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08/06/2025

O sol também se levanta


3

Era uma cálida tarde de primavera e, depois que Robert saiu, fiquei sentado no terrasse do Napolitain, vendo a noite cair, acenderem-se os anúncios luminosos e os sinais de trânsito vermelhos e verdes, a multidão de pedestres, os fiacres com os cavalos trotando ao lado da fila cerrada de táxis e as poules que, sozinhas ou aos pares, vagavam à cata do jantar. Observei uma bonita moça que passava diante da minha mesa. Via-a afastar-se no Boulevard e perdia-a de vista. Passei a observar uma outra e vi a primeira voltando. Passou por mim outra vez, e nossos olhares se cruzaram. Então ela se aproximou e sentou-se à minha mesa. Chegou o garçom.
Que vai tomar? — perguntei.
Um pernod.
Isso não serve para as mocinhas.
Mocinha é o senhor. Dites, garçon, un pernod.
Um para mim também.
Que aconteceu? Vai festejar? — perguntou ela.
Naturalmente, e você?
Não sei. Nunca se sabe, nesta cidade.
Não gosta de Paris?
Não.
E por que não vai embora daqui?
Não tenho para onde ir.
Então deve estar feliz.
Feliz? Ora, bolas!
O pernod é uma imitação esverdeada do absinto. Quando se lhe acrescenta água, torna-se leitoso. Tem gosto de licor e sobe logo à cabeça, mas a depressão que se segue é ainda maior. Bebemos, e a pequena parecia aborrecida.
Então vai me pagar o jantar?
Esboçou um sorriso contrafeito e compreendi por que não gostava de rir. Com a boca fechada era mesmo bonita. Paguei os cartões e saímos. Chegando à calçada, fiz sinal a um fiacre e o cocheiro encostou. No fundo do carro, embalados pelo movimento suave e lento, seguimos a Avenue de l’Opéra, passando pelas portas fechadas das lojas e as vitrinas iluminadas. A avenida, ampla e resplandecente, estava quase deserta. O fiacre passou diante dos escritórios do New York Herald com a vitrina cheia de relógios.
Para que servem todos esses relógios? — perguntou ela.
Indicam a hora nas diversas partes da América.
Deixe de brincadeira.
Saímos da Avenida para entrar na Rue des Pyramides, atravessamos o congestionamento da Rue de Rivoli e penetramos nas Tuileries por uma arcada sombria. A pequena encostou-se em mim e rodeei-a com o braço. Ergueu o rosto, esperando um beijo. Tocou-me com a mão, mas afastei o seu braço.
Não. Nada disso.
Por quê? Está doente?
Sim.
Todo mundo está doente. Eu também estou.
Saímos das Tuileries, à luz, atravessamos o Sena e subimos a Rue de Saint-Pères.
Não devia beber pernod, se está doente.
Você também.
Ora, para mim não tem importância. Para uma mulher, não faz diferença.
Como se chama?
Georgette. E você?
Jacob.
É um nome flamengo.
Americano, também.
Então você não é flamengo?
Não. Americano.
Ótimo! Detesto os flamengos.
Chegamos ao restaurante. Eu disse ao cocheiro que parasse, descemos, e Georgette não gostou do lugar.
Esse restaurante não parece lá grande coisa.
Não? Você gostaria talvez de ir ao Foyot? — disse eu. — É só ficar com o fiacre e prosseguir.
Eu a convidara levado pela vaga ideia sentimental de que seria agradável jantar com alguém. Havia muito que não jantava com uma poule e esquecera a que ponto isso poderia ser monótono. Entramos no restaurante, passamos por madame Lavigne, na caixa, e nos instalamos numa sala pequena. Quando começamos a comer, Georgette pareceu mais satisfeita.
Não é mau — disse. — Não é lá muito chique, mas a comida serve.
Melhor que o que comia em Liège?
Liège, não. Bruxelas.
Tomamos outra garrafa de vinho, e Georgette disse um gracejo. Sorriu, mostrando os seus maus dentes, e brindamos.
Você parece um bom sujeito — disse. — É pena que esteja doente. Nós nos entendemos bem. Mas, afinal, que tem você?
Fui ferido na guerra.
Oh! Essa maldita guerra!
Provavelmente teríamos continuado, discutindo a guerra e concordando em que era uma verdadeira calamidade para a civilização e que poderia ter sido evitada. Eu já estava bastante aborrecido. Mas justamente nesse momento alguém chamou da sala vizinha.
Olá, Barnes, Jacob Barnes!
É um amigo me chamando — expliquei. E saí.
Era Braddocks, a uma grande mesa, com um grupo. Cohn, Frances Clyne, a sra. Braddocks e várias pessoas que eu não conhecia.
Quer vir dançar? — perguntou Braddocks.
Dançar?
Sim. Os dancings. Não sabe que os ressuscitamos? — interveio a sra. Braddocks.
Você precisa vir, Jake. Vamos todos — disse Frances, de uma ponta da mesa.
Era alta, e sorria.
É claro que ele vai — insistiu Braddocks. — Venha tomar café conosco, Barnes.
Está bem.
E traga a sua amiga — disse a sra. Braddocks, sorrindo. Era canadense e possuía o encanto social das mulheres de seu país.
Obrigado. Viremos — disse eu. Voltei à outra sala.
Quem são esses seus amigos? — perguntou Georgette.
Escritores e artistas.
Há uma porção deles deste lado do rio.
Sim. Demais.
