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23/03/2024

A balada do falso Messias




Vai pôr vinho no copo. Suas mãos agora estão enrugadas e tremem. Mas ainda me impressionam, essas mãos grandes e fortes. Comparo-as com as minhas, de dedos curtos e grossos, e admito que nunca o compreendi e nunca chegarei a compreendê-lo.
Encontrei-o pela primeira vez a bordo do Zemlia. Nesse velho navio, nós, judeus, estávamos deixando a Rússia; temíamos os pogroms. Acenavam-nos com a promessa da América e para lá viajávamos, comprimidos na terceira classe. Chorávamos e vomitávamos, naquele ano de 1906. Eles já estavam no navio, quando embarcamos. Shabtai Zvi e Natan de Gaza. Nós os evitávamos. Sabíamos que eram judeus, mas nós, da Rússia, somos desconfiados. Não gostamos de quem é ainda mais oriental do que nós. E Shabtai Zvi era de Esmirna, na Ásia Menor — o que se notava por sua pele morena e seus olhos escuros. O capitão nos contou que ele era de uma família muito rica. De fato, ele e Natan de Gaza ocupavam o único camarote decente do barco. Então, por que iam para a América? Por que fugiam? Perguntas sem resposta.
Natan de Gaza, um homem pequeno e trigueiro, despertava-nos particularmente a curiosidade. Nunca tínhamos visto um judeu da Palestina de Eretz Israel — uma terra que para muitos de nós só existia em sonhos. Natan, um orador eloquente, falava para um público atento sobre as suaves colinas da Galileia, o belo lago Kineret, a histórica cidade de Gaza, onde ele nascera, e cujas portas Sansão tinha arrancado. Bêbado, porém, amaldiçoava a terra natal: “Pedras e areia, camelos, árabes ladrões...”. Ao largo das ilhas Canárias, Shabtai Zvi surpreendeu-o maldizendo Eretz Israel. Surrou-o até deixá-lo caído no chão, sangrando; quando Natan ousou protestar, demoliu-o com um último pontapé.
Depois disso passou dias trancado no camarote, sem falar com ninguém. Passando por ali ouvíamos gemidos... e suspiros... e suaves canções. Uma madrugada acordamos com os gritos dos marinheiros. Corremos ao convés e lá estava Shabtai Zvi nadando no mar gélido. Baixaram um escaler e a custo conseguiram tirá-Lo da água. Estava completamente nu e assim passou por nós, de cabeça erguida, sem nos olhar — e foi se fechar no camarote. Natan de Gaza disse que o banho fora uma penitência, mas nossa conclusão foi diferente: “É louco, o turco”.
Chegamos à ilha das Flores, no Rio de Janeiro, e de lá viajamos para Erexim, de onde fomos levados em carroções para os nossos novos lares, na colônia denominada Barão Franck, em homenagem ao filantropo austríaco que patrocinara nossa vinda. Éramos muito gratos a este homem que, aliás, nunca chegamos a conhecer. Alguns diziam que nas terras em que estávamos sendo instalados mais tarde passaria uma ferrovia, cujas ações o barão tinha interesse em valorizar. Não acredito. Acho que era um bom homem, nada mais. Deu a cada família um lote de terra, uma casa de madeira, instrumentos agrícolas, animais.
Shabtai Zvi e Natan de Gaza continuavam conosco. Receberam uma casa, embora ao representante do barão não agradasse a ideia de ver os dois juntos sob o mesmo teto.
Precisamos de famílias — disse incisivamente — e não de gente esquisita.
Shabtai Zvi olhou-o. Era tal a força daquele olhar que ficamos paralisados. O agente do barão estremeceu, despediu-se de nós e partiu apressadamente. Lançamo-nos ao trabalho.
Como era dura a vida rural! A derrubada de árvores. A lavra. A semeadura... Nossas mãos se enchiam de calos de sangue.
Durante meses não vimos Shabtai Zvi. Estava trancado em casa. Aparentemente o dinheiro tinha acabado, porque Natan de Gaza perambulava pela vila, pedindo roupas e comida. Anunciava para breve o ressurgimento de Shabtai Zvi trazendo boas novas para toda a população. — Mas o que é que ele está fazendo? — perguntávamos.
O que estava fazendo? Estudava. Estudava a Cabala, a obra-prima do misticismo judaico: o Livro da Criação, o Livro do Brilho, o Livro do Esplendor. O ocultismo. A metempsicose. A demonologia. O poder dos nomes (os nomes podem esconjurar demônios; quem conhece o poder dos nomes pode andar sobre a água sem molhar os pés; e isso sem falar da força do nome secreto, inefável e impronunciável de Deus). A ciência misteriosa das letras e dos números (as letras são números e os números são letras; os números têm poderes mágicos; quanto às letras, são os degraus da sabedoria). É então que surge em Barão Franck o bandido Chico Diabo. Vem da fronteira com seus ferozes sequazes. Fugindo dos “Abas Largas”, esconde-se perto da colônia. E rouba, e destrói, e debocha. Rindo, mata nossos touros, arranca-lhes os testículos, e come-os, levemente tostados. E ameaça matar-nos a todos se o denunciarmos às autoridades. Como se não bastasse esse infortúnio, cai uma chuva de granizo que arrasa as plantações de trigo. Estamos imersos no mais profundo desespero quando Shabtai Zvi reaparece.
Está transfigurado. O jejum devastou-lhe o corpo robusto, os ombros estão caídos. A barba agora, estranhamente grisalha, chega à metade do peito. A santidade envolve-o, brilha em seu olhar.
Caminha lentamente até o fim da rua principal... Nós largamos nossas ferramentas, nós saímos de nossas casas, nós o seguimos. De pé sobre um montículo de terra, Shabtai Zvi nos fala.
Castigo divino cai sobre vós!
Referia-se a Chico Diabo e ao granizo. Tínhamos atraído a ira de Deus. E o que poderíamos fazer para expiar nossos pecados?
Devemos abandonar tudo: as casas; as lavouras; a escola; a sinagoga; construiremos, nós mesmos, um navio — o casco com a madeira de nossas casas, as velas com os nossos xales de oração. Atravessaremos o mar. Chegaremos à Palestina, a Eretz Israel; e lá, na santa e antiga cidade de Sfat, construiremos um grande templo.
E aguardaremos lá a chegada do Messias? — perguntou alguém com voz trêmula.
O Messias já chegou! — gritou Natan de Gaza. — O Messias está aqui! O Messias é o nosso Shabtai Zvi!
Shabtai Zvi abriu o manto em que se enrolava. Recuamos, horrorizados. Víamos um corpo nu, coberto de cicatrizes; no ventre, um cinturão eriçado de pregos, cujas pontas enterravam-se na carne. Desde aquele dia não trabalhamos mais. O granizo que destruísse as plantações. Chico Diabo que roubasse os animais, porque nós íamos embora. Derrubávamos as casas, jubilosos. As mulheres costuravam panos para fazer as velas do barco. As crianças colhiam frutas silvestres para fazer conservas. Natan de Gaza recolhia dinheiro para, segundo dizia, subornar os potentados turcos que dominavam a Terra Santa.
O que está acontecendo com os judeus? — perguntavam-se os colonos da região. Tão intrigados estavam que pediram ao padre Batistella para investigar. O padre veio ver-nos; sabia de nossas dificuldades, estava disposto a nos ajudar.
Não precisamos, padre — respondemos com toda a sinceridade. — Nosso Messias chegou; ele nos libertará, nos fará felizes.
O Messias? — o padre estava assombrado. — O Messias já passou pela terra. Foi Nosso Senhor Jesus Cristo, que transformou a água em vinho e morreu na cruz por nossos pecados.
Cala-te, padre! — gritou Santa. — O Messias é Shabtai Zvi! Santa, filha adotiva do gordo Leib Rubin, perdera os pais num pogrom. Ficara então com a mente abalada. Seguia Shabtai Zvi por toda a parte, convencida de que era a esposa reservada para o Ungido do Senhor. E para surpresa nossa Shabtai Zvi aceitou-a: casaram-se no dia em que terminamos o casco do barco. Quanto à embarcação, ficou muito boa; pretendíamos levá-la ao mar, como Bento Gonçalves transportara seu navio, sobre uma grande carreta puxada por bois.
Estes já eram poucos. Chico Diabo aparecia agora todas as semanas, roubando duas ou três cabeças de cada vez. Alguns falavam em enfrentar os bandidos. Shabtai Zvi não aprovava a ideia. “Nosso reino está além do mar. E Deus vela por nós. Ele providenciará.”
De fato: Chico Diabo desapareceu. Durante duas semanas trabalhamos em paz, ultimando os preparativos para a partida. Então, num sábado pela manhã, um cavaleiro entrou a galope na vila. Era Gumercindo, lugar-tenente de Chico Diabo.
Chico Diabo está doente! — gritou, sem descer do cavalo. — Está muito mal. O doutor não acerta com o tratamento. Chico Diabo me mandou levar o santo de vocês para curar ele.
Nós o rodeávamos em silêncio.
E se ele não quiser ir — continuou Gumercindo — é para nós queimar a vila toda. Ouviram?
Eu vou — bradou uma voz forte.
Era Shabtai Zvi. Abrimos caminho para ele. Aproximou-se lentamente, encarando o bandoleiro.
Apeia.
Gumercindo desceu do cavalo. Shabtai Zvi montou.
Vai na frente, correndo.
Foram os três: primeiro Gumercindo, correndo; depois Shabtai Zvi a cavalo; e fechando o cortejo, Natan de Gaza montado num jumento. Santa também quis ir mas Leib Rubin não deixou.
Ficamos reunidos na escola todo o dia. Não falávamos; nossa angústia era demasiada. Quando caiu a noite ouvimos o trote de um cavalo. Corremos para a porta. Era Natan de Gaza, esbaforido.
Quando chegamos lá — contou — encontramos Chico Diabo deitado no chão. Perto dele, um curandeiro fazia mandingas. Shabtai Zvi sentou perto do bandido. Não disse nada, não fez nada, não tocou no homem — só ficou olhando. Chico Diabo levantou a cabeça, olhou para Shabtai Zvi, deu um grito e morreu. O curandeiro, eles mataram ali mesmo. De Shabtai Zvi nada sei. Vim aqui avisar: correi, fugi!
Metemo-nos nas carroças e fugimos para Erexim. Santa teve de ir à força. No dia seguinte, Leib Rubin nos reuniu.
Não sei o que vocês estão pensando em fazer — disse — mas eu já estou cheio dessas histórias todas: Barão Franck, Palestina, Sfat... Eu vou é para Porto Alegre. Querem ir comigo?
E Shabtai Zvi? — perguntou Natan de Gaza com voz trêmula (era remorso o que ele sentia?).
Ele que vá para o diabo, aquele louco! — berrou Leib Rubin. — Só trouxe desgraças!
Não fale assim, pai! — gritou Santa. — Ele é o Messias.
Que Messias, nada! Acaba com essa história, isso ainda vai provocar os anti-semitas. Não ouviste o que o padre disse? O Messias já veio, está bom? Transformou a água em vinho e outras coisas. E nós vamos embora. O teu marido, se ainda está vivo, e se ficou bom da cabeça, que venha atrás. Eu tenho obrigação de cuidar de ti, e vou cuidar de ti, com marido ou sem marido!
Viajamos para Porto Alegre. Judeus bondosos nos hospedaram. E para nossa surpresa, Shabtai Zvi apareceu uns dias depois. Trouxeram-no os “Abas Largas”, que haviam prendido todo o bando de Chico Diabo.
Um dos soldados nos contou que haviam encontrado Shabtai Zvi sentado numa pedra, olhando para o corpo de Chico Diabo. Espalhados pelo chão — os bandidos, bêbados, roncando. Havia bois carneados por toda a parte. E vinho. “Nunca vi tanto vinho!” Tudo o que antes tinha água agora tinha vinho! Garrafas, cantis, baldes, bacias, barricas. As águas de um charco ali perto estavam vermelhas. Não sei se era sangue das reses ou vinho. Mas acho que era vinho.
Ajudado por um parente rico, Leib Rubin se estabeleceu com uma loja de fazendas. Depois passou para o ramo de imóveis e posteriormente abriu uma financeira, reunindo grande fortuna. Shabtai Zvi trabalhava numa de suas firmas, da qual eu também era empregado. Natan de Gaza envolveu-se em contrabando, teve de fugir e nunca mais foi visto.
Desde a morte de Santa, Shabtai Zvi e eu costumamos nos encontrar num bar para tomar vinho. E ali ficamos toda a noite. Ele fala pouco e eu também; ele serve o vinho e bebemos em silêncio. Perto da meia-noite ele fecha os olhos, estende as mãos sobre o copo e murmura palavras em hebraico (ou em aramaico, ou em ladino). O vinho se transforma em água. O dono do bar acha que é apenas um truque. Quanto a mim, tenho minhas dúvidas.

