04/05/2023

Piloto de Guerra | II


Acordo do meu sonho. O Comandante me surpreende com uma estranha proposta:
— Se essa missão o aborrece demais, se você não se sentir muito em forma, posso…
— Ora, meu Comandante!
O Comandante sabe muito bem que tal proposta é absurda. Mas, quando uma tripulação não volta, ele se lembra da gravidade dos rostos na hora da partida. Interpreta essa gravidade como sinal de um pressentimento. Culpa-se por tê-la negligenciado.
O escrúpulo do Comandante me faz pensar no Israel. Eu estava fumando antes de ontem, na janela da sala de informações. Quando vi o Israel da minha janela, ele andava rapidamente. Seu nariz estava vermelho. Um nariz grande, bem judeu e bem vermelho. Fiquei bruscamente chocado com o nariz vermelho do Israel.
Eu tinha por esse Israel, cujo nariz estava observando, uma profunda amizade. Era um dos camaradas pilotos mais corajosos do grupo. Um dos mais corajosos e um dos mais modestos. Tinham-lhe falado tanto da prudência judia que ele devia tomar sua coragem por prudência. É prudente ser vencedor.
Então, reparei no seu nariz grande e vermelho, que brilhou apenas um instante, dada a rapidez dos passos que levavam Israel e seu nariz. Sem querer zombar, voltei-me a Gavoille:
— Por que ele está fazendo aquele nariz?
— Foi a mãe dele quem o fez — respondeu Gavoille.
Mas acrescentou:
— Estranha essa missão em baixa altitude. — E saiu.
— Ah!
E, claro, eu me lembrei, à noite, quando deixamos de esperar o retorno do Israel, daquele nariz que, plantado num rosto totalmente impassível, exprimia, com uma espécie de gênio próprio, a mais pesada das preocupações. Se eu precisasse ter ordenado a partida do Israel, a imagem daquele nariz me teria perseguido muito tempo, como uma recriminação. Israel, decerto, nada respondera à ordem de partida, senão: “Positivo, Comandante. Sim senhor, Comandante”. Israel, decerto, não tremera um único músculo do rosto. Mas, devagar, insidiosa e traiçoeiramente, seu nariz acendeu. Israel poderia contrair os traços de seu rosto, mas não a cor de seu nariz. E seu nariz abusara daquela cor para manifestar-se, por sua conta, no silêncio. O nariz, à revelia de Israel, exprimira ao comandante sua forte desaprovação.
Talvez seja por isso que o Comandante não goste de mandar partir os que imagina estarem assolados de pressentimentos. Os pressentimentos quase sempre enganam, mas dão às ordens de guerra um tom de condenação. Alias é um chefe, não um juiz.
Assim, outro dia, a respeito do suboficial T.
Tanto quanto Israel era corajoso, T. era acessível ao medo. É o único homem que conheci que experimentou de fato o medo. Quando se dava a T. uma ordem de guerra, provocava-se nele uma estranha ascensão de vertigem. Era alguma coisa simples, inexorável e lenta. T. enrijecia lentamente dos pés à cabeça. Seu rosto ficava como que lavado de qualquer expressão. E seus olhos começavam a luzir.
Ao contrário do Israel, cujo nariz me parecera tão aflito, aflito pela provável morte do Israel e ao mesmo tempo muito irritado, T. não formava movimentos interiores. Ele não reagia: ele entrava em mutação. Quando se terminava de falar com T., descobria-se ter simplesmente acendido nele a angústia. A angústia começava por expandir em seu rosto uma espécie de claridade uniforme. T., desde então, ficava como que fora de alcance. Sentia-se aumentar entre o universo e ele um deserto de indiferença. Em lugar algum, jamais conheci, em ninguém no mundo, essa forma de êxtase.
— Nunca deveria tê-lo deixado partir naquele dia — dizia mais tarde o Comandante.
Naquele dia, quando o Comandante anunciara a partida a T., ele não havia somente empalidecido, mas também começara a sorrir. Simplesmente sorrir. Assim fazem, talvez, os supliciados quando o carrasco, realmente, passa dos limites.
— Você não está bem. Vou substituí-lo…
— Não, não Comandante. Já que é a minha vez, é a minha vez.
E T., em continência diante do Comandante, olhava para a frente, sem um movimento.
— Mas se você não se sente seguro de si…
— É minha vez, Comandante, é minha vez.
— Vejamos, T…
— Comandante…
O homem parecia um bloco. E Alias:
— Então o deixei partir.
O que se seguiu nunca teve explicação. T., metralhador a bordo do aparelho, sofreu a tentativa de ataque por parte de um caça inimigo. Mas as metralhadoras do caça tendo travado, este deu meia-volta. O piloto e T. se falaram até quando próximos do terreno da base, sem que o piloto notasse nada de anormal. Mas a cinco minutos da chegada, não teve mais resposta.
E encontramos T. à noite, com o crânio fraturado pela empenagem do avião. Ele saltara de paraquedas em condições desastrosas, em plena velocidade, e isso sobre território amigo, quando nenhum perigo o ameaçava mais. A passagem do caça funcionara como um apelo irresistível.

* * *

— Vão se vestir — disse-nos o Comandante —, e estejam no ar às cinco e meia.
— Até logo, Comandante.
O comandante responde com um gesto vago. Superstição? Como meu cigarro está apagado e vasculho em vão meus bolsos: Por que você nunca tem fósforos? Exatamente. E passo pela porta, com esse adeus, perguntando-me: “Por que nunca tenho fósforos?”.
— A missão o aborrece — observa Dutertre. — Eu penso: “Ele não se lixa”. Mas não é em Alias que estou pensando, fazendo essa tirada injusta. Estou chocado com uma evidência que ninguém confessa: a vida do Espírito é intermitente. A vida da Inteligência, somente esta, é permanente, ou quase. Há poucas variações em minhas faculdades de análise. Mas o Espírito não considera os objetos, considera o sentido que os liga entre si. O rosto que é lido através deles. E o Espírito passa da plena visão à cegueira absoluta. Quem ama sua morada, chega a hora em que não vê ali nada além da junção de objetos disparatados. Quem ama sua mulher, chega a hora em que só vê no amor preocupações, contrariedades e obrigações. Quem apreciava certa música, chega a hora em que ela nada lhe significa. Chega a hora, como agora, em que não entendo mais meu país. Um país não é a soma de terras, costumes, materiais, que minha inteligência sempre consegue apreender. É um Ser. E chega a hora em que estou cego aos Seres.
O comandante Alias passou a noite com o general discutindo lógica pura. A lógica pura arruína a vida do Espírito. Depois, ele se esgotou, na estrada, contra imensos engarrafamentos. Depois, ele encontrou, chegando ao Grupo, cem dificuldades materiais daquelas que nos roem pouco a pouco, como os mil efeitos do desmoronamento incontrolável de uma montanha. Ele enfim nos convocou para lançar-nos numa missão impossível. Somos objetos da incoerência geral. Não somos, para ele, Saint-Exupéry ou Dutertre, dotados de um modo particular de ver as coisas ou de não ver, de pensar, andar, beber, sorrir. Somos pedaços de uma grande construção cujo encaixe leva-se mais tempo, mais silêncio e mais recuo para descobrir. Se fosse acometido de um tique, Alias só teria observado o tique. Não expediria, a Arras, senão a imagem de um tique. Na balbúrdia dos problemas que se apresentam, no imbróglio, nós mesmos estamos divididos em pedaços. Essa voz. Aquele nariz. Esse tique. E pedaços não comovem.
Não se trata aqui do Comandante Alias, mas de todos os homens. Durante os preparativos de enterro, amamos o morto, não estamos em contato com a morte. A morte é uma coisa grande. É uma nova rede de relações com as ideias, os objetos, os costumes do morto. Ela é um novo arranjo do mundo. Nada mudou aparentemente, mas tudo mudou. As páginas do livro são as mesmas, mas não o sentido do livro. Precisamos, para sentir a morte, imaginar as horas em que temos necessidade do morto. Então, ele nos faz falta. Imaginar as horas em que ele precisaria de nós. Mas ele não precisa mais de nós. Imaginar a hora da visita amiga. E descobri-la oca. É preciso ver a vida em perspectiva. Mas não há perspectiva nem espaço no dia em que se enterra. O morto está ainda em pedaços. O dia em que se enterra, nós nos dispersamos em repisamentos, nas mãos de amigos verdadeiros ou falsos a apertar, nas preocupações materiais. O morto morrerá só amanhã, no silêncio. Mostrar-se-á para nós em sua plenitude, para ser arrancado, em sua plenitude, da nossa substância. Então gritaremos por aquele que se vai, e que não podemos reter.
Não gosto das gravuras de Épinal sobre a guerra. O guerreiro rude aparece secando uma lágrima e dissimulando sua emoção com suas tiradas violentas. É falso. O guerreiro rude nada dissimula. Se solta uma tirada, é que está pensando numa tirada.
A qualidade do homem não está em questão. O comandante Alias é perfeitamente sensível. Se não voltarmos, talvez ele sofra mais do que qualquer outro. Com a condição de que se trate de nós e não de uma soma de detalhes diversos. Com a condição de que essa reconstrução lhe seja permitida pelo silêncio. Pois se, esta noite, o guardião que nos persegue obrigar o Grupo a se mudar novamente, uma roda de caminhão quebrada, numa avalanche de problemas, adiará nossa morte. E Alias se esquecerá de sofrer por isso.
Assim eu, que parto em missão, não penso em luta do Ocidente contra o nazismo. Penso em detalhes imediatos. Imagino o absurdo de um sobrevoo sobre Arras a setecentos metros. Na vacuidade das informações que desejam obter de nós. Na lentidão de uniformizar-se como uma toalete para um carrasco. E depois nas minhas luvas. Diabos, onde enfiei as luvas? Perdi minhas luvas.
Não vejo mais a catedral que habito.
Estou me vestindo para o culto de um deus morto.

