sábado, 3 de janeiro de 2026

Clube da Esquina II - Milton Nascimento/Lô Borges/Márcio Borges

Diário de Bernardo Soares

83.

Remoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida! Na grande praça ao centro da cidade, a água sobriamente multicolor da gente passa, desvia-se, faz poças, abre-se em riachos, junta-se em ribeiros. Os meus olhos veem desatentamente, e construo em mim essa imagem áquea que, melhor que qualquer outra, e porque pensei que viria chuva, se ajusta a este incerto movimentos.
Ao escrever esta última frase, que para mim exatamente diz o que define, pensei que seria útil pôr no fim do meu livro, quando o publicar, abaixo das "Errata" umas "Não-Errata", e dizer: a frase "a este incerto movimentos", na página tal, é assim mesmo, com as vozes adjetivas no singular e o substantivo no plural. Mas que tem isto com aquilo em que estava pensando? Nada, e por isso me deixo pensá-lo.
À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que uma criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro, os carros elétricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro alto. À roda da estátua central as pombas são migalhas pretas que se mexem, como se lhes desse um vento espalhador. Dão passinhos, gordas sobre pés pequenos. E são sombras, sombras...
Vista de perto; toda a gente é monotonamente diversa. Dizia Vieira que Frei Luís de Sousa escrevia “o comum com singularidade”. Esta gente é singular com comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo isto me faz pena, sendo-me todavia indiferente. Vim parar aqui sem razão, como tudo na vida.
Do lado do oriente, entrevista, a cidade ergue-se quase a prumo falso, assalta estaticamente o Castelo. O sol pálido molha de um aureolar vago essa mole súbita de casas que para aqui o oculta. O céu é de um azul humidamente esbranquiçado. A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais branda. O vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente, cheira vagamente ao maduro e verde do mercado próximo. Do lado oriental da Praça há mais forasteiros que do outro. Como descargas alcatifadas, as portas onduladas descem para cima; não sei porquê, é assim a frase que me transmite aquele som. É talvez porque fazem mais esse som ao descer, porém agora sobem. Tudo se explica.
De repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sinto-me tão isolado que sinto  a distância entre mim e o meu fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam — só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Aranha