Moacyr Scliar, in Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século 

18/08/2022

Minha vez não chegava


Minha vez não chegava. Os dias se sucediam, e minha vez não chegava.
Para matar o tempo, comecei a explorar o palácio — isto é, os locais permitidos, que, fora o próprio harém e seu jardim, eram dois. Um, o pavilhão dos filhos e filhas: centenas de crianças e jovens, ali. De acordo com uma disposição do rei, tinham de ficar separados. Até uma certa idade, a mãe podia cuidar da criança; depois, voltava à sua condição de mulher disponível cem por cento do tempo, e a tarefa de criar os meninos e meninas ficava a cargo de escravos e preceptores. Era um pavilhão enorme, aquele, maior inclusive do que o pavilhão do harém, mas austero, sem nenhuma decoração. Triste ambiente. Tristes eram os olhos postos em mim. Sofriam mais do que eu, aquelas crianças. Pelo menos eu tivera um pai presente. Safado, mas presente. De que adiantava àqueles infelizes serem filhos de um rei poderoso e sábio? De nada. O rei falava com os pássaros, mas não falava com eles. Verdade que não falava porque não tinha tempo, reinar é uma tarefa absorvente, desgastante; mas o resultado final é que se sentiam órfãos. Órfãos, mas não cegos. Certa vez, tentei acariciar o rosto de um garotinho e ele não deixou: não me toca, feia, não me toca. Saí de lá furiosa — e triste: até mesmo a infelicidade triunfava sobre a feiura.
Igualmente deprimente foi a visita ao pavilhão conhecido como Retiro.
Para ali eram levadas as velhas esposas e concubinas — “velha” significando a mulher que chegava à menopausa (pelo menos para isso havia um critério). Eram poucas, as moradoras do Retiro; segundo ouvi de uma escrava, depois que vinham para ali não duravam muito, todo dia enterravam alguma. Agora: nenhuma delas havia sido esposa ou concubina de Salomão, homem relativamente jovem; não, o grupo era uma herança que recebera do pai, o rei Davi, e da qual prometera cuidar, o que fazia até com certa dedicação; nunca vinha ao harém, mas ao Retiro comparecia regularmente. Não para trepar, naturalmente, o que teria inevitável conotação edipiana, mas para conversar, para ouvir histórias de um genitor que — e disso ele próprio não escapava — fora uma figura distante, sempre às voltas com os negócios da Coroa. As velhinhas, contudo, gostavam dessas visitas, que lhes permitiam gratas reminiscências: “Teu pai era um grande fodedor, meu rei. Uma vez ele se apaixonou pela mulher de seu oficial, o hitita Urias...” — e aí Salomão tinha de ouvir pela milésima vez a história de Davi e Betsabá.
Se o clima emocional do harém era de ansiedade, no Retiro predominava a melancolia. Vivemos de lembranças, suspiravam as idosas, e essas lembranças não eram sempre agradáveis. Todas tinham passado ao menos uma vez pelo leito real. Para uma, essa fora uma ocasião gloriosa; para outra, prazenteira; para uma terceira, prazenteira e gloriosa a um tempo. Algumas, verdade que poucas, lembravam o momento com raiva, com tristeza, com decepção; era o caso da mulher que todas ali conheciam como a Virgem Caduca. O problema com ela era exatamente esse, nunca tinha sido desvirginada; os motivos para isso eram obscuros, mesmo porque, sendo muito velha, já não dizia coisa com coisa — daí o apelido.
Mas, sempre que se referia ao assunto, era para se queixar: aqui estou eu, com esse hímen que já virou pedra — quem é que vai fazer alguma coisa por mim? Hímen de pedra, falo de pedra (onde estaria ela, a minha pedra?): aspirações incompreendidas, emoções não extravasadas, desejos não satisfeitos. Estaria a mim reservado o mesmo destino, o da virgindade, associada ou não à caduquice? A velha era velha, mas não tão feia quanto eu. Por que, então, nunca tivera relações? Meu diagnóstico, baseado nas histórias que circulavam a seu respeito, era de frigidez. Parece que Davi tentara alguma coisa, mas fora repelido com veemência, com lições de moral, até — coisa a que Davi era muito sensível, puteado que fora pelo profeta Natã por ter cobiçado (e conseguido) a mulher do próximo.
Não era o meu caso. Frígida eu não era. Felizmente: a ausência de tesão, associada à ausência de beleza, reduziria minhas chances com Salomão a zero, naquele clima de disfarçada mas feroz competição. Felizmente ou infelizmente? Justo por serem tão poucas as minhas possibilidades com o rei, não seria a frigidez uma boa solução, um mal menor que me evitaria um penoso conflito? Questão irrelevante. O negócio é que eu estava apaixonada por Salomão, só pensava nele, tudo o que queria era deitar-me com ele. A perspectiva de não consegui-lo, de morrer sem beijá-lo, sem acariciar seu rosto, sem tocar seu corpo e sem ser por suas mãos tocada (ele me faria vibrar como harpa melodiosa), essa ideia me entristecia, levava-me ao desespero. Mas ao desespero eu não me entregaria, lutaria até o fim. Não era mulher para aceitar resignada esse melancólico destino.
Decidi tomar a iniciativa: não poderia ficar na dependência do acaso, que certamente não me favoreceria. Se Maomé não ia à montanha, a montanha (com sua lúbrica caverna) iria a Salomão.
Para conseguir meu objetivo eu precisaria de ajuda, um auxílio mais eficaz do que o da escrava muda, tão dedicada quanto inútil. Tinha de chegar ao rei. Uma alternativa seria recorrer aos canais informais de comunicação; talvez um cortesão amigo pudesse cochichar ao ouvido do soberano, escuta aqui, Salomão, está na hora de dar uma colher de chá para a feinha, a coitada não dorme à noite pensando em ti, faz essa caridade, Jeová vai te recompensar, isso contará pontos no teu currículo para o Juízo Final.
Mas aí havia dois problemas. Em primeiro lugar, eu não conhecia nenhum cortesão, e mesmo que conhecesse, era de duvidar que ele se dispusesse a interceder; os olhares que os cortesãos me haviam lançado quando de minha chegada ao palácio estavam mais para deboche do que para simpatia. Em segundo lugar, eu não estava atrás de favores, mas sim de direitos.
Queria reivindicar, não implorar. De novo, essa era uma coisa que eu dificilmente faria sozinha. Quem me ajudaria na tarefa? De repente, uma resposta me ocorreu: as mulheres do harém.
Ideia aparentemente absurda. Se estávamos competindo, e estávamos, por que elas se engajariam numa campanha a meu favor? E, mesmo que topassem, que campanha seria essa? Sobre isso pensei muito, caminhando pelos jardins. Pensar, aliás, era uma coisa malvista pela encarregada do harém, que se irritava toda vez que me via vagando, cabisbaixa, pelas aleias. Tu pensas demais, dizia-me, por isso és tão feia, porque as ideias que te ocorrem te fazem franzir a testa e a boca, apertar os olhos, e a tua cara fica cada vez mais marcada; relaxa, te diverte, te ocupa com coisas tolas mas agradáveis, e verás como melhorarás, pelo menos um pouco — o suficiente, talvez, para não assustares mais o rei.
Mas eu não podia parar de pensar, de maquinar coisas. E o que maquinava agora era um plano para mobilizar as mulheres. Para que trabalhassem por mim? Para que me ajudassem a chegar ao leito de Salomão? Sim, mas não apenas isso. De repente, eu queria mais. Queria solidariedade, a verdadeira solidariedade das oprimidas. E contava chegar a isso partilhando com elas, da forma mais sincera e aberta possível, minha angústia. Queria mostrar-lhes que minha virgindade era um pouco a virgindade delas (mostrando que mesmo as descabaçadas continuavam, psicologicamente, socialmente, virgens), que minha marginalização tornava-as também marginais, que minha feiura era também a feiura delas — se não uma feiura externa, pelo menos interna, feiura da tristeza, do desamparo, por aí. Não tínhamos por que competir; ao contrário, só a união nos faria fortes, daria sentido à nossa vida ali no harém.
