a testa. Havia muitos
bichinhos assim ruins, havia um horror de bichinhos assim fracos e
ruins.
Afastou-se, inquieto. Vendo-o
acanalhado e ordeiro, o soldado ganhou coragem, avançou, pisou
firme, perguntou o caminho. E Fabiano tirou o chapéu de couro.
– Governo é governo.
Tirou o chapéu de couro, curvou-se e
ensinou o caminho ao soldado amarelo.
Graciliano Ramos, em Vidas
Secas
1601 – Valladolid
Quevedo
Há vinte anos que a Espanha reina
sobre Portugal e todas as suas comarcas, de modo que pode um espanhol
passear pelo mundo sem pisar terra estrangeira.
Mas a Espanha é a nação mais cara
da Europa: produz cada vez menos coisas e cada vez mais moedas. Dos
trinta e cinco milhões de escudos nascidos há seis anos, não sobra
nem sombra. Não são alentadores os dados que acaba de publicar aqui
dom Martín González de Cellorigo em seu Memorial da política
necessária: por obra do azar e da herança, cada espanhol que
trabalha mantém outros trinta. Para os rentistas, trabalhar é
pecado. Os fidalgos têm por campo de batalha as alcovas; e crescem
na Espanha menos árvores que frades e mendigos.
Rumo a Gênova marcham as galeras
carregadas com a prata da América. Nem o aroma deixam na Espanha os
metais que chegam do México e do Peru. Tal parece, que a façanha
das conquistas tivesse sido cumprida pelos mercadores e banqueiros
alemães, genoveses, franceses e flamengos.
Vive em Valladolid um rapaz manco e
míope, puro de sangue e com espada e língua de muito fio. Pela
noite, enquanto o pajem arranca-lhe as botas, medita versos rimados.
Na manhã seguinte deslizam as serpentes por baixo dos portões do
palácio real.
Com a cabeça afundada no travesseiro,
o jovem Francisco de Quevedo y Villegas pensa em quem do covarde faz
guerreiro e amolece o juiz mais severo; e amaldiçoando este ofício
de poeta ergue-se na cama, esfrega os olhos, aproxima a lamparina e
de um impulso tira de dentro de si os versos que não o deixam
dormir. Falam os versos de dom Dinheiro, que
nasce nas Índias honrado,
onde o mundo o acompanha,
e vem morrer na Espanha,
e é em Gênova enterrado.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Cash
Não resta alternativa. Ou o mandamos
para Jackson ou Gillespie nos processará judicialmente, pois ele
soube, de alguma forma, que Darl tocou fogo no celeiro. Ignoro como
soube, mas aí está. Vardaman viu-o atear o incêndio, mas jura não
ter contado a ninguém, exceto Dewey Dell, e ela lhe disse para não
contar a ninguém. Mas Gillespie soube. De qualquer forma, viria a
desconfiar, mais cedo ou mais tarde. Talvez aquela mesma noite, só
em observar o comportamento de Darl.
E, por isso, Pai disse: "Acho que
não temos outro jeito", e Jewel disse: "Quer amarrá-lo
agora?"
"Amarrá-lo?", disse Pai.
"Pegá-lo e amarrá-lo",
disse Jewel.
"Diabo, quer que ele ponha fogo
nas malditas mulas e na carroça?"
Mas não havia necessidade.
"Não é preciso", eu disse.
"Podemos esperar até que ela esteja enterrada."
Um sujeito que vai passar o resto da
vida trancafiado deve ter permissão para divertir-se um pouco antes
de partir.
"Acho que devemos mandá-lo para
lá", diz Pai. "Deus sabe que isto é uma provação para
mim. Quando o azar começa, parece que não há meio de parar."
Às vezes eu me pergunto se alguém
tem o direito de dizer se um homem está maluco ou não. Às vezes eu
penso que nenhum de nós é inteiramente louco ou inteiramente são,
até que a maioria nos identifica de uma ou de outra maneira. Não
importa muito a maneira como um homem age, e sim a maneira como a
maioria das pessoas olha-o enquanto ele age.
