117
A maioria da gente enferma de não
saber dizer o que vê e o que pensa.
Dizem que não há nada mais difícil
do que definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no
ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em
ordem, com que aquela figura abstrata das molas ou de certas escadas
se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é
renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que
sobe sem nunca conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, não
ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os
outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para
definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se
desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda
é abstrata. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é
uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.
Toda a literatura consiste num esforço
para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda quando agem sem
saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade direta; os
campos, as cidades, as ideias, são coisas absolutamente fictícias,
filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. São
intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos
literárias. As crianças são muito literárias porque dizem como
sentem e não como deve sentir quem sente segundo outra pessoa. Uma
criança, que uma vez ouvi, disse, querendo dizer que estava à beira
de chorar, não “Tenho vontade de chorar”, que é como diria um
adulto, isto é, um estúpido, senão isto: “Tenho vontade de
lágrimas”. E esta frase, absolutamente literária, a ponto de que
seria afetada num poeta célebre, se ele a pudesse dizer, refere
resolutamente a presença quente das lágrimas a romper das pálpebras
conscientes da amargura líquida. “Tenho vontade de lágrimas”!
Aquela criança pequena definiu bem a sua espiral.
Dizer! Saber dizer! Saber existir pela
voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale:
o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias,
subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se,
como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho
abstrato do céu azul sem sentido.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Nenhum comentário:
Postar um comentário