E como chegar lá? Para tanto, eu tinha planos. Organizaríamos grupos de discussão sobre a situação das mulheres no harém, cada grupo com sua coordenadora e sua relatora; faríamos uma grande plenária; e, baseada nas resoluções da plenária, eu — a única letrada — escreveria a Carta do Harém, um inflamado documento de protesto contra as condições em que vivíamos e que talvez percorresse clandestinamente o mundo, despertando em todos os haréns a consciência das mulheres lá aprisionadas. De pé, vítimas do sexo!, seria o grito de revolta que ecoaria, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, que repercutiria nos ouvidos de todos os governantes.
O objetivo final do movimento seria, não acabar com a instituição harém — muitas mulheres nem saberiam viver em liberdade —, mas pelo menos estabelecer uma pauta de direitos. No topo dessa pauta eu colocaria a quota mínima de fodas, a ser determinada cientificamente: depois de estudada a performance sexual de reis e sultões, uma média seria calculada e serviria de parâmetro. Outro detalhe: dentro do conceito de vida sexual democrática, cada mulher teria direito ao mesmo número de noites no leito real. Argumentos tipo meu pai é um monarca muito poderoso, eu mereço mais, não pesariam. Sou mais bonita, tenho mais tesão — nada disso seria aceito. Agora: haveria margem para alguma negociação.
Se uma mulher quisesse passar um ano sem trepar, poderia. Se uma mulher preferisse outra mulher em lugar do rei — tudo bem. Essas ficariam com créditos sexuais, para serem utilizados em outra época ou para serem trocados por outras espécies de gratificação. Dez fodas não utilizadas dariam direito a uma viagem de turismo pelo Mediterrâneo, em navio confortável, com tudo pago. Se o rei estava poupando sua energia sexual, nada mais justo que compensasse aquelas que o beneficiavam.
Enfim: um belo projeto, algo capaz de estabelecer um novo paradigma na relação entre homens e mulheres, ao menos em termos de harém. Agora: estava eu sendo sincera ao formulá-lo ou queria convencer-me de que era uma pessoa generosa, com ampla visão da sociedade e do mundo, uma pessoa capaz de desfraldar ao vento a bandeira da equidade e da justiça? Eu não tinha resposta para essa pergunta. Talvez o movimento fosse apenas disfarce para o meu egoísmo. E daí? Eu era interesseira? Está bom, então eu era interesseira. O mundo é dos que competem, eu me dizia, quem menos corre voa, e eu não vou ficar aqui esperando que aquele rei se disponha a me dar o favor de sua atenção. Por idealismo ou por qualquer outra razão, eu tinha de partir para a briga — esperando, naturalmente, o momento psicológico adequado.
Chegou mais cedo do que eu esperava. Duas semanas se passaram sem que o rei chamasse alguma mulher, o que era raro. A inquietude apossou-se do harém. Antes que os boatos começassem a circular, disseminei — com a ajuda das escravas (até a de língua cortada entrou na dança; era muito boa em mímica) — minha própria versão: o rei teria afirmado na corte estar farto das mulheres do harém, umas incompetentes, de limitadíssimo repertório sexual. Estaria pensando em criar um novo harém, quem sabe em local distante, num paraíso fiscal, por exemplo, o que lhe facilitaria a remessa de dinheiro.
Para minha satisfação, a história pegou. O harém inteiro ficou em pé de guerra. É uma barbaridade, protestavam as mulheres, o cara afirmar uma coisa dessas, quem ele pensa que é, nem mesmo um rei pode nos desprezar dessa maneira, a gente capricha, a gente se embeleza, a gente se esforça, e o cara fica lá, tripudiando, fazendo pouco da gente, contando mentiras para aqueles cortesãos bichas.
Ou seja: minha mensagem se propagara como fogo numa pradaria seca, e agora as chamas da revolta se erguiam, altas, vigorosas. Aproveitei o momento e sugeri uma reunião. As mulheres a quem primeiro falei a respeito mostraram-se receosas: não seria um ato de rebeldia, aquilo? Expliquei que não: tratava-se de uma manifestação ordeira, pacífica, nada teríamos a temer.
Naquela tarde mesmo nos reunimos. O comparecimento foi grande: mais ou menos oitenta por cento das esposas e uns cinquenta por cento das concubinas (estas, por não gozarem de estabilidade, receavam toda contestação). Sabiamente, eu não quis presidir a assembleia; pretendia falar, sim, mas no momento preciso. Os debates e as propostas se sucediam, sem falar nas questões de ordem, porém nada de concreto emergia. Chegou o momento em que as pobres coitadas pareciam ter perdido o rumo: olhavam-se atarantadas, não sabiam o que fazer, o que dizer. É agora, decidi. Rápida como uma cabra da montanha, subi na mureta da pitoresca e murmurante fonte que havia no centro do harém e, em palavras candentes (Deus, eu estava realmente inspirada — nada como a tesão longamente reprimida para fomentar a eloquência), conclamei-as a terminar com aquele abuso.
Chega de sermos tratadas como objetos sexuais! Chega de submissão! Chega de opressão! Respirei fundo e lancei a palavra de ordem: — Por uma completa igualdade de direitos sexuais! De agora em diante o rei terá de receber cada uma de nós! Ressoaram os aplausos. E aí — risco calculado, mas muito bem calculado — joguei minha cartada: — E a primeira serei eu.
Fez-se um silêncio. Tenso silêncio. O que eu via agora, nos rostos à minha frente, era suspeição, não entusiasmo; desconfiança, não fervor revolucionário. E aí veio, lá de trás, formulada por uma magrinha saliente, a pergunta que eu temia, mas que, estava segura, em algum momento seria feita.
Tu? Por que tu? Eu já tinha a resposta preparada.
Porque — respondi — sou a feia. Se o rei me receber, não terá desculpas para não receber nenhuma de vocês.
De novo, fez-se silêncio: muitas ali — nem todas eram brilhantes — tentavam entender o raciocínio. Mas uma morena de olhar desvairado veio em meu socorro.
Isso mesmo! A feia é o teste! Que o rei receba a feia! As mulheres agora pareciam encantadas com a ideia. Em coro, batendo palmas, gritavam: — A feia! A feia! Que durma com a feia! A feia! A feia! Que durma com a feia! A feia? Não. Eu não era a feia. Naquele momento eu não era a feia.
Naquele glorioso momento, naquele transcendente momento, naquele abençoado momento, consegui, por uma fração de segundo, ver-me como se fosse outra pessoa. E o que via era uma mulher de pé sobre uma mureta, punho erguido no ar, cabelos em desalinho, rosto — belo rosto, sim, belo, muito belo, de uma beleza diferente, mas indiscutivelmente belo —, rosto resplandecente... Ah, se aquele momento se eternizasse, se aquela beleza permanecesse para sempre... Poderiam me chamar de feia, sim, mas estariam usando o termo no sentido carinhoso. Querida feia, adorável feia, brava feia, generosa feia. Bela feia.
O êxtase não durou muito. No momento seguinte a encarregada entrava no harém, acompanhada de empregados e dois soldados, furiosa.
Que gritaria é essa, porra? Onde é que vocês pensam que estão, cambada de putas? Pensam que o harém é bordel, pagãs de merda? Foi uma debandada geral. Apesar de meus gritos — resistam, amigas, estamos unidas, não podemos ser vencidas —, fugiam para todos os lados.
Por fim fiquei só eu, sozinha, em cima da mureta.
Desce daí — comandou a mulher.
Não desço. — Eu estava blefando, mas era necessário: estava em jogo o pouco que eu tinha conquistado. Se quisessem usar a força, que usassem: o fato chegaria inevitavelmente ao conhecimento de Salomão, e até serviria como argumento moral em meu favor. Desde que eu saísse inteira dali: com os soldados, nunca se sabia.