Também acho. Mas, apesar de tudo, alguns ganham dinheiro.
Sim, sem dúvida.
Acabamos de jantar e de beber o vinho.
Venha — disse eu. — Vamos tomar café com os outros.
Georgette abriu a bolsa, fez alguns retoques no rosto, corrigiu o batom, mirando-se a um pequeno espelho, e ajeitou o chapéu.
Pronto! — disse ela.
Entramos na sala cheia de gente. Braddocks e os outros homens de sua mesa se levantaram.
Permitam que lhes apresente minha noiva, mademoiselle Georgette Leblanc — disse eu.
Georgette mostrou o seu extraordinário sorriso e apertamos as mãos em torno.
É parenta de Georgette Leblanc, a cantora? — perguntou a sra. Braddocks.
Connais pas — respondeu Georgette.
Mas tem o mesmo nome — insistiu cordialmente a sra. Braddocks.
Não, absolutamente — disse Georgette. — Meu sobrenome é Hobin.
Mas Barnes apresentou-a como Georgette Leblanc. Tenho certeza — insistiu a sra. Braddocks, que, entusiasmada por falar francês, podia muito bem não ter ideia do que dizia.
Ele é um idiota — disse Georgette.
Ah, compreendo. Era uma brincadeira — concluiu a sra. Braddocks.
Sim. Queria fazer graça.
Está ouvindo, Henry? — gritou a sra. Braddocks para seu marido no outro lado extremo da mesa. — Barnes apresentou sua noiva como Georgette Leblanc e, na realidade, ela se chama Hobin.
Naturalmente, querida. Senhorita Hobin. Há muito tempo que a conheço.
Oh! Senhorita Hobin — exclamou Frances Clyne, que falava francês muito depressa, sem parecer orgulhosa nem surpreendida, como a sra. Braddocks, em constatar que era francês verdadeiro. — Está há muito tempo em Paris? Adora Paris, não é?
Quem é ela? — indagou Georgette, voltando-se para mim. — Preciso mesmo conversar com ela?
Então, virou-se para Frances, de novo sorrindo, suas mãos recolhidas, a cabeça aprumada no longo pescoço, seus lábios preparados para tornar a falar.
Não. Não gosto de Paris. É caro e sujo.
Realmente? Pois eu acho a cidade extraordinariamente limpa. Uma das cidades mais limpas da Europa.
E eu acho que é suja.
Curioso! Mas talvez não esteja aqui há muito tempo.
Sim. Há bastante tempo.
Contudo, há aqui muitas pessoas amáveis. Isso não pode negar.
Georgette voltou-se para mim.
São gentis os seus amigos.
Frances estava um pouco embriagada e desejaria continuar a conversa, mas veio o café, e Lavigne trouxe os licores. Em seguida, todos nós saímos e nos dirigimos ao dancing dos Braddocks.
Era um bal musette da Rue de la Montaigne de Sainte Geneviève. Cinco noites por semana, a classe operária do bairro do Panthéon ia dançar ali. Uma noite por semana era um clube dançante. Segunda-feira, o estabelecimento fechava. Quando chegamos, não havia quase ninguém, exceto um policial, sentado perto da porta, a mulher do proprietário atrás do balcão de zinco e o proprietário. A filha do casal descia a escada, quando entramos. Havia longos bancos e mesas, através da sala, e, na extremidade, o tablado de dança.
As pessoas deviam chegar mais cedo — disse Braddocks.
A filha dos proprietários se aproximou e perguntou o que queríamos beber. O proprietário subiu a um alto banco e pôs-se a tocar acordeão. Tinha uma fieira de guizos em torno de um artelho e, enquanto tocava, marcava o compasso com o pé. Todos dançaram. Fazia calor e terminamos molhados de suor.
Meu Deus! — exclamou Georgette. — Isto aqui é uma estufa.
Sim, faz calor.
Se faz!
Tire o chapéu.
É uma boa ideia.
Alguém convidou Georgette para dançar e eu me dirigi ao bar. Fazia calor, realmente, e a música do acordeão era agradável, na noite quente. Tomei uma cerveja de pé, na soleira, à brisa fresca da rua. Dois táxis desciam a rua em declive e pararam em frente ao Bal. Dos veículos desceu um grupo de jovens, uns de suéteres e outros em mangas de camisa. À luz da porta, eu podia distinguir as mãos, as cabeleiras onduladas e recentemente lavadas. O policial de pé à porta olhou para mim e sorriu. Entraram. Observei mãos brancas, cabelos ondulados, rostos claros, cheios de expressões afetadas. Eles gesticulavam muito ao falar. Brett estava com eles. Encantadora. Parecia perfeitamente à vontade naquele grupo.
Um deles avistou Georgette.
Meu Deus! Ali está uma verdadeira poule. Vou dançar com ela, Lett. Fique vendo.
O alto, moreno, chamado Lett, disse:
Vamos, nada de loucuras.
O louro de cabelos ondulados respondeu:
Não se preocupe, meu querido.
E Brett andava com aquele grupo!
Eu estava furioso. Aliás, os homens dessa espécie sempre me deixavam furioso. Sei que se imagina que são muito divertidos e que é preciso ser tolerante, mas eu tinha ímpetos de agarrar um deles, fosse lá qual fosse, pelo menos para abalar aquele ar de superioridade e afetação. Em vez disso, desci a rua e tomei outra cerveja no bar do dancing vizinho. A cerveja não era boa e tomei um conhaque ainda pior para tirar o gosto. Quando voltei ao Bal, havia uma multidão e Georgette dançava com o louro alto que, de olhos erguidos, a cabeça de um lado, saracoteava-se todo. Logo que a música parou, um outro, do mesmo grupo, foi convidar Georgette para dançar. Tinham-se apoderado de Georgette e eu sabia que todos dançariam com ela. São assim mesmo.
