José Paulo Paes, em Resíduo
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28/07/2026
Brecht revisitado
partido: o que partiu rumo ao futuro
mas no caminho esqueceu a razão da
partida
(só perdemos a viagem camaradas
não a estrada nem a vida)
19/06/2026
Cem anos depois
Vamos passear na floresta
Enquanto D. Pedro não vem.
D. Pedro é um rei filósofo,
Que não faz mal a ninguém.
Vamos sair a cavalo,
Pacíficos, desarmados:
A ordem acima de tudo,
Como convém a um soldado.
Vamos fazer a República,
Sem barulho, sem litígio,
Sem nenhuma guilhotina,
Sem qualquer barrete frígio.
Vamos com farda de gala,
Proclamar os tempos novos,
Mas cautelosos, furtivos,
Para não acordar o povo.
José Paulo Paes, em O Melhor Poeta da Minha Rua
13/03/2026
Canção sensata
Dora, que importa
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
Se livres seguimos
O rastro dos faunos,
A voz das sereias?
Dora, que importa
A herança do avô
Sob a pedra, nua,
Se do ar colhemos
Moedas de sol,
Guirlandas de lua?
Dora, que importa
Esse frágil muro
Que defende os cautos,
Se além do pequeno
Há horizontes loucos,
De que somos arautos?
De maior beleza
É, pois, nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta.
José Paulo Paes, em Antologia Poética
01/03/2026
O poeta, ao espelho, barbeando-se
o rito
do dia
o rictus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
olho
por olho
dente
por dente
ruga
por ruga
EU?
UE?
o fio
da barba
o fio
da navalha
a vida
por um fio
EU?
UE?
mas a barba
feita
a máscara
refeita
mais um dia
aceita
EU
EU
José Paulo Paes, em Antologia Poética
25/02/2026
Poema Circense
Atirei meu coração às areias do
circo como se atira ao
mar uma âncora aflita. Ninguém bateu
palmas.
O trapezista sorriu, o leão
farejou-me desdenhosamente,
o palhaço zombou de minha sombra
fatídica.
Só a pequena bailarina compreendeu.
Em sua mãos
de opala, meu coração refletia as
nuvens de outono,
os jogos de infância, as vozes
populares.
Depois de muitas quedas, aprendi. Sei
agora vestir,
com razoável destreza, os risos da
hiena, a frágil polidez
dos elefantes, a elegância marinha
dos corcéis.
Todavia, quando as luzes se apagam,
readquiro antigos
poderes e voo. Voo para um mundo sem
espelhos falsos,
onde o sol devolve a cada coisa a
sombra natural
e onde não há aplausos,
porque tudo
é justo, porque tudo é bom.
José Paulo Paes, em Melhores poemas
09/12/2024
Muriliana
Corto
a cidade, as máquinas e o sonho
Do
jornaleiro preso no crepúsculo.
Guardo
as amadas no bolso do casaco.
Almoço
bem pertinho do arco-íris,
Planto
violetas na face do operário.
Conversando
com anjos e demônios,
É
o meu anúncio quem dirige as nuvens.
José Paulo Paes, em Poesia completa
04/12/2024
Balada
Folha
enrugada,
poeira
nos livros.
A
pena se arrasta
no
esforço inútil
de
libertação.
Nenhuma
vontade,
nem
mesmo desejo
na
tarde cinzenta.
A
árvore seca
esperando
seiva
não
tem paisagem.
Na
frente é o deserto
coberto
de pedras.
Nem
sombra de oásis.
Pobre
árvore seca
na
tarde cinzenta!
Se
houvesse um castelo
com
torres e dama
de
loiros cabelos,
talvez
eu fizesse
algum
madrigal.
Mas
a dama morreu,
os
castelos se foram
na
tarde cinzenta!
O
caminho se alonga
por
entre montanhas,
por
campos e vales.
Talvez
me conduza
ao
roteiro perdido
no
fundo do mar.
Mas
estou tão cansado
na
tarde cinzenta!
Não
sou lobo da estepe;
amo
a todos os homens
e
suporto as mulheres.
Contudo
não posso
falar
com os lábios,
amar
com o sexo,
porque
sinto a tortura
da
tarde cinzenta!
Só
me restam os livros.
Vou
ficar com eles
esperando
que chegue
do
fundo da noite,
das
sombras do tempo,
oh!
imenso mar,
vem
me libertar
da
tarde cinzenta!
José Paulo Paes, em Poesia completa
29/11/2024
O engenheiro
O
homem trabalha
entre
a rosa e o trânsito.
Ondas
contínuas no seu dorso
de
pedra e nuvem.
Martelos.
No
papel intacto há linhas,
fundamentos
de aurora, estrutura
de
um mundo pressentido, linhas.
As
rosas se dividem
por
canteiros iguais
e
um pássaro
pousou
no arranha-céu.
Quando
o engenheiro terminar
o
sentimento e a planta,
mãos
frescas como folhas
virão
sobre o meu corpo.