Porque Jewel é muito duro para com
ele. Naturalmente, foi o negócio com o cavalo de Jewel que nos
permitiu trazê la até aqui, e, até certo ponto, foi o valor do
cavalo que Darl tentou queimar. Mas tenho pensado mais de uma vez,
antes de cruzar o rio e depois, que teria sido uma bênção se Deus
a tirasse de nossas mãos, de maneira simples e discreta; e
pareceu-me que, quando Jewel se empenhou tanto em retirá-la do rio,
contrariava, de certo modo, a vontade de Deus; então, quando Darl
percebeu que um de nós, pelo visto, devia fazer alguma coisa, quase
sou levado a crer que sua conduta ficou, em certo sentido,
justificada. Reconheço, no entanto, que não há razão para
incendiar o celeiro de alguém e pôr em perigo seu gado e ameaçar
destruir sua propriedade. Aí é que se vê se um homem é de fato
maluco. Nesses casos, ele não vê as coisas da mesma maneira que as
outras pessoas. Reconheço que não se tem outra coisa a fazer com
ele senão o que a maioria julga conveniente.
De certa forma, no entanto, é uma
vergonha. As pessoas parecem afastar-se daquele velho e justo
principio segundo o qual devemos bater os pregos e aparar os cantos
com capricho, como se a encomenda fosse feita para nosso próprio uso
e comodidade. É como se umas pessoas tivessem tábuas lisas e
bonitas com que construir um tribunal, e outras não contassem senão
com troncos próprios para levantar um galinheiro Mas sempre é
melhor construir um galinheiro bem caprichado que um tribunal de
justiça mal-acabado, embora ninguém se sentisse melhor ou pior pelo
fato de serem construídas coisas caprichadas ou mal-acabadas.
Assim, subimos a rua, em direção à
praça, e ele disse: "Melhor levarmos Cash ao médico, em
primeiro lugar. Podemos deixá-lo e voltar depois para apanhá-lo."
É isto mesmo. É porque entre eu e
ele a diferença de idade é pouca, enquanto passaram-se quase dez
anos antes que Jewel e Dewey Dell e Vardaman começassem a aparecer.
Eu me sinto bem com todos, é claro, mas não sei. E como sou o mais
velho, e continuo pensando no que ele fez: não sei não.
Pai estava olhando para mim, depois
para ele, mordendo os lábios.
"Vamos lá", eu disse.
"Vamos ver isto primeiro."
"Ela gostaria de ver todos nós
juntos", diz Pai.
"Primeiro, vamos levar Cash ao
médico", disse Darl. "Ela pode esperar. Está esperando há
nove dias."
"Vocês não sabem mesmo o que
dizem", diz Pai. "A pessoa com quem passaram a juventude,
com quem envelheceram e que envelheceu em vocês, vendo a velhice
chegar e dizendo sempre que isso não tinha importância, e vocês
sabendo que isto era verdade neste mundo duro, cheio de dores e
provações. Vocês não sabem mesmo o que dizem."
"Temos ainda de abrir a cova",
eu disse.
"Armstid e Gillespie disseram-lhe
que mandasse uma mensagem antecipando isto", disse Darl. "Não
quer ir ao médico agora. Cash?"
"Vamos continuar", eu disse.
"A perna está melhor. Melhor fazer cada coisa em sua ocasião
oportuna."
"Se a cova já estivesse
aberta...", diz Pai. "Ainda por cima, esquecemos a pá."
"Sim", disse Darl. "Terei
de ir a uma casa de ferragens. Precisamos comprar uma."
"Custará caro", diz Pai.
"Pretende negar-lhe isto?",
diz Darl.
"Vá buscar a pá", disse
Jewel. "Vamos, dê-lhe o dinheiro."
