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10/08/2025

INRI

 


Senhor, não voltes,
pois serás crucificado
novamente,
não pelos descrentes
e ateus,
mas pelos
supostamente teus.

Elilson José Batista, em Sal da Palavra

01/02/2023

Ceia | Dia 25 de dezembro de 2008

Há muitos anos, nada menos que em 1993, escrevi nos Cadernos de Lanzarote umas quantas palavras que fizeram as delícias de alguns teólogos desta parte da Ibéria, especialmente Juan José Tamayo, que desde aí, generosamente, me deu a sua amizade. Foram elas: “Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio”. Reconheça-se que a ideia não está mal formulada, com o seu quantum satis de poesia, a sua intenção levemente provocadora e o subentendido de que os ateus são muito capazes de aventurar-se pelos escabrosos caminhos da teologia, ainda que a mais elementar. Nestes dias em que se celebra o nascimento do Cristo, outra ideia me acudiu, talvez mais provocadora ainda, direi mesmo que revolucionária, e que em pouquíssimas palavras se enuncia. Ei-las. Se é verdade que Jesus, na última ceia, disse aos discípulos, referindo-se ao pão e ao vinho que estavam sobre a mesa: “Este é o meu corpo, este é o meu sangue”, então não será ilegítimo concluir que as inumeráveis ceias, as pantagruélicas comezainas, as empanturradelas homéricas com que milhões e milhões de estômagos têm de haver-se para iludir os perigos de uma congestão fatal, não serão mais que a multitudinária cópia, ao mesmo tempo efectiva e simbólica, da última ceia: os crentes alimentam-se do seu deus, devoram-no, digerem-no, eliminam-no, até ao próximo natal, até à próxima ceia, ao ritual de uma fome material e mística sempre insatisfeita. A ver agora que dizem os teólogos.

José Saramago, in O caderno

09/12/2021

A virgem em todas as mulheres

Toda mulher, ao saber que está grávida, leva a mão à garganta: ela sabe que dará à luz um ser que seguirá forçosamente o caminho de Cristo, caindo na sua via muitas vezes sob o peso da cruz. Não há como escapar.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