José Paulo Paes, Poesia completa
22/11/2024
O homem no quarto
Teu
protesto inútil,
tuas flores murchas,
teu violino fácil,
tua vontade escassa,
São frutos humildes,
são folhas perdidas
que um sapato esmaga
nascendo da sombra.
Caminhas sem rumo
por todas as ruas,
não rasgas um livro
nem matas o amigo.
Cumprimentas mesmo
com a garganta seca,
gestos tão longe
que ninguém esboça.
Meu coitado amigo…
prende a tua mão
antes que ela entorne
a copa de sangue.
Teus irmãos constroem
no ar atmosférico
com pedras e luzes
um berço pouco a pouco.
Não podes manchá-los
de sangue hesitante
nem deves turbar
o ritmo da aurora.
Acende o cachimbo,
eis uma poltrona.
Começa a vigília
sem impaciência,
Até que outros braços,
redentoras asas,
venham colocar
um lírio muito branco
na página e no verso
do teu melhor poeta…
tuas flores murchas,
teu violino fácil,
tua vontade escassa,
São frutos humildes,
são folhas perdidas
que um sapato esmaga
nascendo da sombra.
Caminhas sem rumo
por todas as ruas,
não rasgas um livro
nem matas o amigo.
Cumprimentas mesmo
com a garganta seca,
gestos tão longe
que ninguém esboça.
Meu coitado amigo…
prende a tua mão
antes que ela entorne
a copa de sangue.
Teus irmãos constroem
no ar atmosférico
com pedras e luzes
um berço pouco a pouco.
Não podes manchá-los
de sangue hesitante
nem deves turbar
o ritmo da aurora.
Acende o cachimbo,
eis uma poltrona.
Começa a vigília
sem impaciência,
Até que outros braços,
redentoras asas,
venham colocar
um lírio muito branco
na página e no verso
do teu melhor poeta…
José Paulo Paes, em Poesia completa
19/11/2024
Termópilas
Honra
àqueles que Termópilas fixaram
em
suas vidas para as defender.
Que,
jamais se furtando à obrigação,
foram
justos e retos nos seus atos,
mas
condoídos, também, e compassivos;
generosos,
quando ricos; quando pobres,
generosos
ainda com seu pouco,
socorrendo
a quem pudessem; proclamando
sempre
a verdade, embora sem nutrir
ódio
algum por aqueles que mentissem.
E
de mais honra serão merecedores
se
previram (como tantos o fizeram)
que
Efialte finalmente há de surgir,
e
que os medas finalmente passarão.
Konstantinos Kaváfis (tradução de José Paulo Paes)
16/11/2024
O poeta e seu mestre
Tiro
da sua cartola
repleta
de astros,
mil
sobrenaturais
paisagens
de infância.
Sua
bengalinha
queima
os ditadores,
destrói
as muralhas
libertando
os anjos.
Calço
seu sapato
e
eis que percorro
a
branca anatomia
de
pássaros e flores.
Repito
seus gestos
de
amor e renúncia,
de
música ou luta,
de
solidariedade.
Carlitos!
Teu
bigode é a ponte
que
nos liga ao sonho
e
ao jardim tão perto.
José Paulo Paes, em Poesia completa
11/11/2024
O aluno
São
meus todos os versos já cantados:
A
flor, a rua, as músicas da infância,
O
líquido momento e os azulados
Horizontes
perdidos na distância.
Intacto
me revejo nos mil lados
De
um só poema. Nas lâminas da estância,
Circulam
as memórias e a substância
De
palavras, de gestos isolados.
São
meus também, os líricos sapatos
De
Rimbaud, e no fundo dos meus atos
Canta
a doçura triste de Bandeira.
Drummond
me empresta sempre o seu bigode,
Com
Neruda, meu pobre verso explode
E
as borboletas dançam na algibeira.
José Paulo Paes, em Poesia completa
04/11/2024
Madrigal
Meu
amor é simples, Dora,
Como
a água e o pão.
Como
o céu refletido
Nas
pupilas de um cão.
José Paulo Paes, em Poesia completa
31/10/2024
Soneto Quixotesco
Uma
espada qualquer, de qualquer aço,
Um
cavalo de flanco palpitante,
Fortuna
incerta, divagar constante,
Sereno
o rosto, sempre altivo o braço.
No
coração, em mui secreto espaço,
A
figura de Dora, tão distante,
Mas
tão perto, contudo, e tão reinante,
Que
a ela se dedique o menor passo.
Desfeito
o agravo, conjurado o mal,
Novo
caminho, que neste exercício
Nenhum
descanso cabe. E que afinal,
Por
luta valerosa ou alto feito,
Eu
ganhe reino e Dora, mas no peito
Morem
saudades do passado ofício.
José Paulo Paes, em Poesia completa
31/03/2024
Grafito
Neste
lugar solitário
o homem toda a manhã
tem o porte estatuário
de um pensador de Rodin.