Antoine de Saint-Exupery, in Piloto de Guerra

03/05/2023

Cidade Tatuada | Ritchie

A Moral | III – Resignação, renúncia, ascetismo e libertação

Quando a ponta do véu de Maia (a ilusão da vida individual) se ergue ante os olhos de um homem, de tal modo que já não faz diferença egoísta entre a sua pessoa e os restantes homens, e toma tanto interesse pelos sofrimentos estranhos como pelos seus próprios, tornando-se assim caritativo até a dedicação, pronto a sacrificar-se pela salvação dos seus semelhantes – esse homem, chegado ao ponto de se reconhecer a si mesmo em todos os seres, considera como seus os sofrimentos infinitos de tudo quanto vive, e apodera-se, dessa maneira, da dor do mundo. Nenhuma miséria lhe é indiferente. Todos os tormentos que vê e tão raramente lhe são dados suavizar, todas as angústias de que ouve falar, mesmo aquelas que lhe é possível conceber, perturbam-lhe o espírito como se fosse ele a vítima.
Insensível às alternativas de bens e de males que se sucedem no seu destino, livre de todo egoísmo, penetra os véus da ilusão individual; tudo quanto vive, tudo quanto sofre, está igualmente junto do seu coração. Imagina o conjunto das coisas, a sua essência, a sua eterna passagem, os esforços vãos, as lutas íntimas e os sofrimentos sem fim; para qualquer lado que se volte, vê o homem que sofre, o animal que sofre, e um mundo que se desvanece eternamente. E une-se tão estreitamente às dores do mundo como o egoísta à sua pessoa. Como poderia ele, com tão grande conhecimento do mundo, afirmar com desejos incessantes a sua vontade de viver, prender-se cada vez mais estreitamente à vida?
O homem seduzido pela ilusão da vida individual, escravo do egoísmo, só vê as coisas que o tocam pessoalmente, e encontra aí motivos incessantemente renovados para desejar e querer; pelo contrário, aquele que penetra a essência das coisas, que domina o conjunto, chega ao repouso de todo desejo e de todo querer. Daí em diante, a sua vontade desvia-se da vida, repele com susto os gozos que a perpetuam. O homem chega então ao estado da renúncia voluntária, da resignação, da tranquilidade verdadeira, e da ausência absoluta de vontade.
Enquanto o mau, entregue pela violência da vontade e dos desejos a tormentos íntimos, contínuos e devoradores, se vê reduzido, quando se lhe esgota o manancial de todos os gozos, a saciar a sede ardente dos desejos no espetáculo das desgraças alheias, o homem penetrado da ideia de renúncia absoluta, seja qual for o seu desenlace, embora privado exteriormente de toda alegria e de todo bem, goza contudo uma aventura completa e um repouso verdadeiramente celeste. Para ele, não existe já o ardor febril, a alegria exuberante, essa alegria precedida e seguida de tantos desgostos, condição inevitável da existência para o homem que tem gosto pela vida; o que ele experimenta é uma paz inabalável, um repouso profundo, uma serenidade íntima, um estado que não podemos ver ou imaginar sem o desejarmos com ardor, porque se nos assemelha o único, justo, infinitamente superior a qualquer outro, um estado para o qual nos convidam e nos chamam o que há de melhor em nós e essa voz íntima que nos brada: sapere aude. Sentimos então que todo desejo realizado, toda felicidade arrancada à miséria do mundo são como a esmola que hoje sustenta o mendigo, para que amanhã morra de fome, enquanto a resignação é como um bem que se herdou, que coloca para sempre o feliz possuidor ao abrigo dos cuidados.
Sabemos que os momentos em que a contemplação das obras de arte nos livra dos desejos ávidos, como se pairássemos acima da atmosfera pesada da terra, são ao mesmo tempo os mais felizes que conhecemos.
Por aqui podemos deduzir a felicidade que deve experimentar o homem cuja vontade se acha apaziguada, não por alguns instantes como no gozo desinteressado do belo, mas para sempre, e se extingue mesmo inteiramente, de modo que só resta a última centelha da luz vacilante, que anima o corpo e se extinguirá com ele. Quando esse homem, após muitos e rudes combates contra o seu próprio temperamento, acaba por triunfar completamente, apenas existe como um ser puramente intelectual, como um espelho do mundo que coisa alguma perturba. Daí em diante nada há que possa causar-lhe angústia, que consiga agitá-lo; porque os mil laços do querer que nos mantêm acorrentados ao mundo e nos atormentam em todos os sentidos com incessantes dores sob a forma de desejo, receio, inveja, cólera, esses mil laços quebra-os ele. Lança um olhar para trás, tranquilo e risonho, às imagens ilusórias deste mundo que puderam um dia agitá-lo e torturar-lhe o coração; olha para elas com tanta indiferença como para o xadrez, depois de finda a partida ou para as máscaras de carnaval que se largaram de manhã e cujas figuras lograram irritar-nos ou perturbar-nos na noite de terça-feira gorda. A vida e todas as formas passam-lhe diante dos olhos como aparição passageira, como um ligeiro sonho matutino para o homem meio desperto, um sonho que a verdade trespassa já com os seus raios e que não consegue nos iludir; e, assim como um sonho, a vida também por fim se desvanece, sem transição brusca.
Se refletirmos sobre como a miséria e os infortúnios são geralmente necessários para a nossa libertação, reconheceremos que deveríamos invejar menos a felicidade do que a desgraça dos nossos semelhantes. É por essa razão que o estoicismo, que afronta o destino, é na verdade para a alma uma espessa couraça contra as dores da existência e ajuda a suportar melhor o presente; mas opõe-se à verdadeira salvação porque torna o coração endurecido. E como poderia o estóico tornar-se melhor pelo sofrimento, se é insensível a ele sob a camada de pedra com que se cobre? – Até um certo grau, esse estoicismo não é muito raro. Muitas vezes não passa de uma pura afetação, de um modo de dissimular o enfado; e quando é real, provém quase sempre da pura insensibilidade, da falta de energia, de vivacidade, de sentimento e de imaginação, necessária para sentir uma dor.
Quem se mata quer a vida, só se queixa das condições sob as quais ela se lhe oferece. Não renuncia portanto à vontade de viver, mas unicamente à vida, de que destrói na sua pessoa um dos fenômenos passageiros… É precisamente porque não pode cessar de querer que cessa de viver, e é suprimindo em si o fenômeno da vida que afirma o seu desejo de viver. Porque era justamente a dor a que se subtrai, que poderia, como mortificação da vontade, conduzi-lo à renúncia e à libertação. Sucede àquele que se mata o mesmo que a um doente que, não tendo a energia precisa para deixar terminar uma operação dolorosa mas salutar, preferisse continuar doente. O sofrimento suportado com coragem permitir-lhe-ia suprimir a vontade; mas subtrair-se ao sofrimento, destruindo no corpo essa manifestação da vontade, de tal modo que ela subsiste sem obstáculos.
Poucos homens, pelo simples conhecimento refletido das coisas, conseguem penetrar a ilusão do principium individuationis, poucos homens possuidores de uma perfeita bondade de alma, de caridade universal, chegam por fim a reconhecer todas as dores do mundo como as suas próprias, para obterem a negação da vontade. Mesmo nos que mais se aproximam desse grau superior, as comodidades pessoais, o encanto fascinador do momento, a visão da esperança, os desejos incessantemente renovados são um eterno obstáculo à renúncia, um eterno incentivo à vontade; donde resulta que personificaram nos demônios infinidade de seduções que nos tentam e atraem.
Tem portanto a nossa vontade que ser quebrada por um imenso sofrimento antes que chegue à renúncia de si própria. Quando ela percorreu todos os graus da angústia, quando após uma suprema resistência toca o abismo do desespero, o homem volta subitamente a si, conhece-se, conhece o mundo, transforma-se-lhe a alma, eleva-se acima de si mesmo e de todo sofrimento; então purificado, santificado de algum modo num repouso, numa felicidade inabalável, numa elevação inacessível, renuncia a todos os objetos dos seus apaixonados desejos, e recebe a morte com alegria. Como um pálido clarão, a negação da vontade de viver, isto é, a libertação, jorra subitamente da chama purificadora da dor.
Os próprios criminosos podem-se purificar por uma enorme dor; transformam-se inteiramente. Os crimes passados deixam de lhes oprimir a consciência; contudo, estão prontos a expiá-los pela morte e vêm de bom grado extinguir-se com eles esse fenômeno passageiro da vontade, que se lhes tem tornado estranho e como um objeto de horror. No tocante episódio de Gretchen, Goethe ofereceu-nos uma pintura incomparável e brilhante dessa negação da vontade causada por um imenso infortúnio e pelo desespero. É um modelo perfeito dessa segunda maneira de atingir a renúncia, a negação da vontade, não pelo puro conhecimento das dores do mundo inteiro, às quais nos identificamos voluntariamente, mas por uma dor esmagadora que nos acabrunhou.Uma grande dor, uma grande desgraça podem nos obrigar a conhecer as contradições da vontade de viver consigo mesmo, e mostrar-nos nitidamente a inutilidade de todos os esforços. É por esse motivo que se têm visto muitas vezes alguns homens, depois de uma existência agitada de paixões tumultuosas, reis, heróis, aventureiros, mudarem subitamente, resignarem-se, arrependerem-se, fazerem-se frades ou anacoretas. É esse o assunto de todas as histórias de conversões autênticas, por exemplo a de Raimundo Lulio: um dia uma mulher que ele amava havia muito marcou-lhe enfim uma entrevista em sua casa, ele entra no quarto, louco de alegria, mas a bela, entreabrindo o vestido, mostrou-lhe um seio corroído por um medonho cancro. Desde esse momento, como se tivesse entrevisto o inferno, converteu-se, abandonou a corte do rei de Maiorca, retirou-se para um deserto, fez penitência.