Desce, já disse — repetiu ela, mas já não tão segura.
Não desço. Vais ter de me tirar daqui na marra. Mas já vou avisando: não será fácil, hein? Não será fácil. Daqui só saio morta.
A ameaça deve ter lhe soado muito real, porque vacilou. Matar uma esposa de Salomão, mesmo a feia, mesmo a rebelde, podia ser considerado uma falta muito grave. Mudou o tom: — Deixa de bobagem, querida. Desce daí e vamos dar tudo por esquecido.
Deixa de bobagem tu. Daqui só saio para o leito do rei. Enquanto ele não cumprir as obrigações conjugais comigo, nada feito.
Agora a encarregada estava francamente alarmada. Naquele momento, estava hospedada no palácio uma delegação de potentados estrangeiros. O que aconteceria se, por acaso, pedissem para conhecer o harém? O que pensariam vendo uma mulher com cara de louca, imóvel sobre a mureta da fonte, feiura agravada pela expressão feroz? Seria péssimo para a imagem do reino, uma imagem que Salomão cultivava cuidadosamente. Eu teria de ser retirada dali o quanto antes. E, já que ela não poderia me remover numa boa, o jeito era levar o problema ao próprio rei. Um vexame — afinal, como encarregada, supunha-se que devia evitar exatamente isso, que conflitos no harém chegassem ao trono —, mas a alternativa sem dúvida seria pior, mesmo porque àquela altura Salomão provavelmente já estaria informado dos acontecimentos.
Está bem — suspirou —, vou falar com o rei. Mas me faz um favor, desce daí.
Nada disso. Vai lá, fala com ele, e volta aqui. Conforme a reação dele, eu desço. Ou não.
Me olhou com raiva — essa aí, além de feia, é uma mula de tão teimosa — mas foi. E eu fiquei ali, aguardando, as mulheres agora me olhando de longe, em atemorizada expectativa.
Duas horas depois, a encarregada voltou. Exibia agora um sorriso conciliador.
Podes descer. O rei vai te receber esta noite.
Confesso que as pernas me tremeram. Eu tinha vencido, eu conseguira o que queria: o rei ia me receber, o rei ia, enfim, me receber. Mas aquela perspectiva não me deixava feliz, nem mesmo excitada. Ao contrário, eu estava amedrontada, naquele momento eu era apenas uma mocinha feia, muito feia, uma mocinha tímida prestes a ser desvirginada — oh, Deus. Uma vertigem se apossou de mim; antes que eu caísse, a própria encarregada me amparou, me ajudou a descer.
Calma, garota, calma. Não será nada de mais. Tudo dará certo, vais ver. Serás feliz para sempre.
Pequena ironia, que lhe servia de vingança.
Agora vamos, temos muita coisa a fazer: quero banhar-te, maquiar-te.
Assim o rei— Não completou a frase, mas eu sabia o que viria após: assim o rei não te achará tão feia. De novo, a revolta cresceu dentro de mim. Com um safanão, libertei-me.
Deixa-me. Não quero banhar-me nem maquiar-me. Vou assim mesmo, como eu sou.
Mas— — Não tem mas. Feia ou não, o rei vai ter de me aceitar. Se não, volto para a mureta e continuo soltando o berro.
Está bem, está bem, vai assim mesmo — disse ela, mal contendo a raiva.
Mas depois não diz que não te avisei.
E saiu, bufando.
Faltavam algumas horas para o anoitecer. Eu pretendia esperar de pé, mas cansei e acabei sentando-me junto à mureta. O sol completou sua marcha sobre o deserto da Judeia e foi desaparecendo lentamente atrás do horizonte. A tênue, suave luz do crepúsculo invadiu o harém. Algumas mulheres começaram a entoar, num dialeto para mim desconhecido, uma nostálgica melopeia. Exausta dos acontecimentos daquele dia acabei adormecendo. E sonhei: sonhei que estava de novo em minha aldeia, que era criança e que meu pai me estendia os braços, dizendo, com um sorriso, vem, minha bela, vem. E eu corri para ele, ia abraçá-lo, mas nesse momento alguém me sacudiu com energia, com brutalidade até: era a encarregada do harém.
Vamos. Está na hora.
Rudemente despertada, pus-me de pé, ainda atarantada. A mulher me olhou com desgosto.
Estás um lixo, querida. Um verdadeiro lixo. Muito pior do que o habitual. Permite pelo menos que eu te mostre.
Mandou que trouxessem um espelho. Um bom espelho, bem polido, de modo que eu não pudesse ter nenhuma dúvida quanto à minha imagem nele refletida. Imagem que contemplei com receio. E havia razões para isso: a imagem que eu via ali era simplesmente medonha. Deus, como eu estava feia. Cabelos desgrenhados, cara estremunhada de sono — a feiúra multiplicada por dois, no mínimo. Notando que eu estava abalada, a encarregada do harém ainda fez uma tentativa: — Quer que eu chame a maquiadora? Em cinco minutinhos— — Nada disso. — Agora eu não voltaria atrás. — Vamos lá.
Marchamos em direção aos aposentos reais, nossos passos ressoando em uníssono nos corredores vazios. Eu me sentia... Como é mesmo que eu me sentia? Uma condenada. Ali estava eu, escoltada como uma prisioneira...
E era para a noite de núpcias que eu ia. Era para os braços do meu esposo. Incrível.
Finalmente, chegamos. Detivemo-nos diante da grande porta guardada por soldados armados.
Espera aqui — disse a encarregada. Trocou algumas palavras em voz baixa com os guardas. Olharam-me — o assombro em sua expressão era mais do que visível — e abriram a porta. A encarregada introduziu-se por ali. Voltou minutos depois, dizendo que eu podia entrar.
Daqui por diante é tudo contigo — disse-me, num tom de mal disfarçado escárnio. — Vê lá o que vais fazer.
Não respondi. Trêmula, entrei nos aposentos reais. A primeira coisa que vi foi o leito. Imenso, com grandes dosséis de seda, lembrou-me, não sei por que, um navio, coisa que eu nunca tinha visto, mas que imaginava exatamente daquele jeito. Ali estava eu, pois, diante da nau de Salomão.
Qual seria o seu destino? Rumaria para a ilha da Eterna Felicidade, propelida pelo doce vento do amor, ou ficaria perdida no revolto e perigoso mar da Frustração? Eu não saberia dizer. Feias não predizem; feias aceitam o que lhes reserva a sorte.
Salomão não estava ali. Melhor dizendo, estava, mas não no aposento propriamente dito e sim no amplo terraço, do qual se descortinava toda a região, iluminada por fantástica lua. De costas para mim, olhava o horizonte. Em que estaria pensando? Em novas alianças com países distantes, em novas esposas a serem incorporadas ao harém? Ou estaria esperando o obsceno pássaro da noite, para dele obter dicas a respeito da aventura que logo iria viver? Por algum tempo fiquei ali, à espera, olhando aquele altaneiro vulto, aquele largo dorso, aquela bela cabeça.
E aí senti tesão.
Dá para acreditar? Eu, naquela ansiedade tremenda, sem saber o que ia me acontecer, o desejo começou a brotar dentro de mim, foi se tornando mais forte, e eu sentia que a qualquer momento ia pular naquelas costas e beijar aquela nuca... Antes que isso acontecesse, ele se virou. Olhou-me e estremeceu. De novo, estremeceu. Eu devia ter ficado puta da cara, que história é essa de estremecer toda vez que me olha?, mas o resultado foi exatamente o contrário, eu agora estava na ponta dos cascos, por assim dizer, de modo que o fato de ele estremecer só me aumentou o desejo, que chegava a níveis insuportáveis.
Ele suspirou.
Então é hoje — disse, com visível resignação. Talvez para ganhar tempo, resolveu iniciar um papo — mas aí deu-se conta de que não recordava o meu nome, nem quem exatamente eu era. Tive de me identificar; ele — claro, como não me lembrei de ti, és uma figura tão marcante — quis saber como estava meu pai, e a família, e a aldeia; ou seja, estava jogando conversa fora, estava matando tempo, estava desperdiçando energias — e, pior, estava me martirizando, eu que não aguentava mais. Finalmente, indicou a cama.

