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06/11/2024

Relendo Rilke (e com direito a Jorge Amado)

Ao som das canções de Sarah Vaughan, dei ultimamente – embora já dele tão distanciado por tantas e tão grandes causas – de reler o poeta Rainer Maria Rilke. Andei folheando as Cartas a um jovem poeta, os Sonetos a Orfeu e algumas Elegias de Duíno. E o que tenho a dizer é o seguinte: poucos seres tão poéticos nasceram nunca de uma mulher. Pouquíssimos, como esse Grande Enfermo, viveram tanto em poesia e se abandonaram mais fundamente, náufrago irremediável, à avidez de suas águas onde o esperava o indizível abandono.
Nunca vida humana fechou-se mais completamente dentro de uma mística. Chega a ser impressionante. Rilke passou, como aquele “afogado pensativo”, a descer os “azuis verdes” dos céus e dos rios que a visão de Jean-Arthur Rimbaud confundiu no seu poema “Le Bateau ivre”. O poeta viveu em transe poético constante, amargurando seu espírito contra todos os temas da Vida, do Amor e da Morte, a que piedosamente amou como uma única entidade.
Sua simplicidade como poeta nasce dessa longa tortura lírica de ver a morte como um amadurecimento da vida, numa total compensação. Rilke acreditava que a morte nasce com o homem, que este a traz em si tal uma semente que brota, faz-se árvore, floresce e frutifica ao se despojar do seu alburno humano. Seus poemas menores vencem lentamente todos esses “graus do terrível”, num crescimento espontâneo para a grande enflorescência, de onde penderão os melhores frutos, desejosos de renovação na terra.
Em 1910 Rilke terminava os seus famosos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde contou, com uma beleza raras vezes alcançada em prosa, a história elegíaca da destruição de um ser votado à fatalidade irremediável da mágoa. Porque é mágoa, mais que angústia, o que colhemos dessa narrativa: a mágoa do mal-entendido humano, o solilóquio desolador do homem desajustado à vida. A qualidade do sofrimento que lhe vem dessa torturante criação, como que lhe afina ainda mais a sensibilidade, já de si tão aguçada para todos os sussurros da poesia. O poeta pena, como penou por um momento o Cristo, da coexistência íntima da dúvida e da certeza, enquanto vagueia, morbidamente enfraquecido pela doença, pelos lugares que mais ama na Europa: Paris, a Rússia e os países escandinavos, intermitentemente.
Em fins de 1911, instado pelos príncipes de Tour e Taxis, Rilke vai passar sozinho o inverno no Castelo de Duino. Um belo dia de janeiro, passeando às bordas de um penhasco sobre o Adriático, diz ter ouvido no vento o mistério de uma voz que lhe dizia: “Quem, se eu gritasse, me ouviria em meio à hierarquia dos anjos?” Eriçado, e ao mesmo tempo atônito com o milagre dessas palavras que lhe surgiam com a própria poesia desejada, o poeta as anotou e, nesse mesmo dia, escrevia o primeiro movimento desse bloco sinfônico a que chamou Elegias de Duíno. Tão temperados se achavam nele os motivos da obra em perspectiva que, em poucos dias, escrevia a segunda da série e o começo de quase todas as outras.
Mas o impulso cessou. Por dez anos Rilke calou-se, à espera de que nele as palavras encontrassem seu lugar exato no grande puzzle poético que se desencadeara. Em Paris, na Espanha e em Munique acrescentou fragmentos a algumas das elegias, sofrendo terrivelmente da descontinuidade com que a poesia se revelava. E não seria senão depois da Primeira Grande Guerra, no seu refúgio da Suíça, em Muzot, que num sopro de criação poucas vezes igualado, só comparável talvez a certos instantes de música e de pintura em Miguelangelo e Beethoven, escreveria em três semanas as oito elegias restantes, Os 55 Sonetos a Orfeu e vários outros poemas a que chamou Fragmentarishes. Fora o último espasmo de vida nesse eterno, sereno moribundo. A Morte, sua amiga, desobjetivava-o poucos anos depois, como “um rio que leva”. Rilke recusou o médico: queria morrer a sua morte.
Mas, depois, o mal-estar em que me deixou essa combinação de Rilke e Sarah Vaughan... Foi quando tive a boa ideia de ler tua novela A morte e a morte de Quincas Berro D'água, Jorge. Que mortes tão diferentes... Que beleza, Jorge, que beleza!

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

12/09/2023

Seara Vermelha | 6


Os sons da harmônica silenciavam os grilos pelo atalho. No grupo – vários homens, algumas mulheres – também silenciaram as conversas, os comentários, as risadas. Bastião começara a tocar. Era antiga e passada de moda a polca, aquele fim de mundo as coisas chegavam com muito atraso, as músicas também. Se o dr. Aureliano morasse na casa-grande talvez houvesse por lá um rádio de bateria mas o fazendeiro residia no Rio, onde se formara e tinha interesses comerciais. O coronel Inácio durante anos fizera projetos de comprar um mas ficara satisfeito com o velho gramofone de segunda mão que um sírio mascate lhe empurrara e que não tardou a quebrar a mola. Enquanto esteve funcionando sinhá Ângela passava horas inteiras, quando não estava mandando as negras na cozinha, dando corda na máquina e tocando os três únicos discos nos quais Caruso cantava trechos de ópera. Terminara pelos cantos da casa, coisa inútil, de difícil conserto. “Dinheiro jogado fora”, concluía o coronel Inácio olhando a máquina agora apenas decorativa na sala de moveis pesados da casa-grande.
Além do gramofone toda a música resumia-se nas harmônicas, nos violões e nos cavaquinhos dos colonos e trabalhadores. Perto da fazenda morava Pedro da Restinga, cego violeiro afamado, cantador de desafios, e nos tempos do coronel Inácio ele costumava vir a casa-grande nos dias de festa, tirar trovas na viola, para deleite do velho fazendeiro. Mas todas essas coisas eram do passado, depois que Inácio e Ângela morreram Pedro da Restinga teve suspensa sua conta no armazém – conta que ele não pagava nunca, espécie de esmola que o coronel lhe dava. Tinha direito de comprar toda semana feijão e farinha, uma garrafa de cachaça e um pedaço de carne-seca. Era anotado no livro mas todos já sabiam que não era para pagar, ele pagava era com suas trovas, seus versos na viola, suas rimas em ao, suas tiradas que faziam Inácio rir. Aureliano nada dissera sobre a conta de Pedro da Restinga e Artur – que passou a habitar na casa-grande – a cortou no primeiro sábado. Aquilo foi a causa inicial da antipatia que lhe votavam os trabalhadores e os colonos. No entanto Artur não se sentia culpado, ate lembrava que poderia ter cobrado a dívida que se tornara enorme no correr dos anos. Pedro da Restinga deixara de vir a fazenda e na feira do arraial – onde brilhava com sua viola e sua cuia de esmolas – cantara umas trovas onde dizia o que pensava sobre Aureliano e Artur:

Esmola pro pobre cego
que perdeu seu de comer…
........................................…
Seu Inácio era homem bom,
Don'Ana melhor não ha.
Na viola eu busco um tom
Pra sua bondade louvar.
O filho não lhe puxou
A bondade sem igual.
Em doutor já se formou
Mas aos pobres só faz mal…
Ruim que nem Satanás
Homem de mau coração,
E Artur, seu capataz
Incapaz de u'a boa ação
................................
Esmola pra um pobre cego
que perdeu seu de comer...”