Quando toquei a campainha, ele estava na sexta ou sétima cerveja, e eu fui até a geladeira e peguei uma para mim. Depois voltei e me sentei. Ele parecia realmente na fossa.
Que é que há, Max?
Acabei de perder uma. Ela saiu há umas duas horas.
Não sei o que dizer, Max.
Ele ergueu o olhar.
Escuta, sei que não vai acreditar nisso, mas não como uma mulher há quatro anos.
Dei uma mamada na minha cerveja.
Acredito em você, Max. Na verdade, em nossa sociedade há um grande número de pessoas que vão do berço à cova sem comer mulher nenhuma. Ficam sentadas em quartinhos apertados e fazem objetos de papel laminado, que penduram na janela, e ficam vendo o sol batendo neles, vendo eles se virarem no vento...
Bem, acabo de perder uma. E ela estava bem aqui...
Me conta como foi.
Bem, a campainha tocou, e lá estava uma jovem, loura, com um vestido branco e sapatos azuis, e ela disse: “Você é Max Miklovik?” Respondi que era e ela disse que tinha lido minha merda e pediu para entrar. Eu disse que sim, de fato, e deixei ela entrar e ela se dirigiu para uma poltrona no canto e se sentou. Eu fui à cozinha, preparei dois uísques com água, voltei, dei um a ela e fui me sentar no sofá.
Bonitona? – perguntei.
Bonitona mesmo, e um corpão, o vestido não escondia nada. Aí ela me perguntou: “Já leu Jerzy Kosinski?” “Li Pássaro Pintado”, eu disse. “Um escritor horrível.” “É um escritor muito bom”, ela disse.
Max calou-se, pensando em Kosinski, imagino.
E aí, que aconteceu?
Uma aranha tecia uma teia acima dela. Ela deu um gritinho. Disse: “Essa aranha fez cocô em cima de mim.”
E fez mesmo?
Eu disse a ela que as aranhas não fazem cocô. Ela disse: “Sim, fazem, sim.” E eu disse: “Jerzy Kosinski é uma aranha”, e ela disse: “Eu me chamo Lyn”, e eu disse “Oi, Lyn”.
Belo papo.
Belo papo. Aí ela disse: “Quero lhe dizer uma coisa.” E eu disse: “Manda.” E ela disse: “Aprendi a tocar piano aos treze anos com um conde de verdade. O Conde Rudolph Stauffer.” “Beba, beba”, eu disse a ela.
Posso pegar outra cerveja, Max?
Claro, traga uma pra mim.
Quando voltei, ele continuou.
Ela acabou a bebida e eu fui pegar o copo. Quando estendi a mão, me curvei pra dar um beijo nela. Ela recuou. “Merda, que é um beijinho?”, eu perguntei. “As aranhas se beijam.” “As aranhas não se beijam”, ela disse. Eu não podia fazer nada senão ir preparar mais dois drinques, um pouco mais fortes. Voltei, entreguei a bebida a Lyn e tornei a me sentar no sofá.
Acho que os dois deviam estar no sofá – eu disse.
Mas não estávamos. E ela continuou falando. “O Conde”, disse, “tinha uma testa alta, olhos de avelã, cabelos cor-de-rosa, longos dedos finos, e vivia cheirando a sêmen.”
Ah.
Ela disse: “Ele tinha sessenta e seis anos mas era tesudo. Ensinou piano à minha mãe também. Minha mãe tinha trinta e cinco e eu treze, e ele ensinou piano a nós duas.”
Que era que você devia responder a isso? – perguntei.
Não sei. Por isso disse: “Kosinski não escreve merda nenhuma.” E ela disse: “Ele fez amor com minha mãe.” E eu disse: “Quem? Kosinski?” E ela: “Não, o Conde.” “O Conde fodeu com você?” perguntei. “Não, ele nunca fodeu comigo. Mas me apalpava em várias partes, me deixava muito excitada. E tocava piano maravilhosamente.”
Como você reagia a isso tudo?
Bem, falei a ela da época em que trabalhei pra Cruz Vermelha, durante a Segunda Guerra Mundial. A gente saía recolhendo garrafas de sangue. Tinha uma enfermeira, cabelos negros, muito gorda, e depois do almoço ela se deitava na grama com as pernas abertas pro meu lado. Ficava me olhando fixo. Depois que a gente recolhia o sangue, eu levava as garrafas para o depósito. Era frio lá dentro, e as garrafas eram guardadas em pequenos sacos brancos, e às vezes, quando eu as entregava à garota encarregada do quarto de depósito, uma garrafa escorregava do saco e se quebrava no chão. POU! Sangue e vidro pra todo lado. Mas a garota sempre dizia: “Está tudo bem, não se preocupe com isso.” Eu achava ela muito bondosa e passei a dar beijos nela quando entregava o sangue. Era muito legal beijar ela dentro daquela geladeira, mas eu nunca conseguia nada com a de cabelos pretos que se deitava na grama depois do almoço e abria as pernas pra mim.
Você contou isso a ela?
Contei.
E que foi que ela disse?
Disse: “A aranha está descendo! Está descendo pra cima de mim!” “Oh, meu deus!”, eu disse, e peguei a Cartela de Corrida, abri e peguei a aranha entre o terceiro páreo pra novatos de três anos em mil e duzentos metros e o quarto páreo que tinha um prêmio de cinco mil dólares para cavalos de quatro anos para cima em dois mil metros. Joguei o jornal no chão e consegui dar um beijinho rápido em Lyn. Ela não retribuiu.
Que foi que ela disse do beijo?
Disse que o pai dela era um gênio na indústria de computadores e raramente estava em casa, mas de alguma forma descobriu sobre a mãe e o Conde. Pegou ela um dia depois da escola e bateu com a cabeça dela na parede, perguntando por que tinha protegido a mãe. O pai ficou muito furioso quando descobriu a verdade. Terminou parando de bater com a cabeça dela na parede e foi lá dentro e bateu a cabeça da mãe contra a parede. Ela disse que foi horrível, e jamais voltaram a ver o Conde.
Que foi que você disse a isso?
Eu disse que um dia encontrei uma mulher num bar e levei ela pra casa. Quando ela tirou a calcinha, tinha tanto sangue e merda que eu não consegui. Ela fedia como um poço de petróleo. Ela me massageou as costas com azeite de oliva e eu lhe dei cinco dólares, meia garrafa de vinho do Porto azedo, o endereço de meu melhor amigo, e mandei embora.
Isso aconteceu mesmo?
É. Depois a Lyn me perguntou se eu gostava de T. S. Eliot. Respondi que não. Aí ela disse: “Eu gosto do que você escreve, Max, é tão feio e demente que me fascina. Eu me apaixonei por você. Escrevi uma carta atrás da outra pra você, mas você jamais respondeu.” “Desculpa, boneca”, eu disse. Ela disse: “Eu fiquei louca. Fui pro México. Me meti em religião. Usava um xale preto e saía cantando nas ruas às três horas da manhã. Ninguém me incomodava. Eu tinha todos os seus livros numa maleta e bebia tequila e acendia velas. Depois conheci um toureiro que me fez esquecer você. Isso durou várias semanas.”
Esses caras arranjam muita xoxota.
Eu sei – disse Max. – De qualquer modo, ela disse que acabaram se enchendo um do outro, e eu disse: “Deixa eu ser seu toureiro.” E ela disse: Você é como todo homem. Só quer foder.” “Chupar e foder”, eu disse. Me aproximei dela. “Me dê um beijo”, disse. “Max”, ela disse, “você só quer brincar. Não liga pra mim.” “Eu ligo pra mim”, respondi. “Se você não fosse um escritor tão grande”, ela disse, “nenhuma mulher jamais sequer falaria com você.” Vamos foder”, eu disse. “Quero que se case comigo”, ela disse. “Eu não quero me casar com você”, eu disse. Ela pegou a bolsa e foi embora.
É o fim da história? – perguntei.
É isso aí – disse Max. – Sem um rabo em quatro anos e perco esse. Orgulho, estupidez, seja lá o que for.
Você é um bom escritor, Max, mas não é um sedutor.
Você acha que um bom sedutor teria dado um jeito?
Claro. Sabe, cada jogada dela deve ser respondida com a resposta certa. Cada resposta certa leva o papo numa outra direção, até que o sedutor tem a mulher acuada num canto, ou, mais adequadamente, estendida.
Como posso aprender?
Não tem aprendizado. É um instinto. Você tem de saber o que a mulher está dizendo de fato quando diz outra coisa. Não se pode ensinar.
Que foi que ela disse mesmo?
Queria você, mas você não soube como chegar a ela. Não soube construir uma ponte. Fracassou, Max.
Mas ela leu todos os meus livros. Achava que eu sabia alguma coisa.
Agora ela sabe alguma coisa.
O quê?
Que você é um asno burro, Max.
Sou?
Todos os escritores são. É por isso que escrevem.
Que negócio é esse de “é por isso que escrevem”?
Quero dizer que eles escrevem essas coisas porque não entendem.
Eu escrevo muitas coisas – disse Max, triste.
Me lembro de que, quando era menino, li um livro de Hemingway. Um cara vivia indo pra cama com uma mulher e não conseguia, porque amava a mulher e ela o amava. Deus do céu, eu pensei, que livro sensacional. Todos esses séculos, e ninguém escreveu sobre esse aspecto da coisa. Achava que o cara era simplesmente um burro feliz demais pra conseguir. Mais adiante, li no livro que ele tinha perdido os órgãos genitais na guerra. Que decepção.
Você acha que essa garota vai voltar? – me perguntou Max. – Você devia ter visto aquele corpo, aquele rosto, aqueles olhos.
Não vai voltar – eu disse, me levantando.
Mas que faço eu? – perguntou Max.
Simplesmente continue escrevendo seus pobres poemas, contos e romances...
Deixei-o lá e desci a escada. Nada mais tinha a dizer-lhe. Eram quinze para as oito e eu tinha um jantar. Entrei no carro e fui até o McDonald’s, pensando que provavelmente escolheria camarão frito.