Tira a roupa, deita, e me aguarda que já venho.

Moacyr Scliar, in A Mulher que escreveu a Bíblia 

04/08/2022

A caravana


A chegada da caravana provocou alvoroço. Nas estreitas ruelas que percorríamos, uma verdadeira multidão olhava-nos passar. E — não nego que o orgulho me invadiu quando o constatei — o motivo de tanto interesse, de tanta excitação, era a tenda onde eu estava. Todos sabiam que dentro daquela tenda estava a nova esposa do rei. Que por certo imaginavam bela e sedutora. Enganavam-se, mas de seu engano nunca se dariam conta, pois jamais me veriam. Do palácio real eu jamais sairia.
A esse palácio, imponente, luxuoso, agora chegávamos. Passamos os portões, guardados por sentinelas, entramos no pátio interno, e ali a caravana se deteve. O emissário do rei, com quem eu não havia falado durante toda a jornada, veio ajudar-me a descer e apresentou-me à encarregada do harém, que daí em diante cuidaria de mim. A mulher, grande, gorda e forte, com jeito masculino (quem sabe tinha participação nos prazeres do serralho), olhou-me, intrigada. Eu sabia o que estava pensando: Deus, é feia essa aí, é a mais feia da safra. Mas se pensou, não o disse, claro: daí em diante ninguém mais me chamaria de feia, eu agora era a mulher do rei. Limitou-se a saudar-me com algumas palavras convencionais e amáveis. Depois quis saber se eu estava muito cansada.
Respondi que não, que a viagem fora muito boa.
Então, podemos ganhar tempo preenchendo algumas formalidades, disse.
Explicou: como o harém era muito grande, havia necessidade de um sistema mínimo de registros, mesmo porque o rei pouco sabia de suas futuras esposas. Deu-me então um véu — meu rosto não poderia mais ser visto por homem algum, a não ser o rei, ou quem quer que ele autorizasse — e levou-me à sala do escriba-mor de Salomão, um encurvado ancião (eu começava a desconfiar que ler e escrever era ofício impróprio para menores) que, com ar ranzinza e voz fanhosa, indagou qualquer coisa que não entendi. Pedi que repetisse.
Perguntei se és a novata! berrou. Depois, contendo-se, deu-me as boas-vindas, indagou se podia fazer minha ficha, coisa de rotina, de novo tive de ouvir a história sobre o mínimo de organização necessário à administração de um harém tão grande, com tantas esposas e concubinas.
Eu disse que sim, que estava à disposição para fornecer as informações que quisesse. Muito satisfeito, ele desenrolou um pergaminho sobre a mesa — a ficha —, pegou o cálamo, molhou-o no tinteiro e começou.
Nome completo.
Eu disse meu nome. Ele seguiu perguntando: data de nascimento, filiação, nome de irmãos e de outros parentes, endereço para correspondência, essas coisas habituais, outras não tão habituais, como preferências alimentares cores favoritas. Também quis saber se eu cantava, dançava e declamava poesias. Pediu-me ainda para narrar, sinteticamente, meu último sonho, ou, caso não lembrasse, um devaneio qualquer. Fui respondendo enquanto ele, sentado à mesa diante de mim, escrevia laboriosamente.
Notei que grafara mal a palavra “sonho” e, depois de pequena hesitação, mostrei-lhe o erro.
Olhou-me como se eu fosse um ser de outro planeta. perguntou, — Mas então sabes ler e escrever? — assombrado.
Eu disse que sim, e contei como tinha aprendido, com o que fez uma longa anotação a respeito e passou a me olhar com reverência, mas também com alguma raiva, que não me passou desapercebida. Pois que me olhe com raiva, pensei. Daqui a pouco meu casamento com o rei estará consumado, poderei cagar na cabeça desse velho coroca.
Terminado o preenchimento da ficha, fui levada à ala do sacerdote, um membro da alta hierarquia do Templo, que me fez entrar e ordenou à encarregada do harém que nos deixasse a sós.
Não quero ser interrompido, acrescentou, em tom severo.
Voltando-se para mim, perguntou se eu sabia por que fora trazida à sua presença. Respondi que esperava instruções a respeito da cerimônia que, na minha cabeça, deveria ocorrer ainda naquele dia, apesar de não estar vendo grandes preparativos para tal. Olhou-me, sempre com aquele ar de superioridade, e disse que não era bem aquilo. Em verdade, sua missão era outra. Tinha de certificar-se de que eu não era portadora de nenhuma lesão, de nenhum sinal de impureza, de lepra, enfim, aquela doença que tornava maldito quem a portasse. Eu teria, naturalmente, de me despir, mas não havia o que temer, pois estava diante de um santo homem, de alguém que havia muito se livrara da concupiscência. Não hesitei — ordens que vêm do alto não se discutem — e tirei a roupa. Ele me olhou de cima a baixo. Nada disse, por razões obvias, mas eu sabia o que ele estava pensando: é boa de corpo, essa aí, o rei vai passar bem.
Examinou-me minuciosamente, e nada encontrou. Mas então lembrou-se de me mandar tirar o véu, que eu, mesmo nua, conservara, de acordo com as instruções da encarregada do harém. E aí estremeceu, claramente estremeceu e não conseguia desviar o olhar da minha face.
Repulsa e fascínio, era o que eu via em sua expressão. Repulsa pela feiura, fascínio pelos sinais, aquele caleidoscópio cutâneo jamais por ele visto, aquele homem que em matéria de lesões de pele devia ser uma verdadeira enciclopédia. Pôs-se a estudá-los um a um, os sinais, fazendo anotações e desenhos num pergaminho. Eu deixara de interessar-lhe: o importante era aquela pequena verruga cuja forma lembrava-lhe vagamente um inseto que certa vez vira numa árvore junto ao lago da Galileia...
Falava e anotava, anotava e falava. Por fim, cansada daquela história, pedi licença, vesti-me e saí para grande decepção do sacerdote, que não concluíra suas anotações.
Fui conduzida ao harém, anexo ao palácio e deste separado por um pequeno pátio com palmeiras e fontes marulhantes. Como o palácio, o harém ultrapassava tudo que eu poderia ter imaginado em matéria de luxo. Um vasto pavilhão, ricamente decorado com cortinas de seda, vasos com plantas exóticas, macios tapetes. Até pavões, vaidosas aves, faziam parte do cenário.
E ali estavam, naturalmente, as mulheres. Foi um choque, quando as avistei. Claro, sabia de antemão que Salomão tinha um dos maiores haréns do mundo, mas uma coisa é saber, outra constatar com os próprios olhos.
Deus, que imenso mulherio ali se reunia. Mulheres em profusão, mulheres em penca, mulheres a granel, mulheres para dar e vender, um despautério de mulheres, um dilúvio mulheril. Mulheres de pé, sentadas ou deitadas; conversando, rindo, sorrindo; mulheres meditativas e até (mas num único caso) em prantos. Mulheres comendo, mulheres tocando flauta, mulheres cheirando flores. Mulheres sozinhas; mulheres em grupos de duas, três ou mais. Mulheres em esquadrão, mulheres em formação de batalha, mulheres em linha reta, em círculo, em triangulo (isósceles ou escaleno), em retângulo. Mulheres gárrulas, mulheres sérias, mulheres agitadas, mulheres tranquilas. Quanto à beleza (e como não poderia eu notar esse item), havia-as esplendorosas, muito lindas, razoavelmente lindas, agradáveis. Mas feia, nenhuma. Nenhuma, mesmo. Talvez eu pudesse rotular um ou outro nariz como imperfeito, uma ou outra boca como mal desenhada, mas feiúra como a minha, completa, definitiva, isso não havia. Eu era, ai de mim, a única.
Era fácil distinguir as esposas propriamente ditas das concubinas, que se vestiam de maneira mais simples e tinham um ar modesto (talvez um pouco zombeteiro, mas de qualquer forma a modéstia predominava). As concubinas, talvez por constrangimento ignoraram a minha presença. Mas as esposas, essas, miravam-me com atenção. Sem dúvida temiam que a recém-chegada pudesse tornar-se a favorita do rei. Mas — eu agora sem o véu — bastou-lhes uma rápida olhada para que se convencessem; não, eu não era inimiga. Na corrida pelo real coração eu não estava na pole position — ao contrário, largava muito atrás e já largava parada.
Aliviadas, puseram-se a rir. Olhavam-me, olhavam minha cara e — de onde saiu essa coisa? — riam. Risinhos, a princípio risinhos, logo, cacarejos gargalhadas — deboche escarrado, total desrespeito, solidariedade, ça va sans dire, nenhuma. Olhem s¢ esse bagulho, essa aí não foi parida, foi cagada. Se eu sofresse do coração já teria morrido — e por aí afora.