A conversão de Rancé assemelha-se muito à de Raimundo Lulio. Consagrara a mocidade a todos os prazeres e vivia, por fim, com uma dama de Monbazon. Uma noite, à hora da entrevista, encontra o quarto vazio, escuro, em desordem; tropeça em qualquer coisa, era a cabeça da amante que haviam separado do tronco; morrera subitamente, e não haviam conseguido meter o cadáver no caixão de chumbo colocado ali perto. – Torturado por uma angústia sem limites, Rancé tornou-se, em 1663, o Reformador da Ordem dos Trapistas, então completamente degenerada da sua antiga disciplina; em pouco tempo elevou-a a essa grandeza de renúncia que ainda hoje vemos, a essa negação da vontade, conduzida metodicamente por meio das mais duras privações, a essa vida de austeridade, de trabalhos incríveis que penetra o estrangeiro de um santo horror, quando, entrando no convento, observa ato contínuo a humildade desses verdadeiros frades que, extenuados de jejuns, de vigílias, de orações, de trabalhos, se ajoelha diante dele, filho do mundo e pecador, pedindo-lhe a benção. É entre o povo mais alegre, mais divertido, mais sensual e mais leviano – será preciso nomear a França? – que essa ordem, única entre todas, manteve-se intacta por entre todas as revoluções, e deve-se atribuir a sua duração à seriedade profunda que não se pode deixar de reconhecer no espírito que anima e que exclui qualquer consideração secundária. A decadência da religião não a atingiu, porque as raízes dessa ordem encontram-se nas profundidades da natureza humana, bem mais do que num dogma positivo qualquer.
Desviemos os olhos da nossa própria insuficiência, da mesquinhez dos nossos sentimentos e preconceitos, para os erguermos para aqueles que venceram o mundo, para aqueles em que a vontade, levada ao pleno conhecimento de si própria, se encontrou em todas as coisas e se negou livremente e que esperam que os últimos clarões se apaguem com o corpo que os anima; vemos então, em lugar dessas paixões irresistíveis, dessa atividade sem repouso, em vez dessa passagem incessante do desejo ao receio e da alegria à dor, em vez da esperança que coisa alguma satisfaz e que nunca se sacia e se dissipa, e de que é feito o sonho da vida para o homem subjugado pela vontade – vemos a paz, superior a toda razão, esse grande mar calmo do sentimento, esse sossego profundo, essa segurança inabalável, essa serenidade, cujo único reflexo no rosto, tais como Rafael e Correggio o pintaram, é um completo evangelho no qual nos podemos fiar: só resta o conhecimento; a vontade desapareceu.
O espírito íntimo e o sentido da vida verdadeira e pura do claustro e do ascetismo em geral é nos sentirmos dignos e capazes de uma existência melhor do que a nossa, e querermos fortificar e manter essa convicção pelo desprezo de todos os vãos gozos deste mundo. Espera-se com segurança e calma o fim desta vida livre das ilusões enganadoras, para saudar um dia a hora da morte como a da libertação.
Quietismo, isto é, renúncia a todo desejo; ascetismo, isto é, imolação refletida da vontade egoísta; e misticismo, isto é, consciência da identidade do seu ser com o conjunto das causas e o princípio do universo – três disposições da alma que se ligam estreitamente; quem fizer profissão de uma é atraído para a outra, mau grado seu. – Não há nada mais surpreendente do que ver o acordo de todos aqueles que nos pregaram essas doutrinas, por entre a extrema variedade dos tempos, dos países e das religiões, e nada mais curioso do que a segurança inabalável como o rochedo, a certeza interior com que nos apresentam o resultado da sua experiência íntima.
Não é na verdade o judaísmo com a sua máxima: “Deus viu todas as coisas que havia feito, e estavam muito boas” (Moisés, 1:31), mas o bramanismo e o budismo, que pelo espírito e pela tendência moral se aproximam do cristianismo. O espírito e a tendência moral são o que há de essencial numa religião, e não os mitos com que ela os envolve.
Essa máxima do Antigo Testamento é realmente estranha ao puro cristianismo; porque em todo o Novo Testamento trata-se do mundo como de uma coisa a que se não pertence, que não se ama, de uma coisa que está sob o poder do diabo. Isso concorda com o espírito do ascetismo, de renúncia e de vitória sobre o mundo, esse espírito que junto ao amor ao próximo e ao perdão das injúrias marca o traço fundamental e a estreita afinidade que unem o cristianismo, o bramanismo e o budismo. É no cristianismo principalmente que é necessário sondar bem a fundo as coisas e não se contentar com as aparências.
O protestantismo, eliminado o ascetismo e o celibato, que é o seu ponto capital, atingiu a própria essência do cristianismo, e desse ponto de vista pode ser considerado como uma apostasia. Viu-se bem nos nossos dias quanto o protestantismo degenerou pouco a pouco num vulgar racionalismo, espécie de pelagianismo moderno, que se resume na doutrina de um bom pai criando o mundo para que aí se divirtam muito (no que se teria redondamente enganado); e esse bom pai, sob certas condições, promete também procurar mais tarde aos seus servos fiéis um mundo muito mais belo, cujo único inconveniente é ter uma entrada tão funesta. Isso pode ser certamente uma boa religião para padres protestantes casados e esclarecidos, mas não é esse o cristianismo. O cristianismo é a doutrina que afirma que o homem é profundamente culpado pelo único fato de ter nascido e ensina ao mesmo tempo que o coração deve aspirar à libertação, que só se pode obter à custa de grandes sacrifícios, pela renúncia, pelo aniquilamento de si próprio, isto é, por uma transformação total da natureza humana.
O otimismo não é mais do que uma forma de louvores que a vontade de viver, única e primeira causa do mundo, concede sem razão a si mesma, quando se revê com gosto na sua obra; não é só uma doutrina falsa, é uma doutrina corruptora, porque apresenta a vida como um estado desejável, e dá-lhe como fim a felicidade do homem. Em vista disso, cada um imagina que possui os mais justificados direitos à felicidade e ao gozo; se contudo esses bens, como sucede frequentemente, não lhe são dados em partilha, julga-se vítima de uma injustiça – não lhe falhou o fim da sua existência –, ao passo que é bem mais justo considerar o trabalho, a privação, a miséria e o sofrimento coroado pela morte como o único alvo da nossa vida (assim fazem o bramanismo, o budismo e também o verdadeiro cristianismo), porque todos esses males conduzem à negação da vontade de viver. No Novo Testamento, o mundo é representado como um vale de lágrimas; a vida, como um meio de purificar a alma; e o símbolo do cristianismo é um instrumento de martírio.
A moral dos índios tal como é apresentada do modo mais variado e mais enérgico nos Vedas, nos Puranas, pelos poetas nos mitos e nas lendas dos santos, nas suas sentenças e regras de vida, prescreve expressamente: o amor ao próximo, com absoluto desprendimento de si mesmo, amor não só limitado aos homens mas a todos os seres vivos: a beneficência levada até o abandono do salário cotidiano obtido à custa de duro e pesado trabalho; uma bondade sem limites para com aquele que nos ofende; o bem e o amor em troca do mal que nos façam por maior que seja; o perdão alegre e espontâneo para todas as injúrias; a abstinência de todo alimento animal; uma castidade absoluta e a renúncia a todas as voluptuosidades para aquele que aspira à verdadeira santidade; o desprezo pelas riquezas, o abandono da moradia, da propriedade; uma solidão profunda e absoluta, passada em muda contemplação, junto a um arrependimento voluntário e sofrimentos lentos e horríveis para mortificar absolutamente a vontade, a ponto de morrer de fome; entregar-se aos crocodilos; precipitar-se do cimo de um rochedo do Himalaia, santificado por esse uso; enterrar-se vivo; lançar-se debaixo das rodas do carro gigantesco, que passeia as imagens dos deuses, no meio de cantos, gritos de alegria e danças. E essas prescrições, cuja origem data de mais de quatro mil anos, existem ainda no maior rigor entre esse povo, por muito degenerado que se encontre hoje. Um uso mantido há tanto tempo entre tantos milhões de homens, uma prática que impõe tão pesados sacrifícios, não pode ser a invenção arbitrária de algum cérebro alucinado, deve ter raízes profundas na própria essência da humanidade. – Acrescento que não se pode admirar assaz o acordo, a perfeita unanimidade de sentimentos que se nota, se lermos a vida de um santo ou a de um penitente cristão, e a de um índio. Por meio da variedade da oposição absoluta dos dogmas, dos costumes, dos meios, dos esforços, a vida íntima de um e de outro é idêntica.
Os cristãos místicos e os mestres da filosofia vedanta concordam ainda em considerar como supérfluas as obras exteriores e os exercícios religiosos para aquele que consegue atingir a perfeição.
Tão grande acordo entre povos tão diferentes, numa época muito remota, é uma prova evidente de que não se trata aqui, como declaram os banais otimistas, de uma aberração, de um desequilíbrio do espírito e dos sentidos; pelo contrário, é um lado essencial da natureza humana, um lado admirável que raramente se encontra e que se exprime nesse ascetismo.
Assim considerando a vida dos santos, que sem dúvida raramente nos é dado encontrar e conhecer por experiência própria, mas de quem a arte nos traça a história com uma verdade segura e profunda, devemos dissipar a sombria impressão deste nada, que flutua com o último objetivo atrás de toda a virtude e de toda a santidade, e que tememos, como a criança teme as trevas, em vez de procurarmos escapar como os índios, por meio de mitos e palavras destituídas de sentido, tais como a ressorção no Brama, ou o Nirvana dos budistas. Reconheçamos: o que resta após a supressão total da vontade não é coisa alguma para todos aqueles que estão ainda cheios da vontade de viver, é o nada. Mas também para aqueles nos quais a vontade chegou a desviar-se do seu fito, a negar-se a si mesma o nosso mundo, que nos parece tão real como todos os seus sóis e as suas vias lácteas, o que é? Nada.

