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23/08/2024

Hierarquia

Diz que um leão enorme ia andando chateado, não muito rei dos animais, porque tinha acabado de brigar com a mulher e esta lhe dissera poucas e boas.
Eis que, subitamente, o leão defronta com um pequeno rato, o ratinho mais menor que ele já tinha visto. Pisou-lhe a cauda e, enquanto o rato forçava inutilmente pra escapar, o leão gritava: “Miserável criatura, estúpida, ínfima, vil, torpe: não conheço na criação nada mais insignificante e nojento. Vou te deixar com vida apenas para que você possa sofrer toda a humilhação do que lhe disse, você, desgraçado, inferior, mesquinho, rato!” E soltou-o.
O rato correu o mais que pode, mas, quando já estava a salvo, gritou pro leão: “Será que V. Excelência poderia escrever isso pra mim? Vou me encontrar com uma lesma que eu conheço e quero repetir isso pra ela com as mesmas palavras!”
MORAL: Ninguém é tão sempre inferior.
SUBMORAL: Nem tão nunca superior, por falar nisso

Millôr Fernandes, em Fábulas Fabulosas

07/07/2024

A Centopeia e o Gafanhoto

Conta-se que, um dia, um gafanhoto encontrou-se com uma centopeia que descansava no meio da folhagem. “Dona Centopeia, eu tenho pela senhora a maior admiração. Deus Todo-Poderoso me deu apenas seis pernas. Para a senhora ele deu cem. Assombra-me a elegância tranquila do seu andar. Todas se movem na ordem certa. Jamais vi uma centopeia tropeçar. Mas, por isso mesmo, tenho uma curiosidade: quando a senhora vai começar a andar, qual é a perna que a senhora mexe primeiro?” “Obrigada pelos elogios, senhor Gafanhoto”, respondeu a Centopeia. “Sua pergunta é muito interessante porque eu mesma, até hoje, nunca pensei no assunto. Sempre andei sem pensar. Perdoe minha ignorância. Jamais fui à escola do andar certo. Não fui conscientizada. Andei sempre um andar ignorante. Mas agora vou prestar atenção...” Conta-se que, desde esse dia, a Centopeia ficou paralítica.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

02/06/2024

Os ratos viram gatos

Diante do perigo do gato, os ratos se unem e sonham sonhos de fraternidade em que todos repartirão socialisticamente o queijo inacessível, guardado pelo gato. Morto o gato, os ratos se esquecem da solidariedade socialista e começam a brigar entre si por um pedaço maior do queijo.

Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

10/04/2024

Os Nascimentos | 1533 – Cajamarca

Atahualpa

Um arco-íris negro atravessou o céu. O Inca Atahulpa não quis acreditar.
Nos dias da festa do sol, um condor caiu sem vida na Praça da Alegria. Atahualpa não quis acreditar.
Enviava à morte os mensageiros que traziam más notícias e com um golpe de machado cortou a cabeça do velho profeta que anunciou-lhe a desgraça. Fez queimar a casa do oráculo e as testemunhas da profecia foram passadas à faca.
Atahualpa mandou amarrar os oitenta filhos de seu irmão Huáscar nos postes do caminho e os abutres se fartaram de carne. As mulheres de Huáscar tingiram de sangue as águas do rio Andamarca. Huáscar, prisioneiro de Atahualpa, comeu merda humana e mijo de carneiro e teve como mulher uma pedra vestida. Depois Huáscar disse, e foi a última coisa que disse: Já o matarão como ele me mata. E Atahualpa não quis acreditar.
Quando seu palácio foi convertido em seu cárcere, não quis acreditar. Atahualpa, prisioneiro de Pizarro, disse: Sou o maior dos príncipes sobre a terra. O resgate encheu de ouro um quarto e de prata dois quartos. Os invasores fundiram até o berço de ouro onde Atahualpa havia escutado a primeira canção.
Sentado no trono de Atahualpa, Pizarro anunciou-lhe que tinha decidido confirmar sua sentença de morte. Atahualpa respondeu:
Não me digas essas bobagens.
Tampouco quer acreditar, agora, enquanto passo a passo sobe as escadarias, arrastando correntes, na luz leitosa da madrugada.
Logo a notícia se difundirá entre os incontáveis filhos da terra que devem obediência e tributo ao filho do sol. Em Quito chorarão a morte da sombra que protege: perplexos, extraviados, morta a memória, sozinhos. Em Cuzco haverá júbilo e bebedeiras..
Atahualpa está atado pelas mãos, pés e pescoço, mas ainda pensa: Que fiz eu para merecer a morte?
Aos pés do patíbulo, se nega a acreditar que foi derrotado pelos homens. Somente os deuses poderiam. Seu pai, o sol, o traiu.
Antes que o torniquete de ferro rompa sua nuca, chora, beija a cruz e aceita que o batizem com outro nome. Dizendo chamar-se Francisco, que é o nome de seu vencedor, bate nas portas do Paraíso dos europeus, onde não há lugar reservado para ele.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

