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24/12/2011

Papai Noel Nunca me enganou


A Viana Leal ficava na Rua da Palma, no centro do Recife. Uma das primeiras lojas de departamentos criadas na cidade, nos anos 50, diferenciava-se das outras por conta da bela escada rolante existente e por onde nós subíamos para falar com Papai Noel, no primeiro andar. Foi lá que o conheci pessoalmente e onde comecei a alimentar a minha bronca natalina.
Primeiro, por conta dos presentes que nunca correspondiam aos que eu solicitava. Seria doido ou surdo o bom velhinho? Pedia-lhe uma bicicleta e vinha um avião de plástico. Pedia-lhe uma charmosa bola de couro e recebia uma outra de plástico chinfrim. Coisa chata aquilo. Não desconfiava que os meus pedidos esbarravam no salário parco de funcionário público do meu pai. Naquela época, para mim, o mundo era mágico e Papai Noel existia de verdade. Só não compreendia a sua capacidade de não me atender aos pedidos.
Numa das últimas vezes que lá estive, notei que a bela roupa vermelha de Papai Noel cheirava a suor. Aquilo me intrigou. Será que o bom velhinho não gostava de tomar banhos? Ou será que, morando sozinho no Pólo Norte, não tinha quem lhe lavasse as roupas com as quais trabalhava?
Para mim, naquela data, Papai Noel se humanizava e começava a perder a sua aura mágica e poderosa. Sempre o imaginara como um anjo, um ser divinal criado por Deus apenas para atender aos sonhos e desejos das crianças do mundo todo. Em função dessa crença, esforçava-me o ano inteiro para ser uma criança boa e estudiosa. Em muitos Natais cujos presentes recebidos não correspondiam aos solicitados, atribui a mim mesmo essa responsabilidade. Talvez, naquele ano, eu não tivesse correspondido às expectativas na escola e no meu comportamento em casa e por isso não merecesse ser atendido nas minhas pretensões infantis. Papai Noel era justo e atencioso, um ser divino, e não me faria uma falseta dessas. Mas, se assim era, como podia suar e cheirar a suor. Ali havia algo de errado e alguém teria que me explicar o que era. Sendo Papai Noel humano e suador, a culpa não poderia ser só minha.
Minhas dúvidas acabaram-se de vez, logo depois do Natal, quando passei com o meu pai em frente ao Bar Savoy e vi nada mais nada menos do que o nosso Papai Noel, à paisana, tomando uma cerveja geladíssima ao lado de uma loira suspeita.
Ali, o sonho acabou de vez: Papai Noel era uma fantasia.

Clóvis Câmpelo, na Coluna de Clóvis Câmpelo, in Besta Fubana

11/11/2011

Na onda do Marketing


O meu amigo Renato Boca-de-Caçapa, o filósofo do povo, sempre tem razão. E tudo indica que ele acertou mais uma vez. Falo dessa pendenga entre os irmãos “sertanejos” Zéze de Camargo e Luciano. Desde o início que o ilustre pensador movido à álcool afirmou com convicção de que essa briga nada mais era do que uma estratégia de marketing. Deu certo. Em menos de uma semana, a dupla se fez presente em todos os “grandes” programas da televisão brasileira. E o que é melhor: publicidade de graça. Ninguém merece.
Nos meus devaneios dominicais diante da máquina de fazer doido, terminei voltando no tempo e lembrando da falsa notícia inventada pelo falecido Carlos Imperial, no final dos anos 60, sobre Luiz Gonzaga. O velho Lua andava por baixo na mídia, ofuscado pela novidade das guitarras da Jovem Guarda, e para colocá-lo novamente em evidência, Imperial lançou a notícia de os Beatles iriam gravar a música Asa Branca. Na época, os Fab Four haviam acabado de lançar o álbum Abbey Road e a notícia estorou como uma bomba na imprensa nacional. Só na revista Veja, foi feita uma matéria de quatro páginas falando sobre o assunto e abordando a carreira musical de Luiz Gonzaga, a sensibilidade dos Beatles, a fusão da música pop com o baião, etc. A invenção rendeu bons dividendos ao Rei do Baião que durante algumas semanas ocupou um espaço privilegiado na mídia.
Os próprios Beatles, aliás, eram mestres na arte de divulgar os seus trabalhos assim. Na capa do disco Abbey Road, acima citado, aparecem os quatro músicos atravessando a rua, com Paul McCartney de terno e descalço (na Inglaterra, os mortos são enterrados assim) e com um fusca, ao fundo, onde se lia a placa IF 28. Ou seja, uma alusão à suposta morte de Paul, que, se estivesse vivo estaria com a idade de 28 anos. Uma estratégia inteligente e uma história que hoje todo mundo conhece.
No disco Sargent Peppers, os meninos de Liverpool aparecem com roupas psicodélicas coloridas e flores nas mãos, participando do enterro dos “velhos” Beatles de terninhos comportados e cabelos bem cortados, ao lado de grandes figuras do cinema, das artes e dos esportes, admiradas pelos quatro. Nem é preciso dizer que o disco traz o renascimento musical do grupo, com a consolidação de novas propostas já esboçadas em discos anteriores. Mais uma jogada publicitária de mestres.
Mas, infelizmente, Zezé de Camargo e Luciano não são os Beatles e não trazem, muito menos, na sua bagagem musical, a perspectiva de uma mudança significativa. O fato novo se esgotará em si mesmo, até que seja necessária uma nova jogada de marketing em busca da atenção da mídia e da emotividade do seu público consumidor. Ideias curtas, música pobre e ruim.
Será que nós merecemos isso?

Clóvis Câmpelo, in cloviscampelo.blogspot.com