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo

Calvin

Nuvens de algodão

دراز میکشم
بر زمین سخت،
ابرهای پنبه ای.

Deito-me
sobre a terra dura,
nuvens de algodão.

Abbas Kiarostami, in Nuvens de algodão

Cena carioca – IX

Posso não saber em que parte do inferno Dante arrojou os pretensiosos, mas aposto que eles vieram de um lugar pequeno e sujo, de uma cidade que não tem a luz das noites cariocas.
Noites cariocas... Na saída do Lamas, Zeca interpretando “La Barca” no rádio da patrulhinha e o PM aplaudindo. Maurício Tapajós matando baratas no fusca, na volta da casa da Elis, e perguntando: você também tá vendo ou sou só eu? Miguilho, depois de uma briga com pára-quedistas, dando saltos ornamentais de cima de um muro: perna quebrada e passadinha no PS do Andaraí, onde tu entra cajá e sai caqui.
Noites cariocas. O vício da madrugada. Vocação pra padeiro. Entrar de costas, pra vizinhaça pensar que eu tô saindo cedo. Ou trazer o leite, numa espécie de reconciliação com a realidade. Essas convenções tijucanas.
Noites cariocas. Na saída do Caras e Bocas a moça morena capota e morre. Meu pessoal continua biritando firme pelas noites do Rio, mas é contrato de risco: não somos mais imortais.
Noites cariocas. Chiquinho Botelho e eu, após tumulto no Calígula, 48 horas no ar. Chiquinho passa mal. Um médico no telefone. Descrição do quadro clínico. Impressionado, o esculápio pergunta pra mulher do Chiquinho:
– Ele está inteiramente impossibilitado de locomover-se?
– Mais ou menos...
– Como assim, minha senhora?
– Bom, mover-se ele não pode, mas continua um bocado loco.

Aldir Blanc, in Brasil passado a sujo

A temporada dos saury


Apesar de Isaku conhecer o procedimento básico, ele nunca tinha conseguido pescar esses peixes. Tinha chegado a sentir o peixe entre seus dedos, mas daí ele escapulia. Além disso, os saury pareciam evitar seu barco ao contrário dos outros.
A esteira de palha que seria rebocada na popa do barco estava no chão, pronta, e Takichi estava fazendo agora os buracos na esteira que seria pendurada do lado do barco.
— Quando estive na sua casa, eu disse que você poderia levar seu barco para perto do meu para observar, mas, pensando bem, não posso deixar você fazer isso. Iria assustar os peixes. Mas pergunte o que quiser que eu lhe digo — disse Takichi sem parar de trabalhar na esteira.
Isaku imaginava que isso fosse acontecer. Assim que a temporada de saury começava, os homens ficavam ultra-sensíveis e gritavam com qualquer outro pescador que aproximasse demais seu barco dos deles. Uma segunda visão muito afiada era necessária para pescar saury, e a menor distração poderia arruinar a pesca de um dia, assim não era de estranhar que Takichi se recusasse a deixar Isaku se aproximar com o barco.
— Diga-me como agarrar os peixes. Eles sempre escapam de mim — disse Isaku, olhando para o rosto de Takichi.
Takichi parou o que estava fazendo e ergueu uma das mãos, movendo os dedos lentamente no ar antes de fechá-los subitamente.
— Você pega o peixe quando sentir que a cabeça dele está entre seus dedos. Eles fogem se você pegar mais para trás.
— A cabeça — disse Isaku, movendo os próprios dedos no ar.
— Se você deixar um deles passar pelos seus dedos, eles não vão voltar. E, quando pegar um, não crave as unhas nele. Eles vão fugir se sentirem o cheiro do sangue de um deles na água.
Isaku assentiu enquanto Takichi retomava o trabalho.
— Mais uma coisa. Por que é que os peixes não chegam perto do meu barco?
Takichi ergueu o rosto ao responder.
— Eles conseguem ver sua sombra na água. Fique bem deitado dentro do barco e passe só o braço pela beirada. Os saury ficam assustados quando percebem a presença de alguém.
Isaku sabia de tudo isso, mas até então não dera muita importância a esses detalhes.
Takichi baixou os olhos para a esteira de palha em seu colo. Isaku olhou para ele, impressionado que seu primo fosse um pescador experiente aos dezessete anos. Era claro que a obrigação de cuidar da mãe e, agora, sendo um homem casado haviam incutido nele um forte senso de responsabilidade. Isaku não podia evitar ver o primo sob um novo prisma.
Ansioso para chegar em casa e arrumar seu equipamento de pesca, Isaku agradeceu a Takichi e a Kura e partiu. Começou a trabalhar naquela noite e recomeçou na manhã seguinte. Era quase meio-dia quando terminou.
Isaku e a mãe carregaram o equipamento até a praia, sob a chuva fina, e o colocaram na canoa. Diziam que a melhor hora para pescar era durante o pôr-do-sol, por isso não havia nenhum barco na água ainda.
Ele foi até a praia novamente depois do almoço e encontrou os homens preparando seus barcos para sair. Os saury vinham do oeste; os homens iriam pescar ao redor da ponta da proeminência de terra à esquerda, a cerca de quatro quilômetros da praia. Os barcos deixavam a areia um atrás do outro, assim Isaku também colocou a faixa no cabelo e empurrou seu barco para a água. Agarrando o remo, ele saiu contornando o recife. O mar estava tão calmo que as ondas mal colidiam contra o cabo. As fileiras de casas da aldeia desapareceram à distância quando os contornos das montanhas se desdobraram atrás deles. A chuva tinha cessado, mas um denso nevoeiro cobria as encostas, escondendo a vegetação.
Isaku remou com toda sua força, mas pouco a pouco todos os barcos o ultrapassaram. Sahei era o único que ele via para trás.
O barco começou a balançar mais quando chegou perto do cabo e ao mar aberto além dele. Os homens adiante já haviam começado a pescar quando Isaku guardou o remo, lançou a âncora e soltou a esteira de palha na popa do barco. As esteiras ondulavam para cima e para baixo com o movimento do mar enquanto se afastavam, esticando a corda. Isaku lançou o último pedaço sobre a lateral do barco e, lembrando-se do conselho de Takichi, encolheu o corpo, erguendo apenas a cabeça para espiar as esteiras flutuando atrás. Segundo Takichi, ele deveria puxar lentamente a corda para trazer as esteiras para perto do barco quando sentisse que um cardume de saury estava sob elas, mas não conseguia ver nenhum sinal dos peixes. Outros homens já estavam puxando as esteiras pela corda, deitados no fundo do barco.
Isaku ficou observando atentamente, mas não viu nenhum movimento diferente. Ainda assim, pensou ele, devia haver um cardume de saury por ali. Ele pegou a corda e começou a puxar. A esteira veio lentamente na direção do barco. Estava pesada.
Quando a esteira chegou ao barco, ele amarrou a corda na popa. Aproximou-se da esteira amarrada à lateral do barco, enfiou a mão através de um dos orifícios, separou os dedos e lentamente os colocou dentro da água. Concentrou-se na área sob a esteira. Podia ver o brilho prateado dos peixes passando. Eles estavam mesmo ali, pensou ele.
Os brilhos prateados foram se tornando mais numerosos e começaram a se agitar sob a superfície. Alguns até pareciam parar por um instante. Os saury passavam roçando seus dedos e então desapareciam. Isaku lembrou-se do conselho de Takichi para que não pegasse o primeiro peixe, pois se o fizesse o cardume inteiro iria fugir. Os saury passavam por entre seus dedos, ele podia enxergá-los claramente. Por diversas vezes sentiu o impulso de agarrá-los, porém seus dedos pareciam manter o controle por conta própria e não se moveram.
Quando afinal avistou a cabeça de um saury passando entre seus dedos, ele a agarrou abruptamente, mas o peixe se debateu e escorregou, fugindo. O cardume de saury desapareceu em um segundo.
Isaku tirou a mão da água e esfregou o rosto com força. Mais uma vez estava sendo lembrado que pescar saury não era uma tarefa fácil e que pegá-los com a mão não era algo que se aprendia de um dia para o outro. Tentou se consolar dizendo a si mesmo que não tinha se saído tão mal, afinal, já que no ano anterior não conseguira nem fazer os peixes se reunir sob o tapete, quanto mais estar com eles em volta dos dedos.
Ao redor, ele podia ver os homens pegando os peixes e jogando-os dentro dos barcos. A chuva fina recomeçou. Isaku soltou a esteira e a corda novamente, esperou o que julgou ser o tempo adequado, então puxou-a outra vez, mas não havia nenhum sinal de saury sob o tapete.
Pouco depois o mar adquiriu uma cor escura, e os homens começaram a levar os barcos de volta para a praia. Isaku puxou as esteiras, pegou o remo e os acompanhou. Seguindo o barco à frente, ele desviou do recife e seguiu na direção da fogueira acesa na praia. A noite estava caindo e as pessoas na praia pareciam vermelhas à luz do fogo.
Isaku levou o barco até a praia, então puxou-o para cima com a ajuda da mãe. Ela não disse nada depois de passar os olhos pelo fundo do barco.
Naquela noite, ele foi novamente visitar Takichi. O cheiro do saury frito e da fumaça do fogo ainda impregnavam o ar na casa do primo.
— Nem mesmo um — suspirou Isaku ao sentar-se na beirada da cama, mas Takichi apenas sorriu levemente de perto do fogão. — Como você sabe quando os peixes vieram para debaixo do barco?
— Instinto, experiência... a água muda um pouquinho de cor. E parece se mexer, também — respondeu Takichi.
Isaku não disse nada. O primo se levantou, dizendo:
— Coma isso. — Ele ofereceu um pouco do saury grelhado no espeto.
Isaku balançou a cabeça com veemência, levantou-se e deixou a casa sem dizer mais uma palavra.
Com exceção dos dias em que o mar estava bravo, Isaku saía com seu barco junto com os outros homens. A temporada de saury estava chegando ao auge, e a pesca ficava melhor a cada dia. Parecia que Sahei estava sendo ensinado pelo pai e quase invariavelmente ele trazia dez peixes por dia. Os outros homens voltavam com o fundo do barco coberto de saury.
Isaku sentia vergonha de voltar para a praia sem ter pescado absolutamente nada. Sua mãe não fazia nenhum comentário e preparava uma sopa rala de legumes e arroz para o irmão e irmã mais novos. O fato de não conseguir pegar nenhum peixe para eles atormentava Isaku.
Cerca de duas semanas depois de ter começado a tentar Pescar saury, Isaku notou um leve borrifo de água perto da esteira de palha. Além disso, teve a impressão de notar uma ligeira diferença na cor da água naquele ponto. Talvez fosse apenas impressão realmente, pensou ele. O mar estava calmo, quase sem ondas, e não parecia que iria mudar.
Isaku pegou a corda e puxou-a gentilmente. A esteira foi se aproximando cada vez mais, por fim se alinhando à outra, amarrada na lateral do barco. Prendendo a corda, ele arriscou uma espiadela sob o tapete.
Conseguiu ver uma massa de peixinhos prateados se retorcendo. Isaku ficou agitado. Seus olhos não o estavam enganando, afinal de contas. Ele tinha conseguido detectar a presença dos peixes a uma distância de quarenta metros. Sem dúvida, era normal para os pescadores experientes, mas para Isaku aquilo era uma realização e tanto.
Estendendo a mão, ele a mergulhou lentamente na água entre as esteiras e começou a mover os dedos separados. A água sob a esteira estava infestada de saury. Os peixes estavam em excelentes condições, belos, tanto em forma e tamanho quanto na cor. Um deles começou a deslizar entre seus dedos e parou bem debaixo de sua mão. Erguendo a mão para fora da água, ele olhou para o saury que se debatia, brilhando ao sol da tarde. Lágrimas vieram aos seus olhos. Estava emocionado com a ideia de que conseguiria peixes para alimentar seu irmãozinho e irmãzinha que tomavam apenas caldo de arroz junto do fogo.
Isaku colocou o peixe no fundo do barco e tornou a enfiar a mão pelo buraco na esteira, para dentro da água.
Naquela noite, a mãe de Isaku cortou o saury em quatro porções iguais, enfiou-as no espeto e levou-o ao fogo. Um fiozinho de fumaça subiu, e as chamas brilhavam mais forte cada vez que um pouco de óleo escorria dos pedaços espetados de peixe. O irmão e a irmã ficaram olhando para o peixe, os olhos brilhando.
A mãe deu a ele a parte do peixe com a cabeça, e deu as outras três ao irmão e irmã. Isaku percebeu que, oferecendo a ele a cabeça do peixe, a mãe estava reconhecendo sua posição como provedor da família.
O saury quente estava delicioso. A visão do irmão e da irmã comendo sofregamente a carne do peixe e depois retirando o que sobrara de carne entre as espinhas fez com que ele percebesse que a quantidade que pescara ainda não fora suficiente.
Aquela temporada acabou sendo excepcional. À medida que os dias passavam, mais e mais saury pareciam se contorcer sob o tapete. No pouco tempo que ficavam na água, os pescadores pegavam um saury depois do outro, e a maioria dos barcos voltava para a praia com mais de uma centena de peixes.
Dali em diante, Isaku também aprendeu a técnica e não muito tempo depois estava pegando vários saury por dia. Havia dias em que pegava dez. A mãe permitia que comessem apenas um peixe por dia e preservava os outros no sal.