27/05/2023

O Rei dos Animais

Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses. Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: “Hei, você aí, macaco – quem é o rei dos animais?” O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: “Claro que é você, Leão, claro que é você!”.
Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: “Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?” E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: “Currupaco… não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?”.
Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: “Coruja, não sou eu o maioral da mata?” “Sim, és tu”, disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. “Tigre, – disse em voz de estentor – eu sou o rei da floresta. Certo?” O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: “Sim”. E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.
Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: “Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?” O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensangüentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: “Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado”.
Moral: Cada um tira dos acontecimentos a conclusão que bem entende.

Millôr Fernandes, in Fábulas Fabulosas

14/05/2023

O leão e o javali

Um leão e um javali encontraram-se à beira de uma fonte. Os dois queriam ser o primeiro a beber, então, as duas feras começaram a discutir.
A discussão virou uma briga feia, com chifradas e patadas. No calor da disputa, olharam para cima e viram corvos e outras aves de rapina que sobrevoavam o local. Os combatentes redobraram suas forças, achando que estavam atraindo a admiração de sua plateia, já estavam quase se matando, quando um corvo pousou perto deles. Os dois inimigos fizeram uma trégua para perguntar se estavam gostando de apreciar a luta.
Mas é claro – respondeu o corvo. – Eu e meus companheiros não vemos a hora de saber quem será o primeiro a morrer. Afinal, nosso alimento depende disso.
O leão e o javali entreolharam-se. E acharam melhor pôr um fim à briga, compreendendo que mais valia ceder a vez a servir de comida aos carniceiros.

Rosane Pamplona, in Moral da história. Fábulas de Esopo

13/04/2023

A primeira palavra vinda da América

1495 | Salamanca

Elio Antonio de Nebrija, sábio em línguas, publicou aqui seu “Vocabulário espanhol-latino”. O dicionário inclui o primeiro americanismo da língua castelhana:
Canoa: Nau de um tronco.
A nova palavra vem das Antilhas.
Essas barcas sem vela, nascidas de um tronco de ceiba, deram as boas-vindas a Cristóvão Colombo. Em canoas chegaram das ilhas remando, os homens de longos cabelos negros e corpos lavrados de signos vermelhos. Se aproximaram das caravelas, ofereceram água doce e trocaram ouro por pequenos discos de latão, desses que em Castilha valem um maravedi.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

28/02/2023

Os perigos

O que fez o sol e a lua avisou aos taínos que tomassem cuidado com os mortos.
Durante o dia os mortos se escondiam e comiam goiaba, mas pelas noites saíam a passear e desafiavam os vivos. Os mortos ofereciam combates e as mortas, amores. Na luta, desapareciam quando queriam; e no melhor do amor ficava o amante sem nada entre os braços. Antes de aceitar a luta contra um homem ou deitar-se junto a uma mulher, era preciso roçar-lhe o ventre com a mão, porque os mortos não têm umbigo.
O dono do céu também avisou aos taínos que tomassem muito mais cuidado ainda com gente vestida.
O chefe Cáicihu jejuou uma semana e foi digno de sua voz: Breve será o gozo da vida, anunciou o invisível, o que tem mãe mas não tem princípio: Os homens vestidos chegarão, dominarão e matarão.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