Neste lugar solitário
extravasa sem sursis
como um confessionário
o mais íntimo de si.
Neste lugar solitário
arúspice desentranha
o aflito vocabulário
de suas próprias entranhas.
neste lugar solitário
faz a conta doída:
em lançamentos diários
a soma de sua vida.
o homem toda a manhã
tem o porte estatuário
de um pensador de Rodin.
Neste lugar solitário
extravasa sem sursis
como um confessionário
o mais íntimo de si.
Neste lugar solitário
arúspice desentranha
o aflito vocabulário
de suas próprias entranhas.
neste lugar solitário
faz a conta doída:
em lançamentos diários
a soma de sua vida.
José Paulo Paes, in Os melhores poemas de José Paulo Paes
21/03/2024
Um retrato
Eu
mal o conheci
quando
era vivo.
Mas
o que sabe
um
homem de outro homem?
Houve
sempre entre nós certa distância,
um
pouco maior que a desta mesa onde escrevo
até
esse retrato na parede
de
onde ele me olha o tempo todo. Para quê?
Não
são muitas as lembranças
que
dele guardo: a aspereza
da
barba no seu rosto quando eu o beijava
ao
chegar para as férias;
o
cheiro de tabaco em suas roupas;
o
perfil mais duro do queixo
quando
estava preocupado;
o
riso reprimido
até
soltar-se (alívio!)
na
risada.
Falava
pouco comigo.
Estava
sempre
noutra
parte: ou trabalhando
ou
lendo ou conversando
com
alguém ou então saindo
(tantas
vezes!) de viagem.
Só
quando adoeceu e o fui buscar
em
casa alheia
e
o trouxe para a minha casa (que infinitos
os
cuidados de Dora com ele!)
estivemos
juntos por mais tempo.
Mesmo
então dele eu só conheci
a
luta pertinaz
contra
a dor, o desconforto,
a
inutilidade forçada, os negaceios
da
morte já bem próxima.
Até
o dia em que tive de ajudar
a
descer-lhe o caixão à sepultura.
Aí
então eu o soube mais que ausência.
Senti
com minhas próprias mãos o peso
do
seu corpo, que era o peso
imenso
do mundo.
Então
o conheci. E conheci-me.
Ergo
os olhos para ele na parede.
Sei
agora, pai,
o
que é estar vivo.
José Paulo Paes, in Melhores Poemas
29/01/2024
O aluno
São
meus todos os versos já cantados;
A
flor, a rua, as músicas da infância,
O
líquido momento e os azulados
Horizontes
perdidos na distância.
Intacto
me revejo nos mil lados
De
um só poema. Nas lâminas da estância,
Circulam
as memórias e a substância
De
palavras, de gestos isolados.
São
meus também, os líricos sapatos
De
Rimbaud, e no fundo dos meus atos
Canta
a doçura triste de Bandeira.
Drummond
me empresta sempre o seu bigode,
Com
Neruda, meu pobre verso explode
E
as borboletas dançam na algibeira.
José Paulo Paes, in De ontem para hoje
24/10/2023
Cadê
Nossa!
que escuro!
Cadê
a luz?
Dedo
apagou.
Cadê
o dedo?
Entrou
no nariz.
Cadê
o nariz?
Dando
um espirro.
Cadê
o o espirro?
Ficou
no lenço.
Cadê
o lenço?
Dentro
do bolso.
Cadê
o bolso?
Foi
com a calça.
Cadê
a calça?
No
guarda-roupa.
Cadê
o guarda-roupa?
Fechado
a chave.
Cadê
a chave?
Homem
levou.
Cadê
o homem?
Está
dormindo
de
luz apagada.
Nossa!
que escuro!
José Paulo Paes, in Antologia Poética
16/10/2023
Gato da China
Era
uma vez
um
gato chinês
que
morava em Xangai
sem
mãe e sem pai,
que
sorria amarelo
para
o Rio Amarelo,
com
seu olhos puxados,
um
pra cada lado.
Era
um gato mais preto
que
tinha nanquim,
de
bigodes compridos
feito
mandarim,
que
quando espirrava
só
fazia “chin!”
Era
um gato esquisito:
comia
com palitos
e
quando tinha fome
miava
“ming-au!”
mas
lambia o mingau
com
sua língua de pau.
Não
era um bicho mau
esse
gato chinês,
era
até legal.
Quer
que eu conte outra vez?
José Paulo Paes, in Antologia Poética
20/05/2023
Convite
Poesia
é
brincar com palavras
como
se brinca
com
bola, papagaio,pião.
Só
que
bola,
papagaio,pião
de
tanto brincar
se
gastam.
As
palavras não:
quanto
mais se brinca
com
elas
mais
novas ficam.
como
a água do rio
que
é água sempre nova.
como
cada dia
que
é sempre um novo dia.
Vamos
brincar de poesia?
José Paulo Paes, in Antologia Poética
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