Sentei-me a uma mesa. Cohn já se encontrava ali e Frances dançava. A sra. Braddocks trouxe alguém que me apresentou como Robert Prentiss. Era de Nova York, passara por Chicago e fazia sua estreia de romancista. Falava com certo sotaque inglês. Convidei-o a tomar alguma coisa.
Obrigado — disse ele. — Acabei de beber um drinque.
Tome outro.
Aceito. Obrigado.
Chamamos a filha dos proprietários e cada um de nós tomou uma fine à l’eau.
O senhor é de Kansas City, segundo me disseram?
Sim.— Acha Paris divertido?
Sim.
Realmente?
Eu estava um pouco bêbedo. Não de todo, mas o suficiente para perder o controle.
Sim. Que diabo! Por quê, você não acha?
Oh! Que maneira engraçada de se zangar. Eu gostaria de ter esse talento.
Levantei-me e dirigi-me ao tablado. A sra. Braddocks seguiu-me.
Não se zangue com Robert. É ainda muito criança.
Não me zanguei. Apenas, por um momento, achei que fosse vomitar.
Sua noiva está fazendo um grande sucesso.
A sra. Braddocks observava, entre os que dançavam, Georgette nos braços do moreno alto chamado Lett.
Está mesmo, não é?
Certamente — respondeu a sra. Braddocks.
Cohn se aproximou.
Jake, vamos beber alguma coisa. — Fomos ao bar.
Que aconteceu? Você parece perturbado.
Não é nada. Tudo isso me enoja, é só.
Brett se aproximou do bar.
Olá, pessoal!
Olá, Brett — respondi. — Você ainda não está bêbeda? Por quê?
Nunca mais vou me embriagar. Mas não oferece um conhaque comsoda a uma amiga?
Ficou lá de pé, com o copo na mão, e vi que Robert Cohn a olhava. Era assim que o seu compatriota devia ter olhado, quando avistou a Terra Prometida. Cohn, naturalmente, era muito mais jovem, mas tinha o mesmo olhar ávido de expectativa bem merecida.
Brett estava mesmo encantadora, com um blusão de jérsei, uma saia de tweed e os cabelos puxados para trás, à la garçonne. Lançava essas modas. Era toda feita em curvas, como o casco de um iate de corridas, e o jérsei de lã revelava-as plenamente.
Você anda em boa companhia, Brett — disse eu.
Não são encantadores? E você onde a arranjou?
No Napolitain.
E a noite foi agradável?
Ah, nada no mundo poderia pagá-la — disse eu.
Brett riu.
Você fez mal, Jake. Isso é um insulto a todos nós. Veja a Frances ali e a Jo.
Disse isso apenas por cerimônia em relação a Cohn.
O mercado está fraco — ironizou Brett, em seguida, rindo outra vez.
Você está maravilhosamente sóbria.
Estou, não é? É verdade que quando se anda com esses tipos é possível beber com absoluta segurança. A música recomeçou.
Quer dançar esta comigo, Lady Brett? — perguntou Cohn.
Prometi dançar com Jacob — disse ela, rindo sempre. — Você tem um nome infernalmente bíblico.
Então a seguinte? — pediu Cohn.
Não. Vamos sair. Marcamos um encontro em Montmartre — disse Brett.
Dançando, eu olhava por cima do ombro de Brett e via Cohn de pé junto ao bar, com os olhos presos nela.
Você fez outra conquista.
Nem me fale. Coitado. Somente agora me dei conta.
Oh! — exclamei. — Imagino que goste de colecioná-los.
Não diga bobagens.
É verdade. Gosta, sim.
E daí?
Nada — disse eu.
Dançávamos ao som do acordeão e alguém tocava banjo. Passamos bem perto de Georgette, que dançava com alguém.
Que ideia absurda de trazê-la aqui! Por quê?
Não sei. Trouxe-a, foi só.
Está ficando excessivamente romântico.
Não. Apenas entediado.
Neste momento?
Não, neste momento, não.
Vamos embora. Não faltará quem tome conta dela.
Quer mesmo sair?
Acha que eu pediria se não quisesse?
Paramos de dançar. Peguei meu sobretudo, num cabide, à parede, e vesti-o. Brett estava de pé, junto ao bar, falando com Robert. Aproximei-me e pedi um envelope. A proprietária me arranjou um. Tirei do bolso uma nota de cinquenta francos, pus dentro do envelope, fechei-o e entreguei-o à mulher.
Se a pessoa com quem vim perguntar por mim, faça o favor de lhe dar isto. Se ela sair com um desses senhores, guarde-o, que eu procurarei depois.
C’est entendu, monsieur — disse a proprietária. — Já vai tão cedo?
Sim — disse eu.
Robert Cohn ainda falava com Brett, quando nos dirigimos para a porta. Ela lhe deu boa-noite e tomou o meu braço.
Boa-noite, Cohn — despedi-me. Na rua procuramos um táxi.
Você vai perder os seus cinquenta francos — disse Brett.
É verdade.
Não há táxis.
Podemos andar até o Panthéon e arranjar um lá.
Vamos beber alguma coisa no bar vizinho. De lá mandaremos chamar um táxi.
Você nem mesmo vai atravessar a rua.
Não, se puder evitá-lo.
Entramos no bar e pedi ao garçom que fosse procurar um táxi.
Enfim, estamos livres deles — disse eu.
[…]

