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01/12/2020

A música do violão

Das memórias mais gratas com meus filhos crianças estão os momentos em que, após o jantar, íamos para a sala de estar para ouvir música clássica. Meu filho se deitava no meu colo e o pedido era sempre o mesmo: “Papai, põe a música do violão...”. Não era violão. Era um violino que ilustrava a capa da Pequena serenata, de Mozart. Acho que a música clássica, além do puro prazer da música, ensina várias outras coisas: o silêncio, a tranquilidade, a atenção. Nietzsche, no seu livro O nascimento da tragédia grega no espírito da música, observa que a música tem poderes mágicos: ela possui o nosso corpo, o corpo vibra ao seu ritmo e progressivamente vamos nos tornando parecidos com ela. Não gosto do nome “música erudita”. Como se fosse música que somente professores universitários e esnobes chatos são capazes de sentir. Tomei birra de uma determinada marca de cerveja porque, num dos seus falecidos comerciais, a mensagem se baseava no contraste: quem gosta de música clássica é chato, velho e não bebe aquela cerveja. Mas quem gosta de música em volume alto e que faz agito enquanto todo mundo fala é jovem, legal e bebe a tal da cerveja. Quando não há outra alternativa eu aceito beber essa cerveja mesmo... Cada música tem o seu ritual. Há músicas que pedem dança. Há músicas que provocam agito e participação, como nos grandes shows. Há músicas que pedem silêncio e tranquilidade.

Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

29/10/2015

O pequeno rei vira-lata

Todas as tardes, lá estava ele. Longe dos outros, o garoto se sentava na sombra do arvoredo, com as costas contra o tronco de uma árvore e a cabeça inclinada. Os dedos de sua mão direita dançavam debaixo de seu queixo, dançavam sem parar como se ele estivesse coçando o peito com uma incontida alegria, e ao mesmo tempo sua mão esquerda, suspensa no ar, se abria e fechava em pulsações rápidas. Os outros tinham aceito, sem perguntas, o hábito.
O cão se sentava, sobre as patas de trás, ao seu lado. E ali ficavam até a chegada da noite. O cão paralisava as orelhas e o garoto, com a testa franzida atrás da cortina de cabelos sem cor, dava liberdade aos seus dedos para que se movessem no ar. Os dedos estavam livres e vivos, vibrando na altura de seu peito, e das pontas dos dedos nasciam o rumor do vento entre os galhos dos eucaliptos e o repicar da chuva nos telhados, nasciam as vozes das lavadeiras no rio e o bater das asas dos passarinhos que voavam, ao meio-dia, com os bicos abertos pela sede. Às vezes, dos dedos brotava, de puro entusiasmo, um galope de cavalos; os cavalos vinham galopando pela terra, o ruído dos cascos sobre as colinas, e os dedos se enlouqueciam na celebração. O ar cheirava a miosótis e ervilha-de-cheiro.
Um dia, os outros deram-lhe de presente um violão. O garoto acariciou a madeira da caixa, lustrosa e boa de se tocar, e as seis cordas ao longo do diapasão. E ele pensou: que sorte. Pensou: agora, tenho dois.
Eduardo Galeano, in Vagamundo