Akira Yoshimura, in Naufrágios

02/05/2023

Karen Carpenter - Drummer/Singer

Bichos (conclusão)

A mudez do coelho, seu modo de comer depressinha-depressinha as cenouras, sua desinibida relação sexual tão frequente quanto veloz – não sei por que acho as tais relações mútuas dos coelhos de uma grande futilidade, nem parecem ter raízes profundas. O coelho faz-me ficar de um meditativo vazio: é que simplesmente nada tenho a ver com ele, somos estranhos, minha raça não vai com a dele. O curioso é que pode ser aprisionado e parece até conformado, mas não é domesticável: apenas aparente é a sua resignação. Em verdade, fútil e assustado como é, ele é um livre, o que não combina com sua superficialidade.
Quanto a cavalos, já escrevi muito sobre cavalos soltos no morro do pasto (A cidade sitiada), onde de noite o cavalo branco, rei da natureza, lançava para o ar o seu longo relincho de glória. E já tive perfeitas relações com eles. Lembro-me de mim adolescente, de pé, com a mesma altivez do cavalo, passando a mão pelo seu pelo aveludado, pela sua crina agreste. Eu me sentia assim: “a moça e o cavalo.”
Os peixes no aquário não param nem um segundo de nadar. Isso me inquieta. Além do mais acho esse peixe de aquário um ser vazio e raso. Mas deve ser engano meu, pois não só eles devoram comida como procriam: e é preciso ser matéria viva para isso. O que me intriga é que, pelo menos nos peixes de aquário, o instinto falha: eles comem até estourar, não sabem parar, eis um peixe morto. São seres aterrorizados quando pequenos, perigosos quando grandes. Além de pertencerem a um reino que não me é familiar, o que de novo me inquieta.
Sei de uma história muito bonita. Um espanhol amigo meu, Jaime Vilaseca, contou-me que morou uns tempos com parte de sua família que vivia em pequena aldeia num vale dos altos e nevados Pireneus. No inverno os lobos esfaimados terminavam descendo das montanhas até a aldeia, farejando presa, e todos os habitantes se trancavam atentos em casa, abrigando na sala ovelhas, cavalos, cães, cabras, calor humano e calor animal, todos alertas ouvindo o arranhar das garras dos lobos nas portas cerradas, escutando, escutando…
Mas sei da história de uma rosa. Parece estranho falar nela quando estou me ocupando de bichos. Mas é que agiu de um modo tal que lembra os mistérios instintivos e intuitivos do animal. Um médico amigo meu, Dr. Azulay, psicanalista, autor de Um Deus esquecido, de dois em dois dias trazia para o consultório uma rosa que ele punha na água dentro de uma dessas jarras muito estreitas, feitas especialmente para abrigar o longo talo de uma só flor. De dois em dois dias a rosa murchava e meu amigo a trocava por outra. Mas houve uma determinada Rosa. Era cor-de-rosa, não por artifícios de corantes ou enxertos, porém do mais requintado rosa pela natureza mesmo. Sua beleza alargava o coração em amplidões. E parecia tão orgulhosa da turgidez de sua corola toda aberta, das próprias pétalas grossas e macias, que era com uma altivez linda que se mantinha quase ereta. Pois não ficava totalmente ereta: com infinita graciosidade inclinava-se bem levemente sobre o talo que era fino. E uma relação íntima estabeleceu-se entre o homem e a flor: ele a admirava e ela parecia sentir-se admirada. E tão gloriosa ficou, e com tanto amor era observada, que se passavam os dias e ela não murchava: continuava de corola toda aberta e túmida e fresca como flor nova. Durou em beleza e vida uma semana inteira. Só depois começou a dar mostras de algum cansaço. Depois morreu. Foi com relutância que meu amigo a trocou por outra. E nunca a esqueceu. O curioso é que uma paciente sua que frequentava o consultório perguntou-lhe sem mais nem menos: “E aquela rosa?” Ele nem perguntou qual, sabia da que a paciente falava. Essa rosa, que viveu mais longamente por amor, era lembrada porque a paciente, tendo visto o modo como o médico olhava a flor, transmitindo-lhe em ondas a própria energia vital, intuíra cegamente que algo se passava entre ele e a rosa. Esta – e deu-me vontade de chamá-la de “joia da vida” – tinha tanto instinto de natureza que o médico e ela haviam podido se viverem um ao outro profundamente, como só acontece entre bichos e homens.
E eis que de repente fiquei agora mesmo com saudade de Dilermando, meu cão, uma saudade aguda e dolorida e desconsolável, a mesma que tenho certeza ele sentiu quando foi obrigado a viver com outra família porque eu ia morar na Suíça e haviam me informado erradamente que lá os hotéis, onde teríamos que permanecer algum tempo, não permitiam a entrada de animais. Lembro-me, e a lembrança ainda me faz sorrir, de que uma vez, morando ainda na Itália, vim ao Brasil, deixando Dilermando com uma amiga. Quando voltei, fui à minha amiga para buscá-lo para casa. Mas acontece que nesse ínterim se tornara inverno e eu estava com um casaco de peles. O cão ficou parado me olhando, petrificado. Depois aventurou cautelosamente aproximar-se e sentiu o odor do casaco, talvez de algum animal ameaçador. E ao mesmo tempo, para a sua confusão, farejava meu cheiro. Tornou-se inquietíssimo, chegava a rodar em torno de si mesmo. E eu imóvel, esperando que ele viesse a mim, e me sentisse: se eu me precipitasse, ele se assustaria. Quando comecei a sentir calor na sala aquecida, tirei o casaco e da distância mesmo joguei-o longe num divã. Dilermando, ao me farejar puramente, atirou-se de repente num grande salto sobre mim, um pulo fantástico do chão ao meu peito, inteiramente alvoroçado, fora de si, me fazendo tanta festa doida que me deixou bem arranhada nos braços e no rosto, mas eu ria de prazer, e sorria às fingidas e rápidas mordidas leves que ele aloucadamente me dava, não doíam, eram mordidas de amor.
Não ter nascido bicho parece ser uma de minhas secretas nostalgias. Eles às vezes clamam do longe de muitas gerações e eu não posso responder senão ficando desassossegada. É o chamado.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

Da série “Flowering Orchards”, de Van Gogh

Pomar em Flor com Vista para Arlen (1889), de Vincent Van Gogh

Do maior ao menor

Alexandre, o Grande, e seu cavalariço foram levados para o mesmo estado quando morreram. Ou foram recebidos pela mesma razão seminal do cosmos, ou foram dispersados entre os átomos.

