Nunca vi os corvos saindo da árvore de manhã, mas todo fim de tarde, cerca de meia hora antes de escurecer, eles começam a chegar, voando de todos os cantos da cidade. Talvez alguns deles cumpram regularmente o papel de convocar o bando, descendo dos céus em voos rasantes ao longo de quarteirões a fim de chamar os outros para voltar para casa, ou talvez cada um deles faça um voo ao redor da área onde se encontra para reunir os desgarrados antes de rumar para a árvore. Passei tanto tempo observando que seria de esperar que eu já soubesse a essa altura. Mas só vejo corvos, dezenas deles, virem voando de longe de todas as direções e uns cinco ou seis voando em círculos como sobre o O’Hare, chamando, chamando, e então, numa fração de segundo, tudo fica em silêncio de repente e não se vê mais corvo nenhum. A árvore parece um bordo comum. Não há como você saber que há tantos pássaros lá.
Por acaso, eu estava na minha varanda da frente quando os vi pela primeira vez. Eu tinha acabado de chegar do centro da cidade e estava usando meu tanque de oxigênio portátil, sentada no balanço da varanda para ver a luz do fim da tarde. Normalmente eu me sento na varanda dos fundos, onde a mangueira do meu tanque normal alcança. Às vezes assisto ao noticiário nessa hora ou preparo o jantar. O que quero dizer é que eu poderia facilmente não ter a menor ideia de que aquele bordo fica cheio de corvos ao pôr do sol.
Será que todos vão embora juntos depois, para dormir em alguma outra árvore num ponto mais alto do monte Sanitas? Talvez, porque eu me levanto cedo e costumo ir me sentar perto da janela que dá para o sopé das montanhas e nunca vi os corvos saindo da árvore. No entanto, vejo cervos subindo as colinas do monte Sanitas e de Dakota Ridge e a luz rosada do sol nascente brilhando sobre as rochas. Se há neve e está muito frio, um reflexo avermelhado surge no alto das montanhas, quando os cristais de gelo transformam a cor da manhã num rosa de vitral, neon cor de coral.
Claro, é inverno agora. A árvore está sem folhas e não há corvos. Estou apenas pensando nos corvos. Caminho com dificuldade, então os poucos quarteirões colina acima seriam demais para mim. Eu poderia ir de carro, imagino, como Buster Keaton, que pedia para o chofer levá-lo até o outro lado da rua. Mas acho que estaria escuro demais a esta hora para ver os pássaros dentro da copa da árvore.
Nem sei por que puxei este assunto. As pegas-rabudas brilham com uma cintilação verde-azulada contra a neve. Elas têm um grito autoritário parecido. Claro que eu poderia procurar num livro ou telefonar para alguém para descobrir como são os hábitos noturnos dos corvos, mas o que me incomoda é que eu só reparei neles por acidente. O que mais será que eu deixei passar? Quantas vezes na minha vida eu estive, por assim dizer, na varanda dos fundos, e não na varanda da frente? O que será que me disseram que eu não ouvi? Que amor poderia ter existido que eu não senti?
Essas perguntas são inúteis. Eu só vivi tanto tempo porque deixei meu passado para lá. Fechei a porta para tristeza arrependimento remorso. Se eu os deixar entrar, só uma fresta autocomplacente, zás, a porta vai se escancarar rajadas de dor despedaçando meu coração cegando meus olhos de vergonha quebrando copos e garrafas derrubando jarros estilhaçando janelas tropeçando ensanguentada no açúcar derramado e nos cacos de vidro engasgando aterrorizada até que com um último estremecimento e soluço eu torno a fechar aquela porta pesada. E junto os pedaços mais uma vez.
Talvez não seja uma coisa tão perigosa assim, deixar o passado entrar com o prefácio “E se?”. E se eu tivesse falado com Paul antes de ele ir embora? E se eu tivesse pedido ajuda? E se eu tivesse me casado com H? Sentada aqui, olhando pela janela em direção à árvore onde agora não há galhos nem corvos, as respostas para cada “e se” são estranhamente tranquilizadoras. Eles não poderiam ter acontecido, esse “e se”, aquele “e se”. Tudo de bom ou de ruim que aconteceu na minha vida foi previsível e inevitável, sobretudo as escolhas e ações que garantiram que eu viesse a estar agora absolutamente sozinha.
Mas e se eu voltasse bem lá para trás, para antes de nos mudarmos para a América do Sul? E se o dr. Mock tivesse dito que eu não podia sair do Arizona por um ano, que eu precisava de uma terapia extensa e de ajustes regulares no meu colete, talvez até de uma cirurgia para corrigir minha escoliose? Eu poderia ter me juntado à minha família no ano seguinte. E se eu tivesse ficado morando com os Wilson em Patagonia, Arizona, ido semanalmente ao ortopedista em Tucson, lendo Emma ou Jane Eyre nas viagens quentes de ônibus?
Os Wilson tinham cinco filhos, todos já grandes o bastante para trabalhar na mercearia ou na lanchonete da família. Eu trabalhava antes e depois da escola na lanchonete com Dot e dividia o quarto do sótão com ela. Dot tinha dezessete anos e era a filha mais velha. Já era uma mulher, na verdade. Parecia uma mulher saída de um filme, pelo modo como ela sapecava pó de arroz no rosto, lambuzava os lábios de batom e fumava soltando fumaça pelo nariz. Dormíamos juntas no colchão de palha, nos cobríamos com colchas de retalhos velhas. Aprendi que era melhor não incomodá-la, ficar quietinha, fascinada com os cheiros dela. Ela domava o cabelo ruivo encaracolado com óleo Wildroot, besuntava o rosto com Noxzema à noite e passava sempre perfume Tweed nos pulsos e atrás das orelhas. Cheirava a cigarro, suor, desodorante Mum e ao que eu mais tarde descobriria ser sexo. Nós duas cheirávamos a gordura velha porque fazíamos hambúrgueres e batata frita na lanchonete até a hora de fechar, às dez. Voltávamos para casa a pé, atravessando a rua principal e os trilhos do trem, passando rápido pelo salão Frontier e descendo a rua até a casa dos pais dela. A casa dos Wilson era a mais bonita da cidade. Uma casa grande, de dois andares, branca, com uma cerca de estacas, jardim e gramado. A maioria das casas em Patagonia era pequena e feia. Casas provisórias de cidade mineradora pintadas naquele tom esquisito de caramelo das estações de trem de campos de mineração. A maior parte das pessoas trabalhava no alto da montanha, nas minas de Trench e Flux, das quais meu pai tinha sido superintendente. Agora ele era comprador de minérios no Chile, no Peru e na Bolívia. Ele não queria ir, não queria abandonar as minas, não queria parar de trabalhar em minas. Minha mãe, todo mundo, tinha convencido meu pai a ir. Era uma grande oportunidade e nós ficaríamos muito ricos.
Ele pagava à família Wilson pela minha hospedagem e alimentação, mas todos decidiram que seria bom para o meu caráter que eu trabalhasse como todos os outros filhos. A gente dava um duro danado, principalmente Dot e eu, porque trabalhávamos até tarde e depois acordávamos às cinco da manhã. Abríamos a lanchonete para os três ônibus de mineradores que iam de Nogales para a mina de Trench. Os ônibus chegavam com quinze minutos de intervalo entre um e outro; os mineradores só tinham tempo para tomar um ou dois cafés e comer uns donuts. Eles nos agradeciam e acenavam para nós ao saírem, Hasta luego! Nós terminávamos de lavar a louça e fazíamos sanduíches para comer no almoço. Quando a sra. Wilson chegava para tomar conta da lanchonete, íamos para a escola. Eu ainda estava na escola primária no alto da colina. Dot estava no secundário.
Depois que voltávamos para casa à noite, ela saía de novo, às escondidas, para se encontrar com o namorado, Sextus. Ele morava num rancho em Sonoita, tinha parado de estudar para ajudar o pai. Não sei a que horas ela voltava para casa. Eu pegava no sono assim que encostava a cabeça no travesseiro. Assim que estendia o esqueleto na palha. Adorei a ideia do colchão de palha, como em Heidi. A palha era gostosa e tinha um cheiro gostoso. Eu sempre tinha a impressão de que havia acabado de fechar os olhos quando Dot me sacudia para me acordar. Ela já tinha se lavado ou tomado uma chuveirada e se vestido quando me acordava, penteando e enrolando o cabelo e se maquiando. “O que é que você está olhando? Arrume a cama se não tem mais nada pra fazer.” Ela realmente não gostava de mim, mas eu também não gostava dela, então não ligava. No caminho para a lanchonete, ela repetia sem parar que era melhor eu ficar de bico calado com respeito aos encontros dela com Sextus, o seu pai a mataria se soubesse. Se a cidade inteira já não soubesse dos encontros dela com Sextus, eu teria contado para alguém, não para os seus pais, mas para alguém, só porque ela era muito malvada. Era malvada por princípio. Achava que devia odiar aquela criança que tinham enfiado no quarto dela. A verdade era que a gente se entendia bem de outros jeitos, sorria e dava risada, trabalhava bem em conjunto, picando cebola, preparando refrigerantes, virando hambúrgueres. Nós duas éramos rápidas e eficientes, gostávamos de gente, principalmente dos simpáticos mineradores mexicanos que brincavam e mexiam com a gente de manhã. Depois da escola, estudantes e pessoas da cidade iam para lá, para tomar refrigerantes ou sundaes, para ouvir música na jukebox e jogar na máquina de pinball. Servíamos hambúrgueres, cachorro-quente com chili, queijo quente. Também tínhamos salada de atum, de ovo, de batata e de repolho, que a sra. Wilson fazia. No entanto, o prato mais popular era o chili que a mãe de Willie Torres levava para lá todas as tardes. Chili vermelho no inverno, chili verde com carne de porco no verão. Pilhas de tortilhas, que esquentávamos na grelha.
Uma das razões por que Dot e eu trabalhávamos tanto e tão rápido é que tínhamos um acordo tácito segundo o qual, depois de lavarmos toda a louça e limparmos a grelha, ela sairia pelos fundos com Sextus e eu me encarregaria de atender os poucos fregueses que costumavam pedir café e torta entre nove e dez horas. Basicamente eu fazia minha lição de casa com Willie Torres.
Willie trabalhava até as nove na contrastaria ao lado. Estávamos na mesma série na escola e eu tinha feito amizade com ele lá. Nas manhãs de sábado eu descia com o meu pai de picape para fazer compras e pegar a correspondência para as quatro ou cinco famílias que moravam na montanha, perto da mina de Trench. Depois de fazer todas as compras e guardar tudo na picape, papai passava na constrataria do sr. Wise. Eles tomavam café, eles conversavam sobre minérios, minas, veios? Desculpe, eu não prestava atenção, Sei qu era sobre minérios. Willie era uma pessoa diferente na constrataria. Ele era tímido na escola, tinha vindo do México com oito anos e, embora fosse mais inteligente que a sra. Boosinger, tinha um pouco de dificuldade de ler e escrever. No primeiro cartão de Valentine’s Day que me deu, Willie escreveu “Seja minha prinseza”. No entanto, ninguém caçoava dele como caçoavam de mim e do meu colete ortopédico, gritando “Madeira!” quando eu entrava na sala, porque eu era muito alta. Ele também era alto; tinha cara de índio, maçãs do rosto salientes e olhos escuros. Usava roupas limpas, mas surradas e pequenas demais para ele; seu cabelo preto era comprido e desigual, cortado pela mãe. Quando li O morro dos ventos uivantes, Heathcliff era como Willie, indômito e corajoso.
Na contrastaria ele parecia saber tudo. Queria ser geólogo quando crescesse. Ele me ensinou a identificar ouro, ouro de tolo e prata. Naquele primeiro dia, meu pai perguntou sobre o que estávamos conversando. Eu mostrei a ele o que eu tinha aprendido. “Isto é cobre. Quartzo. Chumbo. Zinco.”
“Que maravilha!”, ele disse, realmente satisfeito. No carro, voltando para casa, eu tive uma aula de geologia sobre todo o terreno até a mina.
Em outros sábados, Willie me mostrou mais pedras. “Esta aqui é mica. Esta é xisto, essa é uma pedra calcária.” Ele me explicou os mapas de mineração. Remexíamos em caixas cheias de fósseis. Ele e o sr. Wise costumavam sair à procura de fósseis. “Ei, olha esse! Olha só essa folha!” Eu não percebia que amava Willie porque a nossa proximidade era muito tranquila, nada tinha a ver com o amor de que as meninas viviam falando, nada tinha a ver com romance ou paixonites ou iih a fulana gosta do beltrano.
Na lanchonete, fechávamos as persianas, sentávamos em frente ao balcão e ficávamos fazendo lição de casa durante aquela última hora, tomando sundaes com calda quente de chocolate. Willie sabia fazer um macete na jukebox para que ela ficasse tocando “Slow Boat to China”, “Cry” e “Texarkana Baby” sem parar. Ele era bom em álgebra e aritmética e eu era boa com palavras, então ajudávamos um ao outro. Nós nos encostávamos um no outro, nossas pernas enroscadas em volta dos bancos. Ele até passava o braço em volta da parte do meu colete que ficava para fora e eu não me importava. Normalmente, se eu percebia que alguém tinha notado o colete debaixo das minhas roupas, eu já passava mal de tanta vergonha.
Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos
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