Zefa
resmungou as costumeiras palavras ininteligíveis e se dirigiu para
os fundos da casa. O crepúsculo caia, demorado e triste, sobre os
campos. O vulto do velho Jeronimo, tangendo a criação para o
pequeno curral, desenhava-se contra o horizonte e uma sombra longa
ondulava sobre o capim rasteiro. A vaca parou seu tardo caminhar para
arrancar umas folhas da plantação de mandioca que já começava a
crescer. Jeronimo soltou então seu grito de boiadeiro – recordação
de um tempo distante quando conduzira grandes rebanhos para as feiras
de gado – inútil grito porque os jumentos, as cabras e os porcos,
sete cabeças ao todo, iam pacificamente para o seu destino noturno.
E, quanto a vaca, era tao velha e mansa que mais parecia uma pessoa
da família, de tal maneira se encontrava ligada aquelas existências.
Mas Zefa estremeceu com o grito, era como se lhe recordasse uma
obrigação indeclinável. Murmurou novas palavras, agitou-se,
animaram-se seus olhos parados. A velha Jucundina, sem largar o
menino, voltou toda a sua atenção para os movimentos de Zefa.
Aquilo durava ha muitos anos, mas a velha não se acostumara ainda de
todo, esperava sempre uma surpresa, qualquer coisa como um estranho
milagre, um fato assombroso. Nascera naquelas bandas, ali crescera,
casara, tivera filhos e netos, conhecia cada palmo de terra, tinha as
mãos calosas do plantio e da colheita, vira as secas e os jagunços,
o assassinato na casa-grande que provocara tanto rebuliço, mas nada
se comparava com aquilo. Estava certa de que um espírito encostara
no corpo de Zefa para cumprir ali sua sentença de sofrimento,
pagando os malfeitos do tempo de vivo, e essa era uma opinião
generalizada pela gente da fazenda, agregados e colonos. Quando
chegava a hora das rezas, marcada pelo grito saudoso de Jeronimo
tangendo a criação, a velha Jucundina ficava sempre na expectativa,
pois poderia acontecer de repente. O que, ela mesma não sabia.
Talvez o espírito se fosse, seu tempo de sentença tivesse
terminado, e pudesse ele enfim retomar o caminho das regiões
celestes onde não havia nem fome, nem doenças, nem lágrimas. E
Zefa, que, algum dia, num passado esquecido, fora uma bonita moca,
cobiçada pelos trabalhadores, de pernas grossas e cupidos olhos,
talvez retornasse a razão e reconhecesse os seus parentes, seu irmão
Jeronimo, sua cunhada Jucundina, seus sobrinhos e primos. Como iria
acontecer, Jucundina não sabia. Apenas esperava que o fato se desse,
e a cada crepúsculo, quando Zefa se agitava para o início das suas
orações, a velha ficava a espreita, porque com certeza seria
naquela hora solene do fim do dia, quando as sombras começavam a
cair criando um clima de mistério, quando as velas se acendiam, os
ruídos se modificavam, e a cor do mundo era outra, que o milagre
sucederia. Esperava já sem susto e quase sem emoção. Mas esperava.
Tanto podia ser hoje, como amanha ou no fim da semana, porém alguma
vez seria e, quando acontecesse, a velha Jucundina ver-se-ia livre de
um peso que estava de há muito sobre o seu coração.
Era
um momento importante no dia trabalhoso da velha Jucundina, porque
sempre sucedia que juntavam-se na sua memoria, ao grito do velho
Jeronimo, os fatos referentes a Zefa, a expectativa dos
acontecimentos milagrosos que poderiam suceder, e a recordação dos
três meninos que haviam partido. Eram já rapazes quando se foram,
cada um por seu caminho, cada um para uma vida diversa. Menos Nenén,
cujo nome era Juvêncio, quase uma criança ainda quando fora
assentar praça. Os outros dois já eram homens feitos, mas para
Jucundina continuavam sendo os “meninos” e neles pensava todos os
dias naquela mesma hora do fim da tarde, talvez porque tivesse sido
ao cair do crepúsculo que deram por falta de Nenén (só tempos
depois viriam a saber que ele assentara praça na polícia militar) e
ate hoje a voz desencantada do velho Jeronimo ressoa aos ouvidos de
Jucundina no amargo e único comentário do acontecido:
– Num
fica ninhum cum nóis, veia... Só nóis e que vai morrer nessa
terra, cumo os bichos e os pé de pau...
Apontava
Agostinho, criançola ainda:
– Um
dia vai esse também...
Os
anos tinham passado e nenhum dos três rapazes voltara. Essa era
outra secreta esperança da velha Jucundina. Vê-los regressar para
que ajudassem Jeronimo no trabalho da terra. E, apesar de que haviam
partido em datas diversas, cada um por sua vez, cada um por um
caminho, cada um para um destino, imaginava – eram poucos e
pequenos quadros, formados no correr do tempo, que se sucediam
inalteráveis na sua imaginação – que regressariam juntos, juntos
atravessariam a cancela e juntos lhe diriam a benção. Onde se
encontrariam nessa viagem de regresso, a velha não sabia e já
refletira mesmo sobre o assunto algumas, vezes. Mas não conseguira
marcar um lugar que aos três servisse e desistira pois lhe dava um
cansaço na cabeça, e aumentava a tristeza, ja que assim tinha que
pensar sobre o que poderia ser a vida atual de cada um dos meninos.
Como marcar o umbuzeiro para o encontro se José não tinha pouso nem
caminho certo, podia vir por qualquer estrada, sempre como um
fugitivo amedrontado? E Jaó por onde chegaria, se a velha Jucundina
não sabia direito a cidade onde ele estava destacado? Ao demais ela
não queria pensar no presente dos rapazes, no que lhes estaria
sucedendo naquele dia e naquela hora. Bom era vê-los chegando, no
rastro de Jeronimo e dos animais, juntos os três, os sacos de viagem
cheios de coisas de outras terras, de coisas ate da cidade, e a voz,
áspera mas cálida, pedindo a benção. A voz que ela ouvia, mistura
das três vozes, era a de Nenen, o menor dos três, o mais querido
também. E como tudo podia acontecer – “Deus e grande” – num
mesmo dia, quem sabe se, quando os meninos chegassem de regresso, não
partisse para sempre o espirito que perturbava Zefa, que enchia sua
boca de palavras diferentes e escabrosas, que tornava fixos e
amedrontados os seus olhos, que derramava aquela tristeza pelo corpo
antes alegre e robusto? Foi aos poucos, devagarinho, que a velha
Jucundina juntou numa única data os dois acontecimentos. Antes
pensava num ou noutro separadamente. “Pode que hoje o espirito vá
embora, tenha cumprido sua pena.” “Pode que hoje cheguem os
meninos de volta, tenham cumprido seu destino.” E os dias se
passavam e os crepúsculos sucediam-se, repetia-se monótono o grito
melancólico de Jeronimo, Zefa rezava suas orações sem nexo e a
porteira não se abria ao passo dos fugitivos. E uma e outra
esperança foram-se fundindo, se misturando no passar do tempo, e
agora tudo ia suceder num só dia, numa única tarde, e então –
pensava a velha Jucundina – ela poderia morrer descansada. Porque
tudo que desejava nesse mundo, onde se esta para sofrer, teria
sucedido, e não lhe restaria mais nada em que pensar, pois de ha
muito aprendera que desejar a posse da terra que trabalhavam era um
sonho impossível e irrealizável.
Jorge Amado, in Seara Vermelha
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