Charles Bukowski, em Numa Fria

Nada, esta espuma

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Eu ainda olhei em vão ―


[…]

De a de lado. Todos eles passarem, tropeando, nós todos, o rumor constante dos cascos. Cavalo, cavalaria! Cortejo que fazia suas voltas, pelos ermos, pelos ocos, pelos altos, a forma duma mistura de gente amontada, uma continuação grande, solevando para adiante o aprumo de meus homens, os chapéus deles quase todos bem engraxados com sêbo de boi e nata de leite, em ponta os canos dos rifles de guerra, a tiracol. Com qual seguimento? Só , o que esperava a gente, era o pouso para jantar; passeata para a estrela-da-tarde. Mas, do que um falava, outro mal ouvia e ria; do que esses se riam, outros ainda falavam. Prosapeavam. Me prazia. Me prazia o ranger o couro das jerebas, aquele chio de carne em asso. A poeira avermelhava e branqueava! poeiras que punham o vento mais áspero. Uns homens em cavalos e armas. Quem visse, fuga fugia, corria! tinham de temer, vigiando com seus olhos escondidos no mato em beiras de estrada. Até os bichos, do cerradão, que escutam o começo de tudo, de seu longe e de seu perto, e logo sabem esperar, ocultos no rareamento, assim não se viam, nenhuns, não se achavam; os pássaros sempre já tinham revoado. Ah, não, eu bem que tinha nascido para jagunço. Aquilo ― para mim ― que se passou: e ainda hoje é forte, como por um futuro meu. Eu estou galhardo. Naquilo, eu tinha amanhecido. Comi carne de onça? Esquipando, eu queria que a gente entrasse, daquele jeito, era em alguma grande verdadeira cidade.
Só às vezes, em repente de receio, eu ainda olhei em vão ― com as presenças de Zé Bebelo me cismava. Se o que sei. Com um arranco de freio, raciocinado. Mas, dando de rédeas sem descanso, derrubei dos ombros aquele meu costume, Zé Bebelo terminara. Só os meus homens. Escutava, olhava ― e eram aqueles: que muitas estrepolias ainda iam decerto agir, e muita má gente matar. Aos dez e dézes, digo, afirmo que me lembro de todos. Esses passam e transpassam na minha recordação, vou destacando a contagem. Nem é por me gabar de retentiva cabedora, nome por nome, mas para alimpar o seguimento de tudo o mais que vou narrar ao senhor, nesta minha conversa nossa de relato. O senhor me entende? A mesmice dos cabras jagunços ― no contemplar a cavalhada ― no passo, os animais dando dos quartos, comuns assim, que não fazem penachos, que não tiram arredondamentos da magreza. Os filhos nascidos de distritos de lugares diversos, mas agora debaixo da minha estima completa, dever de coração enérgico. Até os capiaus e os catrumanos copiavam o comportamento, uns amontados, outros restantes apressados mesmo a pé, e iam pegando o exato. Até o catrumano Teofrásio, em seu jegue, que, como prestável jumento, cumpria bem seu ir, desde que tinha companhia de outros animais. E o Guirigó e o Borromeu, eu meando os dois, ao alcance de qualquer minha mão. Sempre, mesmo como sempre. Mas, um, era Diadorim ― montado à baiana, gineta, com estribos curtos e rédea muito ponderada, bridando bem, em seu argel travado, às upas! cavalo bulideiro, cavalo de olhos pretos conforme como a noite ― Diadorim, que era o Menino, que era o Reinaldo. E eu. Eu? Nos estribos de ferro, freio de ferro, silha forte e silha mestra ― e o par de coldres! Assaz, então, cantaram!

Olererê, Baiana,
eu ia e não vou mais...
Eu faço
que vou
lá dentro, oh Baiana,
e volto do meio pra trás...

Ao demais eu ouvi, soturno sorridente.
Ora vez, que, desse jeito, fomos entortando, entre as duas chapadas, encalço da estrada do rio; e se chegou na fazenda cercã, que era por lá, a Barbaranha dita, em um lugar redondo e simples, no Pé-da-Pedra. O que eu já disse ao senhor, respeitante. Mas acrescento que o dono, no atual, era um seo Ornelas ― Josafá Jumiro Ornelas, por nome todo.
De uns três dias foi o São João, então amanhã é o São Pedro... ― alguém disse, de voz.
Soubessem que esse seo Ornelas era homem bom descendente, posseiro de sesmaria. Antes, tinha valido, com muitos passados, por causa de política, e ainda valesse, compadre que era do Coronel Rotílio Manduca em sua Fazenda Baluarte.
Ao que ele tem, mas tem, mesmo, muita coragem?! ― eu me fiz.
Aí falam em sessenta ou oitenta mortes contáveis... o Marcelino Pampa afiançou ... e ainda não esmoreceu os ânimos…
Chegamos, com proceder seguro, e o céu por cima dali estava muito sereno. Na fazenda tinham levantado um mastro, na frente do pátio; vi movimentos de gente. As mulheres, na boca do forno fumaçando, mexiam com feixes verdes de mariana e vassourinha e carregavam as latas pretas de assar biscoitos. Só aqueles formosos cheiros das quitantas e do forno quente varrido, já confortavam meu estómago. No mastro, que era arvorado para honra de bandeira do santo, eu amarrei o cabresto do meu cavalo.
Mas não desordeei nem coagi, não dei em nenhuma desbraga. Eu não estava com gosto de aperrear ninguém. E o fazendeiro, senhor dali, de dentro saiu, veio saudar, convidar para a hospedagem, me deu grandes recebimentos. Apreciei a soberania dele, os cabelos brancos, os modos calmos. Bom homem, abalável. Para ele, por nobreza, tirei meu chapéu e conversei com pausas.
Amigo em paz? Meu chefe, entre, a valer: a casa velha é sua, vossa... ― ele pronunciou.
Eu disse que sim. Mas, para evitar algum acanhamento e desajeito, mais tarde, também falei: ― Dou todo respeito, meu senhor. Mas a gente vamos carecer de uns cavalos... Assim logo eu disse, em antes de vir a amolecer as situações e estorvar o expediente negócio a boa conversação cordial.
O homem não treteou. Sem se franzir nem sorrir, me respondeu:
O senhor, meu chefe, requer e merece, e com gosto eu cedo... Acho que tenho para coisa de uns cinco ou sete, em estado regular.
E eu entrei com ele na casa da fazenda, para ela pedindo em voz alta a proteção de Jesus. Onde tive os usuais agrados, com regalias de comida em mesa. Sendo que galinha e carnes de porco, farofas, bons quitutes ceamos, sentados, lá na sala. Diadorim, eu, João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, Alaripe e uns outros, e o menino pretinho Guirigó mais o cego Borromeu ― em cujas presenças todos achavam muita graça e recreação.
A dona fazendeira era mulher já em idade fora de galas; mas tinham três ou quatro filhas, e outras parentas, casadas ou moças, bem orvalhosas. Aquietei o susto delas, e nenhuma falta de consideração eu não proporcionei nem consenti, mesmo porque meu prazer era estar vendo senhoras e donzelas navegarem assim no meio nosso, garantidas em suas honras e prendas, e com toda cortesia social. A ceia indo principiando, somente falei também de sérios assuntos, que eram a política e os negócios da lavoura e cria. Só faltava lá uma boa cerveja e alguém com jornal na mão, para alto se ler e a respeito disso tudo se falar.
Seo Ornelas me intimou a sentar em posição na cabeceira, para principal. ― Aqui é que se abancava Medeiro Vaz, quando passou... ― essas palavras. Medeiro Vaz tinha regido nessas terras. Verdade era? Aquele velho fazendeiro possuía tudo. Conforme jagunço de meio-ofício tinha sido, e amigo hospedador, abastado em suas propriedades. De ser de linhagem de família, ele conseguia as ponderadas maneiras, cidadão, que se representava; que, isso, ainda que eu pelejasse constante, tarde seria para bem aprender. Na verdade. Aquela hora, eu, pelo que disse, assumi incertezas. Espécie de medo? Como que o medo, então, era um sentido sorrateiro fino, que outros e outros caminhos logo tomava. Aos poucos, essas coisas tiravam minha vontade de comer farto.
O sertão é bom. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado... ― ele seo Ornelas dizia. ― O sertão é confusão em grande demasiado sossego…
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Brincando de adultos