20/02/2023

A terra prometida

Maldormidos, nus, machucados, caminharam noite e dia durante mais de dois séculos. Iam buscando o lugar onde a terra se estende entre juncos e taquaras.
Várias vezes se perderam, se dispersaram e tornaram a juntar-se. Foram virados pelos ventos e se arrastaram amarrando-se uns em outros, golpeando-se, empurrando-se; caíram de fome e se levantaram e novamente caíram e se levantaram. Na região dos vulcões, onde não cresce erva, comeram carne de répteis.
Traziam a bandeira e a capa do deus que tinha falado aos sacerdotes, durante o sono, e tinha prometido um reino de ouro e plumas de quetzal: Sujeitareis de mar a mar todos os povos e cidades, havia anunciado o deus, e não será por feitiço, e sim por ânimo do coração e valentia dos braços.
Quando se aproximaram da lagoa luminosa, debaixo do sol do meio-dia, os astecas choraram pela primeira vez. Ali estava a pequena ilha de barro: sobre o nopal, mais alto que os juncos e as palhas bravas, estendia a águia suas asas.
Ao vê-los chegar, a águia humilhou a cabeça. Estes párias, apinhados na margem da lagoa, imundos, trêmulos, eram os eleitos, os que em tempos remotos tinham nascido da boca dos deuses.
Huitzilopochtli deu-lhes as boas-vindas:
Este é o lugar de nosso descanso e nossa grandeza – ressoou a voz. – mando que se chame Tenochtitlán a cidade que será rainha e senhora de todas as demais. México é aqui!

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

13/02/2023

Os peregrinos

Os maias-quichés vieram do oriente.
Quando recém-chegaram às novas terras, com seus deuses carregados nas costas, tiveram medo de que não houvesse amanhecer. Eles tinham deixado a alegria lá em Tulán e tinham ficado sem fôlego ao fim da longa e penosa travessia. Esperaram na beira do bosque de Izmachí, quietos, todos reunidos, sem que ninguém se sentasse ou deitasse para descansar. Mas passava o tempo e não acabava a negrura.
A luzinha anunciadora apareceu, finalmente, no céu.
Os quichés se abraçaram e dançaram; e depois, diz o livro sagrado, o sol ergueu-se como um homem.
Desde aquela vez, os quichés acodem, a cada fim de noite, a receber a alvorada e ver o nascimento do sol. Quando o sol está a ponto de aparecer, dizem:
De lá viemos.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

09/02/2023

A cidade sagrada

Wiracocha, que tinha afugentado as sombras, ordenou ao sol que enviasse uma filha e um filho à terra, para iluminar o caminho aos cegos.
Os filhos do sol chegaram às margens do lago Titicaca e começaram a viagem pelas quebradas da cordilheira. Traziam um cajado. No lugar onde afundasse o primeiro golpe do cajado, fundariam um novo reino. Do tronco, atuariam como seu pai, que dá a luz, a claridade e o calor, derrama a chuva e o orvalho, empurra as colheitas, multiplica as manadas e não deixa passar nenhum dia sem visitar o mundo.
Por todas as partes tentaram enterrar o cajado de ouro. A terra recusava, e eles continuavam buscando.
Escalaram picos e atravessaram correntezas e planaltos. Tudo que seus pés tocavam, ia se transformando: faziam fecundas as terras áridas, secavam os pântanos e devolviam os rios a seus leitos. Na alvorada, eram escoltados pelos gansos, e pelos condores ao entardecer.
Por fim, junto ao monte Wanakauri, os filhos do sol enterraram o cajado. Quando a terra o tragou, um arco-íris ergueu-se no céu.
Então o primeiro dos incas disse à sua irmã e mulher:
Convoquemos as pessoas.
Entre a cordilheira e o altiplano estava o vale coberto de arbustos. Ninguém tinha casa. As pessoas viviam em buracos e ao abrigo de rochedos, comendo raízes, e não sabiam tecer o algodão nem a lã para defender-se do frio.
Todos os seguiram. Todos acreditaram neles. Pelos fulgores das palavras e dos olhos, todos souberam que os filhos do sol não estavam mentindo, e os acompanharam até o lugar onde os esperava, sem ter ainda nascido, a grande cidade de Cuzco.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

18/01/2023

A festa

Andava um esquimó, arco na mão, perseguindo renas, quando uma águia surpreendeu-o pelas costas.
Eu matei seus dois irmãos – disse a águia. – Se você quiser salvar-se, deve oferecer uma festa, lá em sua aldeia, para que todos cantem e dancem.
Uma festa? O que significa cantar? E dançar, o que é?
Venha comigo.
A águia mostrou-lhe uma festa. Tinha muita coisa boa para comer e beber. O tambor ressoava forte como o coração da velha mãe da águia, que batendo guiava seus filhos, de sua casa, através dos vastos gelos e montanhas. Os lobos, as raposas e os outros convidados dançaram e cantaram até que o sol raiou.
O caçador regressou à sua aldeia.
Muito tempo depois, soube que a velha mãe da águia e todos os velhos do mundo das águias estavam fortes e belos e velozes. Os seres humanos, que finalmente tinham aprendido a cantar e a dançar, haviam mandado, de longe, de suas festas, alegrias que davam calor ao sangue de todos os velhos do mundo das águias.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