Marco Aurélio, in Meditações

Se lhes falo...

Há mil anos um homem foi crucificado,
morreu em sua fé, pensando mais além da terra.
Sua cruz pesou sobre a vida humana
e amassou a ânsia e a esperança.
Nós teremos milhões de crucificados
e nossa esperança está sobre a terra.
Que levante os olhos o que deseje vê-la.
Dá-me a mão se queres tocá-la.
Nos novos arrozais da China está nossa esperança.
E quando os dentes brancos do arroz sorriem,
não é verdade que a terra está feliz?
Não é verdade que o trigo e a carne,
não é verdade que a escola,
a casa limpa, o trabalho assegurado e justo,
a paz para os filhos, o amor,
o livro em que a alegria e a sabedoria se juntaram,
não é verdade que são estas as conquistas do homem,
e estas simples verdades compõem nossa esperança?
Por que desejais que aos camponeses aimarás da infeliz Bolívia,
desfiados pela fome e o frio das
grandes alturas, venha amanhã prometer-lhes o céu?
Já não me crucificaríeis porque eles continuariam famintos.
Mas se lhes falo de uma cooperativa agrícola que vi na Polônia,
onde o leite, o pão e o livro eram tesouros comuns,
então me dareis pauladas nas costas
e me crucificareis se os meus não me defendem.
Temos um crucificado em cada quilômetro de terra, e perto da próspera Nova York,
perto do Stork Club, crucificam um negro e um branco diariamente.
Mas não ficamos tranquilos
esperando o martírio nem o incenso,
nós lutaremos cada dia de nossa vida,
nós venceremos e agora te chamamos,
e assim lá de sua forca e sua cruz, como a chames
não me importa,
o coração morto de Julius Fucik derrotou seus carrascos.

Pablo Neruda, in As Uvas e o Vento

Chave

Ilustração: Leya Mira Brander

A mãe, a mãe rebentava, uma grandeza aquilo que ela sentia, a felicidade com a casa nova, dava pra gente ver, qualquer um, até mesmo eu que era o caçula, eu que nada sabia de mudanças, que na pele de uma já se adere outra, a mudança boa trazendo a outra no seu bojo, a verdadeira, eu só vivia o tempo de abrir, eu ignorava que as chaves são feitas, antes de tudo, pra fechar. Sim, a mãe falava pouco, só o suficiente, mas, naquele agora, ela tagarelava de lá pra cá, botando as coisas no lugar, ela no comando, suavemente, a gente nem percebia, num instante já estávamos fazendo, felizes, as tarefas que ela pedia: Mateus, em pé, no último degrau da escadinha, ajudava o pai a instalar o lustre no teto da sala; Madalena lavava os pratos e cantava aquelas músicas românticas; e eu, eu carregava umas caixas de roupa — e era aquele vaivém da família entre os quartos e a cozinha, a cozinha e o quintal, o quintal e a varanda, a varanda e a sala, a sala e os quartos. A gente no preparo para a vida nova, porque não era só mudança de casa, mas de olhar, a gente se desestreitava de umas coisas, o mundo mais largo, e, nele, a mãe maior, se espraiando, ela devia saber que aquele seria o seu lugar definitivo, de muitos contentamentos, o seu mirante pra ver as pessoas todas, incluindo a gente, os filhos, vivendo as suas histórias, tudo no seu compasso, antes que cada um tivesse de atravessar seu tempo de dissolução. Não era uma casa tão maior que a anterior, não, mas tinha a varanda, o quintal, era mais o lado de fora que alegrava a mãe, ela nunca pedia nada ao pai, nem a nós, senão o que a vida demandava no seu natural, a nos exigir umas aprendizagens, e seria lá na varanda que ela sentaria na cadeira de vime, à direita do pai, aos sábados, depois do almoço, pra descansar uns minutos, o sorriso se abrindo, vagaroso, como se quisesse deslizar por todo o seu corpo, e ali, sem que percebêssemos, ela vigiava a nossa alegria, a minha e a de Mateus, nós dois jogando bola com cuidado, pra não machucar as roseiras dela, e, entre um drible e outro, eu via o pai cochilando e, a mãe lá, quieta, as mãos sobre as coxas, os olhos fechados, e, aquela certeza de sua presença, sólida, abria em mim, como um zíper, o desejo grande de que ela sempre estivesse ali, daquele jeito, pertinho de nós, pronta para um abraço, uma palavra macia, e tudo que eu queria era que a tarde demorasse, que a mãe se divertisse com alguma estripulia minha e o pai roncasse pra gente rir às escondidas, que Madalena cantasse, desafinada, no banheiro, pra zombarmos dela, porque eu, no fundo, eu começava a compreender que nada era sempre a mesma coisa, que as mudanças eram a força motriz do mundo; um dia estávamos na velha casa e, de repente, nessa outra, nova e mais espaçosa, o tempo, a gente não percebe o tempo indo, senão quando ele já se foi, quando se misturou às águas de outro tempo que vem vindo, esse também deslizando no seu seguinte, líquido que se milparte, e, depois, se junta, como uma gota de mercúrio, a gente misturando o que fomos ao que seremos. E tinha o quintal, onde o pai guardava num rancho as suas ferramentas, a minha bicicleta, e onde a mãe botava, sobre as cadeiras, os nossos travesseiros ao sol, pra arejar os sonhos que neles tinham se infiltrado à noite, ou pra secar os maus presságios que, às vezes, ensopavam um de nós, a mim, especialmente, sempre aflito, se dormisse depois de Mateus — eu precisava dele, na parte de baixo do beliche, zelando pelo meu sono. O quintal, que não havia na outra casa — onde Madalena agora brincava com a Pandora, a cachorra que ela ganhara da vizinha, e pra quem o pai logo fez uma casinha de madeira, sim, com aquele quintal até bicho agora a gente podia ter —, era lá que eu passava as tardes, sentado entre os galhos da mangueira, mirando as outras casas, onde outros pais e mães e irmãos e cachorros misturavam suas horas boas e más, vivendo uns fatos mínimos, que depois esqueceriam ou se tornariam pedaços de conversa, flashes retocados pelo ácido da memória, e, às vezes, eu me via no rancho, ajudando a mãe a pendurar as roupas, o cheiro de amaciante nos seus vestidos, nas calças do pai, no meu uniforme escolar, e ela era tão cuidadosa, seus gestos delicados, parecia que estava acima das coisas comuns, vendo uma grandeza na geometria das toalhas e dos lençóis que, com esmero, suas mãos espalhavam no varal, a mãe não fazia nada por fazer, as tarefas não eram obrigações, mas um jeito de abrir e atravessar o dia, o mundo sem fecho, e a vida — a vida, uma entrega ao que se faz. Eu adorava ajudá-la naquelas providências miúdas do cotidiano, levar o saco de lixo até a rua, enxugar a louça e os talheres que ela lavava com sabão de coco, enquanto no forno assava o frango, ou o pão de queijo, eu tocando, às vezes, sem querer, em seu ombro, estorvando o seu ir e vir pela cozinha, e ela, sem reclamar, a mãe sorria, ela estava feliz, apesar das dívidas — eu a ouvia sussurrar com o pai sobre o dinheiro contado, a prestação da casa em atraso —, nós ali, sendo só o que éramos, uma mãe e seu filho no meio de um dia, sem dados pessoais, sem necessidade de nome, os dois se oferecendo ao instante, à esperança de esticá-lo como um elástico, ou de alargar o sentimento que experimentávamos, um minuto apenas, aglutinado ao outro. Era um viver pequeno, para nós dois, tão iguais, o pai às vezes dizia que eu era a versão mirim dela, e Mateus, ciumento, reclamava que ela me protegia — era eu quem a protegia no meu coração —, e Madalena lhe dava umas respostas pontiagudas, que a mãe não merecia, e, se estivesse zangada com ela, me tratava do mesmo jeito, usando seu sorriso de ironia e suas palavras venais, O caçulinha da mamãe, vê se cresce!, sem saudades de me ajudar nas lições de casa, nem de assistir comigo à novela das oito, ou me pedir opinião sobre a sua roupa, Tá combinando?, ou sobre o seu penteado, Tá bonito?, para, logo em seguida, se desculpar, não com palavras, só com seus olhos, da mesma cor que os da mãe — o azul atravessando gerações até chegar às duas. E, então, depois de uns dias de caos, caixas e caixas espalhadas pela casa, ninguém sabia onde uns objetos tinham ido parar — alguns se perderam para sempre, outros reapareceram de repente —, as coisas na nova casa foram ganhando seu lugar definitivo, assim também se dá com as pessoas em nós, cada uma no seu canto, obediente, mesmo se o espaço não coincidisse com o que mereciam, a mãe sempre dizendo pra cuidarmos do importante, e tudo, aos poucos, se ajeitou, a gente cabendo no nosso sonho, adaptados, redimidos, sabendo que ninguém tem o segredo, que ninguém pode viver duas vezes na mesma pele. Roupas nas gavetas, panelas nos armários, espelhos nos banheiros, e só o mundo se debatendo, enlouquecido, no fundo de nós, pronto pra nos impulsionar a lutas menores — a maior, sempre a da gente com a gente —, e aí as primeiras visitas chegando, a mãe já a coar o café, ávidas para (as ciumentas) descobrir defeitos nas paredes, no teto, nos azulejos fora de moda da cozinha (que o pai prometeu trocar), ou para minimizá-los (as compassivas), Devagar vocês vão reformando, todas fiéis à sua-nossa condição, e a mãe quase nem se lembrava de guiá-las — como fazem as donas de casa nova, mais ocupadas com a sua aparência do que com o seu miolo —, mostrando os cômodos, o quintal, a varanda, ela sabia que o sentimento por aquelas paredes era apenas seu, a mãe, com a sua conversa emoliente, entrava nas pessoas, igual a elas na casa, e ia, contente, encontrando as portas destravadas, ou abrindo-as com paciência, a mãe pedia conselhos às visitas, quando elas é que deveriam receber os seus, e se mantinha abraçada ao silêncio, ouvindo-as atentamente, a mãe respeitava todo mundo, até nós, seus filhos pequenos, como se pudesse aprender algo conosco, ela era uma raiz que não se escondia, emergira da terra e deslizava a céu aberto. E aí, claro, fomos nos habituando àquele novo espaço que nos impunha outras medidas, os dias vindo, como ovos, frágeis e misteriosos, e, ao quebrá-los, com a fome de provar a sua gema, fomos descobrindo, às vezes interessados, às vezes indiferentes, os vizinhos e a dinâmica de suas vidas, tanto quanto eles a nossa, e, assim, íamos nos aceitando, o pai já amigo do dono do sobradinho da esquina, Madalena no flerte com o filho dele, eu e Mateus jogando bola com os meninos da casa da frente, a mãe a circular, à vontade, entre as mulheres, como se as conhecesse desde sempre, e, na ordem normal das coisas, a mistura das águas ia se dando, tranquila, o convite para um almoço no sobradinho, para ver o último capítulo da novela na tevê em cores da vizinha, a festa de aniversário da mãe, a varanda e o quintal se enchendo de desconhecidos, que no avançar das horas se tornavam familiares, a gente querendo se dar ao instante plenamente, ainda que pouco dele, só resíduo, fosse restar depois na lembrança. E, quando percebemos, estávamos ali já há alguns meses, e tudo ia bem — tudo ia bem, até que a mãe passou mal uma tarde e logo atrás veio a notícia. Foi aí que eu me dei conta, foi aí que eu entendi que, naquele dia, no instante em que a mãe, com a chave na mão, a alegria nela dos pés à cabeça, no instante em que abria a porta da casa, justo naquele instante, ela estava se fechando para a nova vida.