Meninos

Meleca, casca de ferida e cabeça de camarão, disse o menino.
Meleca, casca de ferida e formiga — disse o seu amigo Remi.
Deu empate.
Peraí. A meleca era sua?
Vai dizer que você já comeu meleca de outro?
Já.
Arglwolg! Ganhou!
Mas haveria revanche.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Primeiro Amor Primeiro | Carlinhos Brown & Simone

Capítulo XI – O Soldado Amarelo

Fotograma do Filme Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos


Fabiano meteu-se na vereda que ia desembocar na lagoa seca, torrada, coberta de catingueiras e capões de mato. Ia pesado, o aió cheio a tiracolo, muitos látegos e chocalhos pendurados num braço. O facão batia nos tocos. Espiava o chão como de costume, decifrando rastos. Conheceu os da égua ruça e da cria, marcas de cascos grandes e pequenos. A égua ruça, com certeza. Deixara pêlos brancos num tronco de angico. Urinara na areia e o mijo desmanchara as pegadas, o que não aconteceria se se tratasse de um cavalo.
Fabiano ia desprecatado, observando esses sinais e outros que se cruzavam, de viventes menores. Corcunda, parecia farejar o solo - e a catinga deserta animava-se, os bichos que ali tinham passado voltavam, apareciam-lhe diante dos olhos miúdos.
Seguiu a direção que a égua havia tomado. Andara cerca de cem braças quando o cabresto de cabelo que trazia no ombro se enganchou num pé de quipá. Desembaraçou o cabresto, puxou o facão, pôs-se a cortar as quipás e as palmatórias que interrompiam a passagem.
Tinha feito um estrago feio, a terra se cobria de palmas espinhosas. Deteve-se percebendo rumor de garranchos, voltou- se e deu de cara com o soldado amarelo que, um ano antes, o levara a cadeia, onde ele aguentara uma surra e passara a noite. Baixou a arma. Aquilo durou um segundo.
Menos: durou uma fração de segundo. Se houvesse durado mais tempo, o amarelo teria caído esperneando na poeira, com o quengo rachado. Como o impulso que moveu o braço de Fabiano foi muito forte, o gesto que ele fez teria sido bastante para um homicídio se outro impulso não lhe dirigisse o braço em sentido contrário. A lâmina parou de chofre, junto à cabeça do intruso, bem em cima do boné vermelho. A princípio o vaqueiro não compreendeu nada. Viu apenas que estava ali um inimigo. De repente notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade. Sentiu um choque violento, deteve-se, o braço ficou irresoluto, bambo, inclinando-se para um lado e para outro.
O soldado, magrinho, enfezadinho, tremia. E Fabiano tinha vontade de levantar o facão de novo. Tinha vontade, mas os músculos afrouxavam. Realmente não quisera matar um cristão: procedera como quando, a montar brabo, evitava galhos e espinhos. Ignorava os movimentos que fazia na sela. Alguma coisa o empurrava para a direita ou para a esquerda. Era essa coisa que ia partindo a cabeça do amarelo. Se ela tivesse demorado um minuto, Fabiano seria um cabra valente. Não demorara. A certeza do perigo surgira - e ele estava  indeciso, de olho arregalado, respirando com dificuldade, um espanto verdadeiro no rosto barbudo coberto de suor, o cabo do facão mal seguro entre os dois dedos úmidos.
Tinha medo e repetia que estava em perigo, mas isto lhe pareceu tão absurdo que se pôs a rir. Medo daquilo? Nunca vira uma pessoa tremer assim. Cachorro. Ele não era dunga na cidade? Não pisava os pés dos matutos, na feira?
Não botava gente na cadeia? Sem-vergonha, mofino. Irritou-se. Porque seria que aquele safado batia os dentes como um caititu? Não via que ele era incapaz de vingar-se? Não via? Fechou a cara. A ideia do perigo ia-se sumindo. Que perigo? Contra aquilo nem precisava facão, bastavam as unhas. Agitando os chocalhos e os látegos, chegou a mão esquerda, grossa e cabeluda, à cara do polícia, que recuou e se encostou a uma catingueira. Se não fosse a catingueira, o infeliz teria caído. Fabiano pregou nele os olhos ensanguentados, meteu o facão na bainha. Podia matá-lo com as unhas. Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. Sim senhor. Aquilo ganhava dinheiro para maltratar as criaturas inofensivas. Estava certo? O rosto de Fabiano contraía-se, medonho, mais feio que um focinho. Hem? Estava certo? Bulir com as pessoas que não fazem mal a ninguém. Porque? Sufocava-se, as rugas da testa aprofundavam-se, os pequenos olhos azuis abriam-se demais, numa interrogação dolorosa.
O soldado encolhia-se, escondia-se por detrás da árvore. E Fabiano cravava as unhas nas palmas calosas. Desejava ficar cego outra vez. Impossível readquirir aquele instante de inconsciência. Repetia que a arma era desnecessária, mas tinha a certeza de que não conseguiria utilizá-la – e apenas queria enganar-se. Durante um minuto a cólera que sentia por se considerar impotente foi tão grande que recuperou a força e avançou para o inimigo.
A raiva cessou, os dedos que feriam a palma descerraram-se – e Fabiano estacou desajeitado, como um pato, o corpo amolecido.
Grudando-se à catingueira, o soldado apresentava apenas um braço, uma perna e um pedaço da cara, mas esta banda de homem começava a crescer aos olhos do vaqueiro. E a outra parte, a que estava escondida, devia ser maior. Fabiano tentou afastar a ideia absurda: – Como a gente pensa coisas bestas!
