10/01/2025

Códigos e Codinomes


Não é que a gente queira debochar. Obrigam-nos a isso. Quando um marmanjo, pago com nosso dinheiro, envolvido em operações escusas, escolhe para si mesmo (ou escolhem para ele) o codinome Flecha Dourada, sinto que é minha obrigação esculhambar ao máximo os celebrantes desse carnaval mórbido.
Imagino uma reunião para resolver códigos e nomes de guerra.
Flecha Dourada coloca languidamente o cigarro na piteira de madrepérola:
– Que tal “Operação Dragão’?
– Nooo-oo-ssa! Aquele bicho nojento que aparece de coadjuvante do santo em medalinha de suburbano?! Detestei!
– Pobreza!
– Nenúfar Tresloucado, quer parar de cortar esse molde e dar uma ideia?
– Hii, não implica com o meu molde, tá!? Foi feito por mim!
– Desculpe, rião precisa se ofender. “Dragão" tá bom pra você?
– De jeito nenhum! Isso é uma operação séria ou alegoria do Joãozinho Trinta? “Dragão” é cafonérrimo, prefiro “Branca de Neve e os Sete Asnões”.
– Anões, sua louca.
– Vai por mim, querida: bota Asnões mesmo. Sempre acaba em burrada...
– Vou telefonar pro salão e pedir uma dica pra Surucucu de Valisére.
– Não está no Brasil. Foi fazer um curso de aperfeiçoamento no Chile.
– Que zumbido horroroso é esse?
– Se for marimbondo de fogo, juro que eu me atiro pela janela.
– E porão tem janela, filho? Desencanta!
– Não se trata de nenhum inseto incendiário, gente. O zumbido é do nosso rádio.
– Ai, que tédio! Deve ser o Uirapuru Metaleiro falando em traineira. Só tem esse assunto.
– Bota na FM, depressa!
– Chamando Flecha Dourada. Câmbio. BZZZZ.
– Virgem Maria! Pelo barulho, deve ser o Kid Abelha...
– Responde logo, Flechinha.
– Aqui, ó! Não é minha função. Chama o responsável pelas comunicações.
– Então deu estática, neguinha. Mandacaru Soft baixou enfermaria.
– BZZZZZZ. Responda, Flecha Dourada. Câmbio.
– Passarei a usar o código D.O., tá? Mensagem top secret. Câmbio.
– Prossiga. Câmbio.
– Teu mal foi comentar o passado. Ninguém precisa saber sobre o que houve entre nós dois. O peixe é profundo das redes, segredo é pra quatro paredes. Câmbio.
– E o lencinho branco que esqueceste? Câmbio.
– Uma remota batucada. Câmbio.
– Sua voz habitual não ouvi dizer bom dia. Câmbio.
– Foi o ciúme que se debruçou sobre o meu coração.
Câmbio.
– E a lua anda tonta? Câmbio.
– Estão voltando as flores... Câmbio.
– Bandeira branca, amor? Câmbio.
– Tudo acabado entre nós. Já não há mais nada.
Desligo.
– Qual o significado da mensagem?
– Foi usado o código D.O. Sigilo total.
– D.O. quer dizer Dificuldade Orientada?
– Claro que não! D.O. é a tua, a minha, a nossa Dalva de Oliveira! A base do código é o repertório dela. A mensagem significa: o jornalista falou demais. Afundem-no. Possibilidades de deixar pistas são remotas. Fazer parecer crime passional. Situação melhorando para nós, mas devemos fingir que não temos mais função na Nova República, santa.
– Ufa! Tô morta.
– Não fala assim que atrai, garota.
– Precisava de uma boa sauna pra relaxar.
– Boa ideia! Vamos passar na Escola Superior antes pra uns camparis.

* * *

– Chega a dar saudade do tempo em que Raposa Vermelha chamava Urso Branco e surravam juntos os boches, né?

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

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