Ernest Hemingway, em O sol também se levanta

30/05/2025

O sol também se levanta

 


2

Nesse inverno, Robert Cohn viajou para a América e levou o seu romance, que foi aceito por um bom editor. Sua ida causou grande sensação, segundo ouvi dizer, e creio que foi lá que Frances o perdeu. Várias mulheres o assediaram em Nova York e ele voltou inteiramente mudado. Seu entusiasmo pela América era cada vez maior. Robert já não era uma pessoa tão simples nem tão agradável. Os editores tinham dito maravilhas do seu livro e aquilo lhe subiu à cabeça. Depois, muitas mulheres começaram a interessar-se por ele e ampliaram-se os seus horizontes, que durante quatro anos haviam estado limitados por sua mulher. Em três anos, Robert não vira quase ninguém além de Frances. Eu estava até mesmo convencido de que nunca havia amado, na vida.
Casara-se por uma reação à vida desagradável que levara na Universidade, e Frances o agarrara quando ele descobrira que não havia sido o único homem para sua primeira esposa. Não amara ainda, mas compreendera que exercia alguma atração sobre as mulheres, e o fato de que uma o achasse interessante e quisesse viver com ele não era nenhum milagre. Isso o modificou a tal ponto, que sua companhia tornou-se importuna. E também, jogando partidas de bridge em paradas mais altas do que podia, com seus conhecidos de Nova York, tivera sorte e ganhara várias centenas de dólares. Envaideceu-se com sua habilidade no jogo, e mais de uma vez o vi repetindo que um homem poderia muito bem viver do bridge, se não tivesse outro recurso.
Havia ainda outra coisa: Cohn andara lendo W. H. Hudson. Parece não haver nisso nenhum mal, porém ele lera e relera The Purple Land, livro sinistro, quando lido demasiado tarde na vida. O livro narra de maneira esplêndida as imaginárias aventuras amorosas de um perfeito cavalheiro inglês, num país intensamente romântico, e o cenário é muito bem-descrito.
Tratando-se de um homem de trinta e quatro anos, tomá-lo como um guia para o que a vida pode lhe reservar é tão perigoso como seria, para um homem da mesma idade, saindo de um convento francês, entrar diretamente em Wall Street, munido de uma coleção completa dos livros mais práticos de Alger.* Creio que Cohn tomava cada palavra de The Purple Land em sentido tão literal como se fosse um relatório comercial da R. G. Dun. É certo que fazia algumas reservas, mas de um modo geral julgava-o um livro sério. E não era preciso mais para o entusiasmar. Só compreendi a que ponto isso o alterou no dia em que ele me irrompeu escritório adentro.
Olá, Robert — cumprimentei. — Veio me fazer uma visita?
Gostaria de ir à América do Sul, Jake? — perguntou.
Não.
Por quê?
Não sei. Nunca desejei viajar para lá. Muito caro. Você pode ver quantos sul-americanos quiser, aqui mesmo em Paris.
Não são sul-americanos de verdade.
Para mim parecem um bocado reais.
Eu tinha uma batelada de correspondências a enviar pelo correio e escrevera apenas a metade dela.
Sabe de algum escândalo? — perguntei.
Não.
Nenhum de seus amigos vai se divorciar?
Não. Escute, Jake, se eu pagasse as despesas, você iria comigo à América do Sul?
Mas, por que me escolheu?
Você fala espanhol. E seria mais divertido irmos os dois.
Não. Eu gosto daqui e no verão vou à Espanha.
Sempre desejei fazer uma viagem dessas — disse Cohn, sentando-se. — Quando puder fazê-la, já estarei velho demais.
Que bobagem! Você pode ir para onde quiser. Tem muito dinheiro.
Sei disso. Mas não consigo decidir-me.
Anime-se — disse eu. — Todos os países se parecem com o que vemos nos filmes.
Mas tive pena dele. Levava aquilo a sério.
Não me conformo, quando penso que minha vida vai passando tão depressa e não a vivo realmente.
— Ninguém vive com a intensidade que deseja, exceto os toureiros.