Alguns minutos antes não pensava em nada, mas agora suava frio e tinha lembranças insuportáveis. Era um sujeito violento, de coração perto da goela. Não, era um cabra que se arreliava algumas vezes – e quando isto acontecia, sempre se dava mal. Naquela tarde, por exemplo, se não tivesse perdido a paciência e xingado a mãe da autoridade, não teria dormido  na cadeia depois de aguentar zinco no lombo. Dois excomungados tinham-lhe caído em cima, um ferro batera-lhe no peito, outro nas costas, ele se arrastara tiritando como um frango molhado. Tudo porque se esquentara e dissera uma palavra inconsideradamente. Falta de criação. Tinha lá culpa? O sarapatel se formara, o cabo abrira caminho entre os feirantes que se apertavam em redor: - “Toca pra frente”. Depois surra e cadeia, por causa de uma tolice. Ele, Fabiano, tinha sido provocado. Tinha ou não tinha? Salto de reiúna em cima da alpercata. Impacientara-se e largara o palavrão. Natural, xingar a mãe de uma pessoa não vale nada, porque todo o mundo vê logo que a gente não tem a intenção de maltratar ninguém. Um ditério sem importância. O amarelo devia saber isso. Não sabia. Saíra-se com quatro pedras na mão, apitara. E Fabiano comera da banda podre. – “Desafasta”.
Deu um passo para a catingueira. Se ele gritasse agora “desafasta”, que faria o polícia? Não se afastaria, ficaria colado ao pé de pau. Uma lazeira, a gente podia xingar a mãe dele. Masentão... Fabiano estirava o beiço e rosnava. Aquela coisa arriada e achacada metia as pessoas na cadeia, dava-lhes surra. Não entendia. Se fosse uma criatura de saúde e muque, estava certo. Enfim apanhar do governo não é desfeita, e Fabiano até sentiria orgulho ao recordar-se da aventura. Mas aquilo... Soltou uns grunhidos. Porque motivo o governo aproveitava gente assim? Só se ele tinha receio de empregar tipos direitos. Aquela cambada só servia para morder as pessoas inofensivas. Ele, Fabiano, seria tão ruim se andasse fardado? Iria pisar os pés dos trabalhadores e dar pancada neles? Não iria.
Aproximou-se lento, fez uma volta, achou-se em frente do polícia, que embasbacou, apoiado ao tronco, a pistola e o punhal inúteis. Esperou que ele se mexesse. Era uma lazeira, certamente, mas vestia farda e não ia ficar assim, os olhos arregalados, os beiços brancos, os dentes chocalhando como bilros. Ia bater o pé, gritar, levantar a espinha, plantar-lhe o salto da reiúna em cima da alpercata. Desejava que ele fizesse isso. A ideia de ter sido insultado, preso, moído por uma criatura mofina era insuportável. Mirava-se naquela covardia, via-se mais lastimoso e miserável que o outro.
Baixou a cabeça, coçou os pêlos ruivos do queixo. Se o soldado não puxasse o facão, não gritasse, ele, Fabiano, seria um vivente muito desgraçado.
Devia sujeitar-se àquela tremura, àquela amarelidão? Era um bicho resistente, calejado. Tinha nervo, queria brigar,  metera-se em espalhafatos e saíra de crista levantada. Recordou-se de lutas antigas, em danças com fêmea e cachaça. Uma vez, de lambedeira em punho, espalhara a negrada. Aí Sinha Vitória começara a gostar dele. Sempre fora reimoso. Iria esfriando com a idade? Quantos anos teria? Ignorava, mas certamente envelhecia e fraquejava. Se possuísse espelhos, veria rugas e cabelos brancos. Arruinado, um caco. Não sentira a transformação, mas estava-se acabando.
O suor umedeceu-lhe as mãos duras. Então? Suando com medo de uma peste que se escondia tremendo? Não era uma infelicidade grande, a maior das infelicidades? Provavelmente não se esquentaria nunca mais, passaria o resto da vida assim mole e ronceiro. Como a gente muda! Era. Estava mudado. Outro indivíduo, muito diferente do Fabiano que levantava poeira nas salas de dança. Um Fabiano bom para aguentar facão no lombo e dormir na cadeira.
Virou a cara, enxergou o facão de rasto. Aquilo nem era facão, não servia para nada. Ora não servia!
Quem disse que não servia?
Era um facão verdadeiro, sim senhor, movera-se como um raio cortando palmas de quipá. E estivera a pique de rachar o quengo de um sem-vergonha. Agora dormia na bainha rota, era um troço inútil, mas tinha sido uma arma. Se aquela coisa tivesse durado mais um segundo, o polícia estaria morto. Imaginou-o assim, caído, as pernas abertas, os bugalhos apavorados, um fio de sangue empastando-lhe os cabelos, formando um riacho entre os seixos da vereda. Muito bem! Ia arrastá-lo para dentro da catinga, entregá-lo aos urubus. E não sentiria remorso. Dormiria com a mulher, sossegado, na cama de varas. Depois gritaria aos meninos, que precisavam criação. Era um homem, evidentemente.
Aprumou-se, fixou os olhos nos olhos do polícia, que se desviaram. Um homem. Besteira pensar que ia ficar murcho o resto da vida. Estava acabado? Não estava. Mas para que suprimir aquele doente que bambeava e só queria ir para baixo? Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira e insultava os pobres! Não se inutilizava, não valia a pena inutilizar-se. Guardava a sua força.
Vacilou e coçou a testa. Havia muitos bichinhos assim ruins, havia um horror de bichinhos assim fracos e ruins.
Afastou-se, inquieto. Vendo-o acanalhado e ordeiro, o soldado ganhou coragem, avançou, pisou firme, perguntou o caminho. E Fabiano tirou o chapéu de couro.
Governo é governo.
Tirou o chapéu de couro, curvou-se e ensinou o caminho ao soldado amarelo.

