01/07/2026

Vilarejo | Carlinhos Brown

Diário de Bernardo Soares

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A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa.
Dizem que não há nada mais difícil do que definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstrata das molas ou de certas escadas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda é abstrata. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.
Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade direta; os campos, as cidades, as ideias, são coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. São intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos literárias. As crianças são muito literárias porque dizem como sentem e não como deve sentir quem sente segundo outra pessoa. Uma criança, que uma vez ouvi, disse, querendo dizer que estava à beira de chorar, não “Tenho vontade de chorar”, que é como diria um adulto, isto é, um estúpido, senão isto: “Tenho vontade de lágrimas”. E esta frase, absolutamente literária, a ponto de que seria afetada num poeta célebre, se ele a pudesse dizer, refere resolutamente a presença quente das lágrimas a romper das pálpebras conscientes da amargura líquida. “Tenho vontade de lágrimas”! Aquela criança pequena definiu bem a sua espiral.
Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstrato do céu azul sem sentido.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Canção de Mim Mesmo | 14

O ganso selvagem guia seu bando pela noite fresca,
Ele grasna, e soa para mim como um convite,
O atrevido pode supô-lo sem sentido, mas eu, ouvindo perto,
Acho seu propósito e lugar lá em cima no céu invernal.

O casquinho afiado alce do norte, o gato na soleira, o chapim, a marmota,
A ninhada da porca grunhente puxando suas tetas,
Os filhotes da perua e ela com suas asas semiabertas,
Vejo neles e em mim a mesma velha lei.

A pressão de meu pé sobre a terra desperta mil afeições,
Elas desdenham o meu esmero em narrá-las.

Estou encantado com o crescer ao ar livre,
Com homens que vivem entre gado ou provam do oceano ou da selva,
Com construtores e pilotos de navios e machadeiros e malhadores, e condutores de cavalos,
Posso comer e dormir com eles semana após semana.
O que é mais comum, mais barato, mais próximo, mais fácil, sou Eu,

Eu buscando oportunidades, gastando para vastos retornos,
Adornando-me para conceder-me ao primeiro que me tomará,
Sem pedir ao céu que baixe à minha boa vontade,
Difundindo-a livremente para sempre.

Walt Whitman, em Folhas de Relva

O sonho de Pedro Henriquez Urena

O sonho que Pedro Henriquez Urena teve ao amanhecer de um dos dias de 1946 não constava de imagens, mas tão somente de pausadas palavras. A voz que as pronunciava não era a sua, porém parecia-se com ela. O tom, em que pese as possibilidades patéticas que o tema permitia, era impessoal e comum. Durante o sonho, que foi breve, Pedro sabia que estava dormindo em seu quarto e que sua mulher estava a seu lado. Na obscuridade do sonho, a voz lhe disse: Há quantas noites passadas, em uma esquina da Rua Córdoba, discutiste com Borges a invocação do anônimo Sevilhano Ó Morte, vem calada / como costumas vir na flecha. Suspeitaram que era o eco deliberado de algum texto latino, já que estas versões correspondiam aos costumes da época, completamente alheias ao nosso conceito de plágio, sem dúvida menos literário do que comercial. O que não suspeitaram, o que não podiam suspeitar, é que o diálogo era profético.
Dentro de poucas horas correrás para a última estação da Constituición, para tua aula na Universidade de La Plata. Alcançarás o trem, colocares a pasta no portavolumes e te acomodarás na tua poltrona, junto à janela. Alguém, cujo nome ignoro mas cujo rosto estou vendo, te dirigirá algumas palavras. Não lhe responderás porque ambos estarão mortos. Já te terás despedido para sempre de tua mulher e de tuas filhas. Não te lembrarás deste sonho porque teu esquecimento é necessário para que se cumpram os fatos.

Jorge Luis Borges, em Livro de Sonhos

Piloto de Guerra — VII





Decerto, às vezes, como hoje, a missão não consegue satisfazer. É tão evidente que estamos jogando um jogo que imita a guerra. Brincamos de mocinho e bandido. Observamos corretamente a moral de nossos livros de história e as regras de nossos manuais. Assim, andei esta noite de carro, pelo terreno. E a sentinela, segundo a ordem, cruzou a baioneta diante desse carro que poderia muito bem ser um tanque. Nós brincamos de cruzar a baioneta diante dos tanques.
Como nos exaltaríamos com essas charadas um pouco cruéis, nas quais temos claramente um papel de figurantes, quando nos pedem para aguentar até a morte? É sério demais, a morte, para uma charada.
Quem se equiparia com exaltação? Ninguém. Nem Hochedé, que é uma espécie de santo, tendo atingido esse dom maior permanente que é sem dúvida o acabamento do homem, o próprio Hochedé refugiou-se no silêncio. Os camaradas que se equipam se calam, então, de cara fechada, e não é por pudor de herói. Essa cara fechada não mascara nenhuma exaltação. Diz o que diz. E eu a reconheço. É a cara fechada do gerente que não entende nada das ordens que lhe ditou um patrão ausente. E que, no entanto, permanece fiel: todos os camaradas sonham com seu quarto calmo, mas não há, entre nós, um só que escolhesse verdadeiramente ir dormir.
Porque o importante não é exaltar-se. Não há, na derrota, nenhuma esperança de exaltação. O importante é equipar-se, subir a bordo, decolar. O que pensamos de nós mesmos não tem nenhuma importância. E a criança que se exaltasse à ideia das aulas de gramática pareceria pretenciosa e suspeita. O importante é gerir um objetivo que não se mostra na hora. Esse objetivo não é para a inteligência, mas para o Espírito. O Espírito sabe amar, mas está dormindo. Sei no que consiste a tentação tanto quanto um padre da Igreja. Ser tentado, é ser tentado quando o Espírito dorme, a ceder às razões da inteligência.
De que serve engajar minha vida nesse desmoronamento de montanha? Ignoro-o. Repetiram-me cem vezes: “Deixe-se ser nomeado aqui ou ali. Ali é seu lugar. Você será mais útil do que numa esquadrilha. Pilotos a gente pode formar aos milhares”.* A demonstração era peremptória. Todas as demonstrações são peremptórias. Minha inteligência aprovava, mas meu instinto prevalecia sobre minha inteligência.
Por que esse raciocínio me parecia ilusório enquanto eu nada tinha a objetar? Eu pensava: “Os intelectuais se mantêm na reserva, como vidros de conserva nas prateleiras da Propaganda para serem comidos depois da guerra…”. Não era uma resposta!
Hoje, ainda, como os camaradas, decolei contra todos os argumentos, todas as evidências, todas as reações do momento. Chegará a hora em que saberei que tinha razão contra minha razão. Eu me prometi, se eu viver, fazer esse passeio noturno através da minha vila. Então, talvez, eu mesmo me habitue, enfim. E verei.
Talvez nada tenha a dizer sobre o que eu vir. Quando uma mulher me parece bonita, eu não tenho nada a dizer a respeito. Eu a olho sorrir, simplesmente. Os intelectuais desmontam o rosto para explicar os pedaços, mas não veem mais o sorriso.
Conhecer não é desmontar nem explicar. É chegar à visão. Mas para ver, convém primeiro participar. É uma dura aprendizagem…
Durante todo o dia, minha vila esteve invisível para mim. Tratava-se, antes da missão, de paredes de estuque e de camponeses mais ou menos sujos. Trata-se agora de um pouco de cascalho a dez quilômetros abaixo de mim. Eis a minha vila.
Mas, essa noite, talvez, um cão de guarda desperte e ladre. Eu sempre experimentei a magia de uma cidadezinha que sonha alto, pela voz de um único cão de guarda na noite clara.
Não tenho nenhuma esperança de me fazer compreender, o que me é absolutamente indiferente. Que se mostre, simplesmente, a mim, atrás das portas fechadas sobre provisões de grãos, sobre o gado, os costumes, minha vila bem acomodada para dormir!
Os camponeses, no retorno dos campos, tendo servido a refeição, posto as crianças para dormir e assoprado o lampião, se fundirão em seu silêncio. E nada mais haverá senão, sob os belos lençóis engomados do campo, os lentos movimentos de respiração, como de um resto de marulho, depois do temporal, sobre o mar.
Deus suspende o uso das riquezas durante o balanço noturno. A herança reservada me aparecerá, assim, mais claramente, quando os homens repousarem, com as mãos abertas pelo jogo do sono inflexível que relaxa os dedos até o amanhecer.
Então, talvez eu contemple o que não tem nome. Terei andado como um cego cujo tato conduziu ao fogo. Ele não saberia descrevê-lo e, no entanto, o terá encontrado. Assim, talvez, mostre-se o que convém proteger, o que não se vê, mas dura, à maneira de uma brasa, sob a cinza das noites de vila.
Eu nada tinha a esperar de uma missão fracassada. Para compreender uma simples vila, é preciso primeiro…
Capitão!
Sim?
Seis caças, seis, na frente, à esquerda!
Isso soou como um trovão. É preciso… Precisa… Eu gostaria: entretanto, de ser pago a tempo. Gostaria de ter direito ao amor. Gostaria de saber por quem vou morrer…

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* O autor se refere às várias tentativas que fizeram para dissuadi-lo de participar em esquadrilhas, justamente por já estar com mais de quarenta anos e ter muitas sequelas de seus acidentes anteriores. (N. T.)

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

O manifesto da cidade

Por que não tentar neste momento, que não é grave, olhar pela janela? Esta é a ponte. Este o rio. Eis a Penitenciária. Eis o relógio. E Recife. Eis o canal. Onde está a pedra que sinto? a pedra que esmagou a cidade. Na forma palpável das coisas. Pois esta é uma cidade realizada. Seu último terremoto se perde em datas. Estendo a mão e sem tristeza contorno de longe a pedra. Alguma coisa ainda escapa da rosa dos ventos. Alguma coisa se endureceu na seta de aço que indica o rumo de – Outra Cidade.
Este momento não é grave. Aproveito e olho pela janela. Eis uma casa. Apalpo tuas escadas, as que subi em Recife. Depois a pilastra curta. Estou vendo tudo extraordinariamente bem. Nada me foge. A cidade traçada. Com que engenhosidade. Pedreiros, carpinteiros, engenheiros, santeiros, artesãos – estes contaram com a morte. Estou vendo cada vez mais claro: esta é a casa, a minha, a ponte, o rio, a Penitenciária, os blocos quadrados de edifícios, a escadaria deserta de mim, a pedra.
Mas eis que surge um Cavalo. Eis um cavalo com quatro pernas e cascos duros de pedras, pescoço potente, e cabeça de Cavalo. Eis um cavalo.
Se esta foi uma palavra ecoando no chão duro, qual é o teu sentido? Como é cavo este coração no peito da cidade. Procuro, procuro. Casa, calçadas, degraus, monumento, poste, tua indústria.
Da mais alta muralha – olho. Procuro. Da mais alta muralha não recebo nenhum sinal. Daqui não vejo, pois tua clareza é impenetrável. Daqui não vejo mas sinto que alguma coisa está escrita a carvão numa parede. Numa parede desta cidade.

A ROSA BRANCA

Pétala alta: que extrema superfície. Catedral de vidro, superfície da superfície, inatingível pela voz.
Pelo teu talo duas vozes à terceira e à quinta e à nona se unem – crianças sábias abrem bocas de manhã e entoam espírito, espírito, superfície, espírito, superfície intocável de uma rosa.
Estendo a mão esquerda que é mais fraca, mão escura que logo recolho sorrindo de pudor. Não te posso tocar. Teu novo entendimento de gelo e glória meu rude pensamento quer cantar.
Tento lembrar-me da memória, entender-te como se vê a aurora, uma cadeira, outra flor. Não temas, não quero possuir-te. Alço-me em direção de tua superfície que já é perfume.
Alço-me até atingir minha própria aparência. Empalideço nessa região assustada e fina, quase alcanço tua superfície divina...
Na queda ridícula as asas de um anjo quebrei. Não abaixo a cabeça rosnante: quero ao menos sofrer tua vitória com o sofrimento angélico de tua harmonia, de tua alegria. Mas dói-me o coração grosseiro como de amor por um homem.
E das mãos tão grandes sai a palavra envergonhada.

Clarice Lispector, em Todos os Contos