— Os toureiros não me interessam. Levam uma vida anormal. Quero mesmo é dar umas voltas pela América do Sul. Seria uma grande viagem!
Já pensou em ir caçar na África Oriental Inglesa?
Não, isso não me agradaria.
Para lá eu iria com você.
Não estou interessado.
Isso é porque você nunca leu nada sobre o assunto. Procure ler um livro recheado de casos amorosos com belas princesas negras e lustrosas.
Quero ir à América do Sul.
Era mesmo uma obstinação judaica.
Vamos lá embaixo beber alguma coisa?
Você não está trabalhando?
Não — respondi. Descemos a escada até o Café, no andar térreo. Eu descobrira que é esse o melhor meio de a gente livrar-se de amigos. Bebe-se um pouco e depois é só dizer: “Bem, preciso voltar para enviar alguns telegramas”, e pronto. É importantíssimo, no jornalismo, descobrir saídas jeitosas como essa. Faz parte da ética profissional dar sempre a impressão de não estar trabalhando. Bem, mas descemos e tomamos uísque com soda. Cohn olhava para as garrafas nas caixas, em volta da parede.
Bom lugar, este — declarou.
Há muita bebida aqui — concordei.
Escute, Jake — e curvou-se sobre o balcão. — Nunca tem a impressão de que sua vida vai passando sem você aproveitá-la? Não percebe que já viveu a metade do tempo que tem para viver?
Sim, isso me acontece de vez em quando.
Sabe que dentro de trinta e cinco anos já estará morto?
Que diabo! Francamente, Robert!
Estou falando sério.
Isso é coisa que não me preocupa.
Devia preocupar-se.
Tenho tido sempre preocupações. Já estou farto delas — respondi.
Bem, eu queria ir à América do Sul.
Escute, Robert, tanto faz um país como outro. Tenho experiência disso. Não podemos sair de dentro de nós mesmos. Não adianta.
Mas você nunca esteve na América do Sul.
Para o inferno a América do Sul! Se você fosse lá do jeito como está, iria continuar na mesma. Paris é uma boa cidade. Por que não começa a viver aqui mesmo?
Estou saturado de Paris, farto do Quartier.
Então se afaste do Quartier. Ande por aí sozinho e veja o que acontece.
Não me acontece nada. Já andei sozinho durante toda uma noite e nada sucedeu. Apenas um guarda, de bicicleta, pediu para examinar meus documentos.
Não achou a cidade bonita à noite?
Paris não me interessa.
E dali não saíamos. Eu tinha pena dele, mas nada podia fazer porque esbarrava em duas obstinações: a América do Sul resolveria o problema e Paris não lhe agradava. A primeira ideia tirara de um livro, e julgo que a segunda saíra também de um livro.
Bem, preciso subir para enviar uns telegramas.
Precisa mesmo?
Sim, tenho de despachá-los.
Você não se incomoda se eu subir e ficar um pouco no escritório?
Não. Suba.
Sentou-se na sala de espera e ficou lendo os jornais e o Editor and Publisher, e eu trabalhei, com afinco, durante duas horas. Depois pus em ordem os carbonos, assinei a correspondência, coloquei-a em dois envelopes-sacos e chamei um boy para levá-los à Gare Saint Lazare. Entrei na sala de espera e encontrei Robert dormindo na poltrona. Dormia com a cabeça apoiada nos braços. Eu não queria acordá-lo, mas tinha de fechar o escritório e sair. Pousei a mão em seu ombro, ele sacudiu a cabeça.
Não posso fazer isso — disse. E afundou mais a cabeça nos braços. — Não posso, nada vai me obrigar a fazer uma coisa dessas.
Robert — disse eu, sacudindo-lhe o ombro. Ele ergueu os olhos, sorriu e pestanejou.
Falei alto, agora mesmo?
Disse qualquer coisa, mas não muito claro.
Meu Deus! Que sonho terrível!
O ruído da máquina o fez dormir?
Acho que sim. Não dormi na noite passada.
Por quê?
Estive conversando.
Compreendi. Eu tinha o péssimo hábito de imaginar as cenas de alcova de meus amigos. Saímos, fomos ao Café Napolitain tomar um aperitivo e olhar a multidão que passava no Boulevard.