Graciliano Ramos, em Vidas Secas

1601 – Valladolid

Quevedo

Há vinte anos que a Espanha reina sobre Portugal e todas as suas comarcas, de modo que pode um espanhol passear pelo mundo sem pisar terra estrangeira.
Mas a Espanha é a nação mais cara da Europa: produz cada vez menos coisas e cada vez mais moedas. Dos trinta e cinco milhões de escudos nascidos há seis anos, não sobra nem sombra. Não são alentadores os dados que acaba de publicar aqui dom Martín González de Cellorigo em seu Memorial da política necessária: por obra do azar e da herança, cada espanhol que trabalha mantém outros trinta. Para os rentistas, trabalhar é pecado. Os fidalgos têm por campo de batalha as alcovas; e crescem na Espanha menos árvores que frades e mendigos.
Rumo a Gênova marcham as galeras carregadas com a prata da América. Nem o aroma deixam na Espanha os metais que chegam do México e do Peru. Tal parece, que a façanha das conquistas tivesse sido cumprida pelos mercadores e banqueiros alemães, genoveses, franceses e flamengos.
Vive em Valladolid um rapaz manco e míope, puro de sangue e com espada e língua de muito fio. Pela noite, enquanto o pajem arranca-lhe as botas, medita versos rimados. Na manhã seguinte deslizam as serpentes por baixo dos portões do palácio real.
Com a cabeça afundada no travesseiro, o jovem Francisco de Quevedo y Villegas pensa em quem do covarde faz guerreiro e amolece o juiz mais severo; e amaldiçoando este ofício de poeta ergue-se na cama, esfrega os olhos, aproxima a lamparina e de um impulso tira de dentro de si os versos que não o deixam dormir. Falam os versos de dom Dinheiro, que

nasce nas Índias honrado,
onde o mundo o acompanha,
e vem morrer na Espanha,
e é em Gênova enterrado.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Cash