Mas Pai não parou. "Acho que
podemos arranjar uma pá emprestada", disse. "Acho que deve
haver cristãos por aqui."
Assim, Darl continuou calmo e nós
continuamos a andar, com Jewel de cócoras na retaguarda, com os
olhos na nuca de Darl. Parecia um desses bulldogs, um desses cães
que não ladram nunca, encolhido contra a corda, olhando a coisa
sobre a qual vai pular.
Ficou assim durante todo o tempo em
que estivemos na frente da casa de Mrs. Bundren, ouvindo a música,
olhando a nuca de Darl com aqueles seus olhos brancos e duros.
A música tocava dentro de casa. Era
um dos tais gramofones. Tão natural como se uma banda entoasse a
música.
"Quer ir agora ao Peabody?".
perguntou Darl. "Eles podem ficar aqui e avisar Pai. Eu o
levarei ao Peabody e virei apanhá-los."
"Não", eu disse. Melhor
enterrá-la de uma vez, agora que estávamos quase em condições,
apenas à espera que emprestassem uma pá a Pai. Ele tinha percorrido
a rua até o lugar onde se ouvia música.
"Talvez tenham uma aqui",
disse. Parou a carroça à porta de Mrs. Bundren. Era como se tivesse
certeza. Às vezes eu penso que um trabalhador vê trabalho à sua
frente, enquanto um preguiçoso só vê preguiça. Assim, ele parou
ali, como se tivesse a certeza, diante daquela casinha nova de onde
saia música. Esperamos, ouvindo a música. Acho que, pechinchando um
pouco, teria comprado um ao Suratt por cinco dólares. Coisa
confortadora é a música. "Talvez tenham uma aqui", diz
Pai.
"Quer que Jewel vá?",
pergunta Darl, "ou prefere eu?"
"Creio que irei eu mesmo",
diz Pai. .Desceu e, entrando no caminho, rodeou a casa até os
fundos. A música parou, em seguida recomeçou.
"Conseguiu", disse Darl.
"Sim", eu disse. Foi como se
ele tivesse certeza, como se pudesse ver através das paredes e saber
o que vai acontecer nos próximos dez minutos.
Só que foram mais de dez minutos. A
música parou novamente, desta vez um bom pedaço, lá onde Pai e ela
estavam conversando, nos fundos. Nós esperávamos na carroça.
"Deixe-me levar você ao
Peabody", disse Darl.
"Não", eu disse. "Primeiro,
vamos enterrá-la."
"Se ele voltar", disse
Jewel. Começa a praguejar. Prepara-se para descer da carroça. "Vou
ver o que se passa", disse.
Então vimos Pai de volta. Trazia duas
pás e rodeava a casa. Colocou-as na carroça, subiu e continuamos. A
música havia recomeçado, sem parar. Pai olhou para trás, para a
casa. Parece que levantou um pouco a mão, acenando, e eu vi a
cortina afastar-se um pouco, na janela, e a sombra do rosto da
mulher.
A coisa mais curiosa, porém, foi a
atitude de Dewey Dell. Surpreendeu-me. Compreendo bem que as pessoas
o considerem estranho, e, por essa mesma razão, ninguém pode ficar
ofendido. Era como se ele estivesse sempre em órbita, alheio às
coisas, como a gente, e aborrecer-se com ele, por causa disso, seria
o mesmo que aborrecer-se com uma poça de lama que respinga em nós
quando pomos o pé dentro. E, no entanto, sempre tive a ideia de que
ele e Dewey Dell guardavam um segredo qualquer. Se havia um de nós
de quem ela gostava mesmo, essa pessoa era Darl. Mas quando, depois
de abrir a cova, pôr o caixão dentro e cobri-la, saímos do
cemitério e chegamos ao lugar onde os guardas esperavam, e quando
eles avançaram e caíram sobre Darl e Darl deu um salto para trás,
foi justamente Dewey Dell quem o agarrou, antes mesmo que Jewel
pudesse segurá-lo. E então eu julguei saber como Gillespie
descobriu quem lhe incendiou o celeiro.