23/05/2019

A deserção do Cristo

Não admiro os profetas, bem como os fanáticos religiosos, que nunca duvidaram de sua missão ou de sua fé. Eu meço o valor dos profetas de acordo com sua capacidade de duvidar, com a frequência de seus momentos de lucidez. Ainda que somente a dúvida lhes torne verdadeiramente humanos, ela é, neles, mais perturbadora do que nos outros homens. O resto não passa de intransigência, sermão, moral e pedagogia. Eles pretendem instruir aos outros, conceder-lhes salvação, revelar-lhes a via da verdade e mudar seu destino, como se suas certezas valessem mais do que as de seus discípulos. O critério da dúvida só permite distinguir os profetas dos maníacos. Entretanto, quando eles duvidam, não é acaso um pouco tarde? Aquele que se sabia filho de Deus somente duvidou nos últimos instantes: pois o Cristo hesitou verdadeiramente apenas uma vez, não na montanha, mas preso na cruz. Estou persuadido de que Jesus então invejou o destino do mais anônimo dos homens e que, se pudera, ele teria se retirado para o canto mais obscuro da terra, onde ninguém mais poderia exigir-lhe esperança ou redenção. Pode-se imaginar que, deixado sozinho com os soldados romanos, ele lhes tenha implorado para retirar os pregos e descê-lo, a fim de poder fugir para longe, onde o eco dos sofrimentos humanos não mais o atingiria. Não que o Cristo tenha subitamente cessado de acreditar em sua missão - ele sustentava muito de iluminado para se tornar cético -, mas é muito mais difícil morrer pelos outros do que por si mesmo. Jesus suportou a crucificação, consciente de que somente o sacrifício de si faria sua mensagem triunfar.
Assim são os homens: para que eles acreditem em nós, devemos renunciar a tudo o que nos pertence, e depois a nós mesmos. Eles exigem nossa morte como garantia da autenticidade de nossa fé. Mas por que eles admiram as obras escritas com sangue? Porque esta distancia-lhes do sofrimento, ou ainda, concede-lhes uma ilusão. Eles querem encontrar sangue e lágrimas atrás de nossos ditos. A admiração do povo é feita de sadismo.
Se Jesus não tivesse sido morto na cruz, o cristianismo jamais poderia ter triunfado. Os mortais duvidam de tudo - à exceção da morte. A do Cristo constituiu, então, a seus olhos, a suprema certeza, a prova-mestra da validez dos princípios cristãos. Jesus poderia ter facilmente escapado da crucificação, ou sucumbido às sedutoras tentações do diabo. Quem não pactua com o diabo não tem nenhuma razão para viver, pois ele exprime simbolicamente a vida melhor do que o próprio Deus. Se eu lamento algo, é que o diabo tenha tão pouco me tentado... Mas Deus também não se preocupou particularmente comigo. Os cristãos nunca entenderam que Deus está mais longe dos homens do que eles mesmos estão de Deus. Imagino perfeitamente um Deus exasperado pela trivialidade da sua Criação, aborrecido da terra e dos céus. Vejo-o lançar-se em direção ao nada, assim como Jesus deixando sua cruz...
O que teria acontecido, então, se os soldados romanos tivessem dado ouvidos à súplica de Jesus, se eles o tivessem des-crucificado e o deixado partir? Não seria certamente para pregar sua fé que ele teria ido ao outro lado do mundo, mas para morrer sozinho, longe das lágrimas e da compaixão dos homens. Ainda que, por acaso, Jesus não tenha implorado aos soldados sua liberação, não posso deixar de pensar que esta ideia lhe tenha aflorado. Ele se cria seguramente o filho de Deus, mas isto não o impediu, uma vez confrontado pelo sacrifício, de duvidar e de temer a morte. Durante a crucificação, ele deve ter conhecido momentos em que, se ele não duvidou de ser o filho de Deus, ele ao menos lamentou sê-lo.
É bastante possível que o Cristo tenha sido na realidade um personagem bem menos complicado do que nós o imaginamos - que ele tenha tido menos dúvidas e menos pesares. Pois ele somente as teve, quanto à sua ascendência divina, no limiar da morte. Nós temos, nós humanos, tantas dúvidas e pesares que nenhum de nós poderia mais se acreditar o filho de Deus. Eu detesto em Jesus tudo o que é sermão, moral, promessa e certeza. O que eu admiro nele são seus momentos de hesitação - os instantes realmente trágicos da sua existência, que não me parecem, ainda assim, nem os mais importantes, nem os mais os mais dolorosos que se possa imaginar. Pois, se o sofrimento devia servir como critério, quantos não teriam o direito de se considerar, ainda mais do que Jesus, o filho de Deus?
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

09/05/2018

O caráter de Cristo

Agora, quero falar algumas palavras a respeito de um assunto que, na minha opinião, não é tratado com a frequência adequada pelos racionalistas, isto é, a questão de averiguar se Cristo foi mesmo o melhor e mais sábio dos homens. Geralmente partimos do princípio de que todos concordamos nesse ponto. Eu não concordo. Penso que existem diversos bons pontos em que concordo mais com Cristo do que o fazem os cristãos assumidos. Não sei se poderia concordar com Ele até o fim, mas poderia ir bem mais longe do que a maior parte dos cristãos assumidos o faz. Todos se lembrarão de Suas palavras: “Não resistas ao mau, mas, se alguém te ferir na tua face direita, apresenta-lhe também a outra”. Esse não é um novo preceito nem um novo princípio. Foi usado por Lao-Tsé e por Buda cerca de quinhentos ou seiscentos anos antes de Cristo, mas não é um princípio que de fato os cristãos aceitem. Não tenho dúvidas de que o atual primeiro-ministro 14 , por exemplo, seja um cristão dos mais sinceros, mas não aconselharia a nenhum dos senhores ir até lá ferir-lhe a face. Penso que os senhores podem perceber que o pensamento neste texto tem sentido figurado.

Ademais, há outro ponto que considero excelente. Todos se lembrarão de que Cristo disse: “Não julgueis para que não sejais julgados”. Não penso que esse princípio deva ter sido muito popular nos tribunais dos países cristãos. Já conheci na vida um bom número de juízes que eram cristãos muito convictos, e nenhum deles acreditava estar agindo de maneira contrária aos princípios cristãos em sua profissão. Então Cristo diz: “Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes”. Esse é um princípio muito bom.