Eu nada dizia. Podia ter reagido, mais — podia ter quebrado a cara de uma meia dúzia daquelas dengosas, porque o que me faltava em beleza sobrava-me em músculos, e muitas na aldeia haviam sentido o peso de meu braço. Mas eu não estava a fim de criar confusão. Não naquele momento, pelo menos. De modo que engoli minha raiva e me deixei conduzir pela administradora do harém, que tentava consolar-me como podia: não dá bola, essas aí são umas invejosas, só sabem gozar as colegas. Levou-me para um aposento onde várias escravas tomaram conta de mim, banhando-me, perfumando-me, e por fim vestindo-me como uma verdadeira odalisca. Quando terminaram, a mulher disse que eu me olhasse no grande espelho ali colocado. Vacilei; uma segunda desilusão frente à superfície polida me seria insuportável. Ela, porém, insistiu: venha, veja como você mudou.
Olhos fechados, pus-me em frente ao espelho. Respirei fundo, contei até três — e me olhei.
Bem, aquilo foi uma surpresa. Uma muito agradável surpresa. Realmente, as moças tinham feito um bom trabalho. As vestes de seda, semitransparentes, valorizavam-me o corpo, que, como eu já disse, não era dos piores; além disso, havia o véu, o espesso véu que me ocultava a face, dando-me um ar a um tempo recatado e sedutor. Grande sacada, aquele véu.
Perguntaram-me o que achava. O tratamento que me davam, devo dizer, era extremamente respeitoso — afinal, eu era uma esposa do rei. Eu disse que estava satisfeita, que minhas expectativas tinham, de fato, sido ultrapassadas.
Muito bem — disse a encarregada do harém. — Se está tudo a teu gosto, peço-te que me acompanhes à sala do trono.
Chegara o momento, o grande momento. À medida que, seguindo a mulher pelos longos corredores, eu me aproximava da sala do trono, todo o resto, toda a minha vida até então, ia ficando para trás. Meu pai, minha mãe, a família, o pastorzinho, a pedra (pobre pedra), tudo agora era simples lembrança. Uma nova existência estava começando.
Finalmente, chegamos. As maciças portas, guardadas por soldados armados, estavam fechadas.
Temos de esperar um pouco — disse a mulher.
Ao cabo de algum tempo, para mim insuportavelmente longo, as portas se abriram e um homem de barbas brancas trajando luxuosas vestes, apareceu.
Era um dos cortesãos.
É ela? — perguntou, seco.
É ela — respondeu a encarregada do harém. — Chegou há pouco.
Como parecia ser hábito naquele lugar, ele mirou-me com atenção.
Obviamente tentava imaginar o rosto oculto atrás do véu. Mas logo desistiu: — Bem. Entrem logo.
Entramos. O rei estava sentado no trono, usando a coroa e o manto real.
Ao vê-lo, uma vertigem se apossou de mim. Cheguei a cambalear; a encarregada do harém teve de me amparar para que eu não caísse.
Que homem lindo, Deus do céu. Eu nunca tinha visto homem tão lindo. Um rosto longo, emoldurado por uma barba negra (com alguns fios prateados), olhos escuros, profundos, boca de lábios cheios, nariz um pouquinho adunco — o suficiente apenas para dar-lhe um charme especial. E o porte senhoril, e o ar másculo... Lindo, lindo.
De imediato me apaixonei por ele. Uma paixão avassaladora, definitiva, a paixão que, eu tinha certeza, daí em diante governaria minha vida.
Bendito o momento em que ele resolvera me chamar. Bendita a carta que me mandara. Bendita a boca que ditara as palavras daquela carta, bendito aquele homem, aquele lindo homem. Eu podia passar anos olhando-o, em muda adoração. Finalmente descobria o amor. O pastorzinho? Não, aquilo fora apenas um teste, um treino. Com ele, meu coração se preparara para o grande salto da paixão. Que estava agora tão próxima.
Salomão nem se dera conta de que eu estava ali, entregue ao que, depois descobri, era uma de suas atividades prediletas, a saber, julgar: decidir o que era certo e errado, o bom e o mau, decidir quem tinha e quem não tinha razão. Naquele momento estavam diante dele duas mulheres.
Prostitutas, concluí de imediato. Eu nunca tinha visto rameiras em minha vida; tais mulheres não existiam em nossa aldeia — e caso se atrevessem a lá aparecer, meu pai as expulsaria, furioso, gritando abominação, abominação (ou talvez as encerrasse, para seu próprio desfrute, numa caverna). Mas não duvidei um segundo sequer de que aquelas mulheres fossem profissionais do sexo. O jeito como se vestiam, a berrante maquiagem... Putas, sim, indiscutivelmente putas. E feias. Não tão feias quanto eu, mas muito feias, mesmo assim, o que fazia supor parcos rendimentos e baixa categoria. Prostitutas uma estrela, no máximo. Talvez duas, com boa vontade. Bem, uma estrela para a mais alta, duas estrelas para a mais baixa, que tinha belos olhos. De todo modo, uma estrela e meia na média. Mas não era isso o que importava, seu ranking. O importante era que ali, na presença de um rei poderoso, de um rei detentor de mandato divino, estavam duas prostitutas. Que se sentiam perfeitamente à vontade no palácio real. Que falavam em altos brados, apontando-se dedos ameaçadores. Depois de algum tempo de gritaria, finalmente entendi o que se passava: cada uma se dizia mãe de uma criança recém-nascida, que um dos guardas, sem muito jeito, segurava ao colo.
Tinham dado à luz ao mesmo tempo, um dos bebês morrera, mas algo de confuso acontecera e o resultado é que estavam ali, disputando o nenê.
A mim aquilo causava espécie. Então o rei, a quem estava afeta a administração de um país, usava seu tempo resolvendo questiúnculas de mulheres de má vida? Salomão, no entanto (ah, mas era lindo aquele homem), não estava nem aí para tais objeções. Pelo jeito, prostitutas e outras pessoas de baixa classe eram frequentadoras habituais da open house em que a sala do trono periodicamente se transformava. Mais, obviamente tinha prazer no que estava fazendo. Ouviu-as atentamente, fez três ou quatro perguntas (irrelevantes, no meu modo de ver, mas quem era eu para opinar sobre relevâncias?); depois ficou em silêncio, meditando.
E, nesse momento, senti — e todos ali sentiram, acredito — que alguma coisa estava acontecendo. Algo tinha mudado. O ar estava denso, pesado, como saturado de invisível vapor. Era a sabedoria dele. Exalava sabedoria por todos os poros, impregnava-nos com sua sabedoria. O que dava uma sensação esquisita, uma espécie de cosquinha, que coisa gozada. Uma das prostitutas, a de uma estrela, até rascava as coxas com as unhas aguçadas. Tudo aquilo se constituía em prenúncio do que havia de vir: a sentença. Que Salomão enunciou na sua voz grave, pausada (Deus, que tesão me dava aquela voz, meu grelo vibrava em uníssono com ela). Num primeiro momento, a decisão soou surpreendente, cruel até: já que era impossível esclarecer quem era a mãe verdadeira, a criança seria cortada em duas, cada mulher recebendo uma metade. Todos estremeceram, os cortesãos se olharam, e ouvi um deles murmurar para outro a seu lado: essa não, o cara está dando uma de temerário, a coisa vai pegar mal no estrangeiro.
Mas Salomão, muito seguro, chamou de imediato um soldado para cumprir a ordem. O homem veio, espada na mão. Momento de suspense, momento de extremo suspense, todos ali imóveis, respiração contida, um cortesão até tapando os olhos com a mão. Uma das mulheres, a de duas estrelas, ficou parada, em silêncio, como conformada com a sentença; mas a outra reagiu de maneira extraordinária. Correu para o soldado, agarrou-se no braço que já se erguia no ar, pronto para o golpe, e em voz estrangulada gritou, se é para matarem meu nenê, prefiro que o entreguem inteiro para essa aí. Grande comoção no recinto; Salomão então se pôs de pé.
Para! — ordenou ao soldado, que se deteve, como que congelado.
Dirigindo-se à mulher que havia gritado, proclamou: — És a verdadeira mãe, o grito que ouvimos foi o da tua maternidade. O filho é teu, podes pegá-lo. O soldado, um tanto desapontado (pelo jeito seus planos de fatiar uma criança naquele dia haviam sido frustrados), entregou o nenê à mulher enquanto todos aplaudiam: palmas, gritos, assobios, um verdadeiro delírio. O rei, satisfeito, sorria. Tinha do que se orgulhar: acabara de dar uma prova concreta, palpável de sua sabedoria. A sabedoria cuja fama se espalhara pelo mundo e que o transformara numa lenda viva, no monarca dos monarcas.

