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14/09/2011

Os encourados

A tarde chega.
A luz se dispersa:
quem anunciará a morte,
soltará o chicote,
abrirá a fresta?

Quem domará o espaço
entre o gume e a alma,
entre a cerca e a palma,
entre o assombro e a calma?

E dormirá no cio
de árvores cativas
ao solstício das pedras,
no despencar das sombras?
A tarde chega,
a luz se dispersa.
É uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.

Os encourados se miram
num horizonte de varas.
A copa é pequena:
na redondez dos cabos,
lâminas severas.

Nem palavras:
o vento soletra a mata,
converte-se em faca.
Sumida nos esteiros,
detida nas vazantes,
segue,
na garupa,
a sina dos instantes.

Adonde vosmecê,
alumia o sobrosso,
desmazelo do corpo?

A alma se estropia
nesses retirados
dentro dos Teus lustres...
A tarde chega.
A luz se dispersa.

E uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.

Ponto de cruz ou estrela: 
 

uma rede bordada.

Everardo Norões, poeta cearense do Crato

05/08/2011

Corpo

Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.

Everardo Norões, poeta cearense do Crato

19/07/2011

Café

Desencarno arábias 
de uma xícara morna 
de café.
E um fio negro 
me assedia a boca.

(Através da janela 
o galho de pitanga 
ostenta seu adorno 
encarnado).

Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.

De onde vem o grão 
dessa saudade?

Desentranho arábias 
dessa xícara fria. 
Enquanto aguardo o dia 
que não chega.

Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.

Everardo Norões, poeta cearense do Crato

17/07/2011

Tristão

             Em pé, ao sol e ao vento do sertão, 
       ele não se decompôs.
                     Pedro Nava (Baú de Ossos)

As palavras no alforje. E o rosário, 
a escorrer das penas e dos dias. 
O azul da barba lembra uma paisagem 
onde campeiam cabras. E ramagens 
desatam-se em sombras nas janelas. 
A morrinha dos bichos. O mormaço, 
trazendo o desespero, em vez de março: 
um luto atravancando as taramelas. 
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas. 
Pendentes dos estribos, estão as horas, 
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes, 
e o olho além do corpo do poema. 
No chão do meu degredo, sempre chão, 
sete frases do ofício e um bordão.

Everardo Norões, poeta cearense de Crato