12/01/2023

Anotações breves sobre um conto curto

Entre os contos de Kafka consta pelo menos um que é pouco conhecido. Referimo-nos a “Pequena fábula”

Ah”, disse o rato, “o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” — “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.

Trata-se de uma fábula porque nesse relato intervêm animais falantes. Mas não existe aqui — como é o caso da tradição das fábulas — uma moral explícita da história no final. A ausência dessa moral da história levou muitos intérpretes a não aceitarem que o caso é de fábula, embora o título seja esse, e sim de uma parábola, que apresenta a história como se ela estivesse ao lado de outra, com a qual estabelece relações de analogia.
Basicamente o texto é um monólogo do rato. O monólogo — sempre expressão do isolamento — começa com uma interjeição (Ah!). Essa interjeição, no entanto, é logo absorvida no relato de algo experimentado antes (o mundo era vasto, mais amplo que agora). A repetição da primeira pessoa (eu) e as expressões medo e feliz, que exprimem afetos e se contradizem mutuamente, provocam o leitor a algum tipo de participação. As experiências do rato são apresentadas como sendo ativas só uma vez: eu via. As demais são vividas passivamente: o mundo torna-se mais estreito, as paredes convergem uma para a outra, lá no canto fica a ratoeira. Tudo se passa como se o rato se visse num processo que corre com autonomia, naturalmente, sem intervenção do personagem narrador. O resto deve, assim, submeter-se à noção de que a sua situação é sem saída. O rato sempre foi movido — impulsionado — pelo medo; é isso que o faz correr para a frente, para o que é amplo e vasto e perder-se no que é necessariamente estreito.
O fecho lacônico da peça tem uma precisão lógica que não é necessariamente cínica, e aparece sob a forma de um conselho desinteressado. O verbo devorou (frass, do verbo “comer” destinado aos animais) assinala um acontecimento esperado num lugar inesperado, e assume sua força no momento em que alcança uma nova dimensão que parecia faltar ao texto.
O que Kafka diz nessa micronarrativa? Diz, entre outras coisas, que a última saída da razão leva à ruína. Ou seja: que todos os esforços para superar o medo e a derrocada significam apenas gradações da falta de liberdade objetiva do mundo. Para o rato não existe escolha, ou melhor: essa escolha só pode se dar entre as alternativas de submeter-se à violência da ratoeira ou à violência do gato.
Nas Conversações com Kafka, de Gustav Janouch, o poeta de Praga afirma, a certa altura, o seguinte: “Existe muita esperança, mas não para nós”.
Era esse o teor, a base, da sua dialética negativa — e não há como discordar da coerência do humor negro contido nessa fábula.

Modesto Carone, in Lição de Kafka

20/12/2022

A guerra

Ao amanhecer, o chamado de uma corneta anunciou, na montanha, que era hora de arcos e zarabatanas.
Ao cair da noite, da aldeia não sobrava nada além de fumaça.
Um homem pôde deitar-se, imóvel, entre os mortos. Untou seu corpo com sangue e esperou. Foi o único sobrevivente da aldeia palawiyang.
Quando os inimigos se retiraram, esse homem se levantou. Contemplou seu mundo arrasado. Caminhou entre a gente que tinha partilhado com ele a fome e a comida. Buscou em vão alguma pessoa ou coisa que não tivesse sido aniquilada. Esse espantoso silêncio o aturdia. O cheiro de incêndio e sangue o enjoavam.
Sentiu asco, por estar vivo, e tornou a deitar-se entre os seus.
Com as primeiras luzes, chegaram os abutres. Nesse homem havia apenas névoa e vontade de dormir e deixar-se devorar.
Mas a filha do condor abriu passo entre os abutres que voavam em círculos. Bateu decidida as asas e lançou-se em picada.
Ele agarrou-se em suas patas e a filha do condor levou-o longe.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