Moacyr Scliar, in A Mulher que escreveu a Bíblia

21/06/2022

Destinado


Essa é a história que tenho lido, dia e noite, desde que ela se foi.
Procuro a mim próprio, nessa história. Procuro-me nas linhas e nas entrelinhas, procuro-me nos nomes próprios e nos nomes comuns, procuro-me nos verbos e nos advérbios, nos pontos, nas vírgulas, nas reticências. E não me acho. Assim como não me acho em lugar nenhum. Estou perdido.
Continuo atendendo em minha clínica, mas tenho pensado seriamente em mudar de rumo, em retomar o estudo da História. Vou ganhar menos, e me incomodar mais, mas espero não ter desilusões. Quero esquecê-la.
Que mais? Ah, sim, ela era feia.
A feiura é fundamental, ao menos para o entendimento desta história. É feia, esta que vos fala. Muito feia. Feia contida ou feia furiosa, feia envergonhada ou feia assumida, feia modesta ou feia orgulhosa, feia triste ou feia alegre, feia frustrada ou feia satisfeita — feia, sempre feia.
Desde a infância eu suspeitava disso, de que era feia. As outras meninas da aldeia, bonitas em geral, relutavam em brincar comigo; quando eu aparecia, davam um jeito de escapulir, rindo à socapa. Ora, eu não era aleijada, nem estúpida; por que fugiam? Era algo que viam em mim, e de que não falavam. Assim, e por incrível que possa parecer, só fui descobrir a extensão de minha fealdade aos dezoito anos. Quem colaborou para isso, ironicamente, foi minha irmã mais nova, a irmã que era amiga e confidente e a quem eu procurava sempre que tinha algo a contar.
Uma tarde, entrei no quarto e lá estava ela. Julgando-se só, mirava-se ao espelho.
Eu não sabia que minha irmã tinha um espelho. Ninguém sabia que minha irmã tinha um espelho. Mais: ninguém sabia que havia um espelho na casa.
Em primeiro lugar, espelho era uma coisa cara, ao alcance só de nobres e ricos proprietários. Não era o caso de nosso pai; embora patriarca da aldeia, tinha apenas um rebanho de cabras, e nem era dos maiores. Na verdade, até a época de meu avô nossa gente era nômade; percorria o deserto em busca de pastagem para as cabras, morava em tendas. Sempre fora assim e tudo indicava que sempre seria assim. Meu pai, contudo, decidiu que a tribo teria residência fixa. Seu sonho era que formássemos o núcleo de uma cidade, de uma cidade que cresceria rapidamente, tornando-se uma metrópole, talvez a capital de um império. Era um homem ambicioso, ele, ainda que não muito inteligente. E intratável: não admitia ser contrariado. Quando alguém lhe perguntava acerca da metrópole que antecipava, do império, limitava-se a responder, seco: — Tu verás.
E mais não dizia.
Enquanto o futuro por meu pai profetizado não chegava, continuávamos morando numa casa pequena, austera. Poucos móveis, nenhum conforto; qualquer coisa que cheirasse a luxo seria abominação. Assim, mesmo que pudesse comprar um espelho, não o faria. Isso é coisa dos demônios, dizia, por trás de cada espelho está o Mal, pronto a usar a vaidade para atrair as pessoas ao pecado. Não que fosse um exemplo de moral; era um mulherengo conhecido, desses que não respeitam nem a mulher do próximo.
Além disso, andara metido em negócios escusos — parte de seu rebanho era, para usar um eufemismo, de procedência duvidosa. Nada disso o impedia de posar como um guardião da moralidade. Exigia da tribo, e da família em particular, um comportamento irrepreensível. Não tolerava a menor manifestação de vaidade nas filhas.
Uma disposição que minha irmã desobedecera, ao obter (de que forma, só depois eu descobriria) um pequeno espelho redondo, o espelho no qual agora se olhava. Extasiada, e com razão: era linda, ela. Tão linda quanto eu era feia. Grandes olhos, narizinho delicado, boca bem desenhada... Linda mas imprudente: esquecera a porta aberta. E assim eu pudera surpreendê-la em plena transgressão.
Ao ver-me, assustou-se, quis esconder o espelho. Antes que o fizesse, agarrei-a; dá-me isso, gritei, furiosa, quero olhar-me também. De imediato deu-se conta do riscoque eu corria, tentou dissuadir-me: não o faças, este espelho é maldito, me enfeitiçou, vai te enfeitiçar também, nosso pai tinha razão em proibir essa coisa do demônio, não te olhes, por favor, não te olhes, isso é vaidade, é abominação, eu já pequei, não peques tu também.
De nada adiantaram seus gritos, seu desespero. No fundo eu sabia que ela queria poupar-me de algo para mim ainda desconhecido: a devastadora revelação da minha feiura, da qual, àquela altura, eu apenas suspeitava.
Tendo visto o espelho, porém, eu não recuaria por nada neste mundo. Era uma tentação irresistível; a vertigem do abismo, por assim dizer. Pois que me tragasse, aquele abismo, a mim pouco importava: em busca da verdade, de bom grado me precipitaria nele. No fundo eu talvez nutrisse a esperança de um milagre, o espelho revelando-me um rosto surpreendentemente belo, ou pelo menos não de todo feio. Talvez fosse aquele um espelho mágico, mágico só para mim, bem entendido, não para as outras; um espelho capaz de sintonizar com os ocultos anseios da pessoa, procedendo, mediante a energia psíquica da qual se tornaria instantaneamente depositário, a um completo reordenamento — e embelezamento — de linhas faciais, aquela coisa do sapo virando príncipe.
O que pensei, o que almejei naquele instante, já não recordo. Só sei que queria o espelho e faria qualquer coisa para consegui-lo.
Em pânico, minha irmã tentou fugir. Fui em seu encalço, derrubei-a.
Lutamos. Pouco: não era adversária para mim; o que eu tinha de feia, tinha de forte... Dominei-a, arrebatei de sua mão o espelho. E pronto, agora ele era meu.
Não era dos melhores espelhos, aquele: um simples disco de bronze polido, de qualidade duvidosa. Mas fazia o que todos os espelhos têm de fazer, para felicidade ou desgraça de quem neles se mira: mostrava um rosto. Meu rosto.
Eu não podia acreditar no que estava vendo. Meu Deus, sou essa aí? Não havia ali nenhuma simetria, naquela face, nem mesmo a temível simetria do focinho do tigre; eu buscava em vão alguma harmonia. Não era a grande harmonia das esferas que eu pretendia, um pequeno ser harmônico já me seria suficiente, mas nem isso eu obtive porque havia um conflito naquele rosto, a boca destoando do nariz, as orelhas destoando entre si.
E os olhos, que poderiam salvar tudo, eram estrábicos, um deles mirando, desconsolado, o espelho, o outro com o olhar perdido, fitando desamparado o infinito, talvez para não ter de enxergar a cruel imagem. Detalhe (mas ainda é preciso detalhar? É, sim, é preciso ir ao detalhe, é preciso descer até o fundo do melancólico poço): sinais. Disseminados pela face, eu tinha — não contei, mas acho que duas dezenas é uma estimativa até conservadora — sinais. Sinais às pencas, um despropósito de sinais, um surto inflacionário de sinais. Pela variedade, poderiam se constituir no objeto de um tratado de dermatologia. Havia-os de variado tamanho e matiz. Um deles me incomodava particularmente; de tão protuso; era quase séssil, balançando desamparado no ar. A um vento mais forte, e ventos fortes em nossa região não eram incomuns, se desprenderia e seria levado para longe dali. Se caísse entre pedras feneceria, se caísse na areia do deserto feneceria, se caísse na cratera de um vulcão feneceria — e ele fenecendo eu só me alegraria, mas se caísse em terra fértil... Se caísse em terra fértil germinaria, e sabe Deus que planta nasceria dali, que estranha árvore de galhos secos e retorcidos. Se a esse espécime dessem, mesmo que por intuição, o epíteto de árvore da feia, eu não poderia me queixar; o máximo que poderia fazer era tentar abatê-la na calada da noite.
Resumindo, era isso o que eu via: a) assimetria flagrante; b) carência de harmonia; c) estrabismo (ainda que moderado); d) excesso de sinais.
Falta dizer que o conjunto era emoldurado (emoldurado! Essa é boa, emoldurado! Emoldurado, como um lindo quadro é emoldurado! Emoldurado!) por uns secos e opacos cabelos, capazes de humilhar qualquer cabeleireiro.
O que o espelho me mostrava era algo semelhante a uma paisagem estranha, atormentada, na qual os acidentes (acidentes: muito apropriado, o termo) geográficos não guardavam a menor relação entre si. Uma catástrofe tinha ocorrido em minha face, um cataclismo que seguramente antecedera de muito o meu nascimento; o que eu estava vendo era a feiura arcaica, a feiura ancestral, uma feiura consolidada pelos anos, pelos milênios, talvez.
Rosto oculto entre as mãos, minha irmã soluçava baixinho. Não me dava pena vê-la assim. Ao contrário, o que sentia era raiva — imensa, incontida raiva, dela, da outra irmã, de meus pais. Por que não me haviam dito antes que eu era tão feia? Por que me haviam enganado? Por piedade, era a resposta mais óbvia. Tinham tentado poupar-me à acabrunhante realidade mediante uma laboriosa conspiração. Ao longo dos anos, haviam sido personagens de uma comédia, exitosamente encenada para plateia reduzida: eu. “Aí vem ela, vamos fingir que nada notamos em sua face, vamos fingir que ela é normal, um pouco bela, até — não vamos nos mostrar deslumbrados diante de sua beleza porque periga não colar, quando a esmola é demais o santo desconfia, mas se nos portarmos de maneira natural, cairá direitinho.” Espectadora única, eu fora facilmente enganada. Verdade que a atuação deles, agora eu era forçada a reconhecer, fora soberba. Ninguém falava de meus traços; ninguém diria, por exemplo, como és bela — mas também ninguém diria, és medonha. Guardariam silêncio, ou então recorreriam a sinuosas expressões de elogio: como tu estás bonita com essa túnica. A afirmativa “tu estás bonita” sempre se acompanharia de uma relativizadora complementação (“com essa túnica”), o que atenuaria a mentira, tornando-a suportável aos olhos de Jeová e ao mesmo tempo alimentando a piedosa ilusão.
Com um pouco de atenção eu teria percebido o embuste. Mas, será que eu queria perceber o embuste? Ou estaria, eu própria, participando dele, enganando-me — em parte para não frustrar a trupe familiar, em parte para não descobrir a aterradora verdade? Essa dúvida já não tinha sentido. A farsa não mais se sustentava.