Nota
*Horatio Alger, 1834-1899. Escritor norte-americano, autor de obras destinadas especialmente à juventude. (N. T.)

Ernest Hemingway, em O sol também se levanta

21/05/2025

O sol também se levanta


1

Robert Cohn fora campeão de boxe na categoria dos pesos-médios em Princeton. Não pensem que esse título me impressione. Mas significava muito para Cohn. Ele não dava importância ao boxe. De fato, sequer o apreciava. Mas esforçara-se bastante para aprender a lutar, e apenas para compensar o complexo de inferioridade e a timidez que sentira, porque o tratavam como judeu, em Princeton. Era uma certa satisfação íntima saber que poderia derrubar a quem quer que o provocasse. Mas, sendo muito tímido e ótimo rapaz, nunca travava luta fora do ginásio. Robert era um astro, entre os discípulos de Spider Kelly, que ensinava seus jovens alunos a lutarem como pesos-leves, quer pesassem 48 ou 93 quilos. No caso de Robert Cohn, o sistema pareceu dar resultado. O rapaz era realmente ligeiro e tão bom, que Spider não tardou a fazê-lo medir-se com lutadores mais fortes. Seu nariz ficou irremediavelmente achatado, o que contribuiu para a aversão de Cohn pelo boxe, mas produziu-lhe uma satisfação estranha, e isso, sem dúvida, melhorou seu nariz. Durante o seu último ano em Princeton, Robert lera demais e passou a usar óculos. Nunca encontrei um só de seus colegas que se lembrasse dele ou de que tivesse sido campeão de boxe.
Desconfio de todas as pessoas francas e simples, principalmente quando suas histórias são coerentes, e sempre alimentei a suspeita de que Robert Cohn nunca fora campeão. Talvez um cavalo lhe tivesse dado um coice no rosto, ou sua mãe houvesse levado um susto, enxergando uma coisa qualquer, ou ainda, podia ser que ele tivesse caído e se machucado, quando criança. Afinal, encarreguei alguém de tirar a limpo o caso com Spider Kelly. O treinador não somente se lembrava de Cohn, como também se punha a imaginar, vez por outra, o que teria sido feito de seu antigo discípulo.
Robert Cohn era, pelo lado paterno, membro de uma das mais ricas famílias de Nova York e descendia de uma das mais antigas famílias da região, pelo lado materno. Na Escola Militar, onde fizera os preparativos para Princeton e tivera boa atuação na equipe de futebol, ninguém lhe despertara a consciência da raça. Não o fizeram sentir que era judeu e, portanto, diferente dos outros, até que ingressou em Princeton. Bom rapaz, cordial e muito tímido, desrecalcou-se no boxe. E saiu da Universidade com uma sensibilidade doentia e o nariz achatado. Foi agarrado pela primeira pequena que o agradou e casou-se com ela.Esteve casado cinco anos, e vieram três filhos. Perdeu a maior parte dos cinquenta mil dólares que herdara do pai e, como o resto da herança coubera à mãe, a infelicidade doméstica, com uma esposa rica, tornou-o intratável. Passou meses pensando em deixar a mulher, mas julgara que seria crueldade privá-la de sua companhia. Finalmente, quando já havia se decidido, foi ela quem o deixou, fugindo com um pintor miniaturista. A partida dela, assim, proporcionou-lhe um choque benéfico.
Obtido o divórcio, Robert Cohn foi para a Costa do Pacífico. Na Califórnia, caiu num meio de literatos e, como ainda possuía uns restos dos cinquenta mil dólares, logo se viu financiando uma revista de arte. A publicação foi iniciada em Carmel, na Califórnia, e acabou em Provincetown, Massachusetts. Nesse tempo, Cohn era considerado pura e simplesmente como um mecenas e seu nome aparecia na página editorial apenas como membro da direção. Mas depois se tornou o único editor. Gostava disso e o dinheiro era seu. Ficou triste, quando a revista começou a dar prejuízo e ele teve de desistir.
Nesse momento, aliás, tinha outras coisas em que pensar. Estava dominado por uma senhora que esperava fazer carreira e progredir com a revista. Era muito voluntariosa e Cohn nunca encontrara uma oportunidade para se ver livre dela. Também estava convencido de que a amava. Compreendendo que a revista não ia muito bem, ela se aborreceu com Robert e decidiu aproveitar o mais que pudesse, enquanto havia o que tirar. Insistiu para que fossem à Europa, onde Cohn poderia dedicar-se a escrever. Vieram, então, para a Europa, onde ela se educara, e aqui permaneceram três anos, o primeiro gasto em viagens e os dois últimos em Paris. Robert teve ali dois amigos, Braddocks e eu. Braddocks era o amigo literário, e eu, o amigo no tênis.
A mulher que o dominava chamava-se Frances. Verificou, no fim de dois anos, que seus encantos começavam a murchar e sua atitude para com Robert mudou, de posse indiferente e exploração, para a decisão inabalável de se casar com ele. Nesse ínterim, a mãe de Cohn designara para o filho uma mensalidade de trezentos dólares. Durante dois anos e meio, acredito que Robert nunca tivesse olhado para outra mulher. Era razoavelmente feliz. Apenas, como acontece a muitas pessoas que vivem na Europa, teria preferido viver na América. Descobriu também que dava para escrever, e de fato publicou um romance, não tão mau como os críticos disseram, mas ainda assim bastante fraco. Lia muito, jogava bridge e tênis e praticava boxe num ginásio local.
Certa noite em que jantávamos juntos, percebi pela primeira vez a atitude de Frances para com Robert. Tínhamos acabado de jantar no l’Avenue e fomos ao Café de Versailles. Tomamos café e, em seguida, várias fines. Eu disse que precisava ir andando. Cohn estivera falando sobre a possibilidade de passarmos um fim de semana em qualquer parte, pois queria sair da cidade e dar um bom passeio. Sugeri que fôssemos a Estrasburgo. Dali faríamos uma caminhada a Sainte Odille ou a algum outro ponto da Alsácia.
Eu conheço uma moça em Estrasburgo que pode nos mostrar a cidade.
Senti que me pisavam o pé sob a mesa. Pensei que fosse por acaso e prossegui:
Mora lá há dois anos e conhece tudo o que vale a pena ser visto. É uma boa moça.
Nova pisadela, e somente então notei o ar de Frances, a amiga de Robert. Tinha o queixo erguido e a fisionomia dura.
Diabo! — exclamei. — Mas, por que Estrasburgo? Poderíamos ir a Bruges ou às Ardenas.
Cohn acalmou-se e não pisou mais o meu pé. Eu dei boa-noite e ia sair, quando ele disse que precisava comprar um jornal e me acompanharia até a esquina.
Meu Deus! Para que você foi falar nessa moça de Estrasburgo? — exclamou. — Não notou o jeito de Frances?
Não. E se conheço uma moça americana que reside em Estrasburgo, que diabo tem Frances a ver com isso?
Ora, não importa que moça é essa. Seja lá quem for, eu não poderia ir, compreende?
Que bobagem!
Você conhece Frances. Não viu como ela ficou?
Está bem — respondi. — Vamos então a Senlis.
Não fique magoado, Jake.
Não estou magoado. Senlis é um lugar muito agradável. Podemos ir para o Grand Cerf, excursionar pelas matas e voltar para casa.
Isso! Vai ser ótimo.
Amanhã nos encontraremos no tênis.
Boa-noite, Jake — disse, encaminhando-se para o Café.
Você esqueceu o jornal!
É verdade…
Ele acompanhou-me até a banca da esquina.
Não está aborrecido, não é, Jake? — perguntou ainda, com o jornal na mão.
Não, não há motivo.
Então, amanhã, no tênis — concluiu.
Segui-o com os olhos, enquanto voltava ao Café, com o jornal na mão. Eu gostava bastante dele e era evidente que a mulher o fazia levar uma vida terrível.