07/12/2022

O poder

Nas terras onde nasce o rio Juruá, o Mesquinho era o dono do milho. Entregava assados os grãos, para que ninguém pudesse plantá-los.
Foi a lagartixa quem conseguiu roubar um grão cru. O Mesquinho agarrou-a e rasgou-lhe a boca e os dedos das mãos e dos pés; mas ela tinha sabido esconder o grãozinho atrás do último dente. Depois, a lagartixa cuspiu o grão cru na terra de todos. Os rasgões deixaram a lagartixa com essa boca enorme e esses dedos compridíssimos.
O Mesquinho era também dono do fogo. O papagaio chegou perto dele e se pôs a chorar aos gritos. O Mesquinho jogava no papagaio tudo o que tinha à mão e o papagaio esquivava os projéteis, até que viu que vinha um tição aceso. Então, agarrou-o em seu bico, que era enorme como o bico do tucano, e fugiu pelos ares. Voou perseguido por um manto de chispas. A brasa, avivada pelo vento, ia queimando seu bico; mas já havia chegado ao bosque quando o Mesquinho bateu seu tambor e desencadeou um dilúvio.
O papagaio conseguiu pôr o tição candente no buraco oco de uma árvore, deixou-o aos cuidados dos outros pássaros e saiu para molhar-se na chuva violenta. A água aliviou seus ardores. Em seu bico, que ficou curto e curvo, vê-se a marca branca da queimadura
Os pássaros protegeram com seus corpos o fogo roubado.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

22/11/2022

A cozinha

Uma mulher do povo tillamook encontrou, no meio do bosque, uma cabana da qual saía fumaça. Aproximou-se, curiosa, e entrou.
No centro, entre pedras, ardia o fogo.
No teto estavam pendurados muitos salmões. Um deles caiu sobre sua cabeça. A mulher apanhou-o e colocou-o em seu lugar. Novamente o peixe se desprendeu e bateu na sua cabeça, e ela tornou a pendurá-lo e o salmão, a cair.
A mulher atirou ao fogo as raízes que tinha apanhado para comer. O fogo queimou-as num instante. Furiosa, ela bateu na fogueira com o atiçador, uma e outra vez, com tanta violência que o fogo estava apagando-se quando chegou o dono da casa e deteve seu braço.
O homem misterioso avivou as chamas, sentou-se junto da mulher e explicou:
Você não entendeu.
Ao bater nas chamas e dispersar as brasas, ela esteve a ponto de deixar o fogo cego, e esse era um castigo que ele não merecia. O fogo tinha comido as raízes porque pensou que a mulher estava oferecendo-as. E antes, tinha sido o fogo quem desprendera o salmão uma e outra vez sobre a cabeça da mulher, mas não para machucá-la: essa tinha sido sua maneira de dizer-lhe que podia cozinhar o salmão.
Cozinhá-lo? O que é isso?
Então o dono da casa ensinou a mulher a conversar com o fogo, a dourar o peixe sobre as brasas e a comer com alegria.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

04/08/2022

A batata

Um cacique da ilha de Chiloé, lugar povoado de gaivotas, queria fazer o amor como os deuses.
Quando os casais de deuses se abraçavam, tremia a terra e se desatavam os maremotos. Isso se sabia, mas ninguém os tinha visto.
Dispostos a surpreendê-los, o cacique nadou até a ilha proibida.
Conseguiu ver apenas um lagarto gigante, com a boca bem aberta e cheia de espuma e uma língua desmedida que jorrava fogo pela ponta.
Os deuses afundaram o indiscreto debaixo da terra e o condenaram a ser comido pelos demais. Como castigo por sua curiosidade, cobriram seu corpo de olhos cegos.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

04/07/2022

A mandioca

Nenhum homem a tinha tocado, mas um menino cresceu no ventre da filha do chefe.
O chamaram Mani. Poucos dias depois de nascer, já corria e conversava. Dos mais remotos rincões da selva, veio gente para conhecer o prodigioso Mani.
Não sofreu nenhuma doença, mas ao cumprir um ano disse: “Vou morrer”; e morreu.
Passou um tempinho e uma planta jamais vista brotou na sepultura de mani, que a mãe regava cada manhã. A planta cresceu, floresceu, deu frutos. Os pássaros que a picavam andavam depois aos trambolhos pelo ar, batendo asas em espirais loucas e cantando como nunca.
Um dia a terra se abriu onde Mani jazia.
O chefe afundou a mão e arrancou uma raiz grande e carnuda. Ralou-a com uma pedra, fez uma pasta, espremeu-a e no amor do fogo cozinhou pão para todos.
Chamaram essa raiz de Mani Oca, “casa de Mani”, e mandioca é seu nome na bacia amazônica e outros lugares.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