João Anzanello Carrascoza, in Aquela Água toda

01/05/2023

Palavras | Gonzaguinha

Piada

Um português, um francês e um americano estavam no deserto quando perceberam que estavam dentro de uma piada. Foi o português quem primeiro perguntou: o que é que nós estamos fazendo aqui, ó, pá? Ao que o francês respondeu, com leve sotaque: se você está falando “ó, pá” isso só pode ser uma piada, porque nenhum português de verdade fala assim.
Ao que o americano respondeu: e se nós que nem portugueses somos estamos falando português, e ainda por cima com esse sotaque tão malfeito, é porque isso só pode ser uma piada. Já estou morrendo de sede, disse o francês, precisamos sair daqui o quanto antes.
Ao que o português, que não era burro e tinha ido parar ali na piada por engano, respondeu: talvez algo de engraçado precise acontecer, talvez a gente precise encontrar a graça da piada pra conseguir sair daqui. Talvez se encontrássemos uma lâmpada, disse o americano, piadas de deserto costumam envolver gênios, lâmpadas, três pedidos, e no terceiro pedido, puf: a graça.
Os três cavaram por horas, sem qualquer vestígio de graça ou lâmpada. O francês teve uma ideia: nós só vamos sair daqui quando o português disser ou fizer uma estupidez. Ao que o português respondeu ser contra a perpetuação desse tipo de preconceito. Os outros dois pediram que ele batalhasse por essa causa depois que já tivessem saído da piada. E o português desandou a gritar estupidezes, a contragosto. Não teve graça. Partiu para o humor físico. Tropeçou, comeu areia, imitou um camelo. Nada.
Foi aí que lhe veio a ideia: talvez não fosse uma piada de português. Talvez fosse uma piada de francês. Algo relacionado ao fato dele não tomar banho. O francês disse que era limpíssimo e que o mais provável era que a piada em questão recaísse sobre o americano. Este disse que nunca tinha visto uma piada de americano, o que só torna essa piada melhor, respondeu o francês, porque ela é inesperada. O americano fez meia dúzia de americanices, sem efeito.
Eis que no horizonte surge, esbaforida, uma loura. Alguém viu meu papagaio?, ela pergunta. Perfeito!, diz o francês. É nele que mora a piada. Surge o papagaio. Mas ele é do tipo que não fala. Eles desistem. Exaustos, refestelam-se na areia, moribundos.
Talvez isso não seja uma piada, diz o português. Talvez isso seja só uma coluna de jornal, que não precisa de graça para acabar. Talvez acabe de repente, sem piada. O que é que a gente faz?, pergunta a loura. Espera, ele responde. Espera.

Gregório Duvivier, in Put some farofa

O mundo é um moinho | Cartola, 1976


Clássico dos clássicos do mestre da Mangueira, “O mundo é um moinho” veio ao mundo como a faixa de abertura de seu segundo álbum solo, Cartola (Discos Marcus Pereira), em 1976. Então aos 67 anos, ele tinha escrito esse samba-choro poucos meses antes de voltar ao estúdio. Numa idade em que muita gente já caminhava para a aposentadoria, o compositor mantinha acesa a chama da criação e, nesse mesmo álbum, também lançou duas outras preciosidades até então inéditas, “Minha” e “As rosas não falam”.
Um ano após ser lançado pelo compositor, “O mundo é um moinho” ganharia outra versão memorável, de Beth Carvalho, no disco Nos botequins da vida (RCA). A partir daí, muitas gravações se seguiram, até chegar ao roqueiro Cazuza, reafirmando a abrangência da obra de Cartola. O encadeamento perfeito da melodia e dos versos mostra um fino artesão da canção, garantindo lugar para “O mundo é um moinho” em qualquer antologia da música brasileira.
Cartola sempre negou que a letra tão íntima e emocionada fosse autobiográfica ou confessional, como tantas de suas canções. Conta que teria se inspirado em uma desilusão amorosa, mas de sua enteada, filha de Dona Zica, para criar a letra. O tom é coloquial, como uma conversa de alguém bastante sofrido e experiente alertando sua jovem interlocutora sobre as mesquinharias do mundo, que, como um moinho, pode triturar os seus sonhos e reduzir suas ilusões a pó.
Uma curiosidade na gravação original de Cartola é a participação do então iniciante Guinga. É dele o violão na marcante introdução, ao lado da flauta de Altamiro Carrilho. Antes de se consagrar como compositor, o então também dentista se alternava entre o consultório e os palcos e os estúdios. Não é absurdo imaginar que a experiência com o mangueirense influiu na opção de Guinga pela música.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

Desejo x realidade

Pão

Dia 02 de fevereiro de 2009

Terá o digníssimo procurador público de Badalona lido Os miseráveis de Victor Hugo, ou pertence àquela parte da humanidade que crê que a vida se aprende nos códigos? A pergunta é obviamente retórica e, se a faço, é só para facilitar-me a entrada na matéria. Assim, o leitor ilustrado já ficou a saber que o dito procurador poderia ser, com inteira justiça, uma das figuras que Victor Hugo plantou no seu livro, a de acusador público. O protagonista da história, Jean Valjean (soa-lhe este nome, senhor procurador?), foi acusado de ter roubado (e roubou mesmo) um pão, crime que lhe custou quase uma vida de reclusão por via de sucessivas condenações motivadas por repetidas tentativas de fuga, mais logradas umas que outras. Jean Valjean sofria de uma enfermidade que ataca muito a população dos cárceres, a ânsia de liberdade. O livro é enorme, daqueles de que hoje se diz terem páginas a mais, e certamente não interessará ao senhor procurador que provavelmente já não está em idade de o ler: Os miseráveis são para ler na juventude, depois disso vem o cinismo e já são poucos os adultos que tenham paciência para interessar-se pela miséria e pelas desventuras de Jean Valjean. Com tudo isto, também pode suceder que eu esteja equivocado: talvez o senhor procurador tenha lido mesmo Os miseráveis… Se assim é, permita-me uma pergunta: como foi que ousou (se o verbo lhe parecer demasiado forte use qualquer dos equivalentes) pedir um ano e meio de prisão para o mendigo que em Badalona tentou roubar uma baguette, e digo tentou porque só conseguiu levar metade? Como foi? Será porque, em vez de um cérebro, tem no seu crânio, como único mobiliário, um código? Aclare-me, por favor, para que eu comece já a preparar a minha defesa se alguma vez vier a ter pela frente um exemplar da sua espécie.