Já Bastião não perdera seu pedaço de terra, aquele com que Inácio o presenteara em certa festa, contente de ter em sua fazenda um tocador de harmônica como ele. Quando do inventário, Aureliano demorara-se na fazenda e ao partir dera suas ordens. Artur lhe perguntara:
E Bastião?
O que e que ha com Bastião?
O negro estava perto, se aproximou:
Seu coronel me deu o pedaço de terra onde tá minha rocinha... – e começou a contar a história.
Mas Aureliano que ainda estava sob a emoção da morte quase simultânea dos pais, o interrompeu:
Fica com tua terra, negro.
Bastião teve vontade de pedir que ele botasse a coisa no papel. Ao velho Inácio não sentira necessidade de fazer tal pedido. A palavra do coronel era uma só, não voltava atrás. Não pediu, no entanto. Teve receio de ofender o doutor, deixou para outra vez. Vez que nunca chegou pois Aureliano deixara-se, ficar pelo Rio, era Artur quem fazia e desfazia na propriedade. Velha polca suficiente para alegrar os que iam no grupo, cercando Bastião, já no gozo da festa. Os pés do negro que levava o cavaquinho moviam-se na estrada como se ele bailasse no ritmo daquela polca antiga. O sarara conduzia um violão, mas não tocavam, nem um nem outro, porque era mestre Bastião quem estava com a harmônica e seu nome era respeitado, tocador que se lhe comparasse não havia por ali. Sua carapinha começava a embranquecer, seus dedos já não eram tão ágeis no teclado como antigamente, mas continuava igual à sua resistência, tocando noites inteiras, quanto mais bebia melhor. Os sons da polca rolavam sobre os matos e sobre os grilos, as estrelas enchiam o céu de lua cheia. Havia uma beleza densa pelos campos mas os homens nem reparavam nela, seus pensamentos estavam na festa e andavam depressa. Mais depressa que todos ia o negro do cavaquinho, vontade de apertar, nas voltas da dança, o corpo de Marta batendo os pés no chão de barro. Ia mais rápido que todos no seu passo de baile que tornava leve e elegante seu corpo enorme, seus disformes pes. Voltearia Marta ao som da música de Bastião, seria uma noite gloriosa, cabrocha bonita como aquela Deus não pusera outra no mundo. E os sons rolavam e, levados pela brisa vespertina, eram ouvidos, como um insistente e alegre convite, nas casas todas da fazenda. No silêncio em torno vibrava a harmônica nas mãos sabias de Bastião, anunciando a festa do casamento de Cosme e Teresa.
Era noite de alegria na fazenda. Não havia homem ou mulher, solteiro, casado ou amigado, que não estivesse contente, que não se reparasse para palmilhar os caminhos da casa de Ataliba. Só Gregório mastigava em silêncio sua carne-seca com pirão de água fria, pensando no milharal que ia plantar, enquanto Militão, de botinas rangedeiras, partia para a festa, o cabelo alisado a forca de brilhantina de 500 réis a lata. Também Zefa, soturna em frente aos seus santos que uma lamparina iluminava, tinha o pensamento distante da festa do casamento. Não eram festas que ela enxergava com seus olhos de medo, não eram acontecimentos felizes, não eram boas notícias as que ela tinha para dar. Via coisas terríveis, enxergava desgraças indescritíveis.
Mas eram os únicos, Zefa, Jucundina e Gregório, que não tinham o pensamento na festa e não se preparavam para ela. Os demais ou já tinham partido ou estavam trocando de roupa, lavando os pés, para ser mais fácil calçar as botinas. Só os três não ouviam os sons convidativos da harmônica que chegavam do atalho e enchiam a noite da fazenda. Porque ate os grilos silenciavam para escutar a música daquela polca. Era Bastião quem tocava e nenhum tocador como ele, ai nenhum!