Ernest Hemingway, em O sol também se levanta

12/03/2025

Escrever para jornal e escrever livro

Hemingway e Camus foram bons jornalistas, sem prejuízo de sua literatura. Guardadíssimas as devidas e significativas proporções, era isto o que eu ambicionaria para mim também, se tivesse fôlego.
Mas tenho medo: escrever muito e sempre pode corromper a palavra. Seria para ela mais protetor vender ou fabricar sapatos: a palavra ficaria intacta. Pena que não sei fazer sapatos.
Outro problema: num jornal nunca se pode esquecer o leitor, ao passo que no livro fala-se com maior liberdade, sem compromisso imediato com ninguém. Ou mesmo sem compromisso nenhum.
Um jornalista de Belo Horizonte disse-me que fizera uma constatação curiosa: certas pessoas achavam meus livros difíceis e no entanto achavam perfeitamente fácil entender-me no jornal, mesmo quando publico textos mais complicados. Há um texto meu sobre o estado de graça que, pelo próprio assunto, não seria tão comunicável e no entanto soube, para meu espanto, que foi parar até dentro de missal. Que coisa!
Respondi ao jornalista que a compreensão do leitor depende muito de sua atitude na abordagem do texto, de sua predisposição, de sua isenção de ideias preconcebidas. E o leitor de jornal, habituado a ler sem dificuldade o jornal, está predisposto a entender tudo. E isto simplesmente porque “jornal é para ser entendido”. Não há dúvida, porém, de que eu valorizo muito mais o que escrevo em livros do que o que eu escrevo para jornais — isso, sem, no entanto, deixar de escrever com gosto para o leitor de jornal e sem deixar de amá-lo.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