Confrontada com a realidade, eu dela não conseguiria escapar. Ah, se pudesse voltar atrás... Por que me olhei naquele espelho, eu me perguntava, golpeando o peito com incontida fúria, por que cedi à maldita curiosidade, à maldita vaidade? Por que não me arrancou Jeová da mão aquele revelador, mas funesto objeto? Hein, Jeová? Por que não tomaste alguma providência, tu que sabes tudo, tu que podes tudo? Podias ter reduzido o espelho a pó, com o simples ato de tua vontade. Por que não o fizeste? Será que não existes, amigo? Hein? Será que não passas de uma abstração, uma ilusão da ótica emocional? Clamor inútil, inúteis recriminações. Nada mais podia ser feito. Eu tinha me olhado ao espelho e pronto: o que tinha visto, não esqueceria. Mas eu precisava, senão de consolo, ao menos de explicação. Tinha de saber a razão pela qual coubera a mim tamanho quinhão de feiúra. A Natureza não poderia ter procedido em vão, ao obrar a minha face. Aquilo, sem dúvida, era a resposta a um pecado, a um crime. Mas que pecado, que crime havia eu cometido? Em busca de resposta, voltei-me para a infância. Verdade, eu fora malvada, mas não mais que a média das crianças; batia nas minhas irmãs, mas só de vez em quando, e mesmo assim de forma relativamente comedida: a minha agressão podia resultar em arranhões, em equimoses, mas não em luxações, por exemplo, e muito menos em fraturas. Não, nada em minha conduta pregressa podia explicar a imagem que eu vira e que agora não me abandonaria. Por minhas faltas passadas eu mereceria uma meia dúzia de verrugas, no máximo, e das menores. Ou um discreto estrabismo. Ou orelhas um pouco grandes. Não mais do que isso. Todo o resto devia-se a uma outra causa, uma causa externa. Eu era vítima, não vilã. Mas vítima de quem? Depois de pensar muito, achei a culpada: minha mãe. Aquela mulher quieta, assustadiça — tinha medo de tudo, do vento, da trovoada, mas temia sobretudo meu pai, que a tratava a pontapés —, nunca se aproximara muito de mim. Às vezes me contava uma história, às vezes entoava, em sua desafinada voz, uma canção de ninar qualquer; às vezes me acariciava o rosto — mas com mão arisca, trêmula. E a isso se resumira nossa relação.
Tendo olhado o espelho, eu agora identificava o motivo de sua conduta.
Ela me evitava por causa da fealdade, mas também, concluí, depois de muito pensar a respeito, por causa da culpa que devia sentir, culpa da qual a própria fealdade dava testemunho.
Culpa de quê? Buscando resposta para essa pergunta eu lembrava algo que me contara, eu ainda criança: quando estava grávida de mim, costumava olhar a montanha, a pedregosa, escalavrada montanha que dominava a paisagem em nossa região desértica. Esse comentário, fizera — em tom forçadamente casual, um tom destinado a mascarar a oculta inquietação, da qual sem dúvida não se dava conta — nem ela, nem, naquela época, eu. Mas tal inquietação, que eu agora em retrospecto detectava, era muito sugestiva, muito eloquente. Porque ali estava a explicação para a minha feiúra: na montanha. Naquele hostil acidente geográfico que eu aliás conhecia bem: era um lugar no qual eu, menina esquiva, frequentemente me refugiava, movida talvez, agora me ocorria, por certa afinidade eletiva, os medonhos traços de minha fisionomia correspondendo, em escala reduzida, mas nem por isso menos atroz, à torturada paisagem. Uma obtusa rocha era o meu nariz; a escura entrada de uma das muitas cavernas correspondia à minha boca. Muitos veem faces em nuvens; eu via na montanha — monumento ao insólito — a reprodução de meu próprio rosto. As impressões que minha mãe tivera durante a gestação se haviam gravado de maneira indelével na face da filha. Filha esta que certamente não desejara; nessa época meu pai estava atrás de uma outra mulher.
Emprenhara a esposa para que não atrapalhasse o ignóbil romance. Entre lágrimas, a desprezada grávida passava os dias olhando a montanha. Sabia que ali, oculto em uma caverna qualquer, estava seu fescenino marido trepando sem parar; queria pelo menos ir ao seu encontro quando ele, cansado e satisfeito, emergisse do esconderijo, para dirigir-lhe um olhar de censura. Até conseguiu esse objetivo, uma ou duas vezes, mas sem resultado algum: o homem estava cagando para a censura dela. A obsessiva vigilância teve, contudo, um inesperado efeito: a visão da montanha ficou impressa para sempre no meu rosto. Como aquelas mães que comem morango e o filho nasce com um sinal em tudo semelhante ao morango.
Inesperado efeito. Hum... Não sei se foi tão inesperado assim. Não teria, a minha mãe, sido guiada por um propósito oculto nessa obsessiva conduta? O cretino está me traindo, então vou me vingar dele deixando na cara do filho (era um varão que meu pai queria para primogênito; aliás, só queria filhos homens, mas Jeová o castigou dando-lhe três filhas, a primeira medonha) as mesmas marcas da crueldade que deixou em meu coração; e, com esse raciocínio, toca a olhar para as pedras. Que a criança nascesse medonha, era o que mais queria. Sua face, metafórica alusão à montanha onde meu pai pecara, se constituiria em permanente memento, em insistente denúncia, em contínuo protesto contra a fidelidade: um breve contra a luxúria, enfim. Deu resultado: nasci horrenda.
Que susto deve ter sentido meu pai quando me tomou nos braços. Que susto, que trauma.
A pergunta é: por que não me matou? Havia histórias, entre nossa gente, de pais que liquidavam recém-nascidas — jogando-as do alto da montanha, num abismo em cujo fundo, dizia-se à boca pequena, havia tantos ossinhos quanto calhaus. Uma primogênita era sempre um inconveniente, para dizer o mínimo: não garantia sucessão, não ajudava no trabalho e ainda precisaria de um dote para poder casar.
Agora, uma primogênita feia era mais do que isso, era um descalabro cujo destino só poderia ser o precipício.
Meu pai não me matou. O motivo, não sei. Talvez sofresse, ele também, de culpa — culpa era o componente essencial de nossa tradição. Em todas as histórias que os idosos contavam, havia sempre um deus impiedoso nos acusando de alguma coisa. Afora isso, é bem possível que meu pai sentisse algum remorso porque, diferente de minha mãe, a outra mulher não mostrava por ele nenhum respeito, espalhara que não passava de um amante incompetente. De modo que aceitou a muda acusação representada pela cara da recém-nascida.
Fui crescendo, cada vez mais feia. E ignorante de minha feiúra. Por falta do espelho, obviamente, mas essa falta eu podia ter suprido. Não faltam, na natureza, superfícies refletoras: uma poça d'água, por exemplo, faria as vezes de espelho, verdade que com o inconveniente da distorção (misericordiosa distorção, no meu caso) resultante da líquida ondulação.
E os olhos dos outros, não poderiam ter me servido indiretamente de espelho? A expressão de assombro, ou mesmo de horror, que eu vi, ou julguei ter visto, na face de pessoas que me miravam, não teria sido aquilo um indício suficiente? Mesmo que fosse cega (e como desejei a cegueira, logo após ter me mirado no espelho), nada impediria que me desse conta da realidade. Bastaria que tocasse meu rosto, bastaria que o explorasse com dedos medianamente espertos para detectar de imediato grotescas angulosidades, assustadoras assimetrias. Mas nunca o fiz. Tenho belas mãos (aliás tenho belos seios, belos quadris — sou da variedade paradoxal conhecida como feia-de-cara-mas-boa-de-corpo), e essas mãos, como que movidas por vontade própria, recusavam-se a excursionar ao sombrio país da face. Eu tentava convencê-las: vão lá, mãos, descubram a boca, o nariz, não temam o desconhecido, ousem, o mundo é dos ousados, quem não arrisca não petisca. Mas as mãos eram mais inteligentes que sua dona. Não, diziam, vamos ficar na nossa, a cara não é a nossa praia, para lá não queremos excursionar, não há pacote turístico que nos convença; preferimos ficar por aqui, empenhadas nas tarefas do cotidiano, tais como cozinhar, lavar, limpar — ou, na melhor das hipóteses, acariciando os seios, essas belas e suaves ondulações com as quais temos afinidade. E assim as mãos se juntaram ao faz-de-conta, ao deixa-pra-lá, ao tudo-bem, ao vamos-levando; à conspiração do silêncio, enfim. Astutas mãos. Em nossa terra, amputá-las era uma punição comum para ladrões e pervertidos sexuais. Minhas mãos não tinham cometido crime tão grave, mas sua omissão era também censurável.
Que eu tenha chegado a meu décimo oitavo ano de vida para enfim poder diagnosticar minha feiura mostra o quanto o ser humano, com ou sem a ajuda de outros, é capaz de se enganar. E também mostra o quanto é forte a tentação da mentira piedosa. Minha irmã, por exemplo, não desistiu de consertar os desastrosos efeitos do incidente com o espelho. Na manhã seguinte veio falar comigo. Contou uma história tão bem-intencionada quanto mal enjambrada, uma história que seguramente lhe havia custado uma noite de insônia. Depois de um exame acurado, afirmou, tinha detectado falhas no espelho, falhas que antes não notara e que certamente haviam prejudicado em muito minha imagem. Eu não deveria, portanto, me preocupar, tudo o que vira não passava de uma errônea impressão que um espelho um pouco menos imperfeito se encarregaria de corrigir.
Tive de reconhecer: estava fazendo o possível e o impossível para me convencer. Mas não foi bem-sucedida. Tudo o que lhe sobrava em comiseração (e em culpa) faltava-lhe em habilidade para mentir: gaguejava, evitava me olhar. Para poupá-la, menti também. Nisso é que dá, proclamei, recorrer a espelhos de qualidade duvidosa.
Eu sabia — anunciei, num tom muito mais convincente do que o dela —, eu sabia que não podia ser tão horrorosa.
Com o que sentiu-se aliviada, gratificada. Eu, não. Mentiras à parte, meu destino estava traçado. Agora eu era a feia, e tudo em minha vida seria condicionado por essa feiura. Homem algum gostaria de mim. Homem algum cantaria minha beleza em traços líricos. Minha vida amorosa seria tão árida quanto o deserto que nos rodeava.
Não nego: pensei em me matar. Tudo o que eu tinha de fazer era galgar a montanha e jogar-me no abismo. Meu corpo se despedaçaria contra as rochas; os abutres devorariam minha carne e minhas vísceras, meus ossos branquejariam ao sol no lugar que lhes havia, desde o começo dos tempos, sido destinado.

Moacyr Scliar, in A Mulher que escreveu a Bíblia