Como o presidente desta sociedade observou, não estamos aqui para falar de política, mas não posso me furtar a observar que a última eleição geral foi disputada em cima da questão de como é desejável afastar-se daquele que deseja que lhe emprestemos, de modo que é necessário partir do princípio de que os liberais e os conservadores deste país se compõem de pessoas que não acreditam nos ensinamentos de Cristo, porque certamente afastaram-se deles com muita ênfase naquela ocasião.

Há ainda uma máxima de Cristo que, penso, tem grande importância intrínseca, mas que não vejo fazer muito sucesso entre alguns dos nossos amigos cristãos. Ele diz: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres”. Essa é uma máxima realmente excelente, mas, como digo, não muito praticada. Todas essas, creio, são boas máximas, apesar de serem um pouco difíceis de cumprir. Não professo que eu mesmo as cumpra; mas, afinal de contas, não é essa a mesma coisa que seria para um cristão.

Bertrand Russell, in Por que não sou cristão

07/08/2017

Necessidade de alegria

O ator que fazia o papel de Cristo no espetáculo de Nova Jerusalém ficou tão compenetrado da magnitude da tarefa que, de ano para ano, mais exigia de si mesmo, tanto na representação como na vida rotineira.
Não que pretendesse copiar o modelo divino, mas sentia necessidade de aperfeiçoar-se moralmente, jamais se permitindo a prática de ações menos nobres. E exagerou em contenção e silêncio.
Sua vida tornou-se complicada, pois os amigos de bar o estranhavam, os colegas de trabalho no escritório da Empetur (Empresa Pernambucana de Turismo) passaram a olhá-lo com espanto, e em casa a mulher reclamava do seu alheamento.
No sexto ano de encenação do drama sacro, estava irreconhecível. Emagrecera, tinha expressão sombria no olhar, e repetia maquinalmente as palavras tradicionais. Seu desempenho deixou a desejar.
Foi advertido pela Empetur e pela crítica: devia ser durante o ano um homem alegre, descontraído, para tornar-se perfeito intérprete da Paixão na hora certa. Além do mais, até a chegada a Jerusalém, Jesus era jovial e costumava ir a festas.
Ele não atendeu às ponderações, acabou destituído do papel, abandonou a família, e dizem que se alimenta de gafanhotos no agreste.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

08/10/2015

A Bíblia, sem intermediários

“O magistério da Igreja me enerva. Prefiro eu mesma ler a Bíblia e pensar do que leio o que me parece certo pensar, quero eu mesma me inteirar das boas novas, sem nenhum padre de voz tenorino gripado me ensinando incoerências, subestimando minha inteligência e repetindo baboseiras inventadas, semelhantes à desfaçatez de afirmar que no Pentateuco há mandamentos como guardar castidade, que os homens santos não batizados foram para um tal de limbo e tantas outras criações conciliares, já lia Bíblia de cabo a rabo e nunca vi nada disso nela. E por que também não observam o que também está lá, no Levítico? Fingem que não está. E o Papa é vigário de Cristo? Certos papas, todos infalíveis e tantos safados? Enfim. Não vou falar mais nisso, perda de tempo.”
João Ubaldo Ribeiro, in A casa dos budas ditosos

27/09/2013

O cálice

“É preciso ter um espírito indignado, aberto à comiseração. Eu escrevi aqui na prisão tudo o que aprendi, senão lembraria mais alguma coisa. E Cristo? Cristo respondia à realidade chorando, sorrindo, entristecendo-se ficando furioso e até angustiando-se; não foi com um sorriso que Ele caminhou ao encontro dos sofrimentos e não desprezou a morte, mas rezou no Jardim de Getsemani, pedindo para evitar o cálice: 'Meu Pai, se é possível, afasta de mim esse cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como Tu queres.' (Matheus, XXVI, 39)"
Tchekhov, in Enfermaria n° 06

29/10/2012

A um crucifixo


Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!

Por que morreu sem eco, o eco de teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojaras de novo à campa os membros lassos...

Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...

E agora, como então, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar — de que serviu o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário? —
Antero de Quental, in Sonetos