16/12/2024

Do outro lado do rio, entre as árvores | 2


Contudo, ele não era um rapaz. Tinha cinquenta anos, era um coronel de infantaria do Exército dos Estados Unidos e, para se submeter a um exame médico obrigatório, na véspera de sua vinda a Veneza para essa caçada, tomara uma quantidade de hexanitrato de manitol suficiente para… Para o quê? Ele não sabia exatamente o motivo… Para ser aprovado no exame, era o que dizia para si mesmo.
O médico mostrara-se um tanto cético, mas tomou nota da sua pressão, depois de tirá-la duas vezes. Ele disse:
Quer saber, Dick? Não é indicado. Para ser franco, é até categoricamente contraindicado em casos de pressão intraocular e intracraniana aumentada.
Mas do que é que você está falando? — redarguiu o caçador, que então não era um caçador, a não ser em estado potencial, e sim um coronel de infantaria do Exército dos Estados Unidos, posto a que voltara depois de ter sido general comissionado.
Já faz bastante tempo que o conheço, coronel. Ou pelo menos me parece que já faz bastante tempo — disse-lhe o médico.
Claro que faz! — concordou o coronel.
Até parece que estamos compondo canções… — observou o médico. — Mas uma coisa lhe digo… Se você está conduzindo um veículo lotado de nitroglicerina, não deve bater em nada, nem deixar que uma centelha o atinja. É sempre preferível rodar com proteções extras, como fazem aqueles caminhões mais potentes.
O meu eletro não estava normal? — perguntou o coronel.
Estava ótimo, coronel. Poderia ser o eletrocardiograma de um homem de vinte e cinco anos. De um rapaz de dezenove.
Então do que é que você está falando? — perguntou o coronel.
Tomar todo aquele hexanitrato de manitol deixava qualquer um nauseado, e era por isso que ele estava aflito para que a consulta terminasse. Também estava ansioso para se deitar e tomar um seconal. Ele pensou: “Eu devia escrever o manual da tática de rotina para o esquadrão da pressão alta. Pena que não posso lhe contar isso. Por que não me sujeito logo à misericórdia dos juízes? Ora, nunca fazemos isso. Rogamos sempre que nos absolvam…”
Quantas vezes foi ferido na cabeça? — perguntou o médico.
Mas, não sabe? Sirvo no 201.
Quantas vezes foi ferido na cabeça?
Oh! Cristo! — Depois indagou: — Está perguntando como meu médico ou por algum motivo militar?
Pergunto como seu médico. Ou você acha que deveria me limitar a ajustar você como se fosse um relógio?
Não, não acho, ora… Afinal, você quer saber o quê?
Se teve comoções cerebrais.
Autênticas?
Qualquer ocasião em que tenha ficado sem sentidos ou algo que, depois, não conseguia recordar.
Umas dez vezes, acho. Contando com o polo. Mas podem ter sido umas três vezes mais… ou menos.
Seu grande patife! — E rapidamente acrescentou: — Quer dizer, coronel… senhor!
Posso ir?
Pode, sim. Está em boa forma.
Obrigado. Quer vir comigo caçar patos nos mangues da desembocadura do Tagliamento? Uma esplêndida caçada. Uns ótimos camaradas italianos que encontrei em Cortina falaram tão bem de lá que…
É onde caçam frangos-d’água?
Não. Onde vou só se caçam patos. Ótimos rapazes. Ótima caçada. Caça de verdade. Patos selvagens, marrecos, adens. Alguns gansos. Tão bom como em nossa terra, quando éramos rapazolas.
Entre 1929 e 1930, eu era um garoto.
Essa é a primeira coisa maldosa que já escutei de você.
Você não entendeu o que eu quis dizer. Disse que não podia me lembrar do tempo em que me divertia caçando patos. Aliás, fui garoto de cidade.
Ora, aí está o seu ponto fraco. Nunca vi um garoto de cidade que desse para alguma coisa boa na vida.
Está sendo sincero, coronel?
Claro que não. Sabe muito bem que não!
Está em boa forma, coronel — afirmou o médico. — Lamento não poder tomar parte nessa sua caçada, mas nem mesmo sei atirar.
Grande coisa! — replicou o coronel. — E quem é que sabe atirar aqui nessa tropa? Eu gostaria é de ter a sua companhia.
Vou receitar mais alguma coisa para reforçar o que está usando.
Achou alguma coisa grave?
Nada. A doença trabalha, mas ainda sem efeitos detectáveis.
Pois que trabalhe.
Acho essa sua atitude muito louvável, senhor.
Dane-se, você! Então, não quer vir mesmo?
Eu costumo pegar meus patos no Longchamps, na Madison Avenue — replicou o médico. — Tem ar-condicionado no verão e é aquecido no inverno. E também não preciso me levantar antes do amanhecer, nem me enrolar todo, que nem um esquimó.
Está bem, menino da cidade. Não sabe o que está perdendo.
Jamais quis saber. Está em boa forma, senhor coronel.
Obrigado — agradeceu o coronel e retirou-se…

Ernest Hemingway, em Do outro lado do rio, entre as árvores