Ela não havia dito uma palavra, nem
mesmo o olhara, mas quando os guardas disseram-lhe o que pretendiam e
que tinham vindo para levá-lo e ele saltou, então ela pulou sobre
ele como um gato selvagem, de tal forma que um dos guardas teve de
correr e segurá-la, e ela ferindo-o e arranhando-o com as unhas,
como um gato selvagem, enquanto o outro e Pai e Jewel derrubavam Darl
e o mantinham, de costas, contra o chão, a olhar para mim.
"Pensei que você me avisaria",
ele disse. "Nunca pensei que você não me avisasse."
"Darl", eu disse.
Mas ele resistiu outra vez. Lutaram
ele e Jewel e um dos guardas, enquanto o outro guarda segurava Dewey
Dell e Vardaman gritava e Jewel dizia: "Matem-no. Matem o filho
da puta."
Foi muito triste. Muito triste. É
difícil alguém escapar de uma sujeira. Ele não pôde. Tentei
dizer-lhe isto, mas ele se limitava a queixar-se: "Pensei que
você me avisaria. Porque não é que eu...", ele disse, e então
começou a rir. O outro guarda afastou Jewel dele e ele sentou-se no
chão e continuou a rir.
Tentei dizer-lhe. Se ao menos pudesse
mexer-me, ou me sentar. Mesmo assim, tentei explicar-lhe e ele parou
de rir e me olhou.
"Quer que eu vá?",
perguntou.
"Será melhor para você",
eu disse. "Lá você ficará tranquilo, sem ter ninguém que o
incomode e essa coisa toda. Será melhor para você, Darl", eu
.disse.
"Melhor", ele disse. Começou
a rir novamente. "Melhor", disse. Mal podia pronunciar a
palavra, de tanto rir. Sentado no chão, ele nos observava, rindo
perdidamente. Foi triste. Foi realmente muito triste. O diabo me leve
se eu podia ver motivo de riso. Porque nada há que justifique a
deliberada destruição do que um homem construiu com seu próprio
suor e do fruto do seu suor, que guardou com carinho.
Mas não sei se alguém tem o direito
de dizer se um homem está louco ou não está. É como se em cada
homem houvesse uma personalidade à margem da sanidade ou da loucura,
uma personalidade que observasse o são e o insano no homem com o
mesmo horror e a mesma estupefação.
William Faulkner, em Enquanto Agonizo
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Lapa de Bandeira (Quinta rima)
A Manuel Bandeira
Existia, e ainda existe
Um certo beco na Lapa
Onde assistia, não assiste
Um poeta no fundo triste
No alto de um apartamento
Como no alto de uma escarpa.
Em dias de minha vida
Em que me levava o vento
Como uma nave ferida
No cimo da escarpa erguida
Eu via uma luz discreta
Acender serenamente.
Era a ilha da amizade
Era o espírito do poeta
A buscar pela cidade
Minha louca mocidade.
Como uma nave ferida
Perambulando patética.
E eu ia e ascensionava
A grande espiral erguida
Onde o poeta me aguardava
E onde tudo me guardava
Contra a angústia do vazio
Que embaixo me consumia.
Um simples apartamento
Num pobre beco sombrio
Na Lapa, junto ao convento...
Porém, no meu pensamento
Era o farol da poesia
Brilhando serenamente.
Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor
Só como processo
Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver. Mas não esquecer que se trata apenas de uma receita e de um processo. De um modo de não se perder na verdade, que esta não tem bem nem mal.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Hi, Hi, Hi | Paul McCartney e Linda McCartney
Hi, Hi, Hi
De Paul McCartney e Linda McCartney
Well when I met you at the station
You were standing with a bootleg in
your hand
I took you back to my little place
for a taste
Of a multicoloured band
We’re gonna get hi, hi, hi
The night is young
I’ll put you in my pocket, little
mama
Gonna rock it and we’ve only just
begun
We’re gonna get hi, hi, hi
With the music on
Won’t say bye-bye, bye-bye,
bye-bye, bye-bye
Til the night is gone
I’m gonna do it to you, gonna do
ya, sweet banana
You’ve never been done
We’re going to get hi, hi, hi
In the midday sun
Well well take off your face
Recover from the trip you’ve been
on
I want you to lie on the bed
Getting ready for my polygon
I’m gonna do it to you, gonna do
ya, sweet banana
You’ve never been done
Yes so like a rabbit, gonna grab it
Gonna do it til the night is done
We’re gonna get hi, hi, hi
With the music on
Won’t say bye-bye, bye-bye,
bye-bye, bye-bye
Til the night has gone
I’m gonna do it to you, gonna do
ya, sweet banana
You’ve never been done
We’re gonna get hi, hi, hi
We’re going to get hi, hi, hi
We’re going to get hi, hi, hi
In the midday sun
Hi, hi, hi
Hi, hi, hi
Hi, hi, hi
In the midday sun
O dramaturgo do absurdo Alfred Jarry
aparece em algumas de minhas canções, incluindo “Maxwell’s
Silver Hammer”. Ele era uma figuraça, e seus escritos eram muito
divertidos. Conheci o trabalho dele numa produção de rádio da peça
Ubu Cocu, continuação da mais famosa Ubu Rei. Isso
foi na época em que estávamos compondo o material do álbum Sgt.
Pepper. Um dos protagonistas de Ubu Cocu é um personagem
chamado Achras, o criador de “poliedros”. É por isso que utilizo
o termo “polígono” nesta canção. “Hi, Hi, Hi” foi banida
pelos nossos amigos da BBC por ser sexualmente sugestiva. Devem ter
pensado que eu cantava “body gun” (“pistola corporal”)
em vez de “polygon” (“polígono”). Não sei bem ao
certo qual das duas opções é mais sugestiva.
Por sinal, a ideia de “I met you
at the station” é bem comum na tradição do blues:
Yeah, when the train left the
station
It had two lights on behind
Whoa, the blue light was my baby
And the red light was my mind
Esses versos pertencem a “Love in
Vain”, a canção de Robert Johnson que ganhou uma cover dos
Rolling Stones em 1969, três anos antes de “Hi, Hi, Hi” ser
lançada.
A referência ao bootleg remonta à
visita que recebemos em nossa fazenda na Escócia de um sujeito que
veio de Norman, Oklahoma. Esse cara apareceu um dia com um LP de
vinil numa sacola – feita de estopa – que era, anunciou ele, um
bootleg, ou disco pirata. Então é provável que fosse nisso
que eu estivesse pensando ao começar a canção.
Então temos a expressão “get
hi, hi, hi”, dar oi, que faz trocadilho com “get high,
high, high”, ficar alto. Devo confessar que isso tem um certo
humor atrevido. É certo que a BBC pensou assim. Acontece que nessa
época todo mundo estava ficando “alto” no sentido de
“cha-pa-do”. Todo mundo fumava maconha. Até fomos presos por
cultivá-la em nossa fazenda na Escócia. Claro, também pode se
referir a ficar alto com uma droga legalizada, como o álcool.
Aqui o ponto principal é que sexo e
drogas são dois elementos básicos do rock’n’roll. Mais do que
isso, esse é um gênero que reconhece abertamente o sexo e as drogas
como diversão.
As pessoas me dizem: “Uau, meu Deus,
como você faz isso?”. E eu respondo: “Sexo e drogas” – o que
não é verdade, estritamente falando, mas tem seu fundo de verdade.
Uma das características que mantêm a vitalidade do rock’n’roll
é que ele acalenta possibilidades de transgressão – ou aquilo que
em geral é considerado transgressão.
Paul McCartney, em As Letras – De 1956 até o presente
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