Não resta alternativa. Ou o mandamos para Jackson ou Gillespie nos processará judicialmente, pois ele soube, de alguma forma, que Darl tocou fogo no celeiro. Ignoro como soube, mas aí está. Vardaman viu-o atear o incêndio, mas jura não ter contado a ninguém, exceto Dewey Dell, e ela lhe disse para não contar a ninguém. Mas Gillespie soube. De qualquer forma, viria a desconfiar, mais cedo ou mais tarde. Talvez aquela mesma noite, só em observar o comportamento de Darl.
E, por isso, Pai disse: "Acho que não temos outro jeito", e Jewel disse: "Quer amarrá-lo agora?"
"Amarrá-lo?", disse Pai.
"Pegá-lo e amarrá-lo", disse Jewel.
"Diabo, quer que ele ponha fogo nas malditas mulas e na carroça?"
Mas não havia necessidade.
"Não é preciso", eu disse. "Podemos esperar até que ela esteja enterrada."
Um sujeito que vai passar o resto da vida trancafiado deve ter permissão para divertir-se um pouco antes de partir.
"Acho que devemos mandá-lo para lá", diz Pai. "Deus sabe que isto é uma provação para mim. Quando o azar começa, parece que não há meio de parar."
Às vezes eu me pergunto se alguém tem o direito de dizer se um homem está maluco ou não. Às vezes eu penso que nenhum de nós é inteiramente louco ou inteiramente são, até que a maioria nos identifica de uma ou de outra maneira. Não importa muito a maneira como um homem age, e sim a maneira como a maioria das pessoas olha-o enquanto ele age.
Porque Jewel é muito duro para com ele. Naturalmente, foi o negócio com o cavalo de Jewel que nos permitiu trazê la até aqui, e, até certo ponto, foi o valor do cavalo que Darl tentou queimar. Mas tenho pensado mais de uma vez, antes de cruzar o rio e depois, que teria sido uma bênção se Deus a tirasse de nossas mãos, de maneira simples e discreta; e pareceu-me que, quando Jewel se empenhou tanto em retirá-la do rio, contrariava, de certo modo, a vontade de Deus; então, quando Darl percebeu que um de nós, pelo visto, devia fazer alguma coisa, quase sou levado a crer que sua conduta ficou, em certo sentido, justificada. Reconheço, no entanto, que não há razão para incendiar o celeiro de alguém e pôr em perigo seu gado e ameaçar destruir sua propriedade. Aí é que se vê se um homem é de fato maluco. Nesses casos, ele não vê as coisas da mesma maneira que as outras pessoas. Reconheço que não se tem outra coisa a fazer com ele senão o que a maioria julga conveniente.
De certa forma, no entanto, é uma vergonha. As pessoas parecem afastar-se daquele velho e justo principio segundo o qual devemos bater os pregos e aparar os cantos com capricho, como se a encomenda fosse feita para nosso próprio uso e comodidade. É como se umas pessoas tivessem tábuas lisas e bonitas com que construir um tribunal, e outras não contassem senão com troncos próprios para levantar um galinheiro Mas sempre é melhor construir um galinheiro bem caprichado que um tribunal de justiça mal-acabado, embora ninguém se sentisse melhor ou pior pelo fato de serem construídas coisas caprichadas ou mal-acabadas.
Assim, subimos a rua, em direção à praça, e ele disse: "Melhor levarmos Cash ao médico, em primeiro lugar. Podemos deixá-lo e voltar depois para apanhá-lo."
É isto mesmo. É porque entre eu e ele a diferença de idade é pouca, enquanto passaram-se quase dez anos antes que Jewel e Dewey Dell e Vardaman começassem a aparecer. Eu me sinto bem com todos, é claro, mas não sei. E como sou o mais velho, e continuo pensando no que ele fez: não sei não.
Pai estava olhando para mim, depois para ele, mordendo os lábios.
"Vamos lá", eu disse. "Vamos ver isto primeiro."
"Ela gostaria de ver todos nós juntos", diz Pai.
"Primeiro, vamos levar Cash ao médico", disse Darl. "Ela pode esperar. Está esperando há nove dias."
"Vocês não sabem mesmo o que dizem", diz Pai. "A pessoa com quem passaram a juventude, com quem envelheceram e que envelheceu em vocês, vendo a velhice chegar e dizendo sempre que isso não tinha importância, e vocês sabendo que isto era verdade neste mundo duro, cheio de dores e provações. Vocês não sabem mesmo o que dizem."
"Temos ainda de abrir a cova", eu disse.
"Armstid e Gillespie disseram-lhe que mandasse uma mensagem antecipando isto", disse Darl. "Não quer ir ao médico agora. Cash?"
"Vamos continuar", eu disse. "A perna está melhor. Melhor fazer cada coisa em sua ocasião oportuna."
"Se a cova já estivesse aberta...", diz Pai. "Ainda por cima, esquecemos a pá."
"Sim", disse Darl. "Terei de ir a uma casa de ferragens. Precisamos comprar uma."
"Custará caro", diz Pai.
"Pretende negar-lhe isto?", diz Darl.
"Vá buscar a pá", disse Jewel. "Vamos, dê-lhe o dinheiro."
Mas Pai não parou. "Acho que podemos arranjar uma pá emprestada", disse. "Acho que deve haver cristãos por aqui."
Assim, Darl continuou calmo e nós continuamos a andar, com Jewel de cócoras na retaguarda, com os olhos na nuca de Darl. Parecia um desses bulldogs, um desses cães que não ladram nunca, encolhido contra a corda, olhando a coisa sobre a qual vai pular.
Ficou assim durante todo o tempo em que estivemos na frente da casa de Mrs. Bundren, ouvindo a música, olhando a nuca de Darl com aqueles seus olhos brancos e duros.
A música tocava dentro de casa. Era um dos tais gramofones. Tão natural como se uma banda entoasse a música.
"Quer ir agora ao Peabody?". perguntou Darl. "Eles podem ficar aqui e avisar Pai. Eu o levarei ao Peabody e virei apanhá-los."
"Não", eu disse. Melhor enterrá-la de uma vez, agora que estávamos quase em condições, apenas à espera que emprestassem uma pá a Pai. Ele tinha percorrido a rua até o lugar onde se ouvia música.
"Talvez tenham uma aqui", disse. Parou a carroça à porta de Mrs. Bundren. Era como se tivesse certeza. Às vezes eu penso que um trabalhador vê trabalho à sua frente, enquanto um preguiçoso só vê preguiça. Assim, ele parou ali, como se tivesse a certeza, diante daquela casinha nova de onde saia música. Esperamos, ouvindo a música. Acho que, pechinchando um pouco, teria comprado um ao Suratt por cinco dólares. Coisa confortadora é a música. "Talvez tenham uma aqui", diz Pai.
"Quer que Jewel vá?", pergunta Darl, "ou prefere eu?"
"Creio que irei eu mesmo", diz Pai. .Desceu e, entrando no caminho, rodeou a casa até os fundos. A música parou, em seguida recomeçou.
"Conseguiu", disse Darl.
"Sim", eu disse. Foi como se ele tivesse certeza, como se pudesse ver através das paredes e saber o que vai acontecer nos próximos dez minutos.
Só que foram mais de dez minutos. A música parou novamente, desta vez um bom pedaço, lá onde Pai e ela estavam conversando, nos fundos. Nós esperávamos na carroça.
"Deixe-me levar você ao Peabody", disse Darl.
"Não", eu disse. "Primeiro, vamos enterrá-la."
"Se ele voltar", disse Jewel. Começa a praguejar. Prepara-se para descer da carroça. "Vou ver o que se passa", disse.
Então vimos Pai de volta. Trazia duas pás e rodeava a casa. Colocou-as na carroça, subiu e continuamos. A música havia recomeçado, sem parar. Pai olhou para trás, para a casa. Parece que levantou um pouco a mão, acenando, e eu vi a cortina afastar-se um pouco, na janela, e a sombra do rosto da mulher.
A coisa mais curiosa, porém, foi a atitude de Dewey Dell. Surpreendeu-me. Compreendo bem que as pessoas o considerem estranho, e, por essa mesma razão, ninguém pode ficar ofendido. Era como se ele estivesse sempre em órbita, alheio às coisas, como a gente, e aborrecer-se com ele, por causa disso, seria o mesmo que aborrecer-se com uma poça de lama que respinga em nós quando pomos o pé dentro. E, no entanto, sempre tive a ideia de que ele e Dewey Dell guardavam um segredo qualquer. Se havia um de nós de quem ela gostava mesmo, essa pessoa era Darl. Mas quando, depois de abrir a cova, pôr o caixão dentro e cobri-la, saímos do cemitério e chegamos ao lugar onde os guardas esperavam, e quando eles avançaram e caíram sobre Darl e Darl deu um salto para trás, foi justamente Dewey Dell quem o agarrou, antes mesmo que Jewel pudesse segurá-lo. E então eu julguei saber como Gillespie descobriu quem lhe incendiou o celeiro.
Ela não havia dito uma palavra, nem mesmo o olhara, mas quando os guardas disseram-lhe o que pretendiam e que tinham vindo para levá-lo e ele saltou, então ela pulou sobre ele como um gato selvagem, de tal forma que um dos guardas teve de correr e segurá-la, e ela ferindo-o e arranhando-o com as unhas, como um gato selvagem, enquanto o outro e Pai e Jewel derrubavam Darl e o mantinham, de costas, contra o chão, a olhar para mim.
"Pensei que você me avisaria", ele disse. "Nunca pensei que você não me avisasse."
"Darl", eu disse.
Mas ele resistiu outra vez. Lutaram ele e Jewel e um dos guardas, enquanto o outro guarda segurava Dewey Dell e Vardaman gritava e Jewel dizia: "Matem-no. Matem o filho da puta."
Foi muito triste. Muito triste. É difícil alguém escapar de uma sujeira. Ele não pôde. Tentei dizer-lhe isto, mas ele se limitava a queixar-se: "Pensei que você me avisaria. Porque não é que eu...", ele disse, e então começou a rir. O outro guarda afastou Jewel dele e ele sentou-se no chão e continuou a rir.
Tentei dizer-lhe. Se ao menos pudesse mexer-me, ou me sentar. Mesmo assim, tentei explicar-lhe e ele parou de rir e me olhou.
"Quer que eu vá?", perguntou.
"Será melhor para você", eu disse. "Lá você ficará tranquilo, sem ter ninguém que o incomode e essa coisa toda. Será melhor para você, Darl", eu .disse.
"Melhor", ele disse. Começou a rir novamente. "Melhor", disse. Mal podia pronunciar a palavra, de tanto rir. Sentado no chão, ele nos observava, rindo perdidamente. Foi triste. Foi realmente muito triste. O diabo me leve se eu podia ver motivo de riso. Porque nada há que justifique a deliberada destruição do que um homem construiu com seu próprio suor e do fruto do seu suor, que guardou com carinho.
Mas não sei se alguém tem o direito de dizer se um homem está louco ou não está. É como se em cada homem houvesse uma personalidade à margem da sanidade ou da loucura, uma personalidade que observasse o são e o insano no homem com o mesmo horror e a mesma estupefação.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Lapa de Bandeira (Quinta rima)

A Manuel Bandeira

Existia, e ainda existe
Um certo beco na Lapa
Onde assistia, não assiste
Um poeta no fundo triste
No alto de um apartamento
Como no alto de uma escarpa.

Em dias de minha vida
Em que me levava o vento
Como uma nave ferida
No cimo da escarpa erguida
Eu via uma luz discreta
Acender serenamente. 

Era a ilha da amizade
Era o espírito do poeta
A buscar pela cidade
Minha louca mocidade.
Como uma nave ferida
Perambulando patética.

E eu ia e ascensionava
A grande espiral erguida
Onde o poeta me aguardava
E onde tudo me guardava
Contra a angústia do vazio
Que embaixo me consumia.

Um simples apartamento
Num pobre beco sombrio
Na Lapa, junto ao convento...
Porém, no meu pensamento
Era o farol da poesia
Brilhando serenamente.

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

O genial Quino

Só como processo

Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver. Mas não esquecer que se trata apenas de uma receita e de um processo. De um modo de não se perder na verdade, que esta não tem bem nem mal.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas 

Hi, Hi, Hi | Paul McCartney e Linda McCartney


Hi, Hi, Hi
De Paul McCartney e Linda McCartney

Well when I met you at the station
You were standing with a bootleg in your hand
I took you back to my little place for a taste
Of a multicoloured band

We’re gonna get hi, hi, hi
The night is young
I’ll put you in my pocket, little mama
Gonna rock it and we’ve only just begun
We’re gonna get hi, hi, hi
With the music on
Won’t say bye-bye, bye-bye, bye-bye, bye-bye
Til the night is gone
I’m gonna do it to you, gonna do ya, sweet banana
You’ve never been done
We’re going to get hi, hi, hi
In the midday sun

Well well take off your face
Recover from the trip you’ve been on
I want you to lie on the bed
Getting ready for my polygon
I’m gonna do it to you, gonna do ya, sweet banana
You’ve never been done
Yes so like a rabbit, gonna grab it
Gonna do it til the night is done

We’re gonna get hi, hi, hi
With the music on
Won’t say bye-bye, bye-bye, bye-bye, bye-bye
Til the night has gone
I’m gonna do it to you, gonna do ya, sweet banana
You’ve never been done

We’re gonna get hi, hi, hi
We’re going to get hi, hi, hi
We’re going to get hi, hi, hi
In the midday sun

Hi, hi, hi
Hi, hi, hi
Hi, hi, hi
In the midday sun

O dramaturgo do absurdo Alfred Jarry aparece em algumas de minhas canções, incluindo “Maxwell’s Silver Hammer”. Ele era uma figuraça, e seus escritos eram muito divertidos. Conheci o trabalho dele numa produção de rádio da peça Ubu Cocu, continuação da mais famosa Ubu Rei. Isso foi na época em que estávamos compondo o material do álbum Sgt. Pepper. Um dos protagonistas de Ubu Cocu é um personagem chamado Achras, o criador de “poliedros”. É por isso que utilizo o termo “polígono” nesta canção. “Hi, Hi, Hi” foi banida pelos nossos amigos da BBC por ser sexualmente sugestiva. Devem ter pensado que eu cantava “body gun” (“pistola corporal”) em vez de “polygon” (“polígono”). Não sei bem ao certo qual das duas opções é mais sugestiva.
Por sinal, a ideia de “I met you at the station” é bem comum na tradição do blues:

Yeah, when the train left the station
It had two lights on behind
Whoa, the blue light was my baby
And the red light was my mind

Esses versos pertencem a “Love in Vain”, a canção de Robert Johnson que ganhou uma cover dos Rolling Stones em 1969, três anos antes de “Hi, Hi, Hi” ser lançada.
A referência ao bootleg remonta à visita que recebemos em nossa fazenda na Escócia de um sujeito que veio de Norman, Oklahoma. Esse cara apareceu um dia com um LP de vinil numa sacola – feita de estopa – que era, anunciou ele, um bootleg, ou disco pirata. Então é provável que fosse nisso que eu estivesse pensando ao começar a canção.
Então temos a expressão “get hi, hi, hi”, dar oi, que faz trocadilho com “get high, high, high”, ficar alto. Devo confessar que isso tem um certo humor atrevido. É certo que a BBC pensou assim. Acontece que nessa época todo mundo estava ficando “alto” no sentido de “cha-pa-do”. Todo mundo fumava maconha. Até fomos presos por cultivá-la em nossa fazenda na Escócia. Claro, também pode se referir a ficar alto com uma droga legalizada, como o álcool.
Aqui o ponto principal é que sexo e drogas são dois elementos básicos do rock’n’roll. Mais do que isso, esse é um gênero que reconhece abertamente o sexo e as drogas como diversão.
As pessoas me dizem: “Uau, meu Deus, como você faz isso?”. E eu respondo: “Sexo e drogas” – o que não é verdade, estritamente falando, mas tem seu fundo de verdade. Uma das características que mantêm a vitalidade do rock’n’roll é que ele acalenta possibilidades de transgressão – ou aquilo que em geral é considerado transgressão.

Paul McCartney, em As Letras – De 1956 até o presente