José Saramago, in O caderno

A primavera da pontuação | Um

[...]
O período da regência estava com os dias contados. Não porque a pontuação quisesse pôr-lhe um ponto final, mas porque o prazo máximo de duração determinado por lei se aproximava do fim e o Rei começava a falar em reassumir o comando do país – apesar do empenho da Rainha em mantê-lo afastado, já que isso dava a ela mais liberdade de movimentos tanto para exercer o poder nos bastidores como para levar adiante planos ambiciosos para o futuro, planos que não incluíam o marido. O Regente parecia estar com os dias mais contados ainda: autoritário e elitista, insensível tanto à diversidade quanto à igualdade, nunca fora tão impopular. Como acontece nesses casos, começava a faltar-lhe apoio político. Nos círculos próximos, cada vez mais incompletos e descoordenados, sobrava insubordinação. Por isso ele estava nervoso quando o Agente da Passiva foi vê-lo. “Evite comentários sem nexo”, disse o secretário do Regente, Dante, para o Agente da Passiva, ao abrir-lhe a porta. Dante conseguira o emprego por indicação da Rainha, que, em privado, tinha grande ascendência sobre o Regente. Aliás, o próprio Regente, que nunca fora um nome substantivo, chegara a essa posição por influência dela, de quem agora era quase um fantoche. Evidentemente, não era talhado para o cargo. Mas era justo na incompetência dele que a Rainha apostava, pois a instabilidade social também fazia parte dos planos dela. Bastava o Regente começar a falar para que seus problemas com a regência ficassem patentes: “Acabo ver ao subversivo e apelativo Vocativo: quanta exageração até os fatos! De que ponto chegamos! Espero que trazes alguma novidade”, disse ao Agente da Passiva, assim que este foi introduzido no gabinete. “Subversivo pior foi visto e gravado por mim”, respondeu o Agente da Passiva, correspondendo às expectativas do chefe por uma novidade no caso. Demonstrando vivo interesse, o Regente convidou-o para sentar. “Grego, membro dos Compostos Eruditos, foi entrevistado por Vocativo em meio à manifestação”, continuou o Agente da Passiva. “Esses terroristas pedantes estão em trás das badernas?”, indagou o Regente. “Grego não teria sido visto e filmado lá se estivesse envolvido. Mas ponto não é dado sem nó por esse perigoso radical. A emoção do público foi provocada pelo depoimento mentiroso dele. Lenha foi posta na fogueira. De um modo ou de outro, o acontecimento será aproveitado pelos Compostos Eruditos”, especulou o perspicaz Agente da Passiva. “Corto-lhes da língua!”, gritou o Regente.
“Tum, tum, pra ti punctum, tum, tum, tum, tum”, cantarolou Latino ao ouvido de Grego, indicando a ação dos cassetetes dos guardas sobre os pontos desarmados. “‘Telegrafia governista’ é o nome desse samba”, disse Grego ao ouvido de Latino. A pancadaria estava disseminada. “Passa o monóculo, antes que o quebrem”, pediu Latino. “Toma. E vamos embora. Já vimos o suficiente”, disse Grego, esquivando-se de aspas simples que caíam fincadas no chão, aos seus pés. “Mas o automóvel está preso no engarrafamento”, lembrou Latino. “Que fique como símbolo secreto de nossa adesão à revolta. Depois o resgatamos”, respondeu Grego. O olhar onipotente de um encontrou o megalômano do outro, e eles se regozijaram. Então foram abrindo caminho com dificuldade, sem deixar nunca de somar suas vozes às dos manifestantes. Tiveram dessa vez o cuidado de desviar das câmeras de televisão, para não levantar suspeitas sobre si. Vocativo retomara a transmissão. “Há um ponto pacífico ali, tentando entregar flores aos guardas. Entrevista ele, entrevista ele”, falava o ponto eletrônico. “Senhor, o que pretende com essas flores?”, perguntou Vocativo. “Sou integrante do movimento religioso Ponto de Cruz. Somos pela não violência”, respondeu o ponto pacífico. “Vocês querem é entregar os pontos!”, intrometeu-se uma exclamação, arrancando as flores da mão do ponto pacífico. Numa reação inesperada e desproporcional, o guarda-roupa a quem as flores haviam sido oferecidas jogou-se brutalmente sobre os pontos divergentes, por pouco não derrubando também Vocativo e seu câmera, Indicativo, que, no esforço de se equilibrar, ainda teve habilidade suficiente para registrar o voo do ramalhete que se abriu, perdendo talos e pétalas pelo caminho. “Lindo”, exultou o ponto eletrônico. A imagem seria reprisada à exaustão, em câmera lenta. “Viste aquilo? Vai deixar claro que esse governo não é flor que se cheire”, entusiasmou-se Latino. “Ou que esta é a revolução em flor”, acrescentou Grego.
Oscilando entre o alívio e o desespero, Caminhão avançou pela penumbra do quarto e abraçou Palavra-ônibus, que tremia de emoção. O ponto desperto perscrutava o teto do quarto não como se tentasse identificá-lo, mas como se estivesse surpreso por reencontrá-lo. Era visivelmente um ponto fraco. Seu rosto redondo e liso, porém, denotava tranquilidade, quase uma paz profunda. Quem diria que fora atropelado havia pouco? Caminhão se perguntava quem seria o pobrezinho. Até o momento, nenhum parente ou amigo aparecera na mídia em busca dele. Tudo o que se dizia a seu respeito eram suposições. Ainda assim, as notícias mostravam que aquele ponto simples e desconhecido fora rapidamente convertido em ponto de referência por seus pares. Atento ao desdobramento das manifestações, Caminhão começava a entender que ir direto ao ponto tinha sido mais que um mero acidente cotidiano: fora a gota d ’água para uma pontuação insatisfeita com as condições de vida e de trabalho. Por isso a franca recuperação da vítima não podia aliviá-lo completamente. Ele temia se transformar num símbolo negativo, expressão criminosa e covarde de um sistema contra o qual a pontuação se rebelava. Se o cenário adverso se confirmasse ele seria punido, de um modo ou de outro. Ainda que o ponto o perdoasse ou até mesmo saísse em sua defesa, ninguém mais quereria estar do lado dele. A pontuação não aceitaria que ficasse impune, sob pena de enfraquecer o movimento; o governo não teria pudor em puni-lo exemplarmente para acalmar os revoltosos. Caminhão e a mulher só tinham agora um ao outro. Viviam modestamente. Palavra-ônibus perdera o trabalho numa editora, onde ideias de que tudo podia ser legal ou bacana eram as mais empregadas. O espírito da época mudara, e com ele os filões de mercado, obrigando a editora, que ademais era mal administrada, a fechar as portas. O desemprego, somado ao diagnóstico médico de que não poderia engravidar, tinham levado Palavra-ônibus a um profundo abatimento. Caminhão faria de tudo para que ela não passasse mais privações, e se fosse preso era o que a esperava. Ele beijou a testa da mulher e decidiu poupá-la, naquele momento, do que acabara de ver na televisão. Nisso o ponto se virou para ele e sussurrou: “Pai”.
A velha carruagem real sacolejava pelo caminho de pedras irregulares que levava ao Palácio de Versal, a morada do Rei – que o povo apelidara de Versalete por causa do aspecto atarracado da construção. Em meio ao rangido dos eixos, escutava-se a voz da Rainha: “Apruma-te, moleirão, estamos chegando”. A Rainha tinha o rei na barriga. Não desperdiçava uma oportunidade de menosprezar o marido, de fazê-lo sentir-se inseguro. “Impossível manter-se ereto nesta caixa incômoda e desengonçada”, queixou-se o Rei. “Impossível para ti, que és um frouxo. Arruma essa peruca”, ela seguia espezinhando. “Carruagem, perucas… Bobagens que tu inventas. Ninguém mais usa essas coisas hoje em dia”, continuou o Rei, acomodando a peruca que lhe caía sobre os olhos. “Por um lado tu tens razão: poderias não usar nada disso, afinal de contas és um ninguém. Mas, queiras ou não, és também um rei. Então, tenta pelo menos manter as aparências.” “Estou enjoado. Acho que vou…”, disse o Rei, e vomitou no próprio colo antes de poder concluir a frase. “Usa a janela, relaxado!”, gritou a Rainha. O Rei botou a cabeça para fora e golfou outra vez, com força, no instante em que a carruagem adentrava o pátio do Versalete. A peruca voou, misturando-se ao vômito ainda no ar. A carruagem parou e a Rainha desceu, falando aos empregados: “Pão regurgitado e circo para vocês, com os cumprimentos de vossa nulidade real”. O Rei desembarcou com o devotado Aposto em seu encalço. “Se meu Rei, líder dos líderes, permite…”, disse o serviçal com cerimônia, assim que pisaram o chão, e saiu a perseguir o cachorro do Rei, um dálmata, que abocanhara a peruca vomitada e fugira com ela. “Entra pela cozinha. Tu estás imundo”, ordenou a Rainha ao Rei. O Rei obedeceu. As cozinheiras não o viram entrar. Estavam todas reunidas em torno de uma pequena televisão, acompanhando a reportagem de Vocativo. O Rei parou atrás delas e viu quando o guarda-roupas se jogou sobre o ponto pacífico e a exclamação; viu o ramalhete de flores desfazendo-se em câmera lenta em meio à pancadaria generalizada. Os olhos do Rei encheram-se de lágrimas. Foi quando as empregadas sentiram seu mau cheiro. “Há algo de podre no reino de Ponto Alegre”, disse uma delas. “Sou eu”, disse o Rei, afastando-se cabisbaixo, “sou eu.” [...]

Vitor Ramil, in A primavera da pontuação