23/06/2022

A erva-mate

A lua morria de vontade de pisar a terra. Queria provar as frutas e banhar-se em algum rio.
Graças às nuvens, pôde descer. Do pôr do sol ao amanhecer, as nuvens cobriram o céu para que ninguém percebesse que faltava a lua.
Foi uma maravilha a noite na terra. A lua passeou pela selva do alto Paraná, conheceu misteriosos aromas e sabores e nadou longamente no rio. Um velho lavrador salvou-a duas vezes. Quando o jaguar ia cravar seus dentes no pescoço da lua, o velho degolou a fera com seu facão; e quando a lua teve fome, levou-a para a sua casa. “Te oferecemos nossa pobreza”, disse a mulher do lavrador, e deu-lhe umas broas de milho.
Na noite seguinte, lá do céu, a lua apareceu na casa de seus amigos. O velho lavrador tinha construído sua choça em uma clareira na selva, muito longe das aldeias. Ali vivia, como em um exílio, com sua mulher e sua filha.
A lua descobriu que naquela casa não havia nada para comer. Para ela tinham sido as últimas broas de milho. Então iluminou o lugar com a melhor de suas luzes e pediu às nuvens que deixassem cair, ao redor da choça, uma garoa muito especial.
Ao amanhecer, nessa terra tinham brotado umas árvores desconhecidas. Entre o verde-escuro das folhas, apareciam flores brancas.
Jamais morreu a filha do velho lavrador. Ela é dona da erva-mate e anda pelo mundo oferecendo-a aos demais. A erva-mate desperta os adormecidos, corrige os preguiçosos e faz irmãs as gentes que não se conhecem.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

26/05/2022

A perigosa Yara

Ilustração: Suryara

Ao cair de todas as tardes, a Yara, que mora no fundo das águas, surge de dentro delas, magnífica. Com flores aquáticas enfeita então os cabelos negros e brinca com os peixinhos de escapole-escapole. Mas no mês de maio ela aparece ao pôr do sol para arranjar noivo.
As mães se preocupam com seus filhos varões, sabedoras de que a Yara quer noivos. Mas para os filhos, Yara é a tentação da aventura, pois há rapazes que gostam de perigo.
À medida que a Yara canta, mais inquietos e atraídos ficam os moços, que, no entanto, não ousam se arriscar.
Sim, mas houve um dia um Tapuia sonhador e arrojado. Pensativamente estava pescando e esqueceu-se de que o dia estava acabando e que as águas já se amansavam. Foi quando pensou: acho que estou tendo uma ilusão. Porque a morena Yara, de olhos pretos e faiscantes, erguera-se das águas. O Tapuia teve o medo que todo o mundo tem das sereias arriscadas – largou a canoa e correu a abrigar-se na taba.
Mas de que adiantava fugir, se o feitiço da Flor das Águas já o enovelara todo? Lembrava-se do fascínio de seu cantarolar e sofria de saudade.
A mãe do Tapuia adivinhara o que acontecia com o filho: examinava-o e via nos seus olhos a marca da fingida sereia.
Enquanto isso, Yara, confiante no seu encanto, esperava que o índio tivesse coragem de casar-se com ela.
Pois – ainda nesse mês de florido e perfumado maio – o índio fugiu da taba e de seu povo, entrou de canoa no rio. E ficou esperando de coração trêmulo. Então – então a Yara veio vindo devagar, devagar, abriu os lábios úmidos e cantou suave a sua vitória, pois já sabia que arrastaria o Tapuia para o fundo do rio.
Os dois mergulharam e adivinha-se que houve festa no profundo das águas.
As águas estavam de superfície tranquila como se nada tivesse acontecido. De tardinha, aparecia a morena das águas a se enfeitar com rosas e jasmins. Porque um só noivo, ao que parece, não lhe bastava.
Esta história não admite brincadeiras. Que se cuidem certos homens.

Clarice Lispector, in Doze lendas brasileiras