Jorge Amado, in Seara Vermelha

29/08/2023

Seara Vermelha | 5


Talvez em toda a fazenda fossem Zefa e a velha Jucundina as únicas pessoas que naquele crepúsculo não pensavam na festa da noite, em casa de Ataliba. O próprio Gregório, que vinha curvado sob o peso do saco de milho, não podia deixar de se recordar que era o dia da festa, pois tinha visto quando os noivos voltavam, junto com Ataliba, Joana e mais alguns, do povoado onde haviam ido se casar. Gregório não desejava ser visto e se escondeu na capoeira para deixá-los passar. Cosme, que era o noivo, cego de um olho, levava os sapatos na mão, naturalmente arrancara-os na estrada. Dava o braco a Teresa e riam os dois, felizes, enquanto atrás ia um converseiro animado sobre a festa:
Bastião é home de palavra. Diz que vinha, vem mesmo... – era Ataliba que afirmava para um dos que iam com ele. Gregório conhecia Bastião, o tocador de harmônica mais afamado daquelas cinco léguas. Não era a toda festa que ele vinha. Fazia-se de rogado, dava desculpas – doença, trabalho, cansaço – mas festa sem ele perdia metade da animação. Enquanto o grupo passava, Gregório desejou que Bastião estivesse presente. Alias em festa em casa de Ataliba ele ia sempre e tocava a noite toda. Gregório desejava que Bastião estivesse presente não porque pretendesse ir a festa, não iria. Mas gostava de Ataliba e sabia que o velho festeiro sofreria muito com a ausência do tocador. Afinal era rara uma festa por aquelas bandas e quando havia uma não se comentava outra coisa muitos dias antes e muitos dias depois.
O bando ia longe, Gregório voltou a fazer o seu caminho, o saco as costas, furtando-se aos olhares, evitando passar pela estrada real. E ia pensando na festa, em Ataliba, em Cosme, em Teresa. Bonita cabrocha. Ele mesmo, Gregório, andara de olho nela quando chegara por ali e ela era ainda meninazinha, apenas botando os peitos mas já de sorriso fácil e interesseiro. Porem Gregório tinha outros projetos, não era tempo ainda de trazer mulher para casa. Era um caboclo forte e decidido, de rosto sombrio onde as grandes sobrancelhas fechavam-se sobre olhos pequenos. Casar só quando tivesse terra sua, com escritura passada no cartório, e era para consegui-la que trabalhava dia e noite, sem descanso. Enquanto Militão, que era seu socio no plantio da roca, gastava o saldo com as mulheres do arraial ou comprando presentes para a noiva, em cachaça ou em festas, Gregório guardava seu dinheiro e naqueles cinco anos já havia juntado algum. Comprar um pedaço de terra era tudo o que desejava.
Gregório deu um jeito nas costas, soltou o saco de milho no terreiro em frente a casa de barro batido. Frangas se agitaram inquietas na goiabeira onde se haviam empoleirado. Gregório espiou pela porta aberta da casa, Militão não chegara ainda. Voltou-se então para a estrada e assoviou. A resposta veio entre o mandiocal e ele distinguiu o vulto de Militão que vinha andando com a foice ao ombro. Sentou-se em cima do saco de milho e esperou. Havia no seu rosto fechado um quase sorriso como alguém que houvesse regressado triunfante de uma luta difícil.
Militão era um mulato alto e sorridente, andava descansado. Colocou a foice em pé, arrimada contra a parede da casa, acocorou-se ao lado de Gregório e seu primeiro comentário foi sobre a festa:
Ta u'a animação que nunca vi igual...
Gregório não respondeu e só então Militão reparou no saco de milho. Admirou-se:
Arranjou, hein?
O sorriso abriu-se de todo no rosto de Gregório. Ainda assim era um sorriso pequeno que logo desapareceu:
Não disse... Oito mil-réis mais barato... Valeu a pena...
Ninguém viu?
Me enfiei pela capoeira, até cortei os pés nos espinhos. Não encontrei alma vivente... E Leocádio não vai piar que ele não é besta...
Militão riu, boca sem dentes, escancarada:
Oito mil-réis... Valeu a pena... Só que se Artur desconfiar e capaz até...
Capaz de que?
De botar a gente pra fora...
As sombras do crepúsculo caiam sobre os dois homens, Gregório levantou-se de cima do saco de milho, aproximou-se de Militão. Frangas pularam da goiabeira, vieram beliscar o saco, Militão tangeu-as com um pé:
Sai, dianho...
Gregório olhou o mandiocal que se estendia além do terreiro, em derredor da casa:
Vou te dizer uma coisa, Militão – agora nem um resto de sorriso em seu rosto novamente fechado e sombrio. -- Nem a polícia me bota pra fora daqui...
Militão suspendeu os olhos, fitou o companheiro, viu a decisão estampada no seu rosto. Estendeu os bracos como se aquela decisão pouco importasse ante o fato indiscutível:
E só ele querer... A terra e mesmo do doutor Aureliano...
Gregório olhava o mandiocal vicejante, sobre o qual boiavam as sombras crepusculares:
Mas a mandioca e de nos dois... Quem derrubou a mata e rocou a capoeira? Isso aqui tava mesmo abandonado.
Tangeu as galinhas que teimavam junto ao saco de milho.
E em junho vai ta um milharal de dá gosto...
Bateu com a mão sobre o saco de milho novamente, um sorriso cortou seu rosto fechado:
Se Artur desconfiasse ficava se mordendo de raiva...
Eram obrigados a comprar no armazém da fazenda. Fora Militão nas suas andanças em busca de festa quem descobrira que poderiam comprar milho para o plantio bem mais barato se o fizessem em mãos de Leocádio. E quando contara a Gregório logo este se decidiu:
Vou comprar na mão dele. Artur que se dane...
Gregório não era de muitas palavras mas poucos como ele para o trabalho. Chegara ali fazia cinco anos, antes fora tropeiro numa outra fazenda. Como aparecera sem parentes nem aderentes corriam diversas histórias sobre seu passado, falavam em mortes, em homens assassinados a faca num barulho, mas era tudo vago e inconsistente. Militão também andava buscando trabalho, a seca o atirara para aquelas bandas, e os dois haviam conseguido o arrendamento daquela capoeira onde existia ainda um resto de mata, terreno considerado ruim pela maioria. Estava num dos extremos da fazenda, e o coronel Inácio, quando ainda era vivo, nunca plantara por ali. Gregório entendia de terra e quando Artur lhe propôs arrendar-lhe aquela capoeira, ele silenciou o protesto de Militão e aceitou de imediato. A principio trabalhavam quatro dias da semana para a fazenda, um de graça conforme mandava o contrato, os outros três para ter com que comprar a carne-seca, o feijão e a farinha. No resto da semana caiam de machado e foice na capoeira e na mata. Venderam lenha, plantaram mandioca, todos os anos renovavam o contrato. Agora não havia em toda a fazenda plantação mais bem cuidada e pela redondeza diziam de Gregório que “era um boi para o trabalho”. Enquanto Militão ria e noivava a filha de Afonso, um trabalhador assalariado, Gregório se jogava na roca sem descanso. Para ele não existia nem festa nem dia de domingo. Nunca comprara um par de botinas, roupa nova não possuía, ia ao arraial uma vez na vida, mulher-dama não levava seu dinheiro. E aos que se admiravam de tanto trabalho, Militão explicava que Gregório queria comprar aquele pedaço de terra, aquele ou outro qualquer onde pudesse dizer que estava em terra sua.
Ainda acaba fazendeiro... – comentavam.
E novamente aquelas histórias incompletas circulavam e aos poucos iam crescendo em detalhes, a fama de Gregório aumentando, novas valentias e malvadezas incorporando-se as narrações. O próprio Artur tinha-lhe um certo respeito e raramente discutia com ele, tratava-o nas palmas da mão e mais de uma vez lhe oferecera o lugar de ajudante de capataz.
Quando Militão fizera a descoberta do preço do milho, eles debateram longamente as vantagens e desvantagens da compra. Militão achava que não valia a pena arriscar-se, era demasiado perigoso. Existiam leis na fazenda que não estavam escritas mas que todos respeitavam religiosamente e uma delas era a que obrigava colonos e trabalhadores a comprar ali tudo o que necessitassem. Mas Gregório estava disposto e aos poucos foi convencendo Militão. Naquela tarde, apos o almoço, partira pelos atalhos, evitando passar ante a casa-grande, esquivando-se dos encontros.
Vi o pessoal voltando do casamento...
Cosme?
Ele mais Teresa e o veio Ataliba. Mas eles não me viram...
Vai ser um festão... Tu devia de ir...
Porém Gregório já pensava noutra coisa:
Em junho vai tá um milharal vistoso...
Militão levantou-se, arrastou o saco de milho para dentro de casa. Gregório o acompanhou:
Nós precisa falar com João Pedro... Combinar pra nóis fazer a farinha... A casa de farinha tinha sido levantada por João Pedro e todos os colonos a utilizavam, pagando em farinha ou em dinheiro o uso da prensa e do forno.
Militão concordou:
Hoje na festa eu falo com ele... Ele vai tá com a mulher.
Três pedras num canto formavam o fogão. Numa lata empretecida pelo fogo havia um resto de café da manhã. Gregório enfiou um pedaço de carne-seca num espeto, acendeu o fogo. Pela porta entreaberta entrava a noite que cobria as plantações. As labaredas cresciam no fogão sobre os gravetos. Iluminavam os rostos dos homens. Os primeiros grilos saltavam lá fora e a brisa que corria trouxe para dentro de casa um cheiro familiar de mato e terra. Militão falou:
Faz pirão só pra tu. Vou comer carne de porco na festa... Tu devia vir... Acendeu o fifó, uma luz vermelha se projetou sobre as paredes da casa:
Vou lavar os pés pra botar as botinas...
Andou para os fundos da casa. A voz de Gregório o acompanhou:
Fala com Filinha pra ajudar na farinhada... – Filinha era a noiva de Militão.
Ela e a irmã. A gente pode falar também com Marta, de seu Jeronimo.
Gertrudes pode vir também...
Houve um silêncio, depois Militão veio chegando lá dos fundos, calçado de botinas:
Hoje vou me acabar de tanto dançar...
Parou diante de Gregório que virava a carne no espeto:
Tu não quer vim?
Num vou não...
Tu precisa de vim... Vai ter cachaça à vontade e Bastião vai tocar...
Num vou ir...
Os grilos invadiam o terreiro. A carne chiava nas brasas. Militão murmurava algo sobre a festa, ainda tentando convencer o companheiro a acompanhá-lo. Gregório tomou de uma lata, dirigiu-se para a porta. Ia buscar água para fazer o pirão de farinha. Mas na porta parou, ficou espiando as plantações mal entrevistas na noite que se completara. Voava um vaga-lume perto da goiabeira onde agora as galinhas estavam quietas. Militão ia dizendo qualquer coisa sobre a beleza que a festa prometia ser mas calou-se porque a voz de Gregório atravessava o escuro da porta, ressoava dentro da casa, amedrontadora:
Botar a gente pra fora... Não tem homem que me bota daqui pra fora, eu te digo, Militão... A brisa soprou, a luz do fifó era vacilante, um cheiro de terra enchia a casa:
Nem que eu me desgrace e desgrace um comigo.
Os grilos multiplicavam-se na noite recém-chegada e na lonjura da caatinga uns sons de harmônica cortaram o silêncio.

Jorge Amado, in Seara Vermelha

18/08/2023

Seara Vermelha | 4


A vida era difícil e ruim, metade da farinha, do milho e da batata era para a fazenda, além do dia de trabalho gratuito, obrigatório pelo contrato do meeiro. Mas, nem mesmo as crianças que morriam, as doenças que se sucediam, a falta eterna de dinheiro, nada disso era capaz de entristecer Ataliba. Nascera alegre, amigo de festas e brincadeiras, e assim estava envelhecendo. Mesmo nos anos mais difíceis, mesmo naquele ano da seca quando tudo esturricou e ele ficou endividado ate os cabelos, mesmo então Ataliba festejara o São João, que era o dia do santo de sua mulher, Joana. Nenhuma festa porém se poderia comparar a esta de agora, do casamento de sua filha Teresa com Cosme, um trabalhador que era cego de um olho, motivo por que o conheciam como Cosme Doca. Pela cozinha as mulheres trabalham. Joana, a própria Teresa que tirou os sapatos, despiu o vestido novo com que foi ao arraial se casar, e veio ajudar no preparo do porco, das galinhas, do doce de mamão verde. Vieram mocas e mulheres de outras casas, Marta e Feliciana, Mundinha e Caçula, Dinah e Gertrudes. Vai um movimento pela cozinha, e quando as mulheres, passada a chuva e limpo o céu, deram conta que a noite estava chegando, se alarmaram e redobraram o trabalho.
Ataliba corta lenha para o fogo. As mulheres conversam enquanto trabalham e ate ao colono chegam suas vozes. Ataliba esta feliz. Pouco importa que haja gasto nessa festa todas as economias do ano passado e que ficasse encravado no armazém. Trabalho não lhe metia medo e não ia deixar sua filha casar-se sem festejar o acontecimento e com uma festa que ficasse falada como a melhor da fazenda. Bastião viria tocar e em todas aquelas propriedades em redor, nessa noite, nenhum homem, nenhuma mulher deixaria de vir arrastar os pês e comer seu pedaço de porco, beber seu copo de cachaça a saúde da noiva. Ataliba assovia enquanto corta a lenha. Apesar das cláusulas drásticas do contrato de meeiro, ele tira sempre no fim do ano algum saldo. Comem do que a terra produz, planta seu feijão, seu aipim, sua batata-doce. Se o armazém da fazenda, onde compram o que vestir, não roubasse tanto, ele ate poderia juntar algum dinheirinho para atender a uma doença ou a um ano ruim...
Mário Gomes vem vindo pelo caminho. E cedo para a festa, pensa Ataliba. As mulheres ainda estão na cozinha trabalhando. Mas repara logo que Mário não mudou sequer a roupa. Traz na mão uma garrafa e um saco, deve vir do armazém. Ataliba descansa o machado, fica esperando.
- Bas tardes...
- Nosso Senhor Jesus Cristo lhe de boa tarde...
Mário Gomes arria o saco onde conduz o feijão. Estende a garrafa de cachaça:
- Trouxe pra festa de vosmecê...
Ataliba agradece:
- Leve sua cachaça, seu Mario. Obrigado a vancê mas festa minha, eu faço é cum meu dinheiro...
- Não é pra vosmecê se ofender...
- Num tou ofendido, tou agradecendo a vancê. Mas e que tenho essa quizilia, festa minha não aceito ajuda... Sei que a tenção de vancê é boa, mas leve sua cachaça e depois venha se adivirtir... Mário Gomes silencia um minuto, não esta ofendido com a recusa, ele conhece bem Ataliba. Antes de partir para mudar a roupa, avisa:
- Seu Artur vai vir...
Ataliba abre a boca numa admiração:
- Vai vir? Na festa?
- Inho, sim. Ele mesmo me disse faz minutinho. Às vez a gente se engana, faz mau juízo de um vivente... Eu não ia com esse seu Artur... Tinha ele atravessado aqui... - botava a mão na altura da garganta. - Mas ele não é homem ruim... Botou conversa comigo agora lá no armazém... Não é homem ruim...
Ataliba ainda não acreditava:
- Vai vim?
- Me disse... Não é homem de orgulho...
Levantou o saco onde levava o feijão, completou:
- Cada qual sabe de seus pedaços... As vez o sujeito parece uma coisa e e outra... Cada um padece suas tristezas, as vez e isso que engana a gente... Num e homem ruim, num e... Mesmo antes do vulto de Mário Gomes desaparecer no crepúsculo Ataliba gritava para as mulheres na cozinha: um padece suas tristezas, às vez e isso que engana a gente... Num é homem ruim, num é... Mesmo antes do vulto de Mário Gomes desaparecer no crepúsculo Ataliba gritava para as mulheres na cozinha:
- Sabe da novidade? Seu Artur vai vim...
Agora eram elas que se admiravam:
- Na festa?
- Pois é...
E a voz de Joana, cansada e lenta:
- Vamos trabaiar minha gente, ta tudo ainda atrasado...
Ataliba foi espiar a meia dúzia de foguetes que comprara no arraial para soltar nessa noite. Que importa o dinheiro, comparado com a satisfação que um homem pode ter?
um padece suas tristezas, as vez e isso que engana a gente... Num e homem ruim, num e... Mesmo antes do vulto de Mário Gomes desaparecer no crepúsculo Ataliba gritava para as mulheres na cozinha:
- Sabe da novidade? Seu Artur vai vim...
Agora eram elas que se admiravam:
- Na festa?
- Pois é...
E a voz de Joana, cansada e lenta:
- Vamos trabaiar minha gente, ta tudo ainda atrasado...
Ataliba foi espiar a meia dúzia de foguetes que comprara no arraial para soltar nessa noite. Que importa o dinheiro, comparado com a satisfação que um homem pode ter?
- Sabe da novidade? Seu Artur vai vim…
Agora eram elas que se admiravam:
- Na festa?
- Pois é...
E a voz de Joana, cansada e lenta:
- Vamos trabaiar minha gente, tá tudo ainda atrasado...
Ataliba foi espiar a meia dúzia de foguetes que comprara no arraial para soltar nessa noite. Que importa o dinheiro, comparado com a satisfação que um homem pode ter?

Jorge Amado, in Seara Vermelha

15/08/2023

Seara Vermelha | 3


Tonho estava com treze anos e mal ouvira o grito de Jeronimo abandonara a companhia de Noca, a irmãzinha de sete anos. Correra para o curral, ia ajudar o avô a tirar leite. Ficava segurando o bezerrinho pela corda para que ele não se aproximasse demasiado das tetas da vaca. Depois chegaria a vez da cabra, Noca e Ernesto – o menorzinho – tomavam desse leite, Jucundina afirmava que nada melhor que leite de cabra para criar menino. Tonho gostava daquele trabalho, a vaca era a própria mansidão e por vezes ele a cavalgava, apesar dos ralhos do avô. Brincava também com o bezerrinho, imitava seus mugidos, bulia com o jumento, única das criações que tinha nome, pois se chamava Jeremias e, ao ouvir chamar-se assim, logo vinha no seu passo demorado. Com a chuva, pocas de água suja enchiam a estrada e Tonho pisava em cada uma delas, diversão melhor não podia haver. Espiava para trás, Noca era uma tola que ficava na porta da casa em companhia da gata amarela, a Marisca. Não sabia o bom que era o trabalho no curral, tirar leite, bulir com Jeremias.
Noca estava com medo. Segurava a gata contra o peito magro e sujo. Tonho lhe dissera que naquela noite, que era a da festa de Ataliba, eles iam ficar sozinhos em casa, os dois e mais o pequenininho, e que o bicho viria com certeza e comeria Noca.
Come tu também...
M'iscondo...
E saiu rindo pros lados do curral. Noca se aperta contra Marisca, sua gata, sua amiga, sua boneca, sua onica ternura na casa pobre. Seus olhos amedrontados fitam com amor a gatinha amarela e remelenta. Marisca mia ao aperto da menina e Noca conversa com ela:
Tu fica comigo... Se o bicho vier nóis bota ele pra fora...
Junto de Marisca ela não tem medo. Marisca e valente, da nas galinhas, rosna para o cachorro de tio João Pedro quando ele vem de visita, pula na cerca, até já caçou umas preás pelo campo. E um dia Marisca matou uma cobra bem na frente da casa, cobra pequena mas venenosa e naquela noite Jucundina deu-lhe um pires de leite. Marisca e valente, junto dela Noca não tem medo, não se importa de ficar sozinha. Malvadeza dos outros, irem para a festa, deixarem ela e os irmãos, os três sozinhos, quando existe o bicho que pega meninos, que os leva ninguém sabe para onde. Noca se encolhe ante a recordação, aperta mais a gata contra o peito. Marisca, incomodada com a pressão das mãos da criança, estira-se, solta-se, pula para o chão. Mia longamente para as sombras do crepúsculo e fica logo atenta a voz de Zefa que chega da cozinha nas suas imprecações. O dorso da gata se alteia como se ela visse um inimigo. Mas a pequena e suja mão de Noca a acaricia e ela se agacha para melhor receber o carinho, anda sob a mão da menina e rosna baixinho, docemente. Volta a saltar para o colo de Noca. A noite vem chegando trazida pelas sombras e Noca descobre subitamente no alto dos céus a figura do bicho. Seu corpinho raquítico treme sob o vestido de burgariana. E só em Marisca encontra consolo e coragem, alegria e ternura.
Nunca tivera uma boneca, nem mesmo uma dessas bruxas de pano que vendem na feira. Nunca tivera um brinquedo, nem mesmo um desses de madeira que os amadores fabricam. Nunca ouvira música nem assistira aos teatros de títeres, nada tivera além de Marisca. Resume para ela a boneca que viu na mão da filha de Artur, o automóvel de flandres que tanto encantara a ela e a Tonho ha casa-grande, resume o mundo inteiro, as personagens das histórias que por vezes Jucundina contava, nada mais ela tem além da sua gata.
Vai ficar sozinha essa noite com os irmãos pequenos, e Tonho disse que o bicho vira. Se Agostinho estivesse ali, Noca lhe perguntaria se era verdade. Agostinho tem uma garrucha, podia dar um tiro no bicho. Ele vem numa nuvem, bufando de raiva, ele come menino. A gata salta do colo de Noca atrás de um besouro que apareceu com o crepúsculo. A pata se agita no ar mas o besouro e mais rápido, engana Marisca. E mia zangada, o besouro está pousado na parede, fora do alcance do pulo da gata. Noca vai de mansinho, tapa o besouro com a mão, derruba-o no terreiro, Marisca salta, Noca bate palmas com as mãos, mãos magras e sujas, boca suja também mas que riso mais doce!

Jorge Amado, in Seara Vermelha

10/08/2023

Seara Vermelha | 2

Zefa resmungou as costumeiras palavras ininteligíveis e se dirigiu para os fundos da casa. O crepúsculo caia, demorado e triste, sobre os campos. O vulto do velho Jeronimo, tangendo a criação para o pequeno curral, desenhava-se contra o horizonte e uma sombra longa ondulava sobre o capim rasteiro. A vaca parou seu tardo caminhar para arrancar umas folhas da plantação de mandioca que já começava a crescer. Jeronimo soltou então seu grito de boiadeiro – recordação de um tempo distante quando conduzira grandes rebanhos para as feiras de gado – inútil grito porque os jumentos, as cabras e os porcos, sete cabeças ao todo, iam pacificamente para o seu destino noturno. E, quanto a vaca, era tao velha e mansa que mais parecia uma pessoa da família, de tal maneira se encontrava ligada aquelas existências. Mas Zefa estremeceu com o grito, era como se lhe recordasse uma obrigação indeclinável. Murmurou novas palavras, agitou-se, animaram-se seus olhos parados. A velha Jucundina, sem largar o menino, voltou toda a sua atenção para os movimentos de Zefa. Aquilo durava ha muitos anos, mas a velha não se acostumara ainda de todo, esperava sempre uma surpresa, qualquer coisa como um estranho milagre, um fato assombroso. Nascera naquelas bandas, ali crescera, casara, tivera filhos e netos, conhecia cada palmo de terra, tinha as mãos calosas do plantio e da colheita, vira as secas e os jagunços, o assassinato na casa-grande que provocara tanto rebuliço, mas nada se comparava com aquilo. Estava certa de que um espírito encostara no corpo de Zefa para cumprir ali sua sentença de sofrimento, pagando os malfeitos do tempo de vivo, e essa era uma opinião generalizada pela gente da fazenda, agregados e colonos. Quando chegava a hora das rezas, marcada pelo grito saudoso de Jeronimo tangendo a criação, a velha Jucundina ficava sempre na expectativa, pois poderia acontecer de repente. O que, ela mesma não sabia. Talvez o espírito se fosse, seu tempo de sentença tivesse terminado, e pudesse ele enfim retomar o caminho das regiões celestes onde não havia nem fome, nem doenças, nem lágrimas. E Zefa, que, algum dia, num passado esquecido, fora uma bonita moca, cobiçada pelos trabalhadores, de pernas grossas e cupidos olhos, talvez retornasse a razão e reconhecesse os seus parentes, seu irmão Jeronimo, sua cunhada Jucundina, seus sobrinhos e primos. Como iria acontecer, Jucundina não sabia. Apenas esperava que o fato se desse, e a cada crepúsculo, quando Zefa se agitava para o início das suas orações, a velha ficava a espreita, porque com certeza seria naquela hora solene do fim do dia, quando as sombras começavam a cair criando um clima de mistério, quando as velas se acendiam, os ruídos se modificavam, e a cor do mundo era outra, que o milagre sucederia. Esperava já sem susto e quase sem emoção. Mas esperava. Tanto podia ser hoje, como amanha ou no fim da semana, porém alguma vez seria e, quando acontecesse, a velha Jucundina ver-se-ia livre de um peso que estava de há muito sobre o seu coração.
Era um momento importante no dia trabalhoso da velha Jucundina, porque sempre sucedia que juntavam-se na sua memoria, ao grito do velho Jeronimo, os fatos referentes a Zefa, a expectativa dos acontecimentos milagrosos que poderiam suceder, e a recordação dos três meninos que haviam partido. Eram já rapazes quando se foram, cada um por seu caminho, cada um para uma vida diversa. Menos Nenén, cujo nome era Juvêncio, quase uma criança ainda quando fora assentar praça. Os outros dois já eram homens feitos, mas para Jucundina continuavam sendo os “meninos” e neles pensava todos os dias naquela mesma hora do fim da tarde, talvez porque tivesse sido ao cair do crepúsculo que deram por falta de Nenén (só tempos depois viriam a saber que ele assentara praça na polícia militar) e ate hoje a voz desencantada do velho Jeronimo ressoa aos ouvidos de Jucundina no amargo e único comentário do acontecido:
Num fica ninhum cum nóis, veia... Só nóis e que vai morrer nessa terra, cumo os bichos e os pé de pau...
Apontava Agostinho, criançola ainda:
Um dia vai esse também...
Os anos tinham passado e nenhum dos três rapazes voltara. Essa era outra secreta esperança da velha Jucundina. Vê-los regressar para que ajudassem Jeronimo no trabalho da terra. E, apesar de que haviam partido em datas diversas, cada um por sua vez, cada um por um caminho, cada um para um destino, imaginava – eram poucos e pequenos quadros, formados no correr do tempo, que se sucediam inalteráveis na sua imaginação – que regressariam juntos, juntos atravessariam a cancela e juntos lhe diriam a benção. Onde se encontrariam nessa viagem de regresso, a velha não sabia e já refletira mesmo sobre o assunto algumas, vezes. Mas não conseguira marcar um lugar que aos três servisse e desistira pois lhe dava um cansaço na cabeça, e aumentava a tristeza, ja que assim tinha que pensar sobre o que poderia ser a vida atual de cada um dos meninos. Como marcar o umbuzeiro para o encontro se José não tinha pouso nem caminho certo, podia vir por qualquer estrada, sempre como um fugitivo amedrontado? E Jaó por onde chegaria, se a velha Jucundina não sabia direito a cidade onde ele estava destacado? Ao demais ela não queria pensar no presente dos rapazes, no que lhes estaria sucedendo naquele dia e naquela hora. Bom era vê-los chegando, no rastro de Jeronimo e dos animais, juntos os três, os sacos de viagem cheios de coisas de outras terras, de coisas ate da cidade, e a voz, áspera mas cálida, pedindo a benção. A voz que ela ouvia, mistura das três vozes, era a de Nenen, o menor dos três, o mais querido também. E como tudo podia acontecer – “Deus e grande” – num mesmo dia, quem sabe se, quando os meninos chegassem de regresso, não partisse para sempre o espirito que perturbava Zefa, que enchia sua boca de palavras diferentes e escabrosas, que tornava fixos e amedrontados os seus olhos, que derramava aquela tristeza pelo corpo antes alegre e robusto? Foi aos poucos, devagarinho, que a velha Jucundina juntou numa única data os dois acontecimentos. Antes pensava num ou noutro separadamente. “Pode que hoje o espirito vá embora, tenha cumprido sua pena.” “Pode que hoje cheguem os meninos de volta, tenham cumprido seu destino.” E os dias se passavam e os crepúsculos sucediam-se, repetia-se monótono o grito melancólico de Jeronimo, Zefa rezava suas orações sem nexo e a porteira não se abria ao passo dos fugitivos. E uma e outra esperança foram-se fundindo, se misturando no passar do tempo, e agora tudo ia suceder num só dia, numa única tarde, e então – pensava a velha Jucundina – ela poderia morrer descansada. Porque tudo que desejava nesse mundo, onde se esta para sofrer, teria sucedido, e não lhe restaria mais nada em que pensar, pois de ha muito aprendera que desejar a posse da terra que trabalhavam era um sonho impossível e irrealizável.

Jorge Amado, in Seara Vermelha

18/03/2023

Prólogo | A seara

A festa

1

O vento arrastou as nuvens, a chuva cessou e sob o céu novamente limpo crianças começaram a brincar. As aves de criação saíram dos seus refúgios e voltaram a ciscar no capim molhado. Um cheiro de terra, poderoso, invadia tudo, entrava pelas casas, subia pelo ar. Pingos de água brilhavam sobre as folhas verdes das árvores e dos mandiocais. E uma silenciosa tranquilidade se estendeu sobre a fazenda — as árvores, os animais e os homens. Apenas as vozes álacres das crianças, pelos terreiros, cortavam a calma daquele momento:

Chove, chuva chuverando
Lava a rua do meu bem…

Vestidas de trapos sujos, algumas nuas, barrigudas e magras, as crianças brincavam de roda. Farrapos de nuvem perdiam-se no céu de um azul-claro onde primeiras e leves sombras anunciavam o crepúsculo. Depois da chuva tudo parecia ter uma fisionomia mais alegre. Artur olhou as árvores que se estendiam por detrás da casa-grande, os galhos docemente agitados pela brisa, e sorriu imaginando que as árvores estavam satisfeitas após a chuva tão esperada.
Tive medo esse ano… — resmungou para si mesmo.
Mas a chuva viera bastante em tempo e as colheitas seriam fartas. Artur calculou a alegria que deveria reinar nas casas dos colonos e dos meeiros e foi então que decidiu ir à festa. Esperaria a chegada do rapaz que fora ao arraial, buscar a correspondência e levar umas encomendas, e então daria um pulo na casa do Ataliba, beberia um trago de cachaça em honra da noiva, dançaria uma polca. Andou para a frente da casa-grande onde sua mulher, Felícia, cuidava de uns canteiros de flores.
Vamos na festa de Ataliba…
Tu se decidiu?
Fez que sim com a cabeça, saiu devagar para os lados do armazém. Iria à festa, sim. Os homens estariam satisfeitos, o receio da seca, temor que se renovava a cada ano, estava agora afastado, talvez ainda voltasse a chover naquela mesma noite, apesar de que no céu tão limpo nem mais uma única nuvem restasse. Artur aspirou o cheiro que subia da terra, sorriu novamente. Talvez agora os homens o olhassem com melhores olhos. Quando recebera o convite para a festa na casa de Ataliba disse que ia. Casamento e festa não eram coisas muito comuns pela fazenda e quando se anunciava uma brincadeira em qualquer das casas não se falava noutro assunto nas roças, durante dias, nas conversas do fim da tarde em casa dos trabalhadores, e para Artur sempre havia o problema de que todos queriam algum dinheiro, tinham sempre compras a fazer. Ele recebia os convites, prometia ir. Raramente ia, parecia-lhe que bastava com sua chegada para as festas perderem muito da alegria reinante, os homens não simpatizavam com ele. A esse pensamento Artur suspendeu os ombros num gesto característico. Não era culpa sua. Cumpria com sua obrigação, apertava os homens no trabalho, apertava os meeiros na hora das contas, pagava os preços estipulados, puxava pela fazenda é bem verdade, mas afinal não era para isso que ele era capataz? Qualquer outro que estivesse em seu lugar, como agiria? Gozava da confiança do dr. Aureliano, que se deixava ficar no Rio de Janeiro, vindo à fazenda uma vez na vida, e procurara provar ao patrão ser digno dessa confiança. Nunca a fazenda dera tanto lucro, nem mesmo no tempo do coronel Inácio que morava lá, tomando conta de tudo, decidindo as mínimas coisas. Os meeiros reclamavam, os trabalhadores olhavam-no com olhos cheios de ameaças, mas Artur não se preocupava, costumava dizer que “não tinha medo de caretas”.
No entanto certas coisas doíam-lhe e sabia que na fazenda moravam alguns que, com muito prazer, lhe fariam uma desfeita. Não era segredo para ele que, às escondidas, diziam a seu respeito cobras e lagartos e que muitos homens bebiam em sua tenção. Aquilo não o alegrava tampouco. Gostaria de se dar bem com trabalhadores e colonos, fora trabalhador ele mesmo no tempo do coronel Inácio, se sentiria satisfeito se os homens fossem seus camaradas, viessem, sem ser chamados, tirar um dedo de prosa na varanda da casa-grande, não fechassem a cara quando ele entrasse nas festas. Por isso não ia quase nunca a nenhuma daquelas raras festas, apesar de Felícia gostar de uma dança e ele mesmo, Artur, ser doido por uma conversa, amigo de virar um trago de cachaça.
Chegou ao armazém de grandes portas fechadas, onde estavam os mantimentos para vender a trabalhadores e meeiros. Num quarto aos fundos guardavam os arreios da tropa. Tirou uma chave do bolso, abriu a porta. Os homens não tardariam a chegar do trabalho e como era dia de festa naturalmente haveriam de querer comprar alguma coisa. Pulou o balcão, o livro de assentamento estava em cima da mesa. Tomou maquinalmente dele e começou a virar-lhe as folhas. A conta de Mário Gomes estava grande. Nem com muito tempo de trabalho ele poderia pagar. Tinha que limitar o fornecimento. Mais um que lhe iria amarrar a cara, olhá-lo de banda, cuspir depois dele passar. Que poderia fazer? Virou a folha do livro. Jerônimo com prava pouco, quase só o que vestir, tinha sua mandioca, seu milho, sua batata-doce. Homem de juízo. Também lavrava o melhor pedaço de terra da fazenda. Se Artur fosse o dono daquela terra, ela não estaria em mãos de colono. Mas vinha com Jerônimo desde o tempo do coronel Inácio e o dr. Aureliano, mais preocupado com o Rio que com a fazenda, deixara tudo como encontrara quando da morte do velho. Enfim, isso era com o doutor que era o dono, a Artur bastava a raiva que já lhe dedicavam só por ele cumprir as ordens.
Espiou o céu que escurecia:
Estão largando o trabalho…
Pulou novamente o balcão, atravessou a porta, sentou-se numa pedra que havia próxima ao armazém. Via de longe os meninos, seus filhos, brincando de roda em frente à casa-grande. Ali estavam três, os dois maiores encontravam-se na cidade, no colégio. Seus filhos não seriam ignorantes como os homens que ali viviam, como ele mesmo, Artur, que apenas sabia ler e fazer as quatro operações. Que lhe importava o ódio dos trabalhadores e dos colonos se podia educar seus filhos, mandá-los para o colégio, fazer de um deles doutor, quem sabe?
Mário Gomes vinha andando, o machado na mão. Es tava derrubando, junto com outros, um resto de mata da fazenda. Os meninos cantavam e suas vozes infantis chegavam até Artur, penetravam-lhe no coração.
Mário acocorou-se perto da pedra:
Boas tardes, seu Artur.
Boas tardes, Mário. Afinal choveu…
Deus seja louvado…
Mário Gomes queria comprar alguma coisa mas estava sem jeito, bem se via. As vozes das crianças:

Chove, chuva chuverando.

A festa vai ser boa, Mário?
Festão… — riu.
Tou com vontade de ir…
Vosmecê? Ataliba vai ficar contente… É o casamento da menina dele e, se vosmecê for ir, ele vai engravidar de contente…
Podia não ser verdade mas Artur ouvia as vozes dos filhos cantando, recordava os dois que estavam no colégio interno. Mário Gomes devia muito, mas não era homem para fugir da fazenda e deixar a dívida por pagar:
Tu quer comprar alguma coisa?
Mário olhou espantado:
Era só um feijão e um litro de cachaça…
Artur levantou-se, andou para o armazém. Mário o seguiu ainda desconfiado:
Vai ser uma festa falada…
Começavam a cair as sombras do crepúsculo.

Jorge Amado, in Seara Vermelha

14/07/2022

Jorge Amado

Durante muitos anos Jorge Amado quis e soube ser a voz, o sentido e a alegria do Brasil. Poucas vezes um escritor terá conseguido tornar-se, tanto como ele, o espelho e o retrato de um povo inteiro. Uma parte importante do mundo leitor estrangeiro começou a conhecer o Brasil quando começou a ler Jorge Amado. E para muita gente foi uma surpresa descobrir nos livros de Jorge Amado, com a mais transparente das evidências, a complexa heterogeneidade, não só racial, mas cultural, da sociedade brasileira. A generalizada e estereotipada visão de que o Brasil seria reduzível à soma mecânica das populações brancas, negras, mulatas e índias, perspectiva essa que, em todo o caso, já vinha sendo progressivamente corrigida, ainda que de maneira desigual, pelas dinâmicas do desenvolvimento nos múltiplos sectores e atividades sociais do país, recebeu, com a obra de Jorge Amado, o mais solene e ao mesmo tempo aprazível desmentido. Não ignorávamos a emigração portuguesa histórica nem, em diferente escala e em épocas diferentes, a alemã e a italiana, mas foi Jorge Amado quem veio pôr-nos diante dos olhos o pouco que sabíamos sobre a matéria. O leque étnico que refrescava a terra brasileira era muito mais rico e diversificado do que as percepções europeias, sempre contaminadas pelos hábitos seletivos do colonialismo, pretendiam dar a entender: afinal, havia também que contar com a multidão de turcos, sírios, libaneses e tutti quanti que, a partir do século XIX e durante o século XX, praticamente até aos tempos atuais, tinham deixado os seus países de origem para entregar-se, em corpo e alma, às seduções, mas também aos perigos, do eldorado brasileiro. E também para que Jorge Amado lhes abrisse de par em par as portas dos seus livros.
Tomo como exemplo do que venho dizendo um pequeno e delicioso livro cujo título, A descoberta da América pelos turcos, é capaz de mobilizar de imediato a atenção do mais apático dos leitores. Aí se vai contar, em princípio, a história de dois turcos, que não eram turcos, diz Jorge Amado, mas árabes, Raduan Murad e Jamil Bichara, que decidiram emigrar para a América à conquista de dinheiro e mulheres. Não tardou muito, porém, que a história, que parecia prometer unidade, se subdividisse em outras histórias em que entram dezenas de personagens, homens violentos, putanheiros e beberrões, mulheres tão sedentas de sexo como de felicidade doméstica, tudo isto no quadro distrital de Itabuna (Bahia), onde Jorge Amado (coincidência?) precisamente veio a nascer. Esta picaresca terra brasileira não é menos violenta que a ibérica. Estamos em terra de jagunços, de roças de cacau que eram minas de ouro, de brigas resolvidas a golpes de facão, de coronéis que exercem sem lei um poder que ninguém é capaz de compreender como foi que lhes chegou, de prostíbulos onde as prostitutas são disputadas como as mais puras das esposas. Esta gente não pensa mais que em fornicar, acumular dinheiro, amantes e bebedeiras. São carne para o Juízo Final, para a condenação eterna. E contudo… E, contudo, ao longo desta história turbulenta e de mau conselho, respira-se (perante o desconcerto do leitor) uma espécie de inocência, tão natural como o vento que sopra ou a água que corre, tão espontânea como a erva que nasceu depois da chuvada. Prodígio da arte de narrar, A descoberta da América pelos turcos, não obstante a sua brevidade quase esquemática e a sua aparente singeleza, merece ocupar um lugar ao lado dos grandes murais romanescos, como Jubiabá, a Tenda dos milagres ou Terras do sem fim. Diz-se que pelo dedo se conhece o gigante. Aí está, pois, o dedo do gigante, o dedo de Jorge Amado.

José Saramago, in O Caderno

01/03/2021

Terras do Sem Fim (trecho)

          Uma voz assim tão cheia e sonora espanta todos os outros ruídos da noite. Lá do forte velho que ela vem e se espalha sobre o mar e a cidade. Não é bem o que ela diz que bole com o coração dos homens. É a melo dia doce e melancólica que faz as conversas serem em surdina, baixinho. No entanto, a letra desta velha canção diz que “desgraçada é a mulher que vai com um homem do mar. Sorte boa ela não terá, infeliz destino é o seu. Seus olhos não pararão jamais de chorar, e cedo murcharão de tanto se alongarem para o mar, esperando a chegada de uma vela”. A voz do negro cobre a noite.
O velho Francisco conhece essa música e esse mundão de estrelas que se refle te no mar. Senão, de que valeriam quarenta anos passados em cima de um saveiro. E não é só as estrelas que ele conhece. Conhece também todas as coroas, as curvas, os canais da baía e do rio Paraguaçu, todos os portos daquelas bandas, todas as músicas que por ali são cantadas. Os moradores daquele pedaço de rio e do cais são seus amigos, e há até quem diga que uma vez, na noite, em que salvou toda a tripulação de um barco de pesca, viu o vulto de Iemanjá, que se mostrou a ele como prêmio. Quando se fala nisso (e todo jovem mestre de saveiro pergunta ao velho Francisco se é verdade), ele somente sorri e diz: — Se fala muita coisa neste mundo, menino.. Assim, ninguém sabe se é verdade ou não. Bem que poderia ser. Iemanjá tem caprichos e se havia alguém que merecesse vê-la e amá-la era o velho Francisco, que estava na beira do cais desde ninguém sabe quando. Ainda melhor, porém, que todas as coroas, os viajantes, os canais, ele conhece as histórias daquelas águas, daquelas festas de Janaína, daqueles naufrágios e temporais. Haverá história que o velho Francisco não conheça?
Quando a noite chega, ele deixa a sua casa pequena e vem para a beira do cais. Atravessa a lama que cobre o cimento, entra pela água, e pula para a proa de um saveiro. Então pedem que ele conte histórias, conte casos. Não há quem saiba de casos como ele.
Hoje vive de remendar vela e do que lhe dá Guma, seu sobrinho. Tempo houve, porém, em que teve três saveiros que os ventos da tempestade levaram. Não puderam foi com o velho Francisco. Sempre voltou para o seu porto e o nome dos seus três saveiros estão tatuados no seu braço direito junto com o nome de seu irmão que ficou numa tempestade também. Talvez um dia escreva ali o nome de Guma, se der um dia na cabeça de Iemanjá amar o seu sobrinho. A verdade é que o velho Francisco ri disso tudo. Destino deles é esse: virar no mar. Se ele não ficou também, é que Janaína não o quis, preferiu que ele a visse vivo e que ficasse para conversar com os rapazes, ensinar remédios, contar histórias. E de que vale ter ficado assim, remendando velas, olhando pelo sobrinho, feito uma coisa inútil, sem poder mais viajar porque seus braços já cansaram, seus olhos não distinguem mais na escuridão? Melhor teria sido se houvesse ficado no fundo da água com o Estrela da Manhã, seu saveiro mais rápido, e que virou na noite de São João. Agora ele vê os outros partirem e não vai com eles. Fica olhando para Lívia, igual a uma mulher, tremendo nas tempestades, ajudando a enterrar os que morrem. Faz muito tempo que cruzou pela última vez a baía, a mão no leme, os olhos atravessando a escuridão, sentindo o vento no rosto, correndo com seu saveiro ao som da música distante.
Hoje um negro canta também. Diz que destino ruim é o das mulheres dos marítimos. 0 velho Francisco sorri. Sua mulher ele enterrou, o médico disse que fora do coração. Morreu de repente numa noite em que ele chegava da tempestade. Ela se atirou nos seus braços e quando ele reparou ela não se bulia mais, estava morta. Morreu de alegria de ele voltar, o médico disse que foi do coração. Quem ficou naquela noite foi Frederico, o pai de Guma. Corpo que ninguém encontrou porque ele morrera para salvar Francisco e por isso fora com Iemanjá para outras terras muito lindas. Foi o seu irmão e a sua mulher numa só noite. Então ele criou Guma dentro do seu saveiro, dentro do mar, para que ele não tivesse medo. A mãe de Guma, que ninguém sabia quem era, apareceu um dia e pediu o menino: — O senhor que é seu Francisco?
Sou eu mesmo, dona, pra lhe servir...
O senhor não me conhece...
Não ‘tou lhe reconhecendo, não... — Botou a mão na testa, lembrando velhos conhecidos: — Não conheço não, me adisculpe.
Mas Frederico me conhecia muito.
É bem de ver porque ele andou viajando nesses paquetes da Baiana. De que bandas ele conhece vosmecê?
Lá por Aracaju, seu Francisco. Um dia arribou por lá, o navio 'tava com um rombo do tamanho do mundo no costado. Só chegou lá por milagre...
Já me alembro, foi o Marari... Foi uma viagem braba, Frederico me contou. Foi lá que lhe conheceu?
O barco passou um mês. Ele se enfeitou para meu lado...
Era um cabra mulherengo que nem macaco... Ela sorriu, mostrando os dentes quebrados: — Contou muita história, que me trazia, botava casa pra mim, me dava vestido e de comê. 0 senhor sabe como é...
O velho Francisco fez um gesto. Estavam na beira do cais e no mercado vizinho vendiam laranjas e abacaxis. Sentaram, nuns caixões. A mulher continuou: — Me fez a desgraça só dizendo que nem voltava com o navio. Mas quando o bicho sarou do buraco, ele não ouviu conversa, se trepou no barco e foi só dar adeus...
Não digo que foi bem feito não, dona. Ele era meu sangue, mas...
Ela o interrompeu:
Não ‘tou dizendo que ele era ruim. Era minha sina e eu ia com ele, mesmo que tivesse sabido que ele fazia ingratidão. Eu ‘tava enrabichada por ele direitinho.
Ficou olhando o velho Francisco. Ele pensava porque viria ela tantos anos depois. Talvez buscar dinheiro e agora ele estava ruim, não tinha o que dar, Frederico sempre fora mulherengo...
Disse que m e mandava buscar. Mandou buscar o senhor? — sorria. — Assim fez comigo. Quando a barriga subiu, eu dei de lançar, minha mãe se danou. Meu pai era um homem direito, quando soube veio em cima de mim com um facão. Só queria era saber quem tinha sido para acabar com ele. Mas ficou esse talho aqui em cima do joelho. 0 facão pegou de mau jeito.
Porque ela mostrava assim as coxas? Francisco não andaria com uma mulher de seu irmão, que isso era ruim e podia trazer castigo.
Fiquei foi no meio do mundo. Uma família, que era meu padrinho, me deu emprego. Um dia, ‘tava servindo a mesa, me atacou as dores…
Aí seu Francisco compreendeu:
Guma?
Era Gumercindo, sim. Foi meu padrinho que botou o nome. 0 mesmo nome dele. Arranjei um dinheiro, trouxe ele para Frederico. Ele já ‘tava com outra, ficou com o menino, mas não quis saber mais de mim.
Fez-se o silêncio de novo. Francisco só estava era espiando par a saber o que ela queria. Dinheiro ele não tinha, logo naquele dia. Dormir com a mulher de seu irmão era coisa que ele não fazia.
Aí fiquei por aqui mesmo, com vergonha de voltar. A gente é pobre, mas tem vergonha, não é? Não queria cair na vida na minha terra... Meu pai era homem conceituado, formou até um meu irmão em doutor médico. Depois andei por esse mundo afora. Faz tanto tempo...
Estendeu a mão, ficou olhando os saveiros. De trás, do mercado, vinha um barulho de conversa, de discussões, de gargalhadas.
Faz só três dias que cheguei do Recife. Já ‘tava mesmo pra vim ver o meninu, foi um conhecido que me disse que Frederico morreu, faz dois anos. Agora vim buscar meu filho... Vou com ele...
Francisco não ouvia mais o barulho que vinha do mercado. Ouvia som ente aquela mulher que dizia ser mãe de Guma e o vinha buscar. E le não gostava de brigar com mulher. Discussão com mulher não acaba mais e ele tinha que discutir porque não queria entregar Guma, que já ia tão bem no leme do saveiro e já suspendia um saco de farinha nos braços de menino. Francisco estava acostumado a discutir com homens rudes do cais, mestres de saveiro, fortes a quem podia ofender porque eles sabiam se defender, um nome feio que escapasse não fazia mal. A gora com uma mulher, e com um a mulher como a mãe de Guma, cheirando, vestida de ~ com uma sombrinha no braço e um dente de ouro, ele não sabia brigar. Se uma má palavra lhe escapasse, ela era capaz de começar a chorar, e ele não gostava de ver mulher chorar. Demais, seu irmão não tinha andado direito com ela. Mas marinheiros podem lá viver pensando nas mulheres que deixam nos portos? E não é pior quando se casam e deixam viúvas ou então elas morrem de coração quando os vêem chegar salvos da tempestade? Era bem pior. Guma não casará. Será sempre livre no seu saveiro. Irá com Iemanjá quando bem quiser. Não terá âncoras que o prendam à terra. 0 homem que vive no mar deve ser livre. Mas se aquela mulher levasse Guma, que seria do menino? Seria marceneiro, pedreiro, talvez doutor ou até padre vestido de mulher, quem sabe! E as faces do velho Francisco s e cobririam de vergonha pelo fim de seu sobrinho, e nada lhe restava senão ir ele próprio ao encontro de Janaína numa noite do mar. Não, por nada ele deixaria que aquela mulher levasse Guma.
A mulher já estava estranhando o silêncio. Vozes vinham do mercado:
— ‘tá caro que faz medo...
E uma conversa ao longe:
Aí pipocou dois tiros e eu só vi cabra correr. Mas como homem é homem, fiz das tripas coração e me atirei...
O velho Francisco riu:
Sabe, dona? Vosmecê não leva o menino, não. Que é que vosmecê ia fazer com ele?
Ficou olhando para a mulher, esperando resposta. Mas seu rosto dizia que não havia força que o fizesse entregar Guma. A mulher estendeu a mão naquele gesto vago e respondeu: — Eu mesmo nem sei... Quero levar ele porque é meu filho e não tem pai... Vida de mulher-dama, vosmecê sabe como é... Hoje aqui, amanhã acolá — Se ele ficar, vai ser como o pai, morre um dia afogado ...
E se velejar com vosmecê, dona?
Boto ele num colégio, vai aprender a ler, talvez vire doutor como o tio dele, meu irmão... Não vai morrer afogado...
Sei lá dona, destino é coisa feita lá em cima. Se ele tem de ser de Janaína não há saber que livre ele. Se ele ficar aqui, vira homem de verdade. Se for com a senhora, acaba um mofino que nem esses homens de cabaré...
Isso diz vosmecê...
Donde vai vosmecê arranjar dinheiro para fazer ele estudar? Mulher-dama eu bem conheço: um dia tem, outro não tem... Vosmecê falou que é hoje aqui, amanhã acolá... E filho de mulher-dama é pior que cachorro, vosmecê sabe disso...
Ela baixou a cabeça, porque sabia que era verdade. Levar seu filho era criar para ele a suprema humilhação de todos saberem que sua mãe era da v ida. Onde quer que andasse, nas ruas, nos colégios, em qualquer parte, nada poderia dizer porque havia contra ele o insulto maior. Do mercado vinha a voz do homem que contava o caso: — Eu só vi a faca brilhando que nem para d estrinchar um peixe. Levantei o cotovelo, meti o joelho pra frente. Foi uma coisa feia... (Era bem melhor que ele ficasse ali, aprendesse a levar um saveiro pelos portos, fizesse filhos em mulheres desconhecidas, arrancasse facas das mãos de homens, bebesse nos botequins, tatuasse corações no braço, atravessasse a tempestade, fosse com Janaína quando seu dia chegasse. Ali ninguém perguntaria quem era sua mãe.) — Mas posso ver ele de vez em quando?
Sempre que o coração lhe pedir... — Agora Francisco tinha pena. Não há mãe, por pior que seja, que não ame os filhos. Mesmo a baleia, que é um bicho e não tem pensar, defende os seus filhos dos peixes e até morre por eles.
Hoje mesmo vosmecê pode ver ele. De noite ele vem com o saveiro de Itaparica. Nós vai então..
Ela fez uma cara de medo:
Ele já anda sozinho com o saveiro?
Só de Itaparica pra cá. Pra ir aprendendo. E já ‘tá mesmo que um homem.
O rosto dela agora estava cheio de orgulho. Seu filho, que só tinha 11 anos, já sabia viajar com um saveiro, já cruzava as águas, podia passar por um homem. Perguntou com uma voz de criança que vinha do mais profundo do seu coração: — Ele se parece comigo?
O velho Francisco olhou a mulher. Apesar dos dentes cariados, era bonita. Tinha um dente de ouro para compensar. Vinha dela um perfume extravagante para aquela beira de cais cheirando a peixe. A boca pintada era cor de sangue como se houvesse sido mordida. Seus braços roliços estavam caldos ao longo do corpo. Maltratada pela vida, era ainda nova, nem parecia a mãe de Guma. No entanto, há onze anos que ela estava na vida, conhecendo homens, dormindo com eles, apanhando de muitos. Apesar disso, ainda tentava um. Se ela não tivesse dormido com Frederico...
Se parece, sim. Tem os olhos igualzinho os de vosmecê. E o nariz assim também…
Ela sorria e aquele era mesmo seu momento mais feliz. Um dia, quando sua beleza terminasse de todo, quando os homens a houvessem gasto totalmente, então ela teria uma velhice garantida, viria para seu filho, faria a comida dele, o esperaria de volta das tempestades. Não precisaria se desculpar perante ele. Os filhos tudo sabem perdoar às velhas mães cansadas que aparecem de repente. E a mulher se deixou embalar por essa felicidade e sorria pela boca, pelos olhos, seus gestos eram alegres e até aquele perfume esquisito que lembrava cabarés desapareceu e ficou somente o cheiro de maresia, de peixe salgado.

